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Para Mamãe

Mãe, nunca foi exagero dizer que você era minha melhor amiga. As pessoas não entendiam como uma relação entre mãe e filha, que pressupõe alguma assimetria, responsabilidade e até autoridade, pudesse ser tão franca. A razão, Mãe, é que você afirmava que sempre saberia quando não estivéssemos falando a verdade; que isso ficaria impresso em nosso rosto, e que facilmente você descobriria. Paradoxalmente, essa fala também é uma “mentirinha do bem”. Resultado: eu nunca consegui ter segredos com você. Hoje essa transparência exercitada ao longo dos anos me faz passar apuros até para esconder uma festa surpresa de um colega. Você dizia: “não consigo colocar minha cara onde meu coração não está”. E foi essa confiança a matéria-prima para nossa amizade profunda.

Conversávamos muito. Sua experiência como professora e depois psicóloga lhe conferia muita técnica, mas tinha momentos em que eu pedia: deixa o jaleco do lado de fora e fala agora como minha amiga. Óbvio que não deve ter sido fácil ouvir de uma filha as incertezas e angústias. E você me dizia: “ai, que vontade de te colocar na minha barriga de novo!” Aquele refúgio sagrado, onde não havia sofrimento, somente as batidas do seu coração.

Mãe, do alto dos seus cinco filhos, você causava espanto nas pessoas. Uma das coisas mais admiráveis que guardo da infância foi sua postura, junto com Papai, de que nunca éramos um peso ou um sacrifício para vocês. Vocês diziam que éramos a sua maior condecoração, seu maior legado. Quando, entre outras coisas, todos reclamavam do preço do material e da mensalidade escolar, eu sentia seu prazer genuíno em comprar cada item, espalhar na mesa da cozinha à noite e identificar tudo com capricho e amor. Eu recordo até hoje o cheirinho do plástico novo com que você encapava os livros, a sua alegria em folhear as páginas intactas e mostrar todas as maravilhas que iríamos aprender naquele ano.

Eu também lembro o cheiro do esmalte que você usava. Você era sua própria manicure, e eu gostava de acompanhar seu ritual de fazer as unhas. Você tinha as mãos mais lindas do mundo. Você, como eu, era roedora de unhas e me ensinou a sempre deixá-las aparadas e cuidadas, para não ceder à tentação de colocá-las na boca.

Dessas mãos, saía a mais bela de todas as caligrafias. Parecia um bordado. Você dizia, por exemplo: “a letra T não é um L cortado. Junte os traços”, e assim havia legibilidade e precisão. Você fazia questão de creditar sua letra ao meu avô, que morreu quando eu era muito pequena. Você se esmerava para manter sua memória através dos inúmeros causos, profundos ou hilários, mas sempre repletos de sabedoria. “Espera a pessoa terminar de chegar, para então contar a ela o que quer que seja, de bom ou mau”. “O que é do outro é sagrado.” “É a educação que liberta o homem, por isso é a maior riqueza” são alguns dos ensinamentos que você perpetuou.

Com você, eu também aprendi a amar os livros. A tocá-los como quem toca um tesouro. Na sala, estavam as magníficas enciclopédias, muito antes de o Google existir. Você nos presenteou com muitos livros. Fazia questão de escrever, com seu traço singular e impecável, uma dedicatória carinhosa na página de rosto. Entre tantos títulos, um era especial para você e assim se tornou para nós: O Pequeno Príncipe. Um dos maiores tratados filosóficos já publicado, em linguagem para criança. Quando pequena, parecia tão natural, tão óbvio… e precisei trazer minha criança interior de volta para compreender toda essa vastidão novamente, depois de adulta.

Também é sua a dica de tomar banho logo de manhã cedinho. “Assim, você fica fresquinha e cheirosinha por todo o dia”. Ali, era possível garantir um bem-estar que começava cedo e perdurava ao longo das atividades, no amor ao próprio corpo e no encontro com as pessoas.

Você adorava cantar. Cantava arrumando as coisas da casa, cantava costurando, molhando as plantas. Cantava à noite para nós dormirmos. E ficava triste quando pegávamos logo no sono, pois você queria continuar cantando… Você inspirou seus irmãos, seus filhos, que hoje têm na música uma amiga inseparável. “Quem gosta de música nunca está sozinho”, dizia. A música, essa linguagem universal com a qual é possível se comunicar com toda a humanidade.

Uma das canções que você entoava era de sua própria autoria: “O anjinho azul já chegou aqui. Ele veio olhar o nenenzinho dormir”. De fato, você amava os anjos. Você ensinava que eles eram “formas-pensamento de Deus”. Quando tínhamos algum problema com alguém, você nos orientava a pedir ao nosso anjo da guarda que enviasse uma mensagem para o anjo da pessoa. Dito e feito. Mensageiros velozes e diligentes, os anjos se encarregavam de dirimir qualquer desavença.

Você também amava a Sagrada Família. Instruía-nos a sempre convidar Jesus, Maria e José para qualquer evento, qualquer viagem. Dentro do carro, mesmo que fosse uma distância mínima (como no trajeto para a escola), você rezava a Salve Rainha. Quanto poder, quanto amor nessa oração, realizada tantas vezes, mas sempre única.

Eu me lembro de suas frases: “Senhor, dá-me forças para passar servindo e servir passando”. “EU SOU a presença divina atuando nisso (preencher com a solução que se deseja)”. “O Poder que em mim se expande não me limita”.

Mãe, você foi sempre tão doce, tão gentil, tão generosa! Tanto que se despediu devagarzinho… Foi perdendo a memória aos poucos, aos poucos… Sua memória, tão prodigiosa, tão espantosa, que guardava todos os aniversários de todas as pessoas! Sua animação em registrar tudo como “fotógrafa oficial” da família. Para mim, o choque foi absoluto. Como assim? Eu confesso que, no meu desespero, cheguei a sentir impaciência quando você repetia e repetia e repetia uma determinada passagem. O fato é que eu não me conformava em ver desaparecerem, aos poucos, os relatos da principal testemunha da minha vida.

Aí eu me lembrei de quando você interagia com todos os bebezinhos que via na rua. De como eles sorriam para você. Você me contou seu segredo: “em seus olhinhos, eu consigo enxergar a alma imensa aprisionada num corpinho de bebê”. Então era uma conversa de alma para alma. Com você, foi o mesmo. Sua alma grandiosa estava lá, perfeita e radiante, dentro de um corpinho que não mais nos permitia o acesso. Esse corpinho ficou muito, muito pesado… Como no Pequeno Príncipe, ele não mais permitia continuar a viagem. Então agora você habita uma estrela, e à noite todas as estrelas riem.

Mãe, quando morávamos na mesma casa, nos arroubos de adolescente, eu às vezes chegava chateada e cansada (como na canção do Padre Zezinho). Ia direto para o quarto e fechava a porta. Eu tinha a certeza inabalável de que você abriria a porta. Você sempre abria a porta. Sentava a meu lado e conversava comigo. Minha melhor amiga.

Hoje eu sei que isso não é mais possível.

Sabe por quê?

Porque agora as portas não existem mais.

Prova disso é que, nos seus últimos dias no hospital, quando as incertezas e angústias me tomaram, me vi às voltas com perguntas: “O que vai ser, Mãe? Como vai ser?”. Eu senti sua voz dentro do meu coração: “Filha, só ama. Só ama. SÓ AMA.”

menina voando com os pássarosEu tive um sonho, sonhei que tinha uma fábrica. A fábrica do amor. Só produzia o bem. Entregava o bem a todos. As pessoas são essencialmente boas. Pratique o bem, faça o bem às pessoas, assim como você gostaria que os outros lhe fizessem o bem.”

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De mãe para filha

Para Vovó Tude

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Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Veja também:

Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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Protesto Materno: eu quero mais

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

Quem é que abranda a saudade dessa neta?

“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

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Veja também:

Para Vovó

Noite profética

El Bigodito

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade

Mamífera!

Somos tão jovens

Renato Russo quando era criança

Renato Manfredini Junior – Renato Russo

Ontem assisti ao filme “Somos tão jovens”, que conta a história de Renato Russo e o nascimento da banda Legião Urbana. Fiquei mexida, logo de início, nos créditos de apresentação do filme, com as fotos de quando Renato era criança.

Podia ser porque moro em Brasília. A sensação de familiaridade é intensa: é muito louco se ver retratado nas reconstituições das décadas de 70 e 80. Podia ser porque as músicas da Legião Urbana marcaram profundamente minha adolescência. Mas nada se comparou às fotos reais do cantor, somadas à cena em que ele cai da bicicleta (com o uniforme do Marista) e ao diálogo com os pais.

Renato estudou no Marista, tradicionalíssimo colégio católico da capital. Seu pai trabalhava no Banco do Brasil, como o meu. Em um momento do filme, seus pais dizem: “onde está aquele menino que se destacava por bom comportamento?” Será que, durante a infância de Renato, eles poderiam imaginar tudo o que viria em seguida? Essa é a razão pela qual o filme mexeu tanto comigo: pelo fato de ver alguém, que poderia tranquilamente ter sido meu vizinho de quadra ou meu colega de turma, construir uma trajetória tão ímpar (por vezes sofrida) e cheia de significados como fez o criador da Legião Urbana.

O fato de morar na capital fez com que eu ouvisse as músicas em primeira mão, desde a origem. Era aquele som que preenchia tudo, tanto o espaço quanto a alma. Um som rebelde mas também meio pueril, inocente, e com um traço de angústia que é muito típico da juventude. No filme, enquanto se recupera de uma cirurgia, Renato devora livros, principalmente de filosofia. Vêm daí suas letras diferentes? Ou é o oposto: sua personalidade já questionadora e seu permanente sentimento de inadequação encontraram eco nas palavras dos filósofos? Efeito Tostines, impossível responder.

Cena do filme Somos tão jovens

Cena do filme “Somos tão jovens”

Ninguém aqui está falando de exemplo, nem de mártir. Acredito que o melhor do filme foi mostrar o lado humano do artista, suas perigosas incursões pelo álcool e pelas drogas. Estou falando de legado. De alguém que compôs letras que até hoje são atuais. De quem vendeu mais de 20 milhões de discos. E explicitou sua transformação pessoal, mais tarde até por conta da Aids, em canções como Monte Castelo, Giz e Pais e Filhos.

Renato Russo com ramalhete de rosas

Pais e Filhos é um hino. Retrata o crescimento das crianças em uma sequência magistral de versos:

Bebês “Quero colo!”
3 anos “Vou fugir de casa!”“Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo…”
Adolescentes “Só vou voltar depois das três.”

Já a estrofe a seguir parece resultado do que nos invade quando deixamos de ser somente filhos, para sermos também pais:

“Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você

O que você vai ser, quando você crescer?”

Me vi menina no filme, brincando “embaixo do bloco”, passeando no Opala do meu pai pelas tesourinhas de Brasília. Concordo com Renato, sou mãe mas ainda sou criança. Ao mesmo tempo, sou a mesma e sou outra. É aquela metáfora do rio, gasta, mas verdadeira: é o mesmo rio, mas as águas são outras.

Para arrematar, hoje conversava com uma amiga sobre filhos. Ela me contou da felicidade incomensurável que sentia com seu filho, mas que às vezes vinha acompanhada pelo medo de perdê-lo. O medo de perder é um modo eficaz de nos chacoalhar para vivermos o momento presente. Mas não pode ser constante, porque também paralisa, envenena.

Por mais que queiramos racionalizar a morte, nunca estaremos suficientemente preparados para ela. E, se pararmos para pensar, convivemos diariamente com “desaparecimentos”. Olho para minhas crianças e já não vejo mais os bebês que foram. Olho para minhas crianças e, como os pais de Renato Russo, não consigo vislumbrar sequer um segundo do que será seu futuro, todas as histórias incríveis que terão pela frente, que legado deixarão para o mundo.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Para Vovó Carmó

Vovó, eu me lembro de quando ia passar férias na sua casa amarela. De “dormir de valete” com meu irmão. Do canto do galo de manhã.

De como você cozinhava bem. Tudo o que você fazia era delicioso, do sarapatel ao mais singelo ovo frito.

Lembro do “queijo de Conquista”, dos biscoitinhos redondos de polvilho.

Cresci ouvindo minha mãe te chamar de “minha sogra”, repetindo as coisas engraçadas que você dizia – “Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz”, “amarra-se o burro na orelha do dono”, “quem puxa aos seus não degenera”.

Eu não conseguia compreender como você, sendo minha vó paterna, não podia ser avó dos meus primos da família da minha mãe.

Você adorava as novelas do SBT. Tinha uma com um padre que havia sido trocado na maternidade, “A justiça de Deus”, não perdia um capítulo. Fiquei tão fã que até comprei o disco com a música da abertura.

De noite, você sempre lia um livro com mensagens que falavam de Deus, textos espíritas de Divaldo Franco.

Você até tentou me ensinar croché. Habilidosíssima, lembro de um xale amarelo de lã com franjas que eu amava, uma saia. E um lindo centro de mesa no dia do meu casamento.

Lembro dos cafunés.

Com 89 anos, você teve um AVC. Fui a Salvador visitá-la na UTI e lhe disse que estaria de volta em outubro, no seu aniversário de 90 anos, levando os três bisnetinhos, incluindo o caçula que ainda era um bebê. Nós duas cumprimos a promessa e comemoramos juntas.

Mas, depois disso, você foi ficando cada vez mais frágil. Já não conseguia mais falar contigo ao telefone.

Lembro, vovó, dos cartões lindos de aniversário que você me mandava quando eu era criança. Diziam, com letra caprichada – “colheste mais uma rosa no jardim da tua existência”.

Mês que vem, vovó, os anjos lhe entregarão pessoalmente sua nonagésima quarta rosa.

Onde está meu bebê?

Site visitado: Antes que elas cresçam – Affonso Romano de Sant’Anna

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sapatinhos de bebê

Foto: Jynmeyer / stock xchng

A crônica de Affonso falou fundo ao meu coração. Tantas verdades, em um espaço tão curto de linhas! Textos como esse dão origem a sentimentos antagônicos. No início, algo como: devo curtir mais o presente, pois tudo passa muito rápido. Em seguida, um olhar sobre meus pais e avós, em busca da conexão que existe entre o que fomos como crianças e os nossos filhos.

Mas, em outros instantes, também veio a raiva. Relembrar o passado se faz com óculos cor-de-rosa. Affonso não disse que deveríamos enfrentar mais birras, limpar mais vômitos, virar mais noites, perder mais a paciência. E a culpa: essas lentes, de uma voz vinda da experiência, pedem que relevemos esses fatos chatos para nos dedicarmos aos fatos bacanas. Cá pra nós, no rame-rame do dia-a-dia, isso requer postura de Madre Teresa de Calcutá.

Vou contar uma historinha. Quando minha filha terminou o 2º período na Educação Infantil, a escola organizou um “pernoite”, ou seja, as crianças de sua turma fizeram dezenas de atividades e dormiram na escola. No dia seguinte, elas acordariam e encontrariam mensagens da família debaixo de seu travesseiro.

(Para as mamães inseguras, digo que dois de meus filhos já pernoitaram na escola. Até hoje é, para eles, uma das experiências mais fantásticas de que se recordam).

Como minha família é imensa, resolvi encadernar em espiral as mensagens de todos. Imprimi Hello Kitties, anjos, bailarinas, fadas, flores para enfeitar. Na hora de fazer minha mensagem, resolvi fazer uma retrospectiva, desde que ela era bebê, ano a ano. Olhar álbuns de fotografia é uma brincadeira frequente aqui em casa, mas dessa vez foi diferente. Era uma comprovação inequívoca de que o tempo tinha passado.

Fiquei olhando aquelas fotos e me perguntando: onde está esse bebê? E olhava para minha filha tentando encontrar alguns traços. Mas ela tinha se transformado em uma mocinha, esperta, graciosa, independente e elegante.

Não preciso dizer que me acometeu um sentimento confuso, de alegria pelo que ela se tornou, mas de saudade, muita saudade, e perplexidade. Já tinha ouvido muitas mães contarem que os bebês consomem uma dedicação tão intensa de cuidados, um atrás do outro, preenchendo o dia inteiro em cada segundo, que o cansaço por vezes não nos deixa “curti-los”. E assim, quando elas se davam conta, eles já tinham crescido, sem que elas percebessem.

Com isso em mente, fiz de tudo para me focar no presente e curtir cada instante. Meus bebês foram muitíssimo “curtidos”. Entretanto, isso não impediu que eu visse as roupinhas e sapatinhos ficando pequenos, as fraldas e mamadeiras sendo aposentadas, e tentando, como no filme Mama Mia, segurar suas infâncias como areia entre os dedos.

E chorei fazendo o caderninho do 2º período.

À noite, sonhei que minha filha era de novo um bebê. Era como se meu anjo da guarda estivesse me dando uma oportunidade de matar a saudade. Foi maravilhoso. Mas acordei com a voz do anjo: “Muito bem. Agora não espere passarem outros seis anos para se perguntar: Onde está minha menininha de seis anos?

sapatos de menina

Foto: 38 parrots / stock xchng

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Veja também:

Achei lindo quando… mas senti falta de…

Lembranças de infância

Cheiro de infância

This post in English: Where’s my baby?