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Para Mamãe

Mãe, nunca foi exagero dizer que você era minha melhor amiga. As pessoas não entendiam como uma relação entre mãe e filha, que pressupõe alguma assimetria, responsabilidade e até autoridade, pudesse ser tão franca. A razão, Mãe, é que você afirmava que sempre saberia quando não estivéssemos falando a verdade; que isso ficaria impresso em nosso rosto, e que facilmente você descobriria. Paradoxalmente, essa fala também é uma “mentirinha do bem”. Resultado: eu nunca consegui ter segredos com você. Hoje essa transparência exercitada ao longo dos anos me faz passar apuros até para esconder uma festa surpresa de um colega. Você dizia: “não consigo colocar minha cara onde meu coração não está”. E foi essa confiança a matéria-prima para nossa amizade profunda.

Conversávamos muito. Sua experiência como professora e depois psicóloga lhe conferia muita técnica, mas tinha momentos em que eu pedia: deixa o jaleco do lado de fora e fala agora como minha amiga. Óbvio que não deve ter sido fácil ouvir de uma filha as incertezas e angústias. E você me dizia: “ai, que vontade de te colocar na minha barriga de novo!” Aquele refúgio sagrado, onde não havia sofrimento, somente as batidas do seu coração.

Mãe, do alto dos seus cinco filhos, você causava espanto nas pessoas. Uma das coisas mais admiráveis que guardo da infância foi sua postura, junto com Papai, de que nunca éramos um peso ou um sacrifício para vocês. Vocês diziam que éramos a sua maior condecoração, seu maior legado. Quando, entre outras coisas, todos reclamavam do preço do material e da mensalidade escolar, eu sentia seu prazer genuíno em comprar cada item, espalhar na mesa da cozinha à noite e identificar tudo com capricho e amor. Eu recordo até hoje o cheirinho do plástico novo com que você encapava os livros, a sua alegria em folhear as páginas intactas e mostrar todas as maravilhas que iríamos aprender naquele ano.

Eu também lembro o cheiro do esmalte que você usava. Você era sua própria manicure, e eu gostava de acompanhar seu ritual de fazer as unhas. Você tinha as mãos mais lindas do mundo. Você, como eu, era roedora de unhas e me ensinou a sempre deixá-las aparadas e cuidadas, para não ceder à tentação de colocá-las na boca.

Dessas mãos, saía a mais bela de todas as caligrafias. Parecia um bordado. Você dizia, por exemplo: “a letra T não é um L cortado. Junte os traços”, e assim havia legibilidade e precisão. Você fazia questão de creditar sua letra ao meu avô, que morreu quando eu era muito pequena. Você se esmerava para manter sua memória através dos inúmeros causos, profundos ou hilários, mas sempre repletos de sabedoria. “Espera a pessoa terminar de chegar, para então contar a ela o que quer que seja, de bom ou mau”. “O que é do outro é sagrado.” “É a educação que liberta o homem, por isso é a maior riqueza” são alguns dos ensinamentos que você perpetuou.

Com você, eu também aprendi a amar os livros. A tocá-los como quem toca um tesouro. Na sala, estavam as magníficas enciclopédias, muito antes de o Google existir. Você nos presenteou com muitos livros. Fazia questão de escrever, com seu traço singular e impecável, uma dedicatória carinhosa na página de rosto. Entre tantos títulos, um era especial para você e assim se tornou para nós: O Pequeno Príncipe. Um dos maiores tratados filosóficos já publicado, em linguagem para criança. Quando pequena, parecia tão natural, tão óbvio… e precisei trazer minha criança interior de volta para compreender toda essa vastidão novamente, depois de adulta.

Também é sua a dica de tomar banho logo de manhã cedinho. “Assim, você fica fresquinha e cheirosinha por todo o dia”. Ali, era possível garantir um bem-estar que começava cedo e perdurava ao longo das atividades, no amor ao próprio corpo e no encontro com as pessoas.

Você adorava cantar. Cantava arrumando as coisas da casa, cantava costurando, molhando as plantas. Cantava à noite para nós dormirmos. E ficava triste quando pegávamos logo no sono, pois você queria continuar cantando… Você inspirou seus irmãos, seus filhos, que hoje têm na música uma amiga inseparável. “Quem gosta de música nunca está sozinho”, dizia. A música, essa linguagem universal com a qual é possível se comunicar com toda a humanidade.

Uma das canções que você entoava era de sua própria autoria: “O anjinho azul já chegou aqui. Ele veio olhar o nenenzinho dormir”. De fato, você amava os anjos. Você ensinava que eles eram “formas-pensamento de Deus”. Quando tínhamos algum problema com alguém, você nos orientava a pedir ao nosso anjo da guarda que enviasse uma mensagem para o anjo da pessoa. Dito e feito. Mensageiros velozes e diligentes, os anjos se encarregavam de dirimir qualquer desavença.

Você também amava a Sagrada Família. Instruía-nos a sempre convidar Jesus, Maria e José para qualquer evento, qualquer viagem. Dentro do carro, mesmo que fosse uma distância mínima (como no trajeto para a escola), você rezava a Salve Rainha. Quanto poder, quanto amor nessa oração, realizada tantas vezes, mas sempre única.

Eu me lembro de suas frases: “Senhor, dá-me forças para passar servindo e servir passando”. “EU SOU a presença divina atuando nisso (preencher com a solução que se deseja)”. “O Poder que em mim se expande não me limita”.

Mãe, você foi sempre tão doce, tão gentil, tão generosa! Tanto que se despediu devagarzinho… Foi perdendo a memória aos poucos, aos poucos… Sua memória, tão prodigiosa, tão espantosa, que guardava todos os aniversários de todas as pessoas! Sua animação em registrar tudo como “fotógrafa oficial” da família. Para mim, o choque foi absoluto. Como assim? Eu confesso que, no meu desespero, cheguei a sentir impaciência quando você repetia e repetia e repetia uma determinada passagem. O fato é que eu não me conformava em ver desaparecerem, aos poucos, os relatos da principal testemunha da minha vida.

Aí eu me lembrei de quando você interagia com todos os bebezinhos que via na rua. De como eles sorriam para você. Você me contou seu segredo: “em seus olhinhos, eu consigo enxergar a alma imensa aprisionada num corpinho de bebê”. Então era uma conversa de alma para alma. Com você, foi o mesmo. Sua alma grandiosa estava lá, perfeita e radiante, dentro de um corpinho que não mais nos permitia o acesso. Esse corpinho ficou muito, muito pesado… Como no Pequeno Príncipe, ele não mais permitia continuar a viagem. Então agora você habita uma estrela, e à noite todas as estrelas riem.

Mãe, quando morávamos na mesma casa, nos arroubos de adolescente, eu às vezes chegava chateada e cansada (como na canção do Padre Zezinho). Ia direto para o quarto e fechava a porta. Eu tinha a certeza inabalável de que você abriria a porta. Você sempre abria a porta. Sentava a meu lado e conversava comigo. Minha melhor amiga.

Hoje eu sei que isso não é mais possível.

Sabe por quê?

Porque agora as portas não existem mais.

Prova disso é que, nos seus últimos dias no hospital, quando as incertezas e angústias me tomaram, me vi às voltas com perguntas: “O que vai ser, Mãe? Como vai ser?”. Eu senti sua voz dentro do meu coração: “Filha, só ama. Só ama. SÓ AMA.”

menina voando com os pássaros

Eu tive um sonho, sonhei que tinha uma fábrica. A fábrica do amor. Só produzia o bem. Entregava o bem a todos. As pessoas são essencialmente boas. Pratique o bem, faça o bem às pessoas, assim como você gostaria que os outros lhe fizessem o bem.”

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De mãe para filha

Para Vovó Tude

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Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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Carta a meus filhos

A arte de criar vazios

Depois que fui mãe…

Este é mais do que um texto; é um presente da minha amiga Claudia Brasil. Feliz Dia das Mães!

Depois que fui mãe…

Por Claudia Brasil*

1. Aprendi o que é, de fato, uma noite mal dormida. Ou não dormida e em condições adversas.

2. Aprendi o real valor de uma noite bem dormida.

3. Aprendi o que é medo. Desenvolvi medos estranhíssimos. “Será que ele está respirando? Faz horas que está dormindo sem emitir qualquer som audível…” – Que mãe nunca? Hoje temo, de verdade, a violência urbana, a violência sexual, a violência no trânsito, a psicopatia, doenças que nem conheço ou que inventei (durante meses, tive a convicção de que um dos meus filhos enxergava em preto e branco) ou doenças reais (durante meses temi que um deles tivesse algum comprometimento neurológico que o impedia de começar a andar logo; pedi ao pediatra um encaminhamento ao neuropediatra; dias depois, o menino estava correndo pela casa….). Medo, agora, é para o resto da vida.

4. Aprendi o que é coragem. Acho até que mataria um sapo que ousasse se aproximar de um deles. Tenho pavor de sapo, que fique bem claro. Coragem, agora, é para o resto da vida.

5. Entendi “mágoa de mãe”. Sabe aquele negócio de que seu filho diz a coisa mais besta do mundo pra você (você é muito chata!) e você passa dias ruminando aquilo? Agora eu entendo. Ah, sim, isso faz você chorar, tá? Imagine as coisas mais graves! Tudo “mágoa de mãe”. Nem vou falar dos casais separados e que o filho chega e comunica: quero morar com meu pai. A vida, até o momento, tem sido generosa comigo. Não sei até quando.

6. Aprendi o que é chorar em festinha da escola. Sim, a cantoria é desafinada, a coreografia sai toda errada, as fantasias são desengonçadas, rola esquecimento do texto na peça de teatro. Mas é ele quem está cantando, é ele quem está dançando, foi ele quem confeccionou a fantasia, é ele quem está representando. Logo, fechou a equação: ele faz, você chora. E não é de vergonha, não: é de emoção sincera e profunda. Vai vendo o que é a maternidade…

7. Aprendi a comer resto. Resto da comida do filho, da sobremesa do filho, da papinha do filho, do iogurte do filho, do bolo do filho, da sopa do filho, do biscoito do filho… virei uma usina de reaproveitamento de alimentos.

8. Aprendi o que é paciência. Minha mãe sempre me olhava no exercício pleno da maternidade e dizia “jamais poderia imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que você seria paciente com criança como é com seus filhos”. Na boa? Nem eu.

9. Aprendi o que é simplicidade. Quer coisa mais simples do que ir para outra dimensão apenas porque, agora, seu filho não tem mais dor? Porque ele voltou a se alimentar depois de uma gripe incapacitante? Porque ele aprendeu a andar? Porque ele aprendeu a pronunciar “mãe”? Simplicidade em estado bruto.

10. Aprendi o que é dor. Ver um filho seu se contorcendo de dor e nada poder fazer para alterar esse estado de coisas é um aprendizado prático do que é a “dor das mães”. Ver um filho sofrendo por aquelas razões que você não consegue evitar, desculpe, te leva às lágrimas e te faz sofrer até mais do que ele. É assim que funciona.

11. Aprendi a pedir a Deus. E a agradecer também. Você pede a Ele que proteja seu rebento, que o livre de todo mal, que ele saiba dizer “não” para o que não presta, que só diga “sim” para as coisas do bem, que ele seja feliz, que seja estudioso, que respeito o próximo, que não fique doente mas, se adoecer, que fique bom logo. E agradece por qualquer coisinha que aconteça, afinal, é seu filho, né?

12. Aprendi a entender a minha mãe. Em quase tudo.

13. Aprendi a ser feliz. Qualquer coisa e lá estão os olhos marejados…

14. No final das contas, aprendi que a maternidade foi a minha maior e melhor escola. Aprendi que, nessa escola, a formação é infinita. A gente nunca termina de aprender. Cada dia, uma lição. Cada episódio, um aprendizado. Cada etapa, uma nova conquista. Diploma em papel não há. Mas olhar para o filho e perceber, ao longo da vida, os bons resultados, deve ser mais gratificante do que qualquer grau de doutor. Olhos marejados, alma lavada.

Sou mãe. Fim.

*Claudia Brasil é jornalista e mãe de dois meninos.

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Carta a meus filhos

Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

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El Bigodito

Mamífera!

Por que temos filhos?

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê