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Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

Em boa hora

Este post é dedicado a minhas primas e a todas as outras mulheres que estão pertinho de ganhar neném.

mulher grávida com céu estrelado

Imagem: Another Sunrise

É um costume antigo desejar “uma boa hora” para a grávida que está prestes a dar à luz. É uma expressão curiosa, porque não se relaciona nem ao ato, nem à pessoa, mas ao tempo. Em especial, ao momento, ao presente. Ao agora. Desejamos que tudo corra bem nesse instante.

As mamães de primeira viagem me perguntam muitas coisas sobre essa “hora”: é normal ter medo? É normal chorar? É normal sentir dor? Sentir tristeza? Insegurança? É normal não sentir nada?

Respondo com outras perguntas: o que significa “normal”? Aquilo que segue “a norma”? O mais comum? Ou “o que é passível de acontecer”?

Bom, é possível ter medo, ou ser invadida por uma coragem inexplicável. É possível chorar, sorrir ou ficar em silêncio. É possível sentir dor, tristeza, insegurança. É possível entrar em êxtase, amar de paixão. Pode ser uma experiência transformadora, iniciática ou mesmo revolucionária. Ou ser fluida, natural. E até as duas coisas simultaneamente.

É possível não sentir nada. É possível que nada do que a gente imaginou ou planejou aconteça. É possível ficar frustrada. Ou surpresa.

Relógio com palavra AGORA no lugar dos númerosPara mim, a energia focada no presente é a chave. Quase um treinamento para a chegada da criança. O tempo inteiro a criança chama a nossa consciência para o agora. Por isso, é tão desafiante para nós, adultos, que nos acostumamos a remoer o passado e a nos preocupar com o futuro.

O que quer que ocorra, do modo que for, viva o agora. Entregue-se. Não existe norma, não existe o que é normal, porque é uma experiência ímpar.

Não há conhecimento, curso, dica, conselho, vivência anterior que prepare você para esse momento. É um mistério absoluto até para uma médica obstetra que está tendo o primeiro filho. Aliás, até quem já passou por isso mais de uma vez (no meu caso, três!), é incomparável.

E aí está a coisa mais louca. Cada parto é um parto, é um ato único, como cada um de nós é único. Ao mesmo tempo, o parto nos une como humanidade. Olhe em volta. Olhe para você. As pessoas podem ser diferentes em tudo, exceto numa coisa: necessariamente elas passaram pela experiência do parto, na hora do nascimento. Desde que o mundo é mundo.

Viva a perplexidade de olhar para alguém que simplesmente não existia antes de você engravidar. Que seja uma pessoa que possa nos ajudar a tornar este mesmo mundo o lugar que queremos.

Em boa hora!

grávida com planeta Terra na barriga

Imagem: Wild+Wee

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Pequenas crônicas de carnaval

Quando eu era pequena, detestava carnaval. Muito. Di-cum-força, mesmo. Na época, era a única coisa que passava na televisão. Não tinha desenho, nem novela, nem sessão da tarde, nada. Era desfile de escola de samba o dia inteiro.

Eu me lembro de um tio que trabalhou na rádio de Jequié-BA. Ele me contou que, quando era Dia de Finados, a rádio era obrigada a tocar a Marcha Fúnebre de Chopin. Só, somente só, por todo o dia. Pois bem. No carnaval, era a mesma coisa. Era escola de samba o dia inteiro. Bom, pelo menos não era Marcha Fúnebre.

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Fui à minha primeira matinê com 9 anos. Na AABB de Brasília. Eu, meus pais e minha irmã de 4 anos. Nós precisávamos de uma fantasia, então minha mãe levou a gente nas Lojas Brasileiras do Conjunto Nacional. Se é para escancarar a idade, então vamos fazer bem-feito: saudosa Lobrás do CNB.

Compramos duas camisetas brancas da Hering, duas saias de havaiana também brancas, lantejoulas vermelhas e amarelas, e mais duas máscaras, vermelha e amarela (nossas cores favoritas). Fizemos franja na barra das camisas, colamos as lantejoulas. Produção caseira e artesanal. Ficaram uns tops engraçadinhos.

No grande dia, estávamos felizes com nossas fantasias. Mas foi só chegar à AABB, para ter início o vexame. Juntou um grupo de meninos atrás da gente, gritando: “olha a calcinha delas! Olha a calcinha delas!”

A gente era muito inocente, bem que podia ter posto uma calcinha de biquíni. Mas não. E, como a saia de havaiana era branca, óbvio que ficou transparente. Minha irmã não tava nem aí. Mas eu fiquei passada de vergonha, corri para sentar em nossa mesa e lá fiquei quase a festa inteira. Minha mãe, sempre a registradora oficial de momentos, tirou a foto. Coisa linda, um bico do tamanho do mundo.

Abre parênteses. Só não foi mais tétrico do que o dia em que eu fui para o ballet com uma bermuda branca. E a calcinha do dia da semana. Juntou um grupo similar de meninos (ora bolas, vão jogar bola, soltar pipa, em vez de seguir as garotas de roupas transparentes, pindaíba!) para ler. “Olha, tem uma coisa escrita. Ter-ça fei-ra. Terça-feira!!! Aaaaah, que fofo, uma para cada dia da semana!!!!” Fecha parênteses.

Voltando ao bailinho da AABB. Só havia uma coisa que poderia me tirar daquela mesa. E essa coisa aconteceu: tocar “O Balancê” com Gal Gosta. É, porque o Balancê era tudo de bom. Com calcinha aparecendo ou não, eu TINHA que dançar o Balancê, era uma questão de honra.

Fui para o meio do povo. Quando me dei conta, fui sugada por um trenzinho no salão. No início, me deu um pouco de pânico, tipo ser tragada por um furacão. Depois, achei aquilo o máximo e me senti a “grande”.

Não durou muito tempo. Um segurança tosco me puxou pelo braço, dizendo que aquilo não era pra criança.

Voltei à mesa, jurando que nunca mais iria participar de nada que chegasse perto de carnaval. No meio do Balancê. Muita injustiça. Minha mãe tirou outra foto.

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Minhas juras não duraram muito tempo. Minha avó resolveu levar a mim, meus três irmãos e minha prima para ver os Filhos de Gandhy em Salvador. Cinco crianças. Em pleno Campo Grande. Na pipoca. Os tempos eram outros. Mesmo.

Bloco Filhos de Gandhy em Salvador

Afoxé Filhos de Gandhy
Imagem: Irdeb

Aí eu vi um trio elétrico chamado “Traz a massa”. As pessoas saíam atrás dos trios com mortalhas. Não tinha essa conversa de abadá. Fiquei hipnotizada.

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No ano seguinte, vi o Chiclete com Banana pela primeira vez, na Avenida Sete. O hit era “Sementes”. O Chiclete era uma banda com repertório parecido com o da Cor do Som. Cada música linda. Apaixonei.

Cheguei em Brasília achando muito estranho que as pessoas ainda usassem fantasia. E que todos os anos tocassem as mesmas marchinhas, índio quer apito, alalaô, mamãe eu quero. Em Salvador, cada ano tinha uma safra nova de músicas. Mas nunca tocavam nas rádios das outras cidades, só na Bahia. As pessoas nunca tinham ouvido falar de nada daquilo. Chiclete? Cheiro de Amor? Dodô e Osmar? Quem?????

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Com 16 anos, depois de muitos pré-carnavais em janeiro e do carnaval propriamente dito em fevereiro, assisti (com meus irmãos) ao encontro de trios no Farol da Barra, na Terça Gorda. Muito antes de se cogitar o circuito Barra-Ondina. (Se é para entregar a idade, vamos fazer bem-feito). Era o Chiclete, Netinho com o trio Beijo, Ricardo Chaves com a banda Eva. E outros…

Muito difícil vivenciar outra coisa que se assemelhe àquela noite. Foi perfeito. Inesquecível. Qualquer outro carnaval pareceu sem-graça depois.

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Quando estava namorando meu marido, ainda tentei levá-lo a uma Lavagem do Bonfim. Ele achou muvucado demais. Ele nunca foi muito de carnaval, então acabei indo no embalo (ou melhor, não indo no embalo).

Mas achei que seria bacana que meus filhos conhecessem o carnaval. Não tenho coragem de levá-los para ver os Filhos de Gandhy, muito menos na pipoca. Então começamos por algo mais leve.

Ora, eu tinha que sublimar meus traumas de infância. Nada melhor que… a matinê da AABB!!!

Fantasiados de Super-Homem e Gatinha Bailarina (ou fosse lá o que fosse, comprei de última hora no armarinho), meus pimpolhos enfim teriam sua primeira experiência. Nada de adultos, nada de trenzinho. Muito índio quer apito e alalaô.

O problema é que também tinha muito spray de espuma. Eles (com 4 e 2 anos) ODIARAM aquilo. Ficaram com os olhos ardendo. Eu até segurava as mãozinhas deles, tentava fazer uma rodinha, alalaooooô, mas eles não se animaram nem um pouco. Os bicos estavam iguais aos meus.

Pois, na saída, o mais velho tomou um super-estabaco no chão por causa da bendita espuma. Fim de festa na floresta. E nem tocou o Balancê. Tragédia total.

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Claaaaro que eu me acomodei e nem me esforcei para dar a eles uma nova experiência. A escola se encarregou da tarefa, e eles curtiram de montão os bailinhos. Com os coleguinhas, olha que massa.

Este ano ficamos em Brasília. Vimos um pouquinho de Netflix, fomos patinar no Parque da Cidade, vimos a SENSACIONAL exposição da Yayoi Kusama no CCBB, e até fiz um “Shu” com bolinhas no teto (meu signo chinês). Amanhã é provável irmos ao cinema.

Exposição interativa Yayoi  Kusama

Exposição interativa Yayoi Kusama

Quem sabe um dia meus filhos poderão curtir um trio elétrico ao vivo e em cores. Quem sabe…

Sementes

(Chiclete com Banana)

Sementes de cores vivas que acendem novas recordações

E o vento solta faíscas bordando belas constelações

Que rondam o céu e o coração

Embalançando-se nas ondas de um baião

Licor de mel, doce canção

Animando o carrossel, no luar do meu sertão

Deixa que fogo semeie na escuridão

O amor

Somente se fores vivo verás as cores desses balões

que fingem-se de estrelas bailando livres com seus clarões

e se descer estende a mão

quem sabe o fogo te ilumina a escuridão

não vai doer, não diga não,

o fogo é pra derreter o gelo do coração

Deixa que o fogo semeie na escuridão

O amor.”

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Veja também:

Do travesseiro ao copinho de boneca: uma breve história da menstruação

Minha vida em 40 músicas

Quando eu era criança, achava que…

Cheiro de infância

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2013

Escrever a Retrospectiva já virou um ritual do Mãe Perfeita. É válido, porque integra a lista – agora com quatro posts – que conta toda a história do blog, mostrando a tônica de cada ano. O modelo é o mesmo, um texto que amarra todos os outros, com um link em cada palavra em maiúsculas:

Em 2013, pude me dedicar a várias análises e consequentes reflexões. Algumas bem fortes, que demandaram trabalho e suscitaram diferentes reações. Uma delas foi o questionamento acerca do RADICALISMO na relação entre as mães, que por vezes gera GUERRA entre elas, e não a PAZ tão necessária para o compartilhamento de experiências. Esse conflito também se observa entre os que querem ou não TER FILHOS.

Cada ato, cada gesto, cada movimento nosso é político, ainda que nós não percebamos. Em nome dessa consciência, participei da blogagem #protestomaterno, querendo MUITO MAIS. Um Brasil com cidades onde as crianças possam IR E VIR. Um país com respeito às pessoas, em que o HUMOR seja edificante, em que a VIOLÊNCIA não se justifique nem nos livros de ficção.

Esse despertar passa pela ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL – quem dera se a publicidade estivesse a serviço dela… E também a produção de BRINQUEDOS. Tudo para que nossas crianças possam se sentir confiantes acerca de suas individualidades, sem BULLYING, mesmo ostentando BIGODITOS em seus semblantes.

Porque o mundo é múltiplo, composto de muitas VERDADES, com seus lados ao mesmo tempo perversos e doces. De tudo podemos tirar ensinamentos. Mesmo uma PRINCESA a serviço do consumismo pode ser reciclada e inspirar atitudes nobres.

Os desafios se apresentam no cotidiano, no dever de casa, na SEMANA DE PROVAS, nas FÉRIAS. Desejamos o CURSO MAIS INTERESSANTE DO MUNDO. E aí vislumbramos novas formas de APRENDIZADO.

Quando a rotina parece nos engolir, é que devemos exercitar a PACIÊNCIA, parar para OUVIR NOSSOS FILHOS, inclusive as coisas MAIS ENGRAÇADAS, deixar florescer nosso lado MÃE JARDIM. Tudo é intenso, mas também fugaz… Hoje podemos estar às voltas com a AMAMENTAÇÃO, o DESMAME, o DESFRALDE e os DENTES DE LEITE, mas logo nossos filhos crescem…

Tentamos segurar suas infâncias nos brinquedos com os quais eles JÁ NÃO BRINCAM MAIS… E nossas próprias infâncias na partida dos nossos PAIS… E aí entendemos que O AMANHÃ NÃO EXISTE. Os desafios são inerentes a essa grande aventura que é conviver com nossos filhos – uma chance de experimentarmos a FELICIDADE REAL.

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Veja também:

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2012

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2011

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2010

Quem é que abranda a saudade dessa neta?

“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

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Veja também:

Para Vovó

Noite profética

El Bigodito

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade

Mamífera!

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

Este post faz a análise do texto “Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” de Lia Miranda e dos comentários, publicados no Portal Minha Mãe que Disse!

Até o dia 14/02/2013, foram publicados 110 comentários. A autora do post não comentou.

Muitas pessoas manifestaram opinião em relação a outros comentários, e não necessariamente ao post. Assim, não há como estabelecer a divisão numérica e precisa de quem concordou e quem discordou do texto em si.

Optou-se, assim, por organizar a análise por tópico, iniciando com o argumento de Lia e prosseguindo com os comentários.

1.       Julgamentos

Argumento de Lia:

“A teoria de que cada um faz o que acha melhor para o próprio filho traz o discurso ingênuo de que não podemos julgar os outros, e que qualquer maneira de maternar é válida. Quem defende essa teoria, embora não o admita, tem suas próprias convicções do que acha melhor e, mesmo que internamente, condena quem faz diferente. […]

“Essa teoria não traz nenhum benefício para as nossas crianças e abre espaço para que os meios de comunicação de massa (pessoas querendo lucrar) entupam a cabeça das mães mais “abertas” com teorias maliciosas como a da culpa zero.”

Concordam com o texto

  • “Essa coisa de tentar o melhor é um discurso vazio, que não leva ninguém a lugar nenhum, só serve mesmo pra passar a mão na cabeça.”
  • Sou muito grata à minha culpa e ao meu não-conformismo, que me fizeram não virar mais uma ‘mãezinha’ que tudo aceita, que acha que está muito certa e, é claro, julga (mal) as que criam com muito amor, muito peito e muito apego.”
  • “As mães que clamam pelo equilíbrio, as que se dizem coluna do meio, muitas vezes torcem o nariz para as lutas pelos direitos das mulheres (que falam mal da Marcha pelo Parto em Casa, Marcha das Vadias, Mamaços, amamentação prolongada, amamentação em público etc.) Mas estas dizem que não, não julgam ninguém.”

Discordam do texto

  • “Você rejeita a teoria de que cada um faz o que acha melhor. Mas não é exatamente isso o que você tá fazendo? Me incomoda o fato de que este argumento é amplamente utilizado na defesa de causas e teorias que eu acho muito corretas, o que acaba reforçando o rótulo de ‘radical’ de quem o faz.”
  • ” ‘Rejeito a teoria de que cada um faz o que acha melhor’ – só aceito a teoria de que todos tem que fazer o que EU acho que seja melhor.
  • Em geral, julgo, sim, no entanto, julgo atitudes abusivas e incoerentes demais – que não dariam para não serem julgadas por qualquer pessoa de bom senso.
  • Muitas vezes mães que seguem um determinado caminho tendem a querer reforçar a validade deste caminho colocando que todos devem segui-lo e quem não vai por aí é pior. Não acho que seja apenas uma questão de tempo que se dedica aos filhos (não é tão simples esta matemática).”
  • “Tento de verdade não julgar, para ensinar a não julgar, ter bom senso e explicar que na maioria das casas a educação dos coleguinhas será diferente, e que ser diferente nem sempre é melhor ou pior.”
  • “O que não concordo é julgar sem saber, falar que se fez cesárea é pior, se não amamentou é pior, se deixa chorando é pior, se pega no colo toda hora é pior, criação com apego é melhor do que criação sem muito apego.”

2.       Preocupação com o futuro

Argumento de Lia:

“O que eu tenho a ver com o que fazem os outros pais e mães? Muito. Porque essas crianças com as quais minhas filhas estão convivendo na escola, na igreja e no parquinho serão seus futuros amigos, namorados, colegas de trabalho, vizinhos, patrões, governantes.”

 Concordam com o texto

  • “Os pais são sim responsáveis pelo que os seus filhos se tornarão.”
  • “Infelizmente minha filha vai ser amiguinha do filho da idiota que coloca ele do lado de fora do apartamento para ficar gritando porque dá eco. O que para essa mãe [idiota aos meus olhos] é uma coisa bonitinha, para mim é um caos.”

 Discordam do texto

  • “Nossos filhos terão que conviver com o diferente, assim como nós convivemos com pessoas que tiveram criações totalmente diferentes das nossas (e certamente absurdas aos olhos dos nossos pais!). E não acho isso um problema, é um fato imutável.”
  • “Ficar preocupada com que tipo de colega de trabalho e patrão suas filhas irão se relacionar é protecionismo besta! Meus filhos não são prioridade, minha família é! Não por isso serão péssimos colegas de trabalho, vizinhos e quem sabe até governantes. Uma família feliz tem filhos felizes. Simples assim.”

3.       Culpa

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero se traveste de um herói que vem nos resgatar de um sentimento negativo e opressor. Mas não é a culpa que essa teoria tenta aniquilar: é a nossa consciência. As consequências são desastrosas.”

Concordam com o texto

  • “Mães e pais que se colocam como prioridade frente ao bebê colocarão a culpa na criança, no adolescente e no adulto futuro. Se não conseguem dar a educação que gostariam por alguma impossibilidade real, que ao menos sintam culpa e tenham consciência de que a culpa não é dos seus filhos.”
  • “Como uma revista pode me dizer que eu não tenho culpa de nada!? Eu é que tenho que correr atrás, e fazer direito o ‘dever de casa’ para parar de sentir culpa. Se fazemos o melhor que podemos, não tem como a culpa aparecer.”
  • “Eu senti muita culpa por não ter conseguido levar a amamentação da minha primeira filha adiante e, se não fosse por esta culpa, que se transformou em sede de conhecimento, em busca por informação de qualidade, por pessoas e profissionais que me apoiassem, teria ficado satisfeita, pensado que ‘tomou LA e não morreu’ e repetido com a segunda.”
  • “Eu convivo bem com as culpas que carrego e a campanha deveria ser sobre a importância da culpa e não negar a sua existência.”
  • “Acredito que a culpa seja realmente importante, pois ela traz a reflexão, traz a conscientização do que é melhor. E imunizá-la seria cancelar essa consciência do certo e errado.”

Discordam do texto

  • O meu ‘culpa não’ se refere a ausência de culpa por tirar os meus filhos do pedestal e botar a família inteira junto.
  • ” ‘Culpa’ tão somente não nos coloca de frente à responsabilidade das consequências. Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa!
  • A culpa é um sentimento que paralisa, que enfraquece, que tira o eixo. O caminho para mudar aquilo que não está legal é autoconhecimento, reflexão, questionamento e na minha visão compaixão. A sociedade é muito cruel com homens e mulheres.”
  • “O meu ‘culpa não’ é o que me dá é leveza no exercício da maternidade, e não um passe-livre para ser uma mãe de merda. De um para outro existe uma enorme diferença.”

4.       A “menos mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero está aí para dizer que ninguém é menos mãe porque – complete com qualquer coisa: não pariu, não amamentou, deu papinha industrializada, não passou tempo suficiente com a criança.

“Minha amiga Cíntia não é ‘menos mãe’ – sejamos francos: mãe pior – porque não amamentou. Mas a Galisteu, que desmamou o filho porque precisava viajar com o marido pra Ibiza quando o bebê tinha dois meses, talvez seja.

“ ‘Menos pais’ e ‘menos mães’ relegam seus filhos a um abandono emocional em nome das suas próprias rotinas. Crianças perdidas, sem educação, sem carinho, sem disciplina, jogadas na frente de uma televisão enquanto a babá fala ao celular.

“Seja porque têm menos disponibilidade para exercerem esses papéis, seja porque os exercem com total irresponsabilidade, pais e mães piores são aqueles que se colocam como prioridade diante de seus filhos, são os que querem a todo custo desvencilhar-se deles com medo se se encontrarem consigo mesmos e preferem viver anestesiados pelo consumo, pelo lazer, pelo ócio.

“É verdade que não se pode jugar a qualidade da prática de uma mãe por um aspecto isolado, especialmente se desconsiderarmos todo o contexto cultural e social no qual ela está inserida.”

Outros conceitos de “menos mãe”, segundo os comentários

  • “Mãe que sai para o bar e deixar o filho dentro do carro esperando é pior do que a que se dedica e busca programas para os quais possa incluir seus filhos.”
  • “Mãe que deixa chorando é pior do que a que acalenta. Faz isso pensado em si própria, em seu sono, não no bebê.”
  • “Mãe que não tem saco de acordar à noite para acolher o filho choroso é uma péssima mãe.”
  • “Eu sinto pena da Adriane Galisteu, porque ela poderia viajar em qualquer outro momento de sua vida. Mas ser mãe daquele recém-nascido e amamentá-lo com esplendor seria um momento único, e na minha opinião, sagrado.”
  • “Mãe que abandona os filhos para ir para Ibiza e substitui tempo com os filhos para ir para uma festa à noite toda semana.”
  • “A Galisteu foi uma ‘menas’ mãe quando desmamou um recém nascido pra sair em lua de mel.”
  • “É menos mãe/pai quem negligencia seus filhos, quem não educa, não passa valores, não dá carinho, tempo, atenção.”
  • “Colocar uma criança no mundo, dar todos os brinquedos tecnológicos, deixá-la sentada a frente da televisão porque a galinha pintadinha canta músicas de criança e se dizer boa mãe.”
  • “Mãezinhas que escolheram a maternidade que tinha salão de beleza para receberem as visitas pós-parto na beca.”
  • “Mulher que prefere assistir seus filhos brincarem no tanquinho de areia do que interagir com eles para não estragar as unhas. Mas não entro no mérito do texto em dizer que isso é ser menos mãe. Até porque sei lá o conceito de mãe que uma pessoa assim tem.”
  • “Mãe que vive na ‘umbigolândia ‘”.
  • “Mães que choram ao quarto ao lado, com o coração apertado por deixar o filho chorando, mas não têm coragem de se desvencilhar dos cordões de marionete que a prendem.”
  • “Mães e pais que terceirizam a criança por causa da ideia cada vez mais popularizada (e levada ao extremo) de que ‘mãe feliz, filho feliz’.”
  • “Mães e pais que acham que devem mais à sociedade que ao seu próprio filho e são capazes de cometer a barbárie de dar uma festa de ‘boas vindas’ ao bebê ainda na maternidade.”
  • “MENOS mãe é aquela que tem todas as informações e ainda assim, age pensando em si mesma apenas.”
  • “Pais que acham que os filhos é que têm que se adaptar a vida deles, e dá-lhe horas em salão de beleza, redes sociais, com celular em punho sem sequer olhar o sorriso da criança, viagem do casal, que precisa muito desse tempo.”

Questionamentos ao conceito de “menos mãe”:

  • “Conheço quem adotou o método horrendo do Nana, neném com a convicção de que isso ajudaria o bebê a dormir melhor, e que estava fazendo o melhor por seus filhos. Não fez para melhorar seu próprio sono porque, mesmo com seus bebês dormindo que nem ‘anjo’ depois do método funcionar, passava a noite acordando para ver se estava tudo em ordem com as crias.”
  • “Não gostei do texto! Achei uma volta ao passado sem tamanho! Cada um com a sua realidade e seus problemas! Julgar é fácil demais, fazer o que a maioria das mães brasileiras faz para sustentar, dar amor e carinho tudo ao mesmo tempo não é tarefa para qualquer um! Isso não é abandono emocional, isso é responsabilidade!”
  • “Ser mãe não é receita de bolo!”
  • “Babá, suco de caixinha, e televisão não é liberalismo ‘demoníaco’, é realidade!!!”

5.       A “mais mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da maternidade ativa e consciente vê mãe e pai como responsáveis pelos filhos, buscando as melhores escolhas, mesmo com sacrifícios pessoais.

“A ‘mais mãe’ exerce a maternidade em maior quantidade (de tempo, por exemplo), ou uma maternidade de melhor qualidade.

“Filhos são uma dádiva. Não caiamos na armadilha de achar que qualquer coisa vale mais do que eles. Nossos filhos são nossos parceiros, representam oportunidade única de nos redescobrirmos.”

Questionamentos ao conceito de “mais mãe”

Se a “menos mãe” foi duramente criticada, o conceito de “mais mãe”, por oposição, também foi alvo de muitos questionamentos:

  • “Uma mãe culpada ou que age por culpa não é uma boa mãe. Mas isto não significa se isentar de suas responsabilidades.”
  • “O que dizer da mãe que expõe as questões, imagens e intimidades dos filhos em um blog na internet, podendo causar a eles desconforto no futuro?”
  • “Acho que sei como essa mãe, tão comprometida com o maternar, age. Mas sei muito pouco sobre como ela sente. Se essa mãe está verdadeiramente feliz e completa, maravilha. Maternidade ativa é o melhor caminho para o filho e também para ela. E se ela não está assim tão feliz?”
  • “Uma mãe infeliz não seria uma ‘mãe menos’ “?
  • “Não vejo como seria possível uma mulher se negligenciar e, ainda assim, ser boa mãe. Se não cuidarmos de nós mesmas, como poderemos cuidar dos nossos filhos?”
  • “O que é melhor, brincar com o filho quando ele chega em casa da creche ou deixar o filho pra lá brincando sozinho pra fazer uma papinha caseira?”
  • “Não vou comentar mais nada, porque é perigoso eu ficar com sentimento de culpa por estar lendo textos na Net ao invés de brincar com a minha filha neste momento.”
  • “Alguém já inventou a tabela de medição, tipo INMETRO para mãe? Em que tempo/espaço medimos a eficiência da mãe? Na qualidade da infância? Nos confrontos da adolescência? Ou no ser que deixamos para o mundo na idade adulta? Porque eles mudam, e mudam muito. E o meio muda, e a atitude da mãe muda…”
  • “Talvez as pessoas estejam errando a dose: supervalorização da criança em detrimento do coletivo. Quem garante que esse desvio não se deve a pais grudentos demais, anulados como pessoas e dispostos a viver em função do filho 28h por dia? Não dá para dizer isso, nem o contrário.”
  • “Conforme a criança cresce as coisas mudam, pq cada fase é uma fase, e se os filhos são criados para o mundo, então uma hora eles se tornam independentes. Conforme essa independência é construída a mãe precisa saber ir igualando as prioridades.”
  • “Não ha coisa pior, nem pra mãe e nem pro filho, do que depois q a cria cresce e sai do ninho, a mãe fica sem chão e se descobre um ser sem vida própria. Daí podem nascer diversos problemas, uma sogra chata que quer a todo custo continuar vivendo a vida da cria, uma pessoa depressiva/rabugenta/lamurienta que acha q o filho é um ingrato e se revolta contra tudo/todos, e um filho que vai sentir culpa.
  • Se minha mãe me perguntasse se eu gostaria que ela abrisse mão de TODA sua vida e seus sonhos por mim, eu diria que não, acho que se anular -completamente- em prol de outro alguém, mesmo que esse alguém seja seu filho, é um fardo muito, muito pesado de se carregar.”
  • “Mamãe projetou a felicidade dela em nós, mas, como é natural, ao crescermos, cada um tomou o seu caminho. Eu continuo muito próxima dela, mas o afastamento natural de meu irmão para ela é uma mágoa profunda, uma ferida sem cura. Se, por algum motivo, eu não puder me fazer tão presente na vida dela, ela será infeliz. E como eu vivo com isso? Se ela tivesse deixado de passar algumas horas por dia comigo, não teria sido menos mãe por isso. Parte de minha felicidade como filha é a felicidade de minha mãe, e é muito melhor se a felicidade dela não depender apenas do ‘ser mãe’ “.

6.       Ter filhos

Argumento de Lia:

O Dr. José Martins, em A Criança Tercerizada, teve a coragem de dizer que quem não está disposto a mudar suas rotinas para cuidar de seus filhos não os deveria ter.

Concordam com o texto

  • “Não dá pra simplesmente ‘encaixar’ a maternidade e levar a mesma vida de antes de ter um filho – se é pra ser assim, por que tê-lo então?”
  • “Os motivos apontados por TODOS para ter filhos são egocêntricos. Garantir descendência, por costume social ou por que é ‘um sonho’ não são motivos centrados não na criança.”

7.       A influência da Mídia

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero é a preferida das grandes mídias e agências de publicidade. O princípio demoníaco da identidade própria, auto-suficiente, é um engodo para nos desumanizar e nos tornar vítimas perfeitas do consumismo e do capitalismo industrial. Segundo a grande mídia e a indústria publicitária, ser você mesmo é ser igual a um padrão de sucesso e beleza estabelecido por outras pessoas, ser uma marionete.

“A mídia coloca o adulto em primeiro lugar e pinta a maternidade como uma tarefa de mártir e a criança como um estorvo. O conflito entre mães e filhos é um mito criado para vender.”

Concordam com o texto

  • “Minha avó (84 anos) queria dar ruffles para minha filha e eu disse que não, que fazia mal… ela olhou o rótulo, indignada, e disse ‘Meniiiinaaaa, é só batata’. Minha avó é analfabeta, foi da roça, é megasaudável e ACREDITA que ali só tem batata e que alguma espécie de milagre faz aquela batata não se decompor. Ela achava que era o melhor para a bisneta.”
  • “Isso me lembrou a sugestão da revista Crescer sobre decoração de quartos de bebês e havia lá um berço e uma cama, a cama da babá.”
  • “Queremos mães que entendam os problemas de saúde pública da sociedade brasileira (desmame precoce, epidemia de desnecesáreas, excesso de sódio na alimentação infantil) que se repercutem na saúde de seus filhos e que entendam que somos enganadas e manipuladas cotidianamente em nome do lucro.”
  • “Não é martirizar ninguém pelo passado nem condenar por um evento isolado na vida materna. Estamos aqui como mulheres que defendem mulheres. A maternidade é aprendizado. E é muito interessante ao mercado ter mães não pensantes.”

Discordam do texto

  • “Eu não sei que revistas você anda lendo, mas destoam completamente das que eu leio. Em geral, pregam que a mulher deve ser uma heroína, cuidando integralmente dos filhos, sem abrir mão de todo o resto, como se a mulher tivesse de seguir padrões inviáveis de perfeição.”
  • “Se tem pai e mãe que larga, não são as revistas e as propagandas que ensinam, estimulam ou incentivam esse comportamento.”

8.       Comentário: Adendos ao texto

  • “Há uma teoria de maternidade que não foi contemplada e que é a mais importante: a que considera que a educação e cuidado das crianças não é somente de responsabilidade dos pais, a que considera que a maternidade mais comum será praticada também de acordo com as condições sociais na qual se perpetua. Ter um Estado e uma sociedade que valorizam a infância é fundamental para que sejamos bons pais sem sofrer mais do que necessário.”

9.       O Caminho do meio

Propostas de caminho do meio, segundo os comentários

  • “Não consigo abraçar um estilo de maternidade que considera as necessidades do filho mas não as da mãe.”
  • “O objetivo final é de felicidade, para pais e filhos. Com RESPEITO aos limites e às necessidades pessoais.”
  • “Vislumbro o tal caminho do meio, no qual as pessoas têm direito a fazer suas escolhas.”
  • “O caminho do meio não mata, não fere, só fortalece, porque ser mãe é um dos meus muitos papéis nessa vida.”
  • “O sentir me diz que eu quero ser ‘mais mãe’, sem deixar de ser ‘mais eu’. Dedicar, estender, absorver, me sentir feliz pra fazer feliz, à vezes com muita abdicação, às vezes nem tanto. Observar constantemente para saber onde posso e devo ‘ser mais’ e onde devo ‘ser menos’.
  • Eu sou da maternidade ativa às vezes e sou uma “menas main” outras vezes – depende da hora do dia que você encontrar comigo. Exerço os dois papéis com relativa tranquilidade.”
  • “Não é questão de ficar em cima do muro, e muito menos de falta de envolvimento. Quero o danado do equilíbrio, não consigo me enquadrar em nenhuma categoria, quero fazer do jeito que funcione pra mim e para os meus, quero poder experimentar e mudar de opinião, fazer valer se é que me entendem. Quero valores (morais) sim e amores, quero a honestidade e a capacidade de realizar, quero a frustação para poder crescer, quero a conquista para a determinação e disciplina, quero a reflexão sempre em qualquer atitude, quero bem estar, quero estar bem.”

Críticas ao Caminho do meio, segundo os comentários

  • “O Brasil não precisa de MAIS GENTE passando a mão na cabeça das mães que abdicam do filho para ter uma ‘vida’. Até porque isso é viver em função do mercado, não do filho. Condenam tanto quem vive em função do filho e não se tocam que vivem em função do mercado, do status, da aparência, do carro novo e das unhas e cabelos impecáveis.”
  • “O discurso contemporizador busca minimizar uma responsabilidade que é nossa, faz com que vibre ainda a mais a nossa natureza, que já é egoísta.”
  • “Espero um dia chegar a esse equilíbrio. Mas temo que palavras assim ditas num portal formador de opinião do porte do MMqQ pode fazer mais mal que bem.”
  • “No Canadá esse discurso faz completo sentido, já que a maternidade e a paternidade se completam. Mas não acho que o Brasil está precisando de mais passada de mão na cabeça agora, de mais uma referência pra se apoiarem e se eximirem da responsabilidade.”
  • “Se continuarmos falando, teclando, denunciando, gravando!, engrossando o coro e o caldo… mais e mais pessoas vão se tocar, vão ouvir o barulho e dar atenção a ele.”
  • “Meio termo, mediano, estar na média são sinônimos para medíocre.”

Tréplicas do Caminho do meio, segundo os comentários:

  • “Quando encontrei esse mundo de informações me senti mais desesperada e deprimida, do que acalentada. Isso pq a quantidade de mães que acham que só há um jeito certo de maternar é infinita, e desculpem, mas isso não é legal.”
  • “Essa postura do ‘não precisamos disso agora’ desrespeita as mães que leem o texto. Primeiro porque não é honesta – omite propositalmente um lado da questão para convencê-la de que o outro é certo. Segundo, porque as subestima: diz que a mãe brasileira não está pronta para um discurso que não a trate como uma cretina e que ela precisa ouvir o lado mais duro, ‘que não passa a mão na cabeça’, pra entender direitinho. Terceiro, porque é arrogante: vende uma única verdade possível (mesmo que, no fundo, admita que existem sim outras leituras).”
  • “Com quem o texto está falando? Nunca vi na blogosfera nenhuma mãe assim, tão extrema, tão descomprometida, tão ‘menas’. Nem na vida real eu já vi essa mãe. Essa mãe tão errada – pois foi erroneamente construída pelo sistema – existe e tá aí, condenando o seu filho ao abandono emocional completo. Pergunta: ela tá lendo blog de maternidade? E, na remota possibilidade de estar: ela foi adiante no texto ou parou logo no ‘asneiras’ do título, prevendo as pauladas que viriam? E, se foi adiante: ela está aberta ao texto ou vestiu uma armadura que vai comprometer a sua leitura?”
  • “Mães se sentem agredidas o tempo todo. Mães agredidas levantam as armas. Mães armadas não estão dispostas a ouvir. Distorções de discurso acontecem muito por causa da disposição (ou falta de) de uma mãe ouvir a outra. O que cria essa disposição? Empatia. Como se cria empatia? Pela identificação, pelo respeito, pela tentativa de compreender o outro.”
  • “O problema é que eu vejo a blogosfera mais militante tentando atingir pela dureza justamente quem precisa de acolhimento.”

Marusia fala

Após ler o post, os comentários, as réplicas e as tréplicas, me parece que todos estão de acordo com uma coisa: é necessário investir em uma sociedade melhor, e o cuidado com a infância é imprescindível. O que não tem consenso é a forma de alcançar esse objetivo.

Cada forma é defendida com unhas e dentes, quando não há nada que comprove sua eficácia. Só o futuro poderá dizer como serão os filhos de “mais mães” e “menos mães”. Além disso, essas crianças terão recebido influências múltiplas, o que nos impedirá de afirmar se foi a forma de maternagem que definiu seu modo de ser.

Sem garantia nenhuma, as mães se prendem a convicções. O pensamento diferente é tomado automaticamente como crítica: “se não está comigo, então é meu inimigo”. Não sobra espaço para o meio termo, nem para a tentativa de apaziguamento.

Assim, presas à forma e em eterna guerra pela sociedade de amanhã, nós mães nos desviamos do objetivo de ter uma sociedade melhor HOJE.

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Somos tão jovens

Renato Russo quando era criança

Renato Manfredini Junior – Renato Russo

Ontem assisti ao filme “Somos tão jovens”, que conta a história de Renato Russo e o nascimento da banda Legião Urbana. Fiquei mexida, logo de início, nos créditos de apresentação do filme, com as fotos de quando Renato era criança.

Podia ser porque moro em Brasília. A sensação de familiaridade é intensa: é muito louco se ver retratado nas reconstituições das décadas de 70 e 80. Podia ser porque as músicas da Legião Urbana marcaram profundamente minha adolescência. Mas nada se comparou às fotos reais do cantor, somadas à cena em que ele cai da bicicleta (com o uniforme do Marista) e ao diálogo com os pais.

Renato estudou no Marista, tradicionalíssimo colégio católico da capital. Seu pai trabalhava no Banco do Brasil, como o meu. Em um momento do filme, seus pais dizem: “onde está aquele menino que se destacava por bom comportamento?” Será que, durante a infância de Renato, eles poderiam imaginar tudo o que viria em seguida? Essa é a razão pela qual o filme mexeu tanto comigo: pelo fato de ver alguém, que poderia tranquilamente ter sido meu vizinho de quadra ou meu colega de turma, construir uma trajetória tão ímpar (por vezes sofrida) e cheia de significados como fez o criador da Legião Urbana.

O fato de morar na capital fez com que eu ouvisse as músicas em primeira mão, desde a origem. Era aquele som que preenchia tudo, tanto o espaço quanto a alma. Um som rebelde mas também meio pueril, inocente, e com um traço de angústia que é muito típico da juventude. No filme, enquanto se recupera de uma cirurgia, Renato devora livros, principalmente de filosofia. Vêm daí suas letras diferentes? Ou é o oposto: sua personalidade já questionadora e seu permanente sentimento de inadequação encontraram eco nas palavras dos filósofos? Efeito Tostines, impossível responder.

Cena do filme Somos tão jovens

Cena do filme “Somos tão jovens”

Ninguém aqui está falando de exemplo, nem de mártir. Acredito que o melhor do filme foi mostrar o lado humano do artista, suas perigosas incursões pelo álcool e pelas drogas. Estou falando de legado. De alguém que compôs letras que até hoje são atuais. De quem vendeu mais de 20 milhões de discos. E explicitou sua transformação pessoal, mais tarde até por conta da Aids, em canções como Monte Castelo, Giz e Pais e Filhos.

Renato Russo com ramalhete de rosas

Pais e Filhos é um hino. Retrata o crescimento das crianças em uma sequência magistral de versos:

Bebês “Quero colo!”
3 anos “Vou fugir de casa!”“Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo…”
Adolescentes “Só vou voltar depois das três.”

Já a estrofe a seguir parece resultado do que nos invade quando deixamos de ser somente filhos, para sermos também pais:

“Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você

O que você vai ser, quando você crescer?”

Me vi menina no filme, brincando “embaixo do bloco”, passeando no Opala do meu pai pelas tesourinhas de Brasília. Concordo com Renato, sou mãe mas ainda sou criança. Ao mesmo tempo, sou a mesma e sou outra. É aquela metáfora do rio, gasta, mas verdadeira: é o mesmo rio, mas as águas são outras.

Para arrematar, hoje conversava com uma amiga sobre filhos. Ela me contou da felicidade incomensurável que sentia com seu filho, mas que às vezes vinha acompanhada pelo medo de perdê-lo. O medo de perder é um modo eficaz de nos chacoalhar para vivermos o momento presente. Mas não pode ser constante, porque também paralisa, envenena.

Por mais que queiramos racionalizar a morte, nunca estaremos suficientemente preparados para ela. E, se pararmos para pensar, convivemos diariamente com “desaparecimentos”. Olho para minhas crianças e já não vejo mais os bebês que foram. Olho para minhas crianças e, como os pais de Renato Russo, não consigo vislumbrar sequer um segundo do que será seu futuro, todas as histórias incríveis que terão pela frente, que legado deixarão para o mundo.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.”