Arquivo de Tag | O Pai

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

_____________

Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

_____________________

Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

Quem é que abranda a saudade dessa neta?

“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

________________________

Veja também:

Para Vovó

Noite profética

El Bigodito

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade

Mamífera!

O Livro do Bebê

Este post é para meu pai.

Quando eu era pequena, adorava ver fotografias antigas. Meu pai no triciclo, minha mãe na primeira comunhão. As fotos de família em preto-e-branco, rostos tão sérios e tão enigmáticos. Eu ficava braba porque meus pais não tinham me convidado para o casamento deles e ainda tiveram a audácia de colocar outra menina como dama-de-honra (tudo bem que eu só nasci 4 anos depois, mas para mim não tinha desculpa rs!).

Outra coisa que eu amava era ver o “Livro do Bebê”, tanto o meu quanto os dos meus irmãos, com os marcos do nosso crescimento escritos por minha mãe: primeiro dente, primeira palavra, as dedicatórias…

Gosto de preencher o “Livro do Bebê” e os álbuns de fotos dos meus filhos. Eles adoram ler sobre as coisas engraçadas que faziam e diziam. As músicas inventadas, as piadas “internas” que só entende quem é da família. Eles também curtem ouvir a história de como os avós se conheceram, como começou o namoro dos pais.

Creio que o encantamento que as crianças nutrem por esse tipo de recordação tem a ver com nossa busca por um lugar no mundo, na história. É importante fazer esses registros e transferi-los de geração a geração. As experiências da família, o legado dos antepassados, ainda que atravessados por percalços e problemas que todo clã possui, dizem muito sobre o que nós somos. É quando a gente apaga a luz e revive os círculos ancestrais em volta da fogueira para contar as memórias que nos trouxeram até aqui. Encontros que podem ser raros no dia-a-dia atropelado, mas trazem significados profundos para nossa vida.

Olhar para o passado nos ajuda a entender o presente e também saber o que esperar do futuro. No meu “Livro do Bebê”, meu pai deixou uma simples frase sobre o que esperava de mim quando eu nasci: “Que seja uma pessoa de bem.”

Por muito tempo fiquei intrigada com isso. Parecia um desejo tão singelo, despretensioso, talvez óbvio. Não dizia respeito a realização, sucesso. Não era “pessoa de BENS”, “pessoa BEM-sucedida.” Não dizia sobre conquistas, feitos. Nem saúde. Nem sequer sobre felicidade.

Era sobre o que é mais importante, mais caro, mais precioso para meu pai, a verdadeira chave para fazer diferença no mundo. Se formos parar para pensar, era a única coisa da qual ele tinha garantia. Ele não podia ter certeza se eu teria realização, sucesso, bens, conquistas nem feitos. Nem mesmo saúde, nem mesmo felicidade. É fato que ele também não podia saber se eu realmente seria “uma pessoa de bem”; entretanto, era a única coisa que ele podia me oferecer como herança que jamais se deteriora, se subtrai nem se perde: seu exemplo. Exemplo de um homem COMPLETAMENTE do bem.

Obrigada, pai.

_________________

Blogagem Coletiva – “Os pais que eles são”,  proposta por Rede Mulher e Mãe

_________________

Veja também:

Minha vida em 40 músicas

Amar é…

Se os homens amamentassem

De mãe para filha

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

Site visitado:

Scary Mommy

________________________

O blog “Scary Mommy” traz posts engraçados, por vezes também cáusticos, sobre a maternidade. (O curioso é que “scary” tanto pode significar “que mete medo” quanto “que tem medo”). Conta com mais de 1 milhão e meio de acessos por mês. Um dos espaços de debate é o “confessionário”: pais e mães inserem comentários, sob anonimato, e descem o verbo no mundo cor-de-rosa que se vende como a realidade de criar filhos.

Já dei muita risada com algumas confissões, me enterneci, me surpreendi com a franqueza escancarada de outras. E me peguei pensando o que postaria nesse confessionário.

Então, em comemoração aos 2 anos do meu blog, segue um compêndio dos segreditos que, com toda certeza, não fariam parte jamais do vocabulário de uma mãe perfeita:

Confesso que…

… senti uma inveja danada da minha irmã, que teve três partos normais, e saía lépida e fagueira do centro obstétrico, ia tomar um banho e pedia sem a menor cerimônia um Big Mac, enquanto eu tava toda costurada sem poder nem usar travesseiro. Mas também confesso que não senti inveja na hora que ela tinha que pulverizar Andolba na episio…

… dei papinha Nestlé quando viajávamos. Mil vezes a arriscar, sem saber de que jeito os legumes do hotel tinham sido lavados.

… ri pra caramba quando meu caçula de 3 anos chegou cantando “Ai se eu te pego”, do Michel Teló.

… já liguei algumas vezes o “hã-hã”, diante de histórias intermináveis.

… já chorei escondida no banheiro.

… já perdi a paciência ajudando menino a fazer dever de casa. Principalmente aqueles com o comando: “com a ajuda de um adulto, recorte de revistas e jornais 3 milhões de palavras com Cê cedilha e escreva frases com elas.”

… disse a meus filhos que, todas as vezes que eles contassem uma mentira, ela apareceria escrita na testa deles, e assim eu SEMPRE saberia.

… minha mãe me disse a mesma coisa acima. Eu acreditei e até hoje sempre conto logo tudo, porque nunca consigo esconder nada dela. E assim se criou uma relação de confiança.

… já fiz chantagem emocional, do tipo: “oh, vem me dar um abracinho, ohh, puuuxa, é assim, né…”

… já cronometrei com meu marido a tarde de sábado, revezando os intervalos: “pronto, agora é sua vez de tomar conta dos meninos.”

… quando vejo uma grávida de primeira viagem afirmando “com meu filho será assim”, “com meu filho será assado”, ou “nunca vou fazer isso ou aquilo”, eu fico me perguntando: “conto ou não conto?”

______________________

Veja também:

100º post, 1 ano de blog

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Achei lindo quando… mas sinto falta de…

Decálogo dos meus desafios

São só os meus?…

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Fran, Wilma, Beth, Fiona, Morticia, Samantha, Marge, Nenê, Helena, Jane: o que elas têm em comum? São ponderadas, sensatas. Centralizam e organizam a família em torno de si, são responsáveis por manter o equilíbrio da casa. São amorosas e dedicadas e suportam tudo.

Nenê da Grande Família é exceção: não encarna o lado racional da família. Puro sentimento, às vezes se atrapalha. Lineu assume a posição de sensato da casa, papel normalmente confiado às mulheres nessas produções.

Nenhuma das personagens trabalha fora de casa. As que experimentam acabam voltando. O dilema trabalho versus casa, portanto, é extirpado, bem como o babá versus creche.

O trabalho da casa é realizado integralmente pelas mães, exceto Jane Jetson, que tem a ajuda da robô Rose, e Mortícia Addams, que conta com o mordomo Frank e a mãozinha Coisa. Wilma Flintstone também tem a ajuda de seus eletrodomésticos com animais.

Todas as mães têm que esconder seus “superpoderes”, mas sempre “salvam” a família de enrascadas. Esses poderes podem ser mágicos, como no caso da Feiticeira Samantha, ou talentos profissionais, como o da hábil comunicadora Fran Sauro, que desiste de apresentar um programa de TV para cuidar da casa.

Não existe revolta. Todas estão resignadas em seu papel, cientes disso e de sua importância para a família.

Todas as personagens estão em boa forma física, ainda que não se explicite de que maneira elas chegam a esse resultado. Fran Sauro também, dentro do que se espera de um ser de sua espécie.

Os maridos são infantilizados e atrapalhados (também com exceção de Lineu). Trabalham como funcionários em empresas. Estão insatisfeitos com o trabalho, mas são conformados (exceto Gomez Addams: “um advogado que acumulou uma riqueza invejável e que agora vive tranquilamente acariciando seu polvo e explodindo trens de brinquedos em sua mansão”).

Sugestionáveis, ingênuos e teimosos, os pais das famílias de seriados e animações sempre se metem em confusão. Assim, as mulheres se posicionam como mães de toda a família, incluindo os maridos.

Seja na Idade da Pedra, na Idade Média ou no futuro, os padrões se repetem, se mantêm. Shrek, por mais anárquico que se pretenda, apresenta Fiona como uma mãe zelosa ao molde das demais. Ou seja, o roteiro de Shrek subverte tudo – a princesa é uma ogra, o herói é um ogro, a fada madrinha é má -, exceto o que se entende como amor materno.

São todas famílias nucleares – pai, mãe, filhos -, com intervenções de parentes em alguns casos. O protótipo do que se difunde como uma típica família dos anos 1950.

Nas produções, é curiosa a presença de outras mães, as mães das mães: as sogras. São vozes femininas de chamado à consciência. Elas parecem discordar da escolha das filhas e de tudo a que as elas se submetem, e estão sempre dispostas a aborrecer os genros. São incômodas mas também não ajudam nos afazeres (às vezes até pelo fato de contestá-los). Trata-se de um reforço contínuo ao estereotipado conflito entre sogras e genros.

Outras figuras podem cumprir o papel da sogra: a dinossaura Mônica (Família Dinossauro), a modista Edna (Os incríveis), as irmãs de Marge Simpson (Os Simpsons). Em Shrek, quem cria problemas é o sogro, mas por temor de que sua identidade verdadeira seja revelada (trata-se de um sapo transformado em humano).

 

Mulher elástica – algumas diferenças

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, merece uma análise à parte porque, no decorrer do filme, vai revelando facetas que a princípio podem distanciá-la das demais mães apresentadas anteriormente.

A Mulher Elástica é feminista no início da história. Em uma entrevista jornalística, ela discursa: “Sossego, qual é? Tô no auge da forma, em briga de cachorro grande. Garotas, na boa: deixar o mundo ser salvo pelos homens? Claro que não. É claro que não.”

Ela se casa com Beto Pera, o Sr. Incrível, mas algo põe a perder suas carreiras de super-heróis. O Sr. Incrível não se conforma em se esconder por trás de um medíocre vendedor de seguros. Mas a ex-Mulher Elástica parece conformar-se com a nova vida. Isso é um paradoxo, que vai contra o que ela diz na entrevista do começo do filme, no auge da juventude, e também para ele, que na mesma entrevista diz planejar constituir família.

Helena se resigna com seu papel de mãe zelosa. E luta para defender essa nova situação como uma escolha própria sua.

Em casa, as coisas são superdimensionadas por ela (e menosprezadas pelo marido, Beto). Seus superpoderes, que outrora salvavam o mundo, agora são utilizados para lidar com os desafios em família, a própria metáfora da mãe-malabarista, a quem se exige todo o tempo que se adapte, que se molde.

Sim, Helena está tentando se adaptar à vida de dona de casa e mãe, e está muito empenhada em manter as aparências, mas deixa transparecer aqui e ali o seu descontentamento. De todas as mães das séries e animações, é a mais impaciente e estressada.

Com o desaparecimento de Beto, que ela suspeita ser algo relacionado a traição conjugal, Helena deixa os filhos ao cuidado da primogênita para recuperar o casamento. Nesse raciocínio, o casamento é mais precioso para os filhos; o fim da união do casal é um perigo muito maior que o abandono. E, ao mesmo tempo, sob os conselhos de Edna, ela descobre que também precisa recuperar a heroína que um dia foi, para que se mantenha admirável aos olhos do marido – e aos próprios olhos.

A Mulher Elástica, então, volta à “ativa”. Mas somente porque os filhos vão junto com ela, quando demonstram poder se virar sozinhos. Ela percebe que sua superproteção tolhia os filhos, tornava-os infelizes. O desfecho traz a ideia de que a família é invencível quando está unida.

Helena é a única mãe das animações e seriados que volta para a sua profissão, ainda que sob circunstâncias próprias de quem tem uma família inteira com poderes especiais, que podem dispensar a dedicação absoluta da mãe.

Contudo, ainda que existam algumas diferenças entre Helena e as outras personagens de mães, o fio condutor é o mesmo: todas são mulheres que têm na família seu bem maior.

___________________________

Veja também:

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Mães de animações e seriados 4: Curiosidades imperdíveis

Mães de animações e seriados: Toda a série

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011

Falando de sexualidade

Site visitado:

Aprendiz de Mãe – As crianças e a transmissão da cultura

_________

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Cresci com 4 irmãos. Acostumadíssimos a tomar banho juntos – uma farra! Meus pais nunca trancaram a porta do banheiro, então era supernatural vê-los sem roupa. Sempre com muito respeito, claro. A conversa sempre fluiu tranquila, muito livro pra ler. Mas, ao mesmo tempo, muita inocência. Lembro de um de nós, com um tom risonho, segredando para os outros: “papai e mamãe transaram cinco vezes kkkkkkkkk!”

A vergonhinha veio na adolescência, a timidez para comprar modess (modess!!! vixi, tô ficando velha rsrs), sutiã e afins. Mas tudo sempre com muita naturalidade e cumplicidade.

Não tinha como ser diferente aqui em casa. A meninada toma banho com a gente, sempre há abertura para tirar qualquer dúvida.

Quando minha filha nasceu, o mais velho ficou intrigado com uma anatomia tão “explícita” (diferente da minha rsrsrs):

– Mãe! Olha! Ela não tem pinto! E o bumbum vem até a frente!!!!

***

Essa história de bumbum ainda rendeu. Quando minha cunhada ficou grávida, meu filho perguntou:

– O médico vai cortar sua barriga pra tirar o neném?

– Vou torcer para que não, querido.

– Ué, mas aí ele vai sair como?

-(já ficando vermelha) Ora, do jeito natural.

– Como?

– Por baixo.

– Onde?

– Por baixo…

Ele parou, pensou e perguntou curioso e empolgadíssimo:

– Mas aí o seu bumbum vai ter que abrir muito!!!!

– (rindo muito) Pois é, vai ter que ser!

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

***

Mais tarde, ele viu uma propaganda da campanha de prevenção à Aids: Não deixe a Aids te pegar, use camisinha. Seguiu-se o diálogo:

– Mãe, o que é Aids?

– É uma doença. As pessoas ficam com problemas nas células de defesa e podem pegar outras doenças.

– Quando a gente usa a camisinha, não pega?

– Não pega.

– Só de usar uma camisa?

– Bom, na verdade, não é bem uma roupa.

– Não? É como, então?

– É uma coisa que o homem coloca no pinto.

– Por quê, a Aids pega pelo pinto???

Observe-se que, até então, ele tinha somente a noção de que papai põe uma sementinha na mamãe e estava satisfeito. Até já sabia que o bebê saía da barriga da mãe “por baixo”. Mas, agora, a explicação tinha que se enveredar por mais detalhes. Fiquei com vergonhinha, botei desculpa na presença da irmã menor no recinto e apelei para o maridão.

Achei supercomédia quando cheguei à noite e vi, sobre a mesa do escritório, o livro da Larousse sobre corpo humano, cheio de páginas marcadas. Ele não me deixou acompanhar a conversa: “Ah, não, você jogou a pepinosa na minha mão, agora somos só eu e ele.”

Fiquei pra morrer de curiosidade, mas respeitei. Ao final, meu marido contou:

– Fui respondendo à medida que ele perguntava, nem mais nem menos. Ele me olhou e falou: “Só isso? Intão tá.” E foi brincar.

Dirimidas as dúvidas, diferenciados “bumbum” do órgão sexual feminino e tudo mais, fiquei contente: o mecanismo está todo explicadinho e bem aceito; a inocência continua.

Dá, sim, para mostrar para nossos filhos como a sexualidade é natural – e linda.

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Sugestões de livros:

Livro "Sexo não é bicho papão", de Marcos Ribeiro. Editora Zit.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Coleção Tris-Trás - Livro "De Onde Eu Venho?", de Sergi Càmara. Editora Escala

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Livro "Planeta Eu: Conversando sobre sexo", de Liliana e Michele Iacocca. Editora Ática