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Para Mamãe

Mãe, nunca foi exagero dizer que você era minha melhor amiga. As pessoas não entendiam como uma relação entre mãe e filha, que pressupõe alguma assimetria, responsabilidade e até autoridade, pudesse ser tão franca. A razão, Mãe, é que você afirmava que sempre saberia quando não estivéssemos falando a verdade; que isso ficaria impresso em nosso rosto, e que facilmente você descobriria. Paradoxalmente, essa fala também é uma “mentirinha do bem”. Resultado: eu nunca consegui ter segredos com você. Hoje essa transparência exercitada ao longo dos anos me faz passar apuros até para esconder uma festa surpresa de um colega. Você dizia: “não consigo colocar minha cara onde meu coração não está”. E foi essa confiança a matéria-prima para nossa amizade profunda.

Conversávamos muito. Sua experiência como professora e depois psicóloga lhe conferia muita técnica, mas tinha momentos em que eu pedia: deixa o jaleco do lado de fora e fala agora como minha amiga. Óbvio que não deve ter sido fácil ouvir de uma filha as incertezas e angústias. E você me dizia: “ai, que vontade de te colocar na minha barriga de novo!” Aquele refúgio sagrado, onde não havia sofrimento, somente as batidas do seu coração.

Mãe, do alto dos seus cinco filhos, você causava espanto nas pessoas. Uma das coisas mais admiráveis que guardo da infância foi sua postura, junto com Papai, de que nunca éramos um peso ou um sacrifício para vocês. Vocês diziam que éramos a sua maior condecoração, seu maior legado. Quando, entre outras coisas, todos reclamavam do preço do material e da mensalidade escolar, eu sentia seu prazer genuíno em comprar cada item, espalhar na mesa da cozinha à noite e identificar tudo com capricho e amor. Eu recordo até hoje o cheirinho do plástico novo com que você encapava os livros, a sua alegria em folhear as páginas intactas e mostrar todas as maravilhas que iríamos aprender naquele ano.

Eu também lembro o cheiro do esmalte que você usava. Você era sua própria manicure, e eu gostava de acompanhar seu ritual de fazer as unhas. Você tinha as mãos mais lindas do mundo. Você, como eu, era roedora de unhas e me ensinou a sempre deixá-las aparadas e cuidadas, para não ceder à tentação de colocá-las na boca.

Dessas mãos, saía a mais bela de todas as caligrafias. Parecia um bordado. Você dizia, por exemplo: “a letra T não é um L cortado. Junte os traços”, e assim havia legibilidade e precisão. Você fazia questão de creditar sua letra ao meu avô, que morreu quando eu era muito pequena. Você se esmerava para manter sua memória através dos inúmeros causos, profundos ou hilários, mas sempre repletos de sabedoria. “Espera a pessoa terminar de chegar, para então contar a ela o que quer que seja, de bom ou mau”. “O que é do outro é sagrado.” “É a educação que liberta o homem, por isso é a maior riqueza” são alguns dos ensinamentos que você perpetuou.

Com você, eu também aprendi a amar os livros. A tocá-los como quem toca um tesouro. Na sala, estavam as magníficas enciclopédias, muito antes de o Google existir. Você nos presenteou com muitos livros. Fazia questão de escrever, com seu traço singular e impecável, uma dedicatória carinhosa na página de rosto. Entre tantos títulos, um era especial para você e assim se tornou para nós: O Pequeno Príncipe. Um dos maiores tratados filosóficos já publicado, em linguagem para criança. Quando pequena, parecia tão natural, tão óbvio… e precisei trazer minha criança interior de volta para compreender toda essa vastidão novamente, depois de adulta.

Também é sua a dica de tomar banho logo de manhã cedinho. “Assim, você fica fresquinha e cheirosinha por todo o dia”. Ali, era possível garantir um bem-estar que começava cedo e perdurava ao longo das atividades, no amor ao próprio corpo e no encontro com as pessoas.

Você adorava cantar. Cantava arrumando as coisas da casa, cantava costurando, molhando as plantas. Cantava à noite para nós dormirmos. E ficava triste quando pegávamos logo no sono, pois você queria continuar cantando… Você inspirou seus irmãos, seus filhos, que hoje têm na música uma amiga inseparável. “Quem gosta de música nunca está sozinho”, dizia. A música, essa linguagem universal com a qual é possível se comunicar com toda a humanidade.

Uma das canções que você entoava era de sua própria autoria: “O anjinho azul já chegou aqui. Ele veio olhar o nenenzinho dormir”. De fato, você amava os anjos. Você ensinava que eles eram “formas-pensamento de Deus”. Quando tínhamos algum problema com alguém, você nos orientava a pedir ao nosso anjo da guarda que enviasse uma mensagem para o anjo da pessoa. Dito e feito. Mensageiros velozes e diligentes, os anjos se encarregavam de dirimir qualquer desavença.

Você também amava a Sagrada Família. Instruía-nos a sempre convidar Jesus, Maria e José para qualquer evento, qualquer viagem. Dentro do carro, mesmo que fosse uma distância mínima (como no trajeto para a escola), você rezava a Salve Rainha. Quanto poder, quanto amor nessa oração, realizada tantas vezes, mas sempre única.

Eu me lembro de suas frases: “Senhor, dá-me forças para passar servindo e servir passando”. “EU SOU a presença divina atuando nisso (preencher com a solução que se deseja)”. “O Poder que em mim se expande não me limita”.

Mãe, você foi sempre tão doce, tão gentil, tão generosa! Tanto que se despediu devagarzinho… Foi perdendo a memória aos poucos, aos poucos… Sua memória, tão prodigiosa, tão espantosa, que guardava todos os aniversários de todas as pessoas! Sua animação em registrar tudo como “fotógrafa oficial” da família. Para mim, o choque foi absoluto. Como assim? Eu confesso que, no meu desespero, cheguei a sentir impaciência quando você repetia e repetia e repetia uma determinada passagem. O fato é que eu não me conformava em ver desaparecerem, aos poucos, os relatos da principal testemunha da minha vida.

Aí eu me lembrei de quando você interagia com todos os bebezinhos que via na rua. De como eles sorriam para você. Você me contou seu segredo: “em seus olhinhos, eu consigo enxergar a alma imensa aprisionada num corpinho de bebê”. Então era uma conversa de alma para alma. Com você, foi o mesmo. Sua alma grandiosa estava lá, perfeita e radiante, dentro de um corpinho que não mais nos permitia o acesso. Esse corpinho ficou muito, muito pesado… Como no Pequeno Príncipe, ele não mais permitia continuar a viagem. Então agora você habita uma estrela, e à noite todas as estrelas riem.

Mãe, quando morávamos na mesma casa, nos arroubos de adolescente, eu às vezes chegava chateada e cansada (como na canção do Padre Zezinho). Ia direto para o quarto e fechava a porta. Eu tinha a certeza inabalável de que você abriria a porta. Você sempre abria a porta. Sentava a meu lado e conversava comigo. Minha melhor amiga.

Hoje eu sei que isso não é mais possível.

Sabe por quê?

Porque agora as portas não existem mais.

Prova disso é que, nos seus últimos dias no hospital, quando as incertezas e angústias me tomaram, me vi às voltas com perguntas: “O que vai ser, Mãe? Como vai ser?”. Eu senti sua voz dentro do meu coração: “Filha, só ama. Só ama. SÓ AMA.”

menina voando com os pássaros

Eu tive um sonho, sonhei que tinha uma fábrica. A fábrica do amor. Só produzia o bem. Entregava o bem a todos. As pessoas são essencialmente boas. Pratique o bem, faça o bem às pessoas, assim como você gostaria que os outros lhe fizessem o bem.”

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De mãe para filha

Para Vovó Tude

Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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A arte de criar vazios

Depois que fui mãe…

Este é mais do que um texto; é um presente da minha amiga Claudia Brasil. Feliz Dia das Mães!

Depois que fui mãe…

Por Claudia Brasil*

1. Aprendi o que é, de fato, uma noite mal dormida. Ou não dormida e em condições adversas.

2. Aprendi o real valor de uma noite bem dormida.

3. Aprendi o que é medo. Desenvolvi medos estranhíssimos. “Será que ele está respirando? Faz horas que está dormindo sem emitir qualquer som audível…” – Que mãe nunca? Hoje temo, de verdade, a violência urbana, a violência sexual, a violência no trânsito, a psicopatia, doenças que nem conheço ou que inventei (durante meses, tive a convicção de que um dos meus filhos enxergava em preto e branco) ou doenças reais (durante meses temi que um deles tivesse algum comprometimento neurológico que o impedia de começar a andar logo; pedi ao pediatra um encaminhamento ao neuropediatra; dias depois, o menino estava correndo pela casa….). Medo, agora, é para o resto da vida.

4. Aprendi o que é coragem. Acho até que mataria um sapo que ousasse se aproximar de um deles. Tenho pavor de sapo, que fique bem claro. Coragem, agora, é para o resto da vida.

5. Entendi “mágoa de mãe”. Sabe aquele negócio de que seu filho diz a coisa mais besta do mundo pra você (você é muito chata!) e você passa dias ruminando aquilo? Agora eu entendo. Ah, sim, isso faz você chorar, tá? Imagine as coisas mais graves! Tudo “mágoa de mãe”. Nem vou falar dos casais separados e que o filho chega e comunica: quero morar com meu pai. A vida, até o momento, tem sido generosa comigo. Não sei até quando.

6. Aprendi o que é chorar em festinha da escola. Sim, a cantoria é desafinada, a coreografia sai toda errada, as fantasias são desengonçadas, rola esquecimento do texto na peça de teatro. Mas é ele quem está cantando, é ele quem está dançando, foi ele quem confeccionou a fantasia, é ele quem está representando. Logo, fechou a equação: ele faz, você chora. E não é de vergonha, não: é de emoção sincera e profunda. Vai vendo o que é a maternidade…

7. Aprendi a comer resto. Resto da comida do filho, da sobremesa do filho, da papinha do filho, do iogurte do filho, do bolo do filho, da sopa do filho, do biscoito do filho… virei uma usina de reaproveitamento de alimentos.

8. Aprendi o que é paciência. Minha mãe sempre me olhava no exercício pleno da maternidade e dizia “jamais poderia imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que você seria paciente com criança como é com seus filhos”. Na boa? Nem eu.

9. Aprendi o que é simplicidade. Quer coisa mais simples do que ir para outra dimensão apenas porque, agora, seu filho não tem mais dor? Porque ele voltou a se alimentar depois de uma gripe incapacitante? Porque ele aprendeu a andar? Porque ele aprendeu a pronunciar “mãe”? Simplicidade em estado bruto.

10. Aprendi o que é dor. Ver um filho seu se contorcendo de dor e nada poder fazer para alterar esse estado de coisas é um aprendizado prático do que é a “dor das mães”. Ver um filho sofrendo por aquelas razões que você não consegue evitar, desculpe, te leva às lágrimas e te faz sofrer até mais do que ele. É assim que funciona.

11. Aprendi a pedir a Deus. E a agradecer também. Você pede a Ele que proteja seu rebento, que o livre de todo mal, que ele saiba dizer “não” para o que não presta, que só diga “sim” para as coisas do bem, que ele seja feliz, que seja estudioso, que respeito o próximo, que não fique doente mas, se adoecer, que fique bom logo. E agradece por qualquer coisinha que aconteça, afinal, é seu filho, né?

12. Aprendi a entender a minha mãe. Em quase tudo.

13. Aprendi a ser feliz. Qualquer coisa e lá estão os olhos marejados…

14. No final das contas, aprendi que a maternidade foi a minha maior e melhor escola. Aprendi que, nessa escola, a formação é infinita. A gente nunca termina de aprender. Cada dia, uma lição. Cada episódio, um aprendizado. Cada etapa, uma nova conquista. Diploma em papel não há. Mas olhar para o filho e perceber, ao longo da vida, os bons resultados, deve ser mais gratificante do que qualquer grau de doutor. Olhos marejados, alma lavada.

Sou mãe. Fim.

*Claudia Brasil é jornalista e mãe de dois meninos.

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Carta a meus filhos

Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

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Mamífera!

Por que temos filhos?

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

O que você vai ser quando crescer?

Quando eu tinha 8 anos, vi este anúncio na revista:

propaganda vinho marjolet

Logo que te vi, eu disse que gostava de você. Você disse que era fita. / Em francês, o mar é “a mar”. Por que não em português? / De que página, de que livro, de que história de amor saiu esta folha? / No fundo, no fundo, nós somos duas crianças. / Tu és divina e graciosa, estátua majestosa… / Te escrevi sem saber se era teu amor, mas lembrando que gostaria de sê-lo. / Você não deveria ter me tentado com um bombom durante o concerto. Isso é papel que se faça? / Acho que eu vou tomar algumas medidas. A primeira é a medida do Bonfim. / A segunda é sacar a rolha de mais um Marjolet e começar tudo de novo.

Fiquei tão encantada com as frases, a criatividade, o clima evocado, que naquele instante decidi o que eu queria ser quando crescesse: queria ser a pessoa que bola essas coisas.

Fiz campanhas (bem-sucedidas) para a chapa do grêmio na escola e para a torcida organizada do colégio. E só fui descobrir, aos 16 anos, que o nome do curso superior para “a pessoa que bola essas coisas” era Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda.

Trabalho na área, pesquiso muito sobre o tema e tenho paixão pela minha profissão. Um dos momentos mais gratificantes foi conduzir, junto com a equipe, a campanha de arrecadação do Comitê de Ação e Cidadania (o do Betinho) para minimizar os efeitos da seca prolongada no Nordeste em 2012:

propaganda de doação para comunidades no sertão nordestino

SOS Nordeste – quem tem sede, tem pressa.

propaganda. Mídia extensiva. Toalheiro de WC

Toalheiro de WC: “A quantidade de água que você usou para lavar as mãos é a mesma que uma família do sertão nordestino tem para passar o dia.”

Conseguimos em alguns dias o valor de 30 mil reais, o suficiente para construir cinco poços artesianos comunitários nas áreas mais críticas. (Pausa para abrir os parênteses: sempre tem aquele engraçadinho adora ver significados esdrúxulos naquilo que parece claro; nesse caso, foi a piadinha: “puxa, nunca mais lavo a mão quando usar o banheiro…”)

O trabalho do comitê é maravilhoso, caso você tenha interesse: (http://www.youtube.com/watch?v=NGkAolFkYZQ)

É incrível poder usar nosso conhecimento em prol de ações dessa natureza. Isso também me coloca numa posição privilegiada e me dá chancela para compreender que os meandros da publicidade são ponte de acesso escancarado ao comportamento humano. Em vez de buscar os artifícios que ela usa para encantar, cabe descobrir por que as pessoas se encantam. Essa é a chave.

Propaganda sozinha não faz nada. Sua força está no pacto simbólico que ela faz com o público, evidenciando emoções que ele já tem, fazendo-o “sentir na pele” um pouquinho e propondo ações imediatas que trazem satisfação (comprar um produto, fazer uma doação). Se frases de efeito e metáforas mirabolantes fossem suficientes, ninguém mais usaria drogas, nem transaria sem camisinha, muito menos se arriscaria no trânsito, porque o que não falta é campanha pregando isso.

A propósito, eu guardo o anúncio como uma relíquia, ainda que nunca tenha tomado o vinho Marjolet, nem qualquer outro vinho, simplesmente porque não gosto do sabor do álcool. Sou abstêmia. Também sei dos problemas que seu excesso causa. Então este é um exemplo de que é possível consumir apenas o simbolismo de um anúncio, sem necessariamente consumir o produto de fato.

Hoje acompanho de camarote a imaginação dos meus filhos acerca do que eles vão ser quando crescer. O mais velho já foi médico, agora quer ser cientista, ganhador do Prêmio Nobel e dono de uma grande empresa de tecnologia que vai inventar o remédio que cura todas as doenças e o teletransportador.

A do meio também já foi médica de olho de criança, mais tarde incrementada para oftalmologista infantil, e hoje se delicia com a perspectiva de ser a nova Mauricio de Sousa e desenhar o próprio gibi.

O caçula já foi chef de cozinha de pizza, carregador de mala e agora é chef de cozinha de pizza novamente. O curioso é que comer, para ele, nunca foi a coisa que mais adora no mundo. Com minha mania de explicação, deduzi que ele escolheu situações em que me vê feliz: quando ele raspa o prato e o momento em que finalmente resgatamos todas as malas na esteira do aeroporto.

Aqui, observo que o tempo todo falei de profissões. E me lembro de uma conversa com uma amiga do trabalho. Eu estava frustrada com um projeto, que havia me consumido três anos antes, tinha sido abandonado por conta das marés da política, e agora precisava ser ressuscitado. Comentei que essas coisas nos faziam questionar o sentido de tudo, de quem eu era como profissional. Ela me disse: “Marusia, isso é só trabalho.”

SÓ trabalho? Só trabalho. Ainda que pensemos que seja, não é o trabalho o que nos define. Ainda que as pessoas perguntem: “o que você faz?” para saberem quem eu sou, não é isso que sou.

E terminamos nossa conversa propondo uma nova forma de escrever currículos:

Eu, Marusia,

  • adoro música, viagem, doce de leite e pegar jacaré no mar.
  • Adoro o sol, sou uma criatura diurna e absolutamente tropical.
  • Sou toda planejadinha e fico louca quando o planejamento fura, mas também sei curtir quando o imprevisto é muito mais legal do que o script.
  • Socializo minhas descobertas e fico muito feliz quando minha experiência tem reflexo positivo na vida de outras pessoas.
  • Meu maior defeito é minha maior virtude: ser transparente.
  • Minha família é meu bem mais precioso. Meu talento é incentivar as pessoas para que elas descubram o que têm de melhor.

Esse, sim, é um curriculum vitae real. Currículo vital. Currículo da vida.

Quero que meus filhos sejam livres para escolherem seus caminhos. Esse é o tipo de currículo que eu espero que eles escrevam, com suas próprias qualidades.

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Veja também:

Publicidade, Propaganda e Design em ideias simples e bem-boladas:

http://www.tumblr.com/blog/add1ad

Aqui no blog:

Os segredos dos publicitários

Quero ser criança quando eu crescer

O Livro do Bebê

Merenda

Três histórias de amamentação

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê exclusivamente por 5 meses. No começo, foi bem difícil – rachaduras, empedramento… depois, foi tranquilo. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que teve parto natural, sem analgesia, no melhor estilo indígena. A amamentação, contudo, não foi simples. O bebê “mordia” forte (com a gengiva), ficava impaciente e chorava muito. Com o apoio do marido, a mãe foi a um banco de leite, onde fizeram ordenha e ensinaram massagem. O leite não descia, e o mamilo ficou muito ferido com as investidas do bebê. E dá-lhe água na mãe, comida com “sustança”, homeopatia… E nada. Então chamaram a melhor doula da cidade, o anjo do aleitamento. Ela introduziu a técnica da relactação, para estimular a mama. Foi quando o bebê começou a vomitar sangue, que vinha dos mamilos da mãe. Chegou-se à conclusão de que deveria ser criado um clima de absoluta serenidade, porque a agitação do bebê e a consequente ansiedade da mãe estavam interferindo no processo. Então, ao final do primeiro mês, o leite desceu em plenitude, fazia gosto. Mas o bebê trancou a boquinha, virou o rosto e não quis mais mamar. Nem dormindo. Ninguém contou com a variável “comportamento do bebê”. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê até os dois anos. O começo não foi simples, porque ele ficava o tempo todo no peito. Depois, foi muito bom, e teria ido para além dos dois anos se não tivesse aparecido a horrorosa virose “mão-pé-boca” (mas isso é assunto para outro post). De toda forma, uma experiência maravilhosa para mãe e bebê. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Vou me ater à mãe da segunda história. Porque sua presença foi essencial para mim, quando meu primeiro filho nasceu. Eu, do alto da minha arrogância, cheia de cursos de puericultura, com centenas de livros lidos e teorias na cabeça, prostrei diante do desafio. E recebi dela palavras de puro aconchego e humildade, ao mesmo tempo em que traziam transbordante afeto e doação:

“Tá tudo certo.”

“No início, dói. Mas acredite, depois você vai achar uma delícia amamentar.”

“Segura as pontas só mais um pouquinho, confie em mim.”

“Não existe nada igual quando você vem com o peito cheio de leite e sente o bebê esvaziar tudinho.”

“No começo é punk, mas depois que eles crescem a gente morre de saudade de amamentar. Curta cada segundo.”

Eu confiei nela, como as antigas mães em seus círculos, e deu tudo certo.

Meu coração se estilhaça de indignação quando lembro o que ela ouvia dos outros:

“Você não está amamentando?”

“Olha, até o suorzinho do bebê cheira diferente, porque não é leite materno.”

“Essa criança vai viver no hospital.”

“Faltou força de vontade, caiu na esparrela da indústria do leite.”

O que essa mãe tem de diferente das outras duas? NADA.

Nada MESMO, porque essas três histórias são da MESMA MÃE.

Hoje, com três filhos lindos, amados, saudáveis e inteligentes, essa mãe é alvo de toda a minha admiração e gratidão. Pois foi com ela que eu aprendi:

A minha experiência é minha.

Cada experiência minha é única.

Se minha experiência for bem-sucedida, pode inspirar outra mãe.

Se não for, não deve desestimular ninguém. Contudo, minha experiência pode aliviar outra mãe, quando ela descobre que não está sozinha.

E o mais importante:

A minha experiência não é referência para medir outra mãe.

A MINHA experiência não é motivo para julgar – e muito menos condenar – outra mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=yEQ_qHcVv2g

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Veja também:

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

O maior inimigo da mãe

Perigo de ser mãe perfeita 5 – Vá pela sombra

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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Veja também:

Protesto Materno: eu quero mais

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

Quem é que abranda a saudade dessa neta?

“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

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Veja também:

Para Vovó

Noite profética

El Bigodito

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade

Mamífera!

Mãe Horta, Mãe Jardim

Observo em mim duas funções maternas: a Mãe Horta e a Mãe Jardim. Essas analogias vieram da seguinte história:

Uma menina fica órfã de pai e mãe e vai morar com o primo em uma mansão. Ele é doente e também não tem mãe. As duas crianças iniciam uma amizade. Um dia, descobrem um jardim secreto (e abandonado) na mansão. Com a ajuda de uma aia, os primos voltam a cultivá-lo e desabrocham como as flores, em plena saúde e alegria de viver.

Esse é o enredo de “O Jardim Secreto”, sucesso de literatura escrito em 1911 por Frances Burnett. Diana e Mario Corso fazem uma linda análise deste livro. Na falta da presença materna física, os autores localizam duas pessoas que fazem as vezes de mãe na história: a rígida governanta, que cuidava do bem-estar básico; e a aia, que supria de fantasia os dias do menino doente e da prima.

Os Corsos ainda fornecem a metáfora-chave para a compreensão do clássico: o jardim evoca o símbolo materno, cuja função não pertence à ordem das necessidades básicas, mas à da beleza. Flores são cultivadas não como alimento, mas pelo deleite (“A Psicanálise na Terra do Nunca”, p 219). Aí reside o desabrochar da vida.

Eu sou Mãe Horta quando me preocupo com as necessidades básicas, com cada detalhe. Unha cortada, dente escovado, dever de casa feito. A Mãe Horta é racional. É o meu lado que pede para levar o casaco. Que programa cada segundo da viagem de férias, faz as malas. E também matricula na natação, leva ao médico e ao posto de vacinação. Participa das reuniões na escola. Elabora o cardápio diário. Impõe limites. Devora milhões de livros e lê os sites sobre maternidade.

Sou Mãe Jardim quando brinco, dou risada, fico espontânea. Conto história, canto, danço. Quando deixo a lógica de lado e abraço, mesmo quando meus filhos mereciam uma bronca.

O problema é que a Mãe Horta não deixa muito espaço para a Mãe Jardim. São tantas tarefas, num cotidiano cronometrado, mediante tanta pressão, que quando tudo é cumprido muitas vezes só resta o cansaço. Sobram ali as florezinhas murchas e mixurucas.

É como se meu lado Mãe Jardim, o arquétipo materno em sua essência e totalidade, estivesse sufocado. Sendo ele o componente fundamental para a constituição de uma criança, como afirmam os Corsos, essa constatação me fez parar diversos momentos para refletir.

A dificuldade existe porque a Mãe Horta também é fundamental. Tudo bem que essa função pode ser dividida com outras pessoas, mas nem sempre. Além disso, há um perigo: a Mãe Horta exagerada se enrijece, é repressora e tende a projetar nas outras mães tudo o que ela não concorda.

Então estou em busca de um outro símbolo: quero ser Mãe Pomar. No pomar, às flores sucede o alimento. Ser Mãe Pomar é tentar colocar afeto e criatividade nas tarefas, mesmo as mais comezinhas, fazendo com que elas percam o caráter de obrigação. Uma conversa legal durante o almoço, uma brincadeira na hora do banho, uma piada para cortar a unha. O simples ato de estar junto é uma oportunidade de conhecer melhor as crianças.

Confesso que estou mais para uma plantação de morango. Nutritiva, mas azedinha… 😉

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Veja também:

O Meio Termo de Ouro para pais e mães

Caminhos

Feche a boca e abra os braços

A sabedoria que só se conquista aos dois anos

Somos tão jovens

Renato Russo quando era criança

Renato Manfredini Junior – Renato Russo

Ontem assisti ao filme “Somos tão jovens”, que conta a história de Renato Russo e o nascimento da banda Legião Urbana. Fiquei mexida, logo de início, nos créditos de apresentação do filme, com as fotos de quando Renato era criança.

Podia ser porque moro em Brasília. A sensação de familiaridade é intensa: é muito louco se ver retratado nas reconstituições das décadas de 70 e 80. Podia ser porque as músicas da Legião Urbana marcaram profundamente minha adolescência. Mas nada se comparou às fotos reais do cantor, somadas à cena em que ele cai da bicicleta (com o uniforme do Marista) e ao diálogo com os pais.

Renato estudou no Marista, tradicionalíssimo colégio católico da capital. Seu pai trabalhava no Banco do Brasil, como o meu. Em um momento do filme, seus pais dizem: “onde está aquele menino que se destacava por bom comportamento?” Será que, durante a infância de Renato, eles poderiam imaginar tudo o que viria em seguida? Essa é a razão pela qual o filme mexeu tanto comigo: pelo fato de ver alguém, que poderia tranquilamente ter sido meu vizinho de quadra ou meu colega de turma, construir uma trajetória tão ímpar (por vezes sofrida) e cheia de significados como fez o criador da Legião Urbana.

O fato de morar na capital fez com que eu ouvisse as músicas em primeira mão, desde a origem. Era aquele som que preenchia tudo, tanto o espaço quanto a alma. Um som rebelde mas também meio pueril, inocente, e com um traço de angústia que é muito típico da juventude. No filme, enquanto se recupera de uma cirurgia, Renato devora livros, principalmente de filosofia. Vêm daí suas letras diferentes? Ou é o oposto: sua personalidade já questionadora e seu permanente sentimento de inadequação encontraram eco nas palavras dos filósofos? Efeito Tostines, impossível responder.

Cena do filme Somos tão jovens

Cena do filme “Somos tão jovens”

Ninguém aqui está falando de exemplo, nem de mártir. Acredito que o melhor do filme foi mostrar o lado humano do artista, suas perigosas incursões pelo álcool e pelas drogas. Estou falando de legado. De alguém que compôs letras que até hoje são atuais. De quem vendeu mais de 20 milhões de discos. E explicitou sua transformação pessoal, mais tarde até por conta da Aids, em canções como Monte Castelo, Giz e Pais e Filhos.

Renato Russo com ramalhete de rosas

Pais e Filhos é um hino. Retrata o crescimento das crianças em uma sequência magistral de versos:

Bebês “Quero colo!”
3 anos “Vou fugir de casa!”“Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo…”
Adolescentes “Só vou voltar depois das três.”

Já a estrofe a seguir parece resultado do que nos invade quando deixamos de ser somente filhos, para sermos também pais:

“Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você

O que você vai ser, quando você crescer?”

Me vi menina no filme, brincando “embaixo do bloco”, passeando no Opala do meu pai pelas tesourinhas de Brasília. Concordo com Renato, sou mãe mas ainda sou criança. Ao mesmo tempo, sou a mesma e sou outra. É aquela metáfora do rio, gasta, mas verdadeira: é o mesmo rio, mas as águas são outras.

Para arrematar, hoje conversava com uma amiga sobre filhos. Ela me contou da felicidade incomensurável que sentia com seu filho, mas que às vezes vinha acompanhada pelo medo de perdê-lo. O medo de perder é um modo eficaz de nos chacoalhar para vivermos o momento presente. Mas não pode ser constante, porque também paralisa, envenena.

Por mais que queiramos racionalizar a morte, nunca estaremos suficientemente preparados para ela. E, se pararmos para pensar, convivemos diariamente com “desaparecimentos”. Olho para minhas crianças e já não vejo mais os bebês que foram. Olho para minhas crianças e, como os pais de Renato Russo, não consigo vislumbrar sequer um segundo do que será seu futuro, todas as histórias incríveis que terão pela frente, que legado deixarão para o mundo.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Mamífera!

No post de hoje, a escritora Maria Amélia conta um pouco sobre o desmame e o que envolve esse processo. Quando a decisão cabe à mãe, sobrevêm sentimentos diversos relacionados a vontade, sono, prazo, reconfiguração do encontro e, ainda, nossa postura diante do “Lá Fora” – que parece insistir em transformá-la numa decisão que é “de todo mundo”.

“Não mama?” “Ainda mama?” “Isso?” “Aquilo?” Já que não estamos imunes às “interferências”, então vamos usá-las a nosso favor, com um relato sincero que pode inspirar quem está atravessando a mesma fase.

“Mamífera!

Por Maria Amélia Elói

Tenho duas filhotas queridas: Luana Lis, de 6 anos e 1 mês; e Mariana Flor, de 2 anos e 5 meses. Amamentei a primogênita até os 2 anos e 5 meses e estava planejando desmamar a caçula quando ela completasse essa mesma idade. Ai, ai, ai, o prazo está caducando… Mas sou mamífera de carteirinha! Não nasci para tirar o doce (leite) da boca da criança! Adoro os meus grudinhos como penduricalhos.

Ainda não estou muito certa se chegou a hora da Mariana, ou melhor, se chegou a minha hora. Quando imagino o fim dos nossos lácteos encontros, sinto um treco esquisito, pressinto uma saudade ardida, daquelas que umedecem os olhos.

Não foi difícil desleitar a Luana. Certo dia, mostrei-lhe uma faixa enrolada aos seios e disse que eles estavam dodóis; por isso, eu não poderia lhe dar o mamazinho. Quando eu chegava do trabalho, ela vinha correndo me encontrar, com a mesma pergunta: “Sarou, mamãe? Deixe eu ver”. Isso durou uns três dias. Ela demonstrava dó de mim, e eu também ficava com pena dela (na verdade, mais de mim que dela). Eu chorava no quarto, enquanto meu marido colocava a Luana para dormir. O coitado não sabia se acudia a mulher plangente ou a filha. Mas a adaptação foi superpositiva, e o consolo veio logo. Não mais podendo se utilizar do meu peito como chupeta, Luana passou a dormir a noite toda já no primeiro dia de desmame! Parecia milagre para uma criança que acordava no mínimo quatro vezes por noite.

Desleitei a Luana porque eu precisava dormir! O motivo do meu cansaço (em razão do acorda e levanta toda hora para amamentar a Luana) era forte. E agora? Qual é a “desculpa” para eu tirar a Mariana do peito? O anjinho tem dormido bem melhor, chamando-me apenas uma ou duas vezes por madrugada. A bezerrinha merece “condenação”? Vocês precisam ver o sorriso dela, pedindo, em volume aumentativo: “Mamãe, quero mamar, mamar, mamar!”. E quando ela termina um lado: “Quero mais. O outro, o outro, o outro”. É o trem mais fofo do planeta!

Há quem diga que o bebê precisa ser desmamado logo — para se tornar mais independente e para não interferir na alimentação. E no caso da mãe completamente presa a seu pingentinho sugador? Como incentivá-la a tirar o peito do filho?

Muitos reprovam quem amamente até a criança ficar grandinha. “Ela ainda mama? Não acredito! Isso vai até quando? Até o baile de debutantes? Até o casamento?”. É um povo que teima em se intrometer na relação e na refeição dos outros, hein?

Estou lendo um livro fascinante, chamado “Quarto”, da escritora irlandesa Emma Donoghue, que enfoca a relação de carinho e confiança construída entre uma mãe e seu filho, de cinco anos. Eles vivem confinados num quarto, sem nenhum contato com o Lá Fora. O narrador é o próprio menino, Jack, que sempre pede à mãe para “tomar” um pouco. Trata-se de um garoto muito esperto e cativante, que não dispensa o leitinho da mãe. No caso, além de fortalecer o amor entre eles, a amamentação é até uma fonte nutritiva para Jack, que se alimenta mal naquele cárcere. É bem provável que, se eles vivessem em comunidade, a mãe já teria desmamado o filho; mas, sem a interferência do Lá Fora, eles podem manter esses momentos de graça.

Não, não vou aleitar a minha Flor até os 5 anos. Pelo menos acho que não. Mas talvez eu não tire a pequena do peito neste mês, só porque ela chegou à data limite. Quem sabe quando ela completar 2 anos e 6 meses, ou 2 anos e 11 meses? Não me considero uma pessoa descontrolada ou neurótica. Às vezes até acho que sou uma mãe sensata e equilibrada. Em breve, a questão do desmame estará resolvida, sem grandes traumas! Prometo contar o desfecho.”

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Veja também:

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

Felicidade real

Hoje estou no Blog Mãe Bacana, em postagem especial para o Mês das Mães:

Felicidade real

De todas as definições para “filhos”, esta é a que adoro:
“Crianças: adoráveis seres com objetivo de nos fazer sempre revisitar nossas certezas.” (Nanci)
Trata-se de uma permanente reconfiguração do que parecia estabelecido para sempre, acompanhada da inevitável comparação entre “antes” e “agora”.

[continue lendo]

Blog Mãe Bacana de Gisa Hangai

Os segredos dos publicitários

Dia desses eu li no Facebook uma definição para alimentos saudáveis: todos os que não têm propaganda.

Os intervalos comerciais trazem realmente uma sucessão de produtos industrializados, cujos apelos se apoiam em:

  • Personalidade de Marca;
  • Design chamativo;
  • Predominância de enredos de conteúdo emocional, com associação a situações prazerosas, até mesmo fantásticas;
  • Praticidade no consumo. Exemplo: “pronto para beber”;
  • Algum elemento racional. Exemplo: “enriquecido de vitaminas”;
  • Presença constante na mídia; repetição.

A propaganda é o que garante visibilidade a esses produtos. E vai se estender em cuidadosas estratégias até ao ponto de venda, seja o supermercado ou a lanchonete.

Propaganda não é mera informação; é informação “embalada para presente”. Para encantar, convencer, persuadir. E superar a concorrência.

Os alimentos saudáveis têm todas as características para superar essa concorrência. Podemos aplicar as táticas da propaganda para dar a eles mais visibilidade.

Então, seguem alguns anúncios que gostaríamos de ver:

propaganda de banana. publicidade de alimento saudável.

Clique na imagem para ampliar

propaganda de água de coco. publicidade de alimento saudável

Clique na imagem para ampliar

anúncio publicitário de palitos de cenoura

Clique na imagem para ampliar

Nos Estados Unidos, a simples reorganização dos refeitórios gerou resultados impressionantes. O que foi feito?

  • Cartazes e banners com fotos maravilhosas de alimentos saudáveis logo na entrada;
  • Mesas com buffet permanente de frutas cortadinhas;
  • Frutas e legumes em bandejas separadas por cor, apresentados bem suculentos;
  • Refrigerantes, frituras, guloseimas fora do alcance dos olhos e da mão – todos escondidos atrás do balcão. Se a criança quiser, vai ter que pedir.
refeitório escolar

Foto: Larry Fisher

Podemos tomar emprestadas essas ideias e testar em casa. Os “garotos-propaganda” não poderiam ser melhores: nós, os pais. Saborear essas delícias em família é o melhor exemplo…

A propaganda é inteiramente fundamentada na marca. Todos os outros apelos são para enaltecer a assinatura, a marca. Podemos convidar as crianças a pensar em nomes, slogans e enredos divertidos para os alimentos.

Os mestres de redação publicitária são taxativos para que os trocadilhos sejam banidos para todo o sempre; mas estes são tão engraçados que a gente abre uma exceção…

Para a criançada que curte super-heróis:

(Campanha completa)

anúncio publicitário de uvas Hortifruti

anúncio publicitário laranja verde Hortifruti

anúncio publicitário He manga Hortifruti

Anúncio publicitário Mulher Marervilha Hortifruti

Para quem gosta de cinema:

(Campanha completa)

anúncio publicitário A incrível Rúcula Hortifruti

anúncio publicitário Hortaliça rebelde. Hortifruti

anúncio publicitário dois milhos de francisco. Hortifruti

batatas do caribe

anúncio publicitário Pepino Maluquinho Hortifruti

anúncio publicitário chuchurek hortifruti

anúncio publicitário e o coentro levou... hortifrutiPara quem adora música:

(Campanha completa)

anúncio publicitário couve garota de ipanema Hortifruti

anúncio publicitário eu uso brócolis Hortifruti

anúncio publicitário like a vagem hortifruti

Para exercitar a imaginação e encontrar formas semelhantes (como nas nuvens!):

(Campanha completa)

anúncio de gengibre Hortifruti

anúncio publicitário beterraba hortifruti

anúncio de tangerina Hortifruti

Para quem lê revista de fofoca:

(Campanha completa)

Revista Cascas Hortifruti

anúncio publicitário Revista Cascas alho hortifruti

Para os antenados em moda:

(Campanha completa)

Publicidade. A moda é usar roxo Hortifruti

A moda é usar verde anúncio da Hortifruti

Esta é importada (Diana Ross):

Na pesquisa, ainda encontrei perdido um anúncio de frutas brasileiras. Mas só foi veiculado no exterior. Apex, vamos divulgar no Brasil também…

campanha para promoção de frutas brasileiras no exterior

Um tiquinho de contrapropaganda:

Pense fora da caixinha. Salada de frutas Hortifruti

A diferença entre a publicidade e a realidade (rs!)

(post completo)

diferença entre foto da embalagem e a realidade

Nossa, agora vou ali na cozinha comer uns palitos de cenoura com água de coco… De sobremesa, uma banana amassadinha, hmmmmmmm! ^^,

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Veja também:

Brinquedos que gostaríamos de ver

Verdades

Verdades

Sites visitados:

Nemo e a construção da paternidade

Utilização de Nemo no setting terapêutico

Violência na Turma da Mônica

Em defesa da Turma da Mônica

Princesas Disney

As princesas Disney e o feminismo

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Abaixo, estão versões diferentes de três produções infantis:

Marlin, Nemo, Dory no fundo do mar

Procurando Nemo – Disney Pixar

Órfão de mãe, portador de necessidades especiais, enfrenta o pai dominador. O enredo apresenta, sem cortes, cenas de canibalismo, sequestro de crianças, trabalho infantil, vício, mentira, violência e perseguição. Emocionante aventura de um pai em busca do filho, repleta de lindas lições, como a superação, a confiança, a amizade, o estabelecimento de metas e o autoconhecimento. Além disso, oferece novas perspectivas acerca da paternidade: os desafios, o conflito entre ser pai ou amigo do filho e o imprescindível amor paterno no desenvolvimento da criança.
Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali

Turma da Mônica – Mauricio de Sousa

Histórias de um grupo de crianças, em situações estereotipadas e sistemáticas de pancadaria, bullying, compulsão alimentar, inconsequência e falta de higiene. Uma produção que extrapola o mundo dos quadrinhos (atualmente um monopólio nacional, na falta de outras opções de gibis para crianças no Brasil) para compor uma poderosa indústria de bens de consumo. Histórias de uma turma de crianças que trazem lições como amizade, autoestima, criatividade, respeito à diversidade, em um ambiente bem brasileiro. Os quadrinhos mostram como pode ser divertido brincar na rua e a importância de se cuidar do meio ambiente. A personagem principal é do sexo feminino, que sabe se defender e exercer sua liderança sobre o grupo. Ela e as outras crianças foram inspiradas nas filhas e nos amigos de infância do autor, o que explica a sensação de identificação e a familiaridade por parte do leitor.
Aurora, Ariel, Branca de Neve, Jasmine, Cinderela e Bela

Princesas Disney

Universo sexista, em que as mulheres só têm valor se forem bonitas, e cuja realização pessoal só é possível no casamento. Para alcançar esse ideal, elas abandonam suas famílias e seus amigos, abrem mão de seus talentos e são capazes até mesmo de mudar o próprio corpo. Uma delas, na verdade, nem precisou estar acordada para conseguir a atenção do futuro marido. Adendo: Os homens também precisam ser lindos e ricos. Um convite ao sonho e à fantasia, com protagonismo feminino. No reino encantado dos contos de fadas, mulheres corajosas demonstram doçura, bondade, solidariedade e sacrifício pelo outro, e provam que a força poderosa do amor sempre vence o mal.

E aí? Qual é a versão “verdadeira”?

Nenhuma delas.

Porque nada é totalmente bom, nem totalmente mau. Nada tem apenas um lado.

Apegar-se a uma versão é fazer como os cegos que apalparam um elefante. Quem tocou na tromba, achou que era um bambu. Quem tocou no dorso, uma parede. O rabo virou uma corda; a pata, um pilar. Ora, um elefante não é uma soma de bambu, parede, corda ou pilar. É um todo, um conjunto maior que a soma dessas partes isoladas.

Os cegos apalpando o elefante

E quando o elefante nem existe? É uma ilusão, como essa gravura de cinco patas?

ilusão de ótica desenho de elefante

É o mesmo caso dessas produções infantis: não existem. São pura ficção, de entretenimento.

Nemo realmente é órfão, Marlin realmente é dominador. Há cenas de canibalismo (a barracuda que devora a mãe de Nemo), sequestro (o mergulhador que o leva para o aquário), exploração infantil (quando Gil o convence a travar o filtro). Mas também é uma história de superação e oferece uma rica gama de visões sobre o amor paterno.

Mônica realmente bate nos amigos, porque é vítima de bullying. Maurício de Sousa realmente tem muitos licenciamentos de produtos da Turma da Mônica, mas isso é reflexo do sucesso dos personagens. Magali é compulsiva, Cascão é avesso à higiene. Contudo, até esses estereótipos são úteis para ensinar. Existem vários exemplos de respeito às diferenças e exercício da cidadania. Fora que as histórias, tão brasileiras, são garantia de diversão.

Sobre as princesas Disney, elas são mais que o somatório das duas versões, a misógina e a cor de rosa.

A pergunta que surge é: por que essas e outras produções midiáticas fazem tanto sucesso entre as crianças, geração após geração? Muito, muito além de questões como consumismo e alienação, elas fazem sucesso porque contêm uma fortíssima carga simbólica. Porque trazem arquétipos e outros aspectos universais. Não necessariamente são exemplos a ser imitados.

Todos esses personagens e suas histórias estão abertos a infinitas interpretações. E continuarão a produzir sentidos no futuro.

Como diz Eni Orlandi, em Análise do Discurso, “sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo” (Discurso em Análise. Editora Pontes, 2012). Isso significa que, ao ter contato com determinado discurso, a pessoa que interpreta e a interpretação são indissociáveis. Além disso, autora afirma que “o sentido não se fecha, assim como o sujeito também é itinerante”. O mesmo discurso, portanto, é passível de inúmeras análises, até pelo mesmo sujeito.

E assim dão margem a muitas releituras:

princesas Disney vestidas como as vilãs

Como vilãs

Princesas Disney fazendo careta

Fazendo careta

Princesas Disney acima do peso

Inspiradas nos quadros de Fernando Botero

Ariel, Branca de Neve, Bela e Cinderela de óculos

Mulheres de óculos

Princesas Disney sem cabelo

Apoio na luta contra o câncer

Branca de Neve com bebês e marido descansando

Quem sabe o príncipe virou um sapo…

Quadrinho com princesas Disney falando dos maridos

Princesas na versão Desperate Housewives

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Princesa Merida com arco e flecha

Merida, uma princesa Disney que não se casa no final

O que fazer diante de Nemo, Mônica, princesas e todos os outros produtos infantis de entretenimento? São muitas as opções:

  1. Evitar que a criança tenha acesso a eles, para protegê-la;
  2. Esperar que a criança tenha maturidade antes de ter acesso a esses produtos;
  3. Deixar a criança escolher o que quer ver e confiar que ela saberá a diferença entre ficção e realidade;
  4. Mostrar os produtos à criança, até para que ela conheça o “lado sombrio da Força” e saiba se defender;
  5. Explicar à criança os prós e os contras;
  6. Deixar que a criança apresente sua própria interpretação sobre os produtos;
  7. Outras.

E aí? Qual é a opção correta?

Ora, essa também não é uma questão de certo ou errado. Cada família deve optar por aquilo que faz SENTIDO para ela, em razão de suas possibilidades e suas crenças. E nem sempre o que é verdade para uma, o é para outra.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 2: o que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: por que nos identificamos e espelhamos nelas?

A doação de brinquedos ou Síndrome de Toy Story

Toy Story é um fenômeno. A história é cativante, inteligente, a animação é primorosa. Mas penso que há outro aspecto que explique seu sucesso: a identificação do público com os personagens. Quem nunca imaginou que seus brinquedos tivessem realmente vida própria?

andy and woody
brinquedos de toy story na caixa

Eu, por exemplo, tinha 16 bonecas. Aos 9 anos, me apaixonei por uma que ganhei de Natal, a Dindin. Ao mesmo tempo, olhava para as outras 15, na prateleira… Tadinhas! Em brincadeira pode tudo, mas ser mãe de 16 definitivamente não estava em meus planos. Então resolvi abrir um “orfanato”. Era ótimo, porque eram horas e horas brincando, pra dar conta de lavar tantos pratinhos e roupinhas, dar banho em todas e colocar para dormir.

boneca Dindin, da estrela

Dindin

O problema é que até hoje eu tenho síndrome de Toy Story. Não posso dizer que os brinquedos têm vida (ninguém me provou o contrário rsrs!), mas com certeza eles têm história. Estão impregnados dos significados que damos a eles.

Todos os anos, fazemos uma triagem enorme aqui em casa. Separamos o que não serve mais, o que segue para doação e o que é para o lixo. Com roupa não há problema. O problema são os brinquedos. O “estado” dos ditos cujos não é o critério, afinal os mais velhinhos tendem a ser os mais “brincados”. Idem os brinquedos de sucata, afinal, qual merece ficar: um brinquedo lindo industrializado ou um todo amarfanhado mas feito por eles?

pesadelo do Woody

Meus filhos estão acostumados e ajudam em tudo, separam os que não querem mais. Mas aí eu começo: “Ooooooh, o cachorrinho que foi presente da sua vó… tem certeza?….”

Pois no fim do ano passado, com a Campanha Natal sem Fome do Comitê de Ação e Cidadania (o do Betinho), lá vai Marusia e sua sacola com vários bichinhos de pano. Meu caçula chegando aos 5, ninguém mais brincava com os bichinhos. Entre eles, estava uma tartaruga de plush que eu havia comprado para meu filho mais velho, quando estava grávida de 2 meses. Foi o primeiro brinquedo que eu comprei pra ele. Bastou eu olhar para a tartaruga e pronto. Disfarcei pra ninguém me ver chorando ao depositá-la na caixa de coleta.

woody dando tchau

Mais tarde, entendi que meu choro não foi apego ao bichinho, mas saudade de quando meu filho era bebê, saudade de quando ele estava na minha barriga… E, no final, a mesma síndrome de Toy Story que me fez chorar foi o que me salvou, ao pensar na criancinha que ia receber a tartaruga de Natal…

Bonnie abraçando Woody

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Veja também:

A brincadeira mais gostosa do mundo

Lembranças de infância

Quando eu era criança, achava que…

Onde está meu bebê?

Quem vai ficar com as crianças? Análise

Li um texto de Rosely Sayão sobre o que fazer quando as crianças entram em férias escolares, ampliando o escopo para o que significa ter filhos. O artigo por si só já chama a atenção, mas os comentários dão novas matizes à discussão. Assim, optei por desdobrar a análise do texto em dois estágios:

  1. Análise do artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?” e os comentários feitos pela internet – neste post;
  2. Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos.

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  1. O artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?”

Leia o artigo e os comentários:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/1195154-quem-vai-ficar-com-as-criancas.shtml

Análise

Em Análise do Discurso, não se busca o que está “por trás” do texto. A mensagem fala por si só. Assim, a segunda coluna evidencia, em outras palavras, o que já está presente no artigo, sem fazer juízo de valor.

Pontos principais do texto Análise
Uma mãe se magoou porque teve que ficar com o filho e não pôde ir a um cruzeiro sozinha. A mãe efetivamente ficou com o filho e não viajou, cumprindo com “suas obrigações”. Ela se magoou, mas não deveria se sentir assim. Afinal, “Reclamar não é produtivo, já que o desejo de ter filhos foi dos próprios pais.” Deste trecho, depreende-se: filhos são sempre fruto de desejo.
Ir para a escola quando a maioria dos colegas não está não deve ser agradável. As crianças sabem o significado de férias. Ninguém gostaria de passar férias em seu local de trabalho. Crianças também precisam de férias.
Ter filhos significa ter de renunciar, mesmo que temporariamente, a diversas coisas. Ter filhos implica sacrifícios, ainda que por um tempo.
É recente essa ânsia dos adultos de criar programação para os filhos. Eles mesmos podem fazer isso, mas só se tiverem tempo para o ócio. Crianças são superestimuladas no decorrer de todo o ano, e os pais devem garantir seu descanso.
Por que muitos pais tratam as férias dos filhos como um problema? Talvez seja difícil conviver com eles por períodos maiores do que os pais estão acostumados. O convívio com os filhos é algo difícil. Se fosse natural e bom, os pais não precisariam se habituar para darem conta.
É um problema quando queremos viver com filhos do mesmo modo que vivíamos antes de tê-los, e quando nossa vida desobrigada deles parece ser muito mais sedutora. Ter filhos muda a vida dos pais para uma vida “obrigada” e pior em comparação com a vida de antes.
Por que temos filhos? A resposta já foi dada no texto: “Ter filhos significa acompanhar a vida de uma criança, cuidar dela, dedicar-se a ela, ficar disponível para o que possa acontecer.” Denota um movimento sempre na direção dos pais para filhos, sem abordar nenhum tipo de contrapartida.

Os comentários ao texto de Rosely

Até o dia 8/1/2013, foram feitos 27 comentários pela web. Participaram 11 homens e 9 mulheres (em certos casos, houve mais de um comentário por pessoa – todos de homens). A maioria (13) concordou com o texto.

Argumentos de quem concordou Análise dos comentários
Ter filhos não é para qualquer um. Ter filhos é uma empreitada complexa, que requer preparação.
As pessoas querem ter filhos e continuar com a vida de solteiro. Isso reflete a imaturidade, o egoísmo e a infantilidade desses pais. A vida de solteiro é imatura, egoísta e infantil, o oposto da vida que devem ter os pais.
Hoje todo mundo quer apenas olhar para os direitos, se esquecendo dos deveres. “Filhos” estão no rol de “deveres”.
Ninguém deve pôr filhos no mundo pra dar trabalho pros outros. Filhos dão trabalho. E quem deve assumir esse trabalho são os pais.
Filhos são pessoas, não bonecos. Filhos nem sempre correspondem às expectativas dos pais.
Os pais abdicam por um período de algumas coisas, como seus próprios pais também fizeram. Dar continuidade ao processo de criar filhos equivale a oferecer um tributo à atitude dos próprios pais. E se os próprios pais foram irresponsáveis? Além disso, se for uma questão de retribuição, não é mais lógico fazê-la com os próprios pais em vez dos filhos?
Em vez de reclamar, eles deveriam aproveitar melhor o tempo, pois em breve as crianças serão adultas. Este é um paradoxo. Se o convívio é bom e deve ser aproveitado enquanto os filhos são crianças, não haveria motivo para reclamar.
A criança não pediu para nascer. Se foi um “um acidente”, é necessário “pagar” o preço pelo “acidente”. Ao contrário do texto, aponta-se a possibilidade de um filho não planejado. Mesmo esse “acidente” deve ser assumido.
A criança enxerga a escola como um depósito. Crianças também precisam de férias.
Por causa da falta do convívio familiar, a criança não vai respeitar os pais, pois são estranhos. Os pais perdem o controle, e os professores também. As consequências de não cumprir a obrigação de pais são funestas e vão além do ambiente familiar.
Filho em casa deve ser uma alegria e não um estorvo. Pela primeira vez, alguém não classifica o convívio com os filhos como algo penoso, dando uma pista de que as férias com eles podem, sim, ser prazerosas.
Caso os pais tratem seus filhos como estorvo, logo aparecerá alguém oferecendo alternativas sedutoras que supostamente preenchem esse vazio, como as drogas. O convívio com os filhos é um sacrifício, mas evita sacrifícios ainda maiores depois que eles crescem.

Houve quem concordasse com Rosely e criticasse quem foi contra:

“A verdade incomoda aqueles que já se sentem culpados, mas tentam esconder até de si mesmos e adoram rebater com jargões do tipo ‘não sou menos mãe porque quero ir pro cruzeiro sozinha’ “.

As justificativas de quem não concordou foram:

Argumentos de quem discordou Análise dos comentários
As mulheres trabalham e têm somente 30 dias de férias por ano, enquanto as crianças têm no mínimo 60 dias. Em pelo menos metade das férias as crianças não poderão ficar com os pais que trabalham. A insistência nisso força o conceito de incompatibilidade entre trabalhar fora e cuidar dos filhos.
As famílias que não herdaram fortunas precisam trabalhar para criar os filhos e fazer deles pessoas felizes. Filhos demandam investimentos financeiros.
As mães não devem ser julgadas. Elas trabalham por necessidade, e não por hobby. É muito fácil falar quando se pode optar simplesmente por “não trabalhar” para cuidar dos filhos. Nem sempre a mãe pode optar entre trabalhar fora e ficar em casa, principalmente na ausência do pai.
“Não deixaria de trabalhar por causa dos meus filhos, e não deixaria de ter filhos por causa do trabalho.” As mães querem conciliar maternidade e carreira.
A inexistência de estruturas adequadas para as crianças nos 60 ou mais dias de férias é um problema real e não deveria ser apresentada nunca como “pais irresponsáveis que não ligam para os filhos”. A criação dos filhos também é um dever do Estado.
Seria um retrocesso obrigar as mulheres a ficar em casa e serem donas de casa. O texto cita o exemplo de uma mãe, mas não distingue o trabalho dos pais entre os sexos. Entretanto, para maioria dos leitores, é uma obrigação típica das mulheres.
Todos tivemos na criação a presença marcante e fundamental de uma das avós ou tias ou afins. Isso também é terceirizar? Antigamente, havia uma rede de apoio familiar e comunitária, que assumia a criação das crianças como um compromisso coletivo – e não uma obrigação exclusiva dos pais. Tal rede já não se vê na atual classe média.

Houve quem perguntasse à autora: “E você trabalhava ou era professora?” Respostas de internautas nos comentários salientam que os professores têm férias de 60 dias, como as crianças, e que assim poderiam acompanhar seus filhos por conta disso.

Marusia fala

O único lado não ouvido nessa discussão inteira foi justamente o mais interessado: as crianças. O que ELAS preferem fazer nas férias?

Sobre o texto de Rosely, se a motivação foi conscientizar os pais a manterem o convívio com as crianças, digo que não aposto nesse tipo de abordagem. Primeiro, porque os pais que realmente não têm responsabilidade, e não se sensibilizam com seus próprios filhos, não vão se sensibilizar com um texto de internet. Aliás, eles nem sequer leem esse tipo de coisa. E quem é que lê? Os pais (principalmente as mães) que querem melhorar. E o que eles vão conseguir? Apenas a sensação de que nunca vão dar conta.

Segundo, porque critica determinados comportamentos sem oferecer nenhuma sugestão. Além disso, apresenta a convivência com as crianças como algo penoso, como um fluxo infindável de obrigações que deve partir dos pais em direção aos filhos, sem que se obtenha contrapartida de satisfação.

Terceiro, porque esses artigos contribuem para polarizar ainda mais uma discussão absolutamente infrutífera sobre as decisões de ter ou não filhos. Uma decisão que é pessoal, intransferível.

Faço questão de acompanhar meus filhos sempre, mas também me dou o direito de descansar – e de reclamar, principalmente quando eles não cooperam. Não existe coisa mais opressora para uma criança do que ter uma mãe perfeita, nas férias ou não…

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Veja também:

Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Por que temos filhos?

Elisabeth Badinter, no livro “O conflito – A mulher e a mãe” (Editora Record, 2011), cita uma pesquisa realizada em 2009 pela revista Philosophie Magazine, com as justificativas de homens e mulheres para terem filhos:

  • Um filho torna a vida mais bonita e alegre;
  • Permite à família perdurar, transmitir seus valores, sua história;
  • Um filho dá amor e faz com que sejamos menos sós na velhice;
  • Damos a vida de presente a alguém;
  • Torna mais intensa e sólida a relação do casal;
  • Ajuda a tornar adulto, a assumir responsabilidades;
  • Permite deixar parte de si na Terra depois da morte;
  • O filho pode fazer o que não pudemos fazer;
  • É uma nova experiência;
  • Para satisfazer o parceiro;
  • Uma escolha religiosa ou ética;
  • Não houve motivo, foi um acidente.

Filhos: ter ou não ter?

O blog de Ruth Aquino (Mulher 7 por 7) trouxe o depoimento de Mateus Carrilho de Almeida: “Não queremos ter filhos. Por que não nos respeitam?”

http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/03/26/nao-queremos-ter-filhos-por-que-nao-nos-respeitam/

Abaixo, estão trechos do texto:

Filho não fará falta na minha vida. Não farei algo só porque os outros fazem.

Adotar cumpre a mesma função, acrescido de uma responsabilidade social.

Não tenho o mínimo interesse em abrir mão da minha vida. Eu quero viajar com minha esposa, curtir  ir a show de rock, balé, teatro, ver filme adulto, namorar. Somos colorados, vamos nos jogos. Juntinhos. Poderíamos com bebês? E pior, imagina se eu tenho um filho gremista (rsrsrs)?

Dizem que não teremos quem cuide de nós na velhice. Essas mesmas pessoas não cuidam dos seus pais na velhice. O que lhes garante que seus filhos não farão o mesmo?

E na adolescência, quando te dizem a célebre frase “não pedi pra nascer”? Eu não quero me arrebentar pra dar educação, ensino, abrir mão de um monte de coisa pra ter que ouvir isso depois quando eu não deixar um filho fazer um troço que só irá lhe prejudicar.

Vejo os problemas que conhecidos meus têm com seus filhos. Meninas têm dado mais problemas que os meninos.

Pegamos há pouco um filhote de guaipeca, vira-lata. Agora eu tenho certeza que filho é mesmo para os outros.

Já existem 7 bilhões de pessoas no mundo.

Estou já cheio das cobranças, como se só existisse uma maneira de ser feliz e comprometido nessa vida.

Análise

Até o dia 8/1/2013, este texto recebeu 180 comentários, de 149 pessoas (houve quem comentasse mais de uma vez). Dos que se identificaram, foram 31 homens (28%) e 111 mulheres (78%). Ressalte-se que a coluna Mulher 7 por 7 é voltada ao público feminino.

A opinião dos homens ficou equilibrada: 41% discordaram do texto, enquanto 58% demonstraram concordância.

Entre as mulheres, a diferença foi bem maior. Apenas 27% foram contra, e 60% a favor do texto de Mateus. O restante ficou neutro ou respeitou, apesar de pensar diferente.

No cômputo geral, 33% foram contra, e 57% manifestaram apoio à decisão de não ter filhos.

O mais interessante é observar a reação das pessoas que comentaram. Alguns foram tão radicalmente contra, com comentários por vezes ácidos, que ensejaram a resposta da colunista, Ruth Aquino, do Mateus, da esposa dele, Denise, e até da própria mãe do Mateus, Lucy.

Os que concordam com Mateus

Para o grupo que concorda com o texto, os casais que optam por não ter filhos são criticados e pressionados por pessoas com as seguintes características (expressões retiradas dos comentários): hipócritas, egoístas, irresponsáveis, fundamentalistas, intrometidos e imbecis de uma sociedade julgadora, cujo patrulhamento conservador quer a estandartização dos comportamentos humanos.

Segundo os que concordam com Mateus, filho não é a melhor coisa do mundo. Não tê-los é melhor que terceirizar para babás e creches tomarem conta, melhor que abandonar nas lixeiras, espancar. E a mesma sociedade que cobra filhos é responsável por crianças mimadas, adolescentes rebeldes, pais manipuláveis pelos filhos.

Outros argumentos:

  • “É por pensar demais se meu filho será feliz que não o tenho”.
  • Melhor que ser maria-vai-com-as-outras, ter filho só por causa da cobrança da sociedade. “Quem tem filho e vive dizendo que é uma maravilha é como aquela pessoa que pulou numa piscina fria num dia de inverno e fica te chamando, dizendo que tá gostoso”. Ter filhos é uma coisa muito séria, tem que parar para pensar, o que muita gente não faz.
  • Narcisista é quem precisa de um “mini mim” pra “ser feliz”. Se a felicidade não está em nós, não é em esposas, maridos e em filhos que vamos achá-la.
  • Muitos usam os filhos como desculpas pra não fazer nada. “Não posso, não dá, meu filho e coisa e tal”.
  • Nem todos os filhos são umas gracinhas, vide o caso Ricthofen e tantos outros que matam para ficar com herança, abandonando em em asilos, na rua… se a mãe de Suzane Von Richtofen tivesse pensado como o Mateus, pelo menos ainda “estaria entre nós”.
  • Filho JAMAIS será garantia de apoio e amor incondicional na velhice.
  • Casamento não é contrato de procriação!
  • A decisão afeta EXCLUSIVAMENTE a quem não quer ter filhos!
  • A humanidade não vai acabar por causa disso. Viva o controle de natalidade. “A superpopulação é um dos reais fatores que podem levar à extinção da humanidade. Mesmo quem deseje filho, deve limitá-los. Todas as demais campanhas como economizar água, racionar isso, racionar aquilo, somente são paliativos a curto prazo. Maternidade responsável, onde se inclui a ausência de maternidade, é a única salvação!!!”
  • Melhor coisa do mundo é ser tia.
  • Mulher grávida é horrorosa.
  • É melhor adotar as crianças que ninguém deseja, como crianças maiores e até mesmo adolescentes que estão precisando de uma família.
  • Quem abriu mão de sua liberdade para procriar sabe que não pode recuar e fica uma pessoa amarga.

 

Por fim, um contundente depoimento de uma filha indesejada:

Ana28/03/2012 | 3:44

Bom…parece que estão todos a discutir motivos de ter X motivos de não ter. Sabem de uma coisa? Esses motivos não importam. Vou dar meu depoimento de filha que nasceu indesejada. E pessoas como eu existem aos montes, mas grande parte das pessoas (principalmente do time pater-/maternidade-a-qualquer-custo) acham que ignorando o problema e contando sobre o mito do amor materno o problema desaparece. Minha mãe nunca me deixou faltar nada, materialmente falando. Sempre tive roupa, comida, estudo e médico. Mas eu carrego até hoje as frustracões dela, ela me culpa e me cobra a vida que ela não teve pra me criar. Me culpa e me cobra cada centavo que gastou comigo. Sempre desmerece o que eu faço, me humilha sempre que tem oportunidade, nunca festejou uma vitória minha, mas sempre engrandeceu minhas derrotas. Sempre disse que o maior erro da vida dela foi ter filhos e se pudesse voltar atrás jamais nos teria. Tive uma colega na faculdade que passava por algo ainda pior – a mãe dela tentou abortá-la e não conseguiu – passou a vida inteira falando pra filha o quanto se ressente de não ter conseguido abortá-la!!! Alguém aqui tem noção do que é ser rejeitado pela própria mãe? Aqui alguém tem noção das marcas que eu carrego e tantos outros carregam por isso? Hoje estou numa luta para fazer meu plano de saúde pagar o meu psiquiatra – desenvolvi distúrbios de atenção e às vezes machuco a mim mesma. Eu tenho um pedido a fazer – nao critiquem quem não quer ter filhos. Não os chamem de monstros egoístas e qualquer outro adjetivo. Sei que há pais que amam profundamente seus filhos – mas não são todos! Os motivos de não querê-los não importam – o importante que essa decisão JAMAIS vai machucar alguém. Mas ter filhos indesejados – essa decisão, sim, pode ser catastrófica para os envolvidos!!!

Os que discordam de Mateus

Para o grupo de discorda do texto de Mateus, as pessoas que não querem filhos são (expressões retiradas dos comentários): despreparadas, cruéis, insanos, infantis, sem atitude, sem amor, sem nada, desnaturadas, imaturas, fracotes, egoístas, extremamente individualistas, indiferentes a tudo e a todos, a não ser suas carreiras e suas posses. Fazem parte de uma sociedade do espetáculo, adultocêntrica, do prazer imediato. Tiveram problemas na criação, deveriam ser sido abortados pelos próprios pais, e é até melhor que não tenham filhos, porque  SER MÃE É ALGO ESPECIAL, SOMENTE PARA PESSOAS RESPONSÁVEIS, VERDADEIRAS, BATALHADORAS, HUMANAS E AMOROSAS…

Outros argumentos:

  • “Daqui a pouco vão chamar eles de heróis. Hérois são os pais que trabalham duro, e ainda dão amor, têm que pagar escola, universidade, dividem tudo.”
  • E mais infantilidade ainda ficar dizendo que não quer seguir os conceitos da sociedade, mas fica pondo a culpa na sociedade, achando que quem tem filhos os teve por imposição social.
  • “Se não gosta da sociedade, caro amigo sem filhos, crie uma nova. Mas adotar pets não vai te fazer uma pessoa melhor.”
  • Vão se arrepender mais tarde e fazer tratamento para engravidar.
  • Muita justificativa denota indecisão, o discurso não convence, há problemas em aceitar a própria decisão. Para se expor assim, o casal não respeita nem a si mesmo. Devem parar de se fazer de vítimas. Reclamões, só ficam dando desculpas.
  • Casamento não é sinônimo de felicidade.
  • “Viemos ao mundo para reproduzir, isso é da nossa natureza, escolher o contrário é ir contra um fato natural.”
  • “Se mata, amigo, vai ter menos uma pessoa, e suas preocupações estarão resolvidas.”
  • Só focam o lado negativo de ter filhos. “Não respeito casais que acham que estão certíssimos em ñ terem filhos se eles acham que os outros são idiotas em tê-los.”
  • Filhos crescem tão rápido que logo os pais poderão viajar, ir a shows, peças de teatro, etc
  • Filhos adotados também precisam de cuidados. “Vc não abriria mão da sua vida para criar do mesmo jeito????”

Por fim, o relato de uma mulher que ama ser mãe e não condena aqueles que optam por não ter filhos:

“[…] Sua explicação pra não querer procriar é típica de quem não tem filho. Nasce com filho um altruísmo que supera vc querer ir ao jogo de futebol ou balé, Mateus. Não vou explicar muito porque vc não entenderia. E nem precisa. Já decidiu e a decisão é o que conta. Só cuidado para não desmerecer a vontade daqueles que querem ter filhos. Não faço o jogo oposto, usando as mesmas armas. A pressão. As explicações bobas. E, mais do que tudo, comece a selecionar melhor seus amigos.”

Os childfree

Mais e mais mulheres optam por não serem mães. Não é por acaso que governos investem em políticas de incentivo à natalidade, principalmente naqueles países que se concebe comumente como “desenvolvidos”: quem vai pagar a conta de uma população que envelhece?

Existe até um termo para definir as pessoas que não desejam filhos: childfree (“livre de crianças”, em tradução sem compromisso). Há comunidades Childfree em diversos países do mundo. No site do grupo brasileiro, entre as diversas razões que balizam sua escolha, estão:

http://www.semfilhos.org/trocentos-motivos-para-nao-ter-filhos/

  1. O parto é uma tortura;
  2. Não se tem vontade de fazer sexo tendo em volta o alvoroço de pirralhas brigando;
  3. Crianças custam caro;
  4. Você vai passar noites acordada e não será na balada e sim ouvindo choro;
  5. O filho é a despedida dos seus sonhos de juventude;
  6. Ser mãe ou ter sucesso: é preciso escolher;
  7. Quando o filho aparece, o pai desaparece;
  8. Você não tem tempo para os amigos;
  9. Sua pele fica feia com estrias, varizes, celulites e gordura localizada;
  10. Tem crianças demais na Terra.
  11. Filhos dão muito trabalho
  12. A gravidez deixa a mulher chata
  13. Filhos são uma obrigação eterna
  14. Desnecessário para perpetuação da espécie (já são 8 bilhões de seres humanos no mundo)
  15. Crianças são capazes de colocar os pais em situação de vexames na rua
  16. Filhos são como alto-falante de pedir coisas.
  17. O filho é um ser humano como outro ser qualquer então dele se pode esperar de tudo, inclusive fazer mal aos pais
  18. Filhos tomam tempo, algo cada vez mais escasso
  19. É frustrante ficar corrigindo seu filho todo tempo.
  20. Com filhos, liberdade limitada
  21. Criança boa só tem duas: aquela que já fomos e a dos outros.
  22. Colocar alguém no mundo só pra ele cuidar de você na velhice, e atender seus projetos pessoais é egoísta e mesquinho.
  23. Se vc for procurar uma casa de aluguel e outra pessoa também, se você tiver filhos, difícil conseguir!
  24. Filhos dão muita dor de cabeça, e exigem muita paciência além gasto físico e mental.
  25. Se divorciar e tentar uma vida nova com alguém, fica muito difícil por está ligada à outra pessoa por causa dos filhos e dessa nova pessoa vai aceitar você com seus filhos.
  26. Quando for viajar terá que levar os filhos e todos os ônus que trazem consigo, ou deixá-las com seus pais (ou com sua sogra!).
  27. Ter filhos é igual piscina gelada, depois que o primeiro tonto entra, fica falando para os outros: – Pula que a água tá boa.
  28. Chegada dos filhos atrapalha vida sexual do casal.
  29. Você pode ser uma péssima mãe ou um péssimo pai.
  30. Criar filhos é igual criar cachorro: depois que cresce perde a graça.
  31. Filhos só sabem limpar a bunda após os 4 anos. São 4 anos ouvindo Acabeeeeiiiiii
  32. Se você for homem e se divorciar, cada filho seu vai levar no mínimo 10% do seu salário, isso se a mãe não tiver bem orientada por um bom advogado!
  33. Ser pai ou mãe é o trabalho mais difícil do mundo, e pior que não existe aposentadoria!
  34. A gravidez deixa a mulher horrorível e traz uma série de complicações de saúde.
  35. Meio milhão de mães morrem durante o parto todos os anos.
  36. Seu filho pode nascer hiperativo (já pensou que inferno?).

Conclusão

Que pai e que mãe, ao ler a lista dos childfree (ainda que se repita em diversos pontos), não fica com a língua coçando para gritar? “Espera aí! Não é bem assim! Vocês só estão focando o lado pesado, e de forma exagerada!”

Que pai e que mãe não ficaria inclinado a enumerar outra lista, somente com as benesses de ter filhos?

Abrindo o leque: por que a discussão em torno da escolha entre ter ou não ter filhos é tão inflamada? Por que as pessoas se ofendem e chegam ao ponto de se xingarem?

O que está em jogo no artigo de Rosely Sayão, na pesquisa citada por Elisabeth Badinter, no texto de Mateus de Almeida, nos comentários?

  • O eterno binômio da natureza humana: obrigação x prazer;
  • Os apelos de uma sociedade cada vez mais individualista;
  • A polêmica em torno do aborto;
  • O aumento da violência no mundo;
  • A questão da adoção;
  • As diferentes relações de trabalho entre homens e mulheres;
  • O papel do Estado e da comunidade em relação às crianças;
  • A pressão real da sociedade para que as pessoas tenham filhos, que surge até para quem tem filho único;
  • A promessa para a mulher, como se somente depois de virar mãe ela seria realizada;
  • O trabalho intenso e a responsabilidade que envolve a criação dos filhos;
  • A velha conhecida que fazem questão de imputar às mães: a culpa.

Toda vez em que há um esforço para defender determinado ponto de vista, aparecem alguns problemas: a radicalização e a generalização.

Não adianta querer colocar todas as pessoas no mesmo balaio. Se formos subdividindo, teríamos um grupo com os que não querem ter filhos. Desses, há os que não querem agora, os que querem adotar, os que não querem de jeito nenhum. Há os convictos e os que se arrependem.

No outro grupo, há os que querem ter filhos. Desses, há quem esteja preparado e quem não esteja. Dos que não estão preparados, há os que aprendem e os que não aprendem. Dos que estão preparados, os que se desapontam com expectativas. Os que estão realizados, mas enfrentam situações de estresse, afinal são todos humanos: filhos e pais.

Pessoas sonham, se frustram. Erram. Mudam de opinião. Crescem.

Marusia fala

Sempre quis ter filhos, por uma série de motivos. O principal era querer transmitir a eles o que eu havia aprendido. É óbvio que eu não pensei: “quero filhos porque eles dão trabalho, é preciso dinheiro, vou ficar acordada muitas noites, vou ter que repetir a mesma coisa mil vezes, vou renunciar a isso ou àquilo.” Eu estava consciente disso e disposta a enfrentar tudo em prol de outros desejos. Mas eu tinha uma ideia muito diferente do que era ser mãe. Na minha cabeça, planejamento e informação seriam suficientes para manter tudo sob meu controle.

Quanta ilusão…  com crianças, nada segue um roteiro predeterminado, nada está sob nosso controle. Nunca havia me deparado com situações que exigissem tanta humildade, além de desapego, força, calma, discernimento, superação. Já até reconfigurei meu motivo original: muito mais que transmitir o que eu aprendi, eu é que tenho que ser ensinada…

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Veja também:

“Quem vai ficar com as crianças?” – Análise

Caminhos

Ryotiras

Ryotiras

Recentemente, escrevi sobre o Meio Termo de Ouro, ou o Caminho do Meio. Na pesquisa, havia encontrado a tirinha acima. Acabei ilustrando o post com fotos, mas a deixei guardada. Hoje, abri os arquivos e me deparei com o bonequinho andando pela grama. Mantendo de lado a metáfora de criar nossos próprios caminhos alternativos, me perguntei: quando foi a última vez que andei na grama?

De sapatos não vale. De salto, então, nem se fala, porque ele teima em se enterrar, uma lambreca só. Estou falando de andar descalça (e sem me importar com a lambreca). Eu, que jogava bolinha de gude, descia o barranco em caixa de papelão, subia em árvore, guiava de propósito a bicicleta para as poças de lama, me transformei na Miss Fresca. Por si só já seria uma perda individual; o problema é estender a frescura para meus filhos. Já deixei que andassem descalços, mas com o Baby Wipes na bolsa para limpar depois…

Deve ser por isso que adoro praia. Deve ser o único lugar do universo em que sento e deito na areia, que mexo com lama. Deve ser porque, depois de seca, a areia desprende.

Dia desses vi um vídeo sobre Aelita Andre, uma menina de 5 anos, um talento precoce, considerada um fenômeno em galerias de arte. O pai montou na garagem um ateliê para que ela tivesse liberdade de criação. Bom, moro em apartamento, mas, mesmo se eu tivesse uma garagem, pensaria duas vezes antes de permitir tamanha lambreca. Junte-se a isso meu drama com o desperdício (veja como ela derrama as latas de tinta!) e talvez não despertasse essa pequenina gênia no mundo… o_O

Também vi uma plaquinha dessas de boas-vindas, que dizia: “Perdoe a bagunça. Aqui as crianças estão criando memórias”. Assim, não tenho impedido meus filhos de fazer cabana de lençol, encher a janela de adesivos, ampliar os territórios dos brinquedos para a casa toda. Mas, por que, na hora que eles mexem com guache, ainda faço questão de forrar o chão com jornal? Por que deixo, mas fico agoniada quando eles não limpam o pincel antes de mergulhá-lo em outro pote de tinta? Por que deixo, mas temo que sujem a roupa?

Semana passada, estávamos na aula de natação (sim, fazemos eu e os três no mesmo horário, para otimizar) e de repente o solzão deu lugar ao maior pé d’água. Se é chuva sem relâmpago, os professores não interrompem a aula. Acho que foi a primeira vez, em décadas, que peguei chuva. Já tinha me esquecido de como é bom… O curioso é que também deve ter sido a primeira vez que o caçula (de 4), e quiçá os outros dois, tinham a experiência de ficar embaixo na chuva por um tempo tão comprido (e não correndo dela).

Ainda falta 1 mês, mas uma das resoluções de Ano Novo será: pegar o caminho da grama. De preferência, com chuva.

Chorei rios com esse anúncio…

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Veja também:

Só as mães são felizes – Marusia fala

Quero ser criança quando eu crescer

O anjo na areia

O Meio Termo de Ouro para Pais e Mães

This post in English: Paths

Quando eu era criança, achava que…

… quando diziam que um patrimônio seria tombado, ele seria demolido;

… o Ministério da Fazenda cuidava das fazendas do Brasil;

Fazenda

Pintor: Túlio Dias

… caderneta de poupança era um escaninho gigante, e o banco colocava um dinheirinho a mais em todas as caixas, todo mês. Quase morri quando meu irmão me disse que o banco “usava” nosso dinheiro;

escaninho numerado

… quando diziam que “Deus é brasileiro”, era porque Jesus tinha nascido em Belém… do Pará;

Belém do Pará

…Disney tinha inventado as histórias de Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela e Pinóquio;

Cartaz antigo de Branca de Neve

… Mauricio de Sousa desenhava sozinho todas as histórias de todas as revistas da Turma da Mônica;

Tira Turma da Mônica

… o Pablo, do programa de Silvio Santos “Qual é a Música”, imitava a voz de todos os cantores e cantoras;

Pablo, do programa “Qual é a Música?”

Dublador Pablo

… o nome do Silvio Santos era Silvio Santos;

Silvio Santos

… “José” e o apelido “Zé” deveriam ser escritos com Z, ora bolas, e não um com S e outro com Z!

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Veja também:

Lembranças de infância

Cheiro de infância

A brincadeira mais gostosa do mundo

Tesouros

O Meio Termo de Ouro para pais e mães

Aristóteles nos fala do “meio termo de ouro”. Devemos ser corajosos, nem mais nem menos: coragem de menos é covardia; coragem de mais é audácia. Devemos ser generosos, nem mais nem menos: generosidade de menos é avareza; generosidade de mais é extravagância.

Pitágoras também diz:

“Ousar pouco é não ir além, ousar demais é utopia.”

“Prudência de mais é timidez, de menos é irresponsabilidade.”

Com os filhos, nos deparamos com uma série de situações em que o limiar entre a falta e o excesso nem sempre é claro. Assim, segue uma lista de reflexões (nada fáceis) sobre equilíbrio.

O “Meio Termo de Ouro” para Pais e Mães

Proteção de menos é negligência; proteção de mais é aprisionamento.

Proteção de menos é negligência; proteção de mais é aprisionamento.

Incentivo de menos é descaso; incentivo de mais é bajulação.

Incentivo de menos é descaso; incentivo demais é bajulação.

Fantasia de menos é apatia; fantasia de mais é alienação.

Fantasia de menos é apatia; fantasia de mais é alienação.

Confiança de menos é paranoia; confiança de mais é cegueira.

Confiança de menos é paranoia; confiança de mais é cegueira.

Sensibilidade de menos é frieza; sensibilidade de mais é fragilidade.

Sensibilidade de menos é frieza; sensibilidade de mais é fragilidade.

Interesse de menos é abandono; interesse de mais é invasão.

Interesse de menos é abandono; interesse de mais é invasão.

Orgulho de menos é submissão; orgulho de mais é arrogância.

Orgulho de menos é submissão; orgulho de mais é arrogância.

Responsabilidade de menos é inconsequência; responsabilidade de mais é culpa.

Responsabilidade de menos é inconsequência; responsabilidade de mais é culpa.

Dedicação de menos é egoísmo; dedicação de mais é autoanulação.

Dedicação de menos é egoísmo; dedicação de mais é autoanulação.

Orientação de menos é omissão; orientação de mais é imposição.

Orientação de menos é omissão; orientação de mais é imposição.

Ajuda de menos cria insegurança; ajuda de mais cria dependência.

Ajuda de menos cria insegurança; ajuda de mais cria dependência.

Posicionamento de menos é indecisão; posicionamento de mais é radicalismo.

Posicionamento de menos é indecisão; posicionamento de mais é radicalismo.

Compromisso de menos é ausência; compromisso de mais é apego.

Compromisso de menos é ausência; compromisso de mais é apego.

Tolerância de menos é opressão; tolerância de mais é permissividade.

Tolerância de menos é opressão; tolerância de mais é permissividade.

Rotina de menos é caos; rotina de mais é escravidão.

Rotina de menos é caos; rotina de mais é escravidão.

Paciência de menos é descontrole; paciência de mais é paralisia.

Paciência de menos é descontrole; paciência de mais é paralisia.

Informação de menos limita; informação de mais confunde.

Informação de menos limita; informação de mais confunde.

Amor de menos é vazio; amor de mais… é mais amor.

Amor de menos é vazio; amor de mais é mais amor.

Diferentemente dos anteriores, não há limites para o amor. Amor nunca é demais. Quanto maior for o amor, maior também será nossa chance de permanecermos protetores, incentivadores, criativos, confiantes, sensíveis, interessados, satisfeitos, responsáveis, dedicados, orientadores, prestativos, determinados, compromissados, tolerantes, organizados, pacientes e formadores.

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Veja também:

Decálogo dos meus desafios

Carta a meus filhos

Mãe é envelope

Para Vovó Carmó

Vovó, eu me lembro de quando ia passar férias na sua casa amarela. De “dormir de valete” com meu irmão. Do canto do galo de manhã.

De como você cozinhava bem. Tudo o que você fazia era delicioso, do sarapatel ao mais singelo ovo frito.

Lembro do “queijo de Conquista”, dos biscoitinhos redondos de polvilho.

Cresci ouvindo minha mãe te chamar de “minha sogra”, repetindo as coisas engraçadas que você dizia – “Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz”, “amarra-se o burro na orelha do dono”, “quem puxa aos seus não degenera”.

Eu não conseguia compreender como você, sendo minha vó paterna, não podia ser avó dos meus primos da família da minha mãe.

Você adorava as novelas do SBT. Tinha uma com um padre que havia sido trocado na maternidade, “A justiça de Deus”, não perdia um capítulo. Fiquei tão fã que até comprei o disco com a música da abertura.

De noite, você sempre lia um livro com mensagens que falavam de Deus, textos espíritas de Divaldo Franco.

Você até tentou me ensinar croché. Habilidosíssima, lembro de um xale amarelo de lã com franjas que eu amava, uma saia. E um lindo centro de mesa no dia do meu casamento.

Lembro dos cafunés.

Com 89 anos, você teve um AVC. Fui a Salvador visitá-la na UTI e lhe disse que estaria de volta em outubro, no seu aniversário de 90 anos, levando os três bisnetinhos, incluindo o caçula que ainda era um bebê. Nós duas cumprimos a promessa e comemoramos juntas.

Mas, depois disso, você foi ficando cada vez mais frágil. Já não conseguia mais falar contigo ao telefone.

Lembro, vovó, dos cartões lindos de aniversário que você me mandava quando eu era criança. Diziam, com letra caprichada – “colheste mais uma rosa no jardim da tua existência”.

Mês que vem, vovó, os anjos lhe entregarão pessoalmente sua nonagésima quarta rosa.

O maior inimigo da mãe

 “A culpa é a principal inimiga da mulher que trabalha?” – Análise

Sam publicou em seu blog um post intitulado “A culpa é a principal inimiga da mulher que trabalha?” Uma pergunta forte assim sempre provoca respostas igualmente tensas. Mas creio que o grande problema desse tipo de discussão é a polarização, com acusação mútua entre os extremos, e a ausência de soluções.

Vamos começar do começo: “o maior inimigo da mulher que trabalha fora”. Isso já parte do princípio que a mulher que trabalha fora tem inimigos. Vários, a ponto de se questionar qual o maior deles. Isso é verdadeiro. De modo geral, a mulher tem que enfrentar vários inimigos – tanto a que fica em casa quanto a que sai para trabalhar. Entretanto, a virulência mais intensa tem um alvo preferencial: a mãe que trabalha fora.

Acredito que o maior inimigo da mãe não é a culpa, mas a CULPABILIZAÇÃO. Como é cômodo ter alguém fixo na sociedade para apontarmos o dedo, não? E fica muito mais simples quando generalizamos, focando somente um lado. Para colocar os pingos nos ii, vamos evidenciar algumas falácias:

Falácia 1. A mulher deve ficar integralmente com os filhos para cumprir sua função de mãe.

Ora, ficar com os filhos pode ser uma escolha para uma parcela da sociedade. Para outra parcela, não é opção. Trabalhar fora é a única alternativa.

E se não houver a figura do “provedor”? E se ele foi embora / ficou doente / está desempregado / morreu? E se o que essa pessoa recebe não é suficiente para a família? E se a mãe aspira melhores dias para os filhos, em um país cujos sistemas públicos de saúde e de ensino estão falidos?

Falácia 2. A mulher que trabalha fora “terceiriza” a criação dos filhos.

Toda mulher descobre que, depois que tem filhos, OBRIGATORIAMENTE vai ter que “terceirizar” (detesto essa palavra) alguma coisa:

  • Se ela ficar em casa, vai depender de alguém (o marido, os pais, o governo, a vizinha) que seja o provedor; ou seja, vai “terceirizar” o sustento da família;
  • Se ela trabalhar fora (ou mesmo dentro de casa, vale dizer), vai depender de alguém para ficar com as crianças nesse período (a babá, a creche, a escola, os pais, a vizinha).

Isso demostra cabalmente que a criação dos filhos é uma empreitada coletiva. Diz respeito à família, à sociedade, ao Estado.

Falácia 3. A mulher que fica 8 horas distante de seus filhos não cumpre seu papel.

Segundo essa afirmação, cada segundo que a mãe passa longe do filho causa um prejuízo irreparável. Sendo assim, há de se computar o período das aulas. São no mínimo 4 horas por dia. Computando o tempo para chegar e sair, digamos 30 minutos, dá mais uma hora. Isso porque não estou falando das escolas de tempo integral.

Também devem entrar na conta os momentos em que a criança se dedica a outros interesses: a brincadeira, só ou com os irmãos ou amiguinhos, a leitura, o esporte, a atividade religiosa e outros.

Outras coisas devem entrar nesse cálculo. E quando a mulher tem mais filhos, por exemplo, gêmeos? E se um deles for especial ou ficar doente, demandando mais cuidados? E se esse cuidado for para um familiar, tal qual pai e mãe idosos? E se a própria mãe ficar doente?

MUITO prejuízo, não? Ou será que nesses casos a regra não vale?

Mais uma questão: isso só acontece com a mãe? Se o provedor da casa for o pai, por que as crianças podem prescindir de sua companhia? A distância do pai não causa problema?

Falácia 4. A mulher que trabalha fora não faz nada direito: nem trabalha, nem cuida dos filhos.

Conforme já havia dito, nem sempre é uma questão de escolha. Quando a mulher pode optar, também pode se deparar com suas próprias capacidades. O que dá certo para uma pode não dar para outra. Tem gente que sente sobrecarga; tem gente que não. Tem gente que se sente em plenitude, tem gente que não. Tem quem tenha vocação, tem o oposto. Nesse caso, há que se perguntar se uma vivência baseada em frustração (para ambos os lados) também não pode ser nociva.

Os economistas Levitt e Dubner escreveram “Freakonomics – o lado oculto e inesperado de tudo o que nos afeta” (Editora Campus). O maior mérito do livro é pesquisar e colocar em números aqueles mitos que passam de geração em geração e que ninguém nunca questionou. O capítulo “O que faz um pai ser perfeito” (“What makes a perfect parent”) é impagável. Traz revelações que rendem ainda muitos posts. Em inglês faz mais sentido (“parent” é uma palavra que se usa tanto para “pai” quanto para “mãe”).

Aqui vou trazer só um resultado do Freakonomics: o fato de uma mãe trabalhar fora ou ficar em casa NÃO tem impacto no desempenho dos filhos. Ou seja, filhos com mães que trabalham fora podem ter bom ou mau desempenho, assim como filhos de mães que ficam em casa também. O que vai fazer a diferença são outros fatores, e não esse, que é considerado pelos pesquisadores como IRRELEVANTE.

O debate é inflamado porque sempre se olha para a realidade do outro com nossos olhos, nossa experiência. Em vez de perder tempo culpabilizando o outro, o que só cria um abismo entre as mães, vamos nos abrir para o diálogo, criar oportunidades de escutar. Hoje o que existe é um exército de mulheres sozinhas que enfrentam dilemas parecidos e que poderiam se ajudar, se apoiar, trocar soluções.

Existem vantagens e desvantagens (como em tudo na vida) tanto para quem trabalha fora, quanto para quem fica em casa. O problema é criticar o outro lado enumerando somente as desvantagens.

Vantagens para a mãe que trabalha fora, segundo a Revista Época

Vantagens para a mãe que fica em casa, segundo a Revista Época

A pressão é maior para quem trabalha fora – Análise

O que fazer para tirar partido das vantagens e minimizar as desvantagens de cada lado? Adoro quando as mães se unem em redes criativas:

Para as que podem trabalhar fora:

http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/mae-trabalha-fora-469046.shtml

http://mamaegenis.blogspot.com.br/2011/09/dicas-para-mamaes-que-querem-e-que.html

Para as que podem ficar em casa:

http://filhosecia.uol.com.br/2011/09/dicas-para-maes-que-nao-trabalham-fora-de-casa/

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI208849-10513,00.html

Para todas as mães:

Dicas fofas para tornar qualquer momento com as crianças um momento especial (em inglês):

http://www.abundantmama.com/

Imagem: Freepik

O pequeno estrategista

Pais que tentam estimular o bom comportamento dos filhos precisam tornar-se estrategistas amadores (os filhos são profissionais).

(DIXIT, Avinash K. & NALEBUFF, Barry J. “Pensando estrategicamente”. São Paulo: Atlas, 1994)

A frase acima consta do prefácio de um livro técnico sobre Teoria dos Jogos, que visa a ensinar os princípios do raciocínio estratégico. Os autores são muito sábios ao encontrar, nas crianças, esse raciocínio que a gente acaba perdendo e tendo que reaprender quando adultos. Principalmente quando viramos pais.

Dia desses, voltei para casa e recebi do meu marido um “boa noite” meio mais-ou-menos. Perguntei logo o que havia acontecido, e ele me disse, chateado:

– Comprei um jogo novo para Wii. Levei um tempão para escolher. Crente do sucesso que as crianças iam se divertir de montão, inseri o disco no aparelho. Pois não deixaram passar nem 15 minutos e já estavam gritando e se atracando no quarto. Não briguei, não fiz nada: só desliguei a TV e proibi de jogar por 1 semana.

Em um segundo, mapeei o “climão” que tinha se abatido. A tristeza do pai que traz um presente na esperança de unir e que acaba surtindo o efeito contrário. Acompanhada da minha desilusão de… putz, por que não podem brincar numa boa? No quarto, os três amuadinhos.  O mais velho escrevendo no caderno, uma espécie de diário, se sentindo injustiçadíssimo. A briga havia começado porque ele estava, a pretexto de ensinar ao caçula como jogar, tomando toda hora o controle; o caçula não queria aceitar “interferências”, e daí TUFF!! mandou o controle na cabeça do mais velho. Minha filha do meio estava ainda mais frustrada, porque não tinha nada a ver com o bode e entrou no mesmo balaio. E o caçula deixava escorrer as lágrimas sem emitir nenhum som.

Meu marido disse novamente:

– Não fiz nada. Só desliguei o Wii.

Sabe que esse tipo de ação silenciosa dos pais pesa mais que uma bronca. É quando os filhos percebem que provocaram algo mais sério. Tentei apaziguar e também dar a César o que é de César. Com o ok do pai, livrei a menina da proibição de 1 semana. Elogiei o mais velho porque ele só queria ajudar, mas também pedi paciência. Quanto ao caçula, disse que nada justificaria bater em ninguém, muito menos no irmão, menos ainda porque ele queria ensinar. Eu vi que ele estava arrependido. Mas também não podia deixar pra lá, até por uma questão de equanimidade e justiça.

Mais tarde, vi que ele continuava a derramar lágrimas e agora se dedicava a fazer um desenho (já que não sabia escrever). Olha o desenho:

desenho de criança com boneco chorando

Quando eu vi, não resisti; tomei-o nos braços e enchi de beijos. Enchi os três de beijos. Falei para o caçula pedir desculpas aos irmãos e ao pai, o que ele fez com o rostinho banhado, com a promessa de que isso não iria se repetir (a-hã).

Aí ele me entregou outro desenho:

desenho de criança de boneco sorrindo

Comparando os dois desenhos, dá para ver o estado de espírito de cada um, o primeiro feito em lápis de cera marrom, sombrio, e o segundo em laranja, alegre.

Dias depois, a menina estava brincando no computador, e o caçula começou a encrencar querendo brincar também.

Aaaahh, as confusões de sempre…

Gastando minha beleza e todos os artifícios diários dignos da carreira do Direito para ser juíza, jurada, advogada e conciliadora, eu disse que ele não tinha razão e deveria esperar que ela saísse.

Não levou nem 15 segundos para o baixinho me aparecer com um novo desenho de um boneco chorando. Mas, dessa vez, não combinava com o sorriso maroto e a carinha sapeca de quem desenhou…

Três anos de idade. Estrategista profissional.

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Veja também:

A Fada dos Dentes

A Receita de Sofia

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

Os segredos das Supermulheres – Marusia fala

Tesouros

This post in English: The little strategist

O Livro do Bebê

Este post é para meu pai.

Quando eu era pequena, adorava ver fotografias antigas. Meu pai no triciclo, minha mãe na primeira comunhão. As fotos de família em preto-e-branco, rostos tão sérios e tão enigmáticos. Eu ficava braba porque meus pais não tinham me convidado para o casamento deles e ainda tiveram a audácia de colocar outra menina como dama-de-honra (tudo bem que eu só nasci 4 anos depois, mas para mim não tinha desculpa rs!).

Outra coisa que eu amava era ver o “Livro do Bebê”, tanto o meu quanto os dos meus irmãos, com os marcos do nosso crescimento escritos por minha mãe: primeiro dente, primeira palavra, as dedicatórias…

Gosto de preencher o “Livro do Bebê” e os álbuns de fotos dos meus filhos. Eles adoram ler sobre as coisas engraçadas que faziam e diziam. As músicas inventadas, as piadas “internas” que só entende quem é da família. Eles também curtem ouvir a história de como os avós se conheceram, como começou o namoro dos pais.

Creio que o encantamento que as crianças nutrem por esse tipo de recordação tem a ver com nossa busca por um lugar no mundo, na história. É importante fazer esses registros e transferi-los de geração a geração. As experiências da família, o legado dos antepassados, ainda que atravessados por percalços e problemas que todo clã possui, dizem muito sobre o que nós somos. É quando a gente apaga a luz e revive os círculos ancestrais em volta da fogueira para contar as memórias que nos trouxeram até aqui. Encontros que podem ser raros no dia-a-dia atropelado, mas trazem significados profundos para nossa vida.

Olhar para o passado nos ajuda a entender o presente e também saber o que esperar do futuro. No meu “Livro do Bebê”, meu pai deixou uma simples frase sobre o que esperava de mim quando eu nasci: “Que seja uma pessoa de bem.”

Por muito tempo fiquei intrigada com isso. Parecia um desejo tão singelo, despretensioso, talvez óbvio. Não dizia respeito a realização, sucesso. Não era “pessoa de BENS”, “pessoa BEM-sucedida.” Não dizia sobre conquistas, feitos. Nem saúde. Nem sequer sobre felicidade.

Era sobre o que é mais importante, mais caro, mais precioso para meu pai, a verdadeira chave para fazer diferença no mundo. Se formos parar para pensar, era a única coisa da qual ele tinha garantia. Ele não podia ter certeza se eu teria realização, sucesso, bens, conquistas nem feitos. Nem mesmo saúde, nem mesmo felicidade. É fato que ele também não podia saber se eu realmente seria “uma pessoa de bem”; entretanto, era a única coisa que ele podia me oferecer como herança que jamais se deteriora, se subtrai nem se perde: seu exemplo. Exemplo de um homem COMPLETAMENTE do bem.

Obrigada, pai.

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Blogagem Coletiva – “Os pais que eles são”,  proposta por Rede Mulher e Mãe

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Veja também:

Minha vida em 40 músicas

Amar é…

Se os homens amamentassem

De mãe para filha

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

Site visitado:

Scary Mommy

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O blog “Scary Mommy” traz posts engraçados, por vezes também cáusticos, sobre a maternidade. (O curioso é que “scary” tanto pode significar “que mete medo” quanto “que tem medo”). Conta com mais de 1 milhão e meio de acessos por mês. Um dos espaços de debate é o “confessionário”: pais e mães inserem comentários, sob anonimato, e descem o verbo no mundo cor-de-rosa que se vende como a realidade de criar filhos.

Já dei muita risada com algumas confissões, me enterneci, me surpreendi com a franqueza escancarada de outras. E me peguei pensando o que postaria nesse confessionário.

Então, em comemoração aos 2 anos do meu blog, segue um compêndio dos segreditos que, com toda certeza, não fariam parte jamais do vocabulário de uma mãe perfeita:

Confesso que…

… senti uma inveja danada da minha irmã, que teve três partos normais, e saía lépida e fagueira do centro obstétrico, ia tomar um banho e pedia sem a menor cerimônia um Big Mac, enquanto eu tava toda costurada sem poder nem usar travesseiro. Mas também confesso que não senti inveja na hora que ela tinha que pulverizar Andolba na episio…

… dei papinha Nestlé quando viajávamos. Mil vezes a arriscar, sem saber de que jeito os legumes do hotel tinham sido lavados.

… ri pra caramba quando meu caçula de 3 anos chegou cantando “Ai se eu te pego”, do Michel Teló.

… já liguei algumas vezes o “hã-hã”, diante de histórias intermináveis.

… já chorei escondida no banheiro.

… já perdi a paciência ajudando menino a fazer dever de casa. Principalmente aqueles com o comando: “com a ajuda de um adulto, recorte de revistas e jornais 3 milhões de palavras com Cê cedilha e escreva frases com elas.”

… disse a meus filhos que, todas as vezes que eles contassem uma mentira, ela apareceria escrita na testa deles, e assim eu SEMPRE saberia.

… minha mãe me disse a mesma coisa acima. Eu acreditei e até hoje sempre conto logo tudo, porque nunca consigo esconder nada dela. E assim se criou uma relação de confiança.

… já fiz chantagem emocional, do tipo: “oh, vem me dar um abracinho, ohh, puuuxa, é assim, né…”

… já cronometrei com meu marido a tarde de sábado, revezando os intervalos: “pronto, agora é sua vez de tomar conta dos meninos.”

… quando vejo uma grávida de primeira viagem afirmando “com meu filho será assim”, “com meu filho será assado”, ou “nunca vou fazer isso ou aquilo”, eu fico me perguntando: “conto ou não conto?”

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Veja também:

100º post, 1 ano de blog

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Achei lindo quando… mas sinto falta de…

Decálogo dos meus desafios

São só os meus?…

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

O que aprendi sobre… sono

Vou começar a série “O que aprendi sobre…” por um pedido muito especial das minhas amigas. Digo isso porque relutei a escrevê-la. Por acreditar que não existem receitas, que cada família tem seu próprio arranjo. Mas elas me advertiram que isso não era motivo para deixar de compartilhar experiências. Então, inicio com um tema sensível: o sono das crianças.

Para dormir a noite toda, todas as noites

Eu AMO dormir. Como já disse em outros posts, sou aficionada por sonhos. São fontes seguras de soluções, de informações sobre mim, sobre o que me cerca. De jeito nenhum considero dormir uma coisa improdutiva, muito pelo contrário. Então, eu amo dormir, é um momento sagrado e quero conservá-lo.

A vida toda foi assim. Não tenho problemas para dormir. Fico consternada quando vejo batalhões de pessoas em todo o mundo com casos tão sérios, precisando de remédios. Mas o que mais me impressiona é ver como agora isso atinge também as crianças. “Dormir como uma criança” é um dito popular que está perdendo o sentido.

Minhas mais remotas lembranças mostram a hora de dormir como algo absolutamente pacífico na minha família. Essa é uma herança da qual nunca vou abrir mão. Tenho três crianças completamente diferentes entre si, mas com algo em comum: o sono tranquilo.

Isso não é fruto de genética. Há um pouco de técnica, sim. Mas existe um componente muito mais importante: a DECISÃO. E é esse aspecto que quero enfatizar.

As decisões têm que ser amparadas por informação, que obtive do meu sábio pediatra:

  1. A criança PRECISA dormir. Isso é crucial para qualquer ser-humano. Não à toa, Nuno Cobra, autor do best-seller “A Semente da Vitória”, coloca o sono como o mais indispensável aspecto para a saúde. Sem sono de qualidade, todos os outros aspectos perdem poder.
  2. Há conexões cerebrais preciosas que só se formam na infância, e durante o sono.
  3. Os hormônios do crescimento têm seu pico no corpo da criança entre 20h e 22h. O início do sono deve abranger esse pico, por isso é importante dormir cedo.
  4. A “Crise dos 8 meses” é verdadeira. Mais ou menos nessa idade, a criança toma consciência que é um ser separado da mãe. Quando a mãe não está presente, ela imagina que isso é para sempre.
  5. A partir dos 8 meses, o sono faz parte de um aprendizado. Não é natural, tem que ser ensinado.
  6. Crianças gostam da rotina porque se sentem seguras, ao conseguir antecipar cada próximo passo.
  7. Dia tranquilo, noite tranquila. O maior mito que existe é agitar a criança de dia, sem deixá-la cochilar, na esperança de ela possa “capotar” de noite. É justamente o contrário, ela vai ficar excitada e acordar às prestações por toda a madrugada.

 O aconchego do quarto

Cochilos de dia

  1. As janelas estão abertas, a rotina da casa se mantém. Mas, para não interromper o sono com algum barulho alto e súbito, eu acionava um “som rosa”. Trata-se de um som frequente e baixo, uma onda sonora que anula as ondas externas. O mesmo que é usado na engenharia dos aviões. Para mim, um ventilador virado para a parede, no canto oposto ao do berço.
  2. Porta fechada, babá eletrônica ligada. Quando acordavam, ficavam ronronando no berço. Deixava-os curtirem esse momento.
  3. Se a criança dorme serenamente de dia e acorda alegrinha, NÃO HÁ POR QUE isso não se repetir à noite.
  4. O berço tem que ser o lugar mais gostoso do mundo, mas é para dormir. Não é lugar de brincar. A criança só deve estar no berço quando estiver dormindo e um pouquinho a mais para espreguiçar (e ronronar, como disse antes). Isso cria uma programação positiva em sua cabecinha.
  5. Depois das 17h, nada de cochilo.

O sono noturno

  1. Rituais, quanto já não se ouviu falar deles? Importantíssimos. Diminua as luzes e o som da casa. Dê um banho, coloque o pijaminha, cante, ponha uma música suave.
  2. Use o blecaute ou as venezianas, para escurecer o quarto e prolongar o sono da manhã. Ao contrário, acordarão ao primeiro sinal de claridade.
  3. Mantenha uma luz de referência. Use uma luz azul no abajur (somente nos dias em que perceber mais agitação). Verde para os demais dias.
  4. Use uma fralda que absorva a umidade por toda a noite.
  5. A criança não pode adormecer em um lugar e acordar em outro. Além disso, o berço tem que estar EXATAMENTE do mesmo jeito todos os dias. Se a criança acordar no meio da noite em um local diferente, é lógico que ela vai estranhar. A gente, que é adulta, estranha! Eu mesma, de vez em quando, fico meio desnorteada em quarto de hotel.
  6. Crie um incentivo para o berço à noite. Meu caçula tinha um coelhinho de pano que só entregávamos a ele na hora de dormir, no berço. Ele adorava, e o coelhinho era uma companhia constante, que lhe dava segurança.
  7. Os rituais são essenciais, mas não crie muitos artifícios para que seu filho durma. Se ele ficar dependente de coisas que não consegue reproduzir sozinho para conseguir pegar no sono, você vai precisar repeti-los a cada vez que ele acordar. Isso inclui dar corda em móbile e a famosa voltinha de carro. Pense bem se você está a fim de fazer isso toda noite. Não tente resolver um problema criando outro mais complicado. Permitir que a própria criança crie formas de “autoaconchego” é fundamental.

Situações especiais

  • Bebês de até 6 meses, em amamentação exclusiva;
  • Dentinho nascendo;
  • Reação de vacina;
  • Qualquer dor ou doença;
  • Distúrbios do sono: apneia, terror noturno, sonambulismo;
  • Novidade grande em casa.

Em NENHUM desses casos, você deve esperar que seu filho durma a noite toda. Não se iluda para não se frustrar.

Por que a criança chora?

Se dormir é uma delícia, por que então a criança chora? Esse é o grande nó que tomou conta das famílias.

Se não for nenhuma situação especial descrita acima, vamos tentar desatar esse nó. Você já se fez alguma das perguntas abaixo?

Meu bebê dormia direitinho, de repente começou a acordar de hora em hora, por quê?

Por causa da “Crise dos 8 meses”. Brincadeiras como “achou” e ioiô vão mostrando para ele que, quando os pais não estão em seu campo de visão, não quer dizer que eles desapareceram para sempre.

Não ponha em cheque a confiança que seu filho deposita em você. Evite sair na surdina, não minta. Explique com clareza, sem tensão, e despeça-se.

Vi uma dica incrível em uma antiga revista Crescer, de 2001, da leitora Cláudia Barreto, mãe da Marina. Ela orientou a babá a ir para o parquinho com a criança antes que ela saísse para o trabalho. Então, era a Marina quem dava “tchau”. A filha passou a entender que, do mesmo jeito que ela própria, a mãe também voltaria para casa. A separação se transformou em um momento positivo e sem dor. Isso é perfeitamente aplicável na hora de dormir. Pode-se criar a situação para que A CRIANÇA dê “boa noite”.

Por que ele só dorme depois das 23h?

Observe se a noite é o único horário que você tem com o seu filho, porque ele não vai querer perder nenhum segundo da sua companhia.

Por que o bebê simplesmente não fecha os olhos e dorme?

A criança quando está com sono fica irreconhecível. Nada agrada, ela fica irritadiça e chora sem motivo. Ela LUTA contra o sono. Seria tão fácil simplesmente se render a ele, não?

É que o sono pressupõe entrega. É uma sensação de perda de controle e pode assustar. E é o adulto que deve mostrar à criança que não há o que temer, que é algo prazeroso e necessário. Se existe tensão na hora de dormir, esse aprendizado não vai ocorrer nunca.

E é aí que entra o seu poder de decisão.

Se eu quero que meus filhos durmam às 20h, por conta dos hormônios do crescimento, devo estar consciente que eles vão dormir cedo para ACORDAR cedo. Entre 6h e 7h da manhã, para ser mais exata.

Se eu quero que eles adormeçam e saibam retomar o sono caso acordem no meio da noite, devo dá-los a chance de aprender a fazer isso. Se, a qualquer resmunguinho, eu apareço esbaforida no quarto e tiro do berço, qual é a mensagem que estou passando? Que o berço é um lugar execrável e tenebroso, e que eu sou a única a “resgatá-lo” e “salvá-lo” desse tormento. Caso a criança chore, procure atender com tranquilidade.

Eu costumava repetir igual a um mantra: “Ah, que delícia seu quartinho, seu bercinho fofinho e quentinho; você agora vai descansar, dormir um soninho gostoooooooso até amanhã de manhã, que vai ser um dia lindo. Tá tudo bem. Dorme com os anjinhos.”

Entendo o princípio que prega “o que é mais importante para a criança”. Afinal, ela é indefesa, dependente em tudo. Mas prefiro “o que é mais importante para a família”. A família é um sistema. E a criança faz parte dele. A família estando bem, consequentemente a criança estará bem.

Nesse raciocínio, prezo totalmente a intimidade do meu casamento. E não vejo o desfrutar de momentos exclusivos como algo que possa ser prejudicial para minha família.

É recompensador ser “insubstituível” para o filho. Tentador, até. Mas um grande risco é a potencialização de algo que começa natural (a dependência da mãe por parte do filho), e a criança passa a ser “ensinada” a sentir falta da mãe, e só dela.

Se eu quero que meus filhos possam ir para suas caminhas na hora em que estão com sono e durmam sossegados, eles têm que sentir autoconfiança e perceber que não há motivo para chorar. Se pararmos para pensar, muitas serão as situações de insegurança que eles vão enfrentar. Pode ser ficar na cadeirinha do carro enquanto dirigimos. A adaptação na escola, o nascimento de um irmão. Uma dieta especial no caso de um distúrbio de alimentação. A chegada da adolescência. Não somos onipresentes. Reafirmando a autoconfiança dos filhos, o trajeto é menos pesado. E mais rico.

Eu tomei essas decisões e estou satisfeita com elas. Senti isso no dia em que precisei passar por uma cirurgia para retirada da vesícula, que se complicou. Por vários dias fiquei no hospital com meu marido. Meus sogros ficaram com meus filhos. E me diziam: “às oito da noite, todos já tinham ido para suas caminhas.” E assim eu também podia dormir tranquila.

E você? Que dica tem para o sono infantil?

"Dê qualquer roupinha e continue não entendendo por que ele chora a noite toda". Ah, se tudo fosse só uma questão de roupinha...

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Veja também:

O que aprendi sobre…

a linguagem secreta da birra

viagens com crianças

Carta a meus filhos

Queridos filhos:

Se no ano que vem…

… nós tivermos que passar uma noite em claro, que procuremos aproveitar a rara oportunidade de assistir ao nascer do sol.

… nós tivermos que  lidar com algum problema de saúde, que aprendamos a entender os sinais do nosso corpo.

… nós chorarmos, que as lágrimas venham como a chuva que fertiliza os sonhos.

… nós ficarmos com raiva, que compreendamos o imenso poder criativo dessa energia, quando canalizada.

… nós formos forçados a parar, que saibamos esperar, como a semente que nunca se atrasa e nunca se adianta para germinar.

… nós encontrarmos obstáculos, que nos orgulhemos e nos sintamos como estudantes fazendo uma prova de nível avançado.

… nós errarmos, que sejamos como o rio, que desvia seu curso mas sempre está em direção ao oceano.

… nós tivermos uma perda, que descubramos a força na fé.

… nós nos depararmos com pessoas desarmonizadas, que lembremos de Francisco de Assis e sejamos instrumentos de Paz.

… nós formos instrumentos de Paz, que sonhos, saúde, alegria, amizades, criatividade, paciência, vitórias, ganhos e harmonia venham por acréscimo…

… e seja um ano bom.

ampulheta

Imagem: Desktop Nexus

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Veja também:

O que é verdadeiramente perfeito em nós

O anjo de origami

A arte de criar vazios

Decálogo dos meus desafios

In English: Letter to my children

A brincadeira mais gostosa do mundo

Você se lembra de quando “desaprendeu” a brincar? E agora, com os filhos, o que fazer? O post de hoje é sobre isso.

Posso me considerar uma pessoa de sorte por ter brincado muito. De tudo o que se possa imaginar. Não só com coisas típicas “de menina”, como boneca, casinha ou escolinha, mas também bolinha de gude, futebol, bicicross (com uma “Ipaneminha” da Monark, pensa!) e toda a infinidade de jogos e brincadeiras: pique-bandeira, corre-cotia, polícia-ladrão, elástico, garrafão e por aí vai.

Quando eu estava em casa, gostava de criar “filminhos” com os bonecos. Meus irmãos começavam a brincar, e de repente lá estavam eles, hipnotizados, assistindo à brincadeira. Tinha vez que a história durava dias, em vários “capítulos”, em reinos encantados, florestas perdidas, mundos paralelos ou mesmo o cotidiano da família cogumelo.

Com quinze anos, já tinha um namoradinho. Mas continuava brincando de bonecas. Promovia desfiles de Suzi disputadíssimos com os irmãos e os vizinhos. Hilárias gravações com efeitos sonoros (ondas do mar com a TV fora de sintonia; tropel de cavalos na caixa de sapatos). Ou teatrinhos com os primos. Eu era o descanso das mães, mesmerizando a molecada toda, por horas. As pessoas diziam: como ela tem jeito com criança!

Quando ia à casa da minha prima, um ano mais velha que eu, observei que ela montava a casinha da boneca com todos os móveis, mas depois não tinha mais gás para brincar. Mais tarde, isso foi acontecendo comigo: adorava organizar o cenário, os personagens, mas os “filminhos” não fluíam mais.

E o tempo passou. Meus filhos nasceram. Em vão foram as minhas tentativas de recriar as antigas brincadeiras. Lutei para tentar descobrir onde e quando eu perdi minha espontaneidade e meu entusiasmo originais. Talvez fosse porque, agora, as histórias estavam acontecendo de verdade: minha casa real, minha profissão, minha família. Não é que eu tivesse “jeito com criança”. Eu ERA, efetivamente, uma criança… Agora eu estava brincando de ser gente grande, e o ato de fantasiar perdeu um pouco a graça.

Descobri outras coisas. Se eu quero brincar com meus filhos, escolho peças de montar, como Lego e tijolinhos do pequeno construtor, por conta do meu senso de organização. E também jogos de mesa, como dominó, memória ou o Jogo da Pizza, para que eu me divirta junto e não fique apenas guiando a brincadeira.

Mas tem uma brincadeira que é imbatível na minha preferência: cabeleireiro. Divido equanimemente as mechas de cabelo entre os filhos interessados, espalho dezenas de presilhas, chuquinhas, pentes e escovas e deixo que eles inventem o penteado que desejarem. A ideia nem partiu de mim, justiça seja feita. Eles amam. Eu, então, nem se fala. Lido com um puxãozinho dali, uma chuquinha emaranhada daqui, mas fico quietinha só curtindo o cafuné, até cochilo.

Às vezes, lanço mão do expediente em situações chatas de espera, como no aeroporto ou no médico, me transformo num brinquedão e, mesmo sem as presilhas, eles ficam horas enrolando, trançando e separando as mechas, entretidíssimos. Já teve até criança de outra família querendo pentear também.

Podem me chamar de pessoa desprovida de imaginação, folgada, relaxada, tapeadora de filhinhos inocentes. Mas, antes, proponho um desafio: experimenta. Depois, quem não gostar daquelas mãozinhas ligeiras massageando seu cocuruto e passeando no seu cabelo, que atire a primeira escova! Rsrsrs!

Resultado do trabalho dos meus hair-stylists mirins

 Veja também:

A Fada dos Dentes

Quero ser criança quando eu crescer

This post in English: The World’s best play

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Sites visitados:

Documentário Carta Mãe, da TV Câmara (para assistir e baixar)

Portal Plenarinho da Câmara dos Deputados – o jeito criança de ser cidadão

A história de Marquinhos, deputado mirim que transformou a vida de sua cidade no sertão nordestino

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Quando estava no 2º Período, meu filho mais velho participou de um projeto literário na escola que contava com a ajuda das famílias – claro, nessa época as crianças ainda estavam começando a conhecer o alfabeto. Um livro era levado para casa e, com base na história, deveria ser produzido um cartaz. Além disso, a criança deveria preparar uma apresentação e levar lembrancinhas alusivas para os colegas.

O livro que meu filho trouxe era “Na minha escola todo mundo é igual”. A história era sobre o respeito às diferenças. Fiquei pensando no que poderia ilustrar isso com perfeição. Me lembrei da nossa Carta Magna, que diz:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Fomos, então, às revistas e procuramos imagens de pessoas de todos os tipos, crianças, adultos, idosos, mulheres, homens, de todas as cores, nacionalidades, alturas, aparências. Imprimi um mapa múndi em duas folhas A4. Com uma mesa de luz improvisada (colocamos um abajur embaixo da mesa de vidro para que a cartolina ficasse transparente), copiamos o mapa. Contornamos de canetinha e colamos as pessoas nos países de acordo com suas características – os que tinham olhinhos puxados ficaram mais concentrados na Ásia, por exemplo. Mas reservamos fotos de pessoas com essas mesmas características para colar no Brasil.

Na parte de baixo, puxamos uma seta, como se fosse uma lupa, e colamos a foto do Congresso Nacional, em Brasília. Mais uma vez, colamos imagens de pessoas diferentes entre si.

A mensagem era:

Pessoas de todo mundo vêm para o Brasil.

Pessoas de todo o Brasil vêm para Brasília.

Em Brasília, foi criada a Lei que diz que todos são iguais.

Conseguimos 30 exemplares da versão compacta da Constituição Federal de 1988 (somente com a Lei pura, sem o detalhamento das emendas), para serem distribuídos como lembrancinha para as crianças, com o artigo 5º grifado.

João Marcelo – Documentário Carta Mãe, da TV Câmara

As professoras ficaram muito emocionadas. Para a maioria das crianças, era a primeira vez que tinham contato com a nossa Carta Mãe, nossa Lei máxima.

Aqui em casa somos naturalmente envolvidos com política, por causa do nosso trabalho. Achei lindo demais quando fomos explicar a nosso filho da importância daquele documento, do que ele representa para nosso País, de tudo o que ele preconiza, e meu marido encheu os olhos de lágrimas.

A Constituição foi promulgada em outubro de 1988. Também em outubro a Câmara dos Deputados realiza o Câmara Mirim: crianças de todo o Brasil participam de um concurso de projetos de lei. Os vencedores se transformam em deputados por um dia e os projetos podem até virar leis de verdade!

Trata-se de uma iniciativa ímpar. Nesses dias em que nem todas as crianças conhecem o Hino Nacional e que as aulas de Moral e Cívica são tidas como reacionárias, fica complicado esperar das novas gerações que tenham efetiva participação política.

No dia 12 de Outubro de 2011, milhares de pessoas em várias capitais foram às ruas pedir o cumprimento da Constituição. Quero, sim, que meus filhos entendam como é fundamental conhecer nossos direitos e deveres para serem cidadãos de bem. E que, no dia 12 de Outubro de 2031, eles possam ir às ruas não para cobrar, mas para celebrar.

Foto: Elza Fiuza – Agência Brasil

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Veja também:

Olho de boi, olho d’água

A sabedoria que vem da simplicidade

Quero ser criança quando eu crescer

Lembranças de infância

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

Meu sobrinho nasceu! Agora minha irmã tem três filhos, como eu. Uma ocasião tão especial merece um post especial, com tudo o que agora ela vai conhecer na nova empreitada:

Só quem tem três filhos (ou mais)…

… escova, no mínimo, 32 (os seus) + 20 + 20 + 20 (92!!) dentes, três vezes por dia, todos os dias;

… corta 80 unhas toda semana;

… dá a mão a dois deles para atravessar a rua e pede a um que dê a mão ao terceiro – coisa que nunca aceitam;

… precisa pegar dois táxis pra caber a família toda;

… faz, toda semana, o que para os outros é uma compra de mês;

… vê inviabilizado qualquer rodízio de carona – a menos que tanto você quanto seu vizinho tenham uma Kombi;

… precisa de dois sofás para assistir à TV;

… quando viaja, é obrigado a reservar dois quartos de hotel depois que o menor completa 3 anos. E dá graças a Deus quando o hotel tem quartos conjugados;

… tem que planejar uma verdadeira operação de logística toda vez que viaja com eles. E, se for um esquema só do casal, deixa uma verdadeira operação logística para os heróis que se dispuserem a ficar com os três;

… tem que administrar três deveres escolares, três agendas, três semanas de provas por bimestre, três materiais escolares, três boletins. Ainda tem que se desdobrar (desdobrar, não! Se DESTRIPLICAR) para assistir a três reuniões de pais e mestres na escola. Mas também é agraciado com um descontinho na mensalidade do menor;

… observa que eles são experts em fazer todo tipo de combinação na hora da encrenca: mais velhos x menor, menores x mais velho, meninos x meninas, mais velho + mais novo x do meio, os três x os três…

… ganha três presentes fofinhos feitos por eles e assiste a três apresentações de Dia das Mães todos os anos (e chora em todas);

… descobre que três é o número mínimo ideal para qualquer brincadeira: pique-pega, pique-esconde, bobinho, jogos como War, etc!

… ouve as mais diversas expressões acerca dos seus filhos: escadinha, coleção de menino, gang…

… descobre que, agora, eles são maioria em casa…

… ouve: “Você é mãe de três? Você é…” (complete a frase):

(   ) animada

(   ) corajosa

(   ) ocupada

(   ) determinada

(   ) inconsequente

(   ) guerreira

(   ) madura

(   ) sortuda

(   ) ninja

(   ) admirável

(   ) feliz

(   ) louca

(   ) todas as anteriores

E ainda tem quem pergunte: “Quando vem o quarto filho????”

O fato é: engana-se quem acha que dá pra aplicar economia de escala quando o assunto é criança. Não dá. Eles precisam (e nós também) de tempo individual, real, aquele lá da Física, mesmo.

Engana-se quem acha que é só multiplicar por três. Não é. Está mais pra elevar à terceira potência:

  • Desafios ao cubo;
  • Responsabilidades ao cubo;
  • Possibilidades de crescimento ao cubo;
  • Amor ao cubo – isso é bom demais!!!!

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: as mães de animações e seriados

Alguns seriados e animações da TV e do cinema encantam gerações por décadas, desde que foram lançados: “Família Dinossauro”, “Os Flintstones”, “Shrek”, “A Família Addams”, “A Feiticeira”, “Os Simpsons”, “A Grande Família”, “Os Incríveis”, “Os Jetsons”…  São histórias que continuam a fazer rir, com personagens que parecem já fazer parte da nossa própria família. Já parou para pensar quais as semelhanças existentes entre as personagens mães? E entre elas e você?

 (Você curte Análise do Discurso? Confira o texto completo: De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011)

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

Olha o que o público fala sobre elas e os motivos pelos quais elas são consideradas “boas mães”:

“Família Dinossauro”. Mãe: Fran da Silva Sauro

O enredo se passa na Era Mesozóica. Fran é casada com Dino e tem três filhos: Bob, Charlene e Baby. Segundo a web, é a “simpática matriarca da família e perfeita dona de casa. Muito dedicada, Fran vive apenas para cuidar do marido e dos filhos”, filhos esses “muito barulhentos e revoltados”, para os quais é necessária “uma paciência incomparável”. Fran “muitas vezes se sente caçoada e deseja conversar mais tempo com a família. Sua melhor amiga, Mônica Desvertebrada, influencia Fran a lutar pelos seus direitos”.

 “Os Flintstones”. Mãe: Wilma Flintstone

O enredo se passa no ano 1.040.000 A.C. Wilma é casada com Fred e é mãe de Pedrita. É “exímia dona-de-casa. Já pensou em trabalhar fora várias vezes, mas seu marido Fred é contra”. “Uma mãe muito vaidosa, gentil, paciente e talentosa. A filha dela, Pedrita, diz que ela é o tipo de mãe perfeita, e faz de tudo para proteger toda a família” e “apesar de viver no tempo dos dinossauros, é muito moderna.”

 “Os Flintstones”. Mãe: Betty Rubble

Esposa de Barney, Betty é mãe adotiva de Bambam. Segundo a web, “está sempre de bom humor. As famosas risadinhas encantam toda a família. Bambam, seu filho, adora o jeito atencioso e engraçado da mãe.” É “o modelo de esposa perfeita, devotada e muito paciente e talentosa, para livrar seu marido das encrencas que ele se mete.”

 “Shrek”. Mãe: Fiona

O enredo se passa no mundo dos contos de fadas, na Idade Média. A princesa Fiona é esposa do ogro Shrek e tem trigêmeos. “É o tipo de mãe que acompanha todos os passos do filho e não perde nenhum movimento dele. Sempre participativa, ela adora fazer comidinhas para a família.”

 “A Família Addams”. Mãe: Mortícia Addams

Morticia é casada com Gomez e tem dois filhos: Wandinha e Feioso. A web lhe atribui os seguintes adjetivos: “é o coração e a alma da família Addams”. “É uma mãe não-convencional. Ela deixa os filhos brincarem com cobras, veneno e poções perigosas. Mas também, pudera. Ela é a matriarca da Família Addams, a família mais esquisita dos cinemas.” Morticia também faz questão de organizar o lar, ainda que “com um ar bem tétrico.”

 “A Feiticeira”. Mãe: Samantha / A Feiticeira

Samantha é casada com James e tem dois filhos: Tabatha e Adam. Ela é uma feiticeira, e pode fazer mágica com um simples movimento do nariz. “Está sempre tentada a usar todos os seus poderes, para facilitar a vida do casal. Mas o amor fala mais alto e para não desagradar ao marido, vive driblando sua natureza de bruxa.”

 “Os Simpsons”. Mãe: Marjorie/Marge Simpson

Marge é casada com Homer e é mãe de Lisa, Bart e Maggie. Tem “personalidade muito paciente. Mesmo Homer aprontando inúmeras confusões, ela continua sendo uma esposa fiel e dedicada, assim como é para com os filhos. Com poucas exceções, Marge gasta a maior parte de seu tempo como dona de casa. É na verdade um estereótipo de dona de casa suburbana dos anos 1950.” Mais adjetivos: “compreensiva, paciente e tranquila”, “superbrincalhona, mas ao mesmo tempo, educada e preocupada com as trapalhadas do marido e do filho, Bart”. Marge “é do tipo que dá a vida por sua família.”

 “A Grande Família”. Mãe: Irene / Dona Nenê

Irene, conhecida como Dona Nenê, é casada com Lineu e tem dois filhos: Tuco e Bebel. A web a descreve como “a matriarca de todos os telespectadores brasileiros. Dona de casa primorosa, companheira e mãe zelosa, um porto seguro para aqueles que vivem a sua volta. Compartilha dívidas, discussões e uma disposição agregadora incrível. Nunca diz não para a família. Se a sua mãe não é igual a Nenê, provavelmente você adoraria que ela fosse como a personagem.” Ter uma mãe assim “significaria poder contar com ela mesmo quando fizéssemos algo bem errado. Se não fosse por ela, a harmonia da família Silva já teria ido por água abaixo há muito tempo.”

 “Os Incríveis”. Mãe: Mulher Elástica / Helena Pera

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, é esposa de Roberto Pera, o Sr. Incrível. Têm três filhos, todos superpoderosos: Violeta, Flecha e Zezé. Assim a web descreve sua personalidade: “Helena parece ser a única no casal a se preocupar com os filhos. Ela parece bastante estressada em sua tentativa de preencher o vazio deixado por Beto em sua ausência como pai de verdade.” “Mãe aventureira, radical e superprotetora. Ela possui superpoderes incríveis e consegue esticar o corpo todo para enfrentar as aventuras que passa junto aos filhos e marido”. “Qual mamãe não gostaria de ser elástica para poder dar conta de todos os serviços e ainda brincar com os filhos?”

“Os Jetsons”. Mãe: Jane Jetson

O enredo se passa no futuro, com a tecnologia presente em cada detalhe do dia-a-dia das personagens. Jane é esposa de George e mãe de Elroy e Judy. “É o tipo de mãe exemplar e ao mesmo tempo moderninha.” “A mamãe do futuro cuida dos filhos e ainda tem que fazer de tudo para manter o apartamento da família (o Sky Pad) impecável.”

Veja também:

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Mães de animações e seriados 4: Curiosidades imperdíveis

Mães de animações e seriados: Toda a série

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Fran, Wilma, Beth, Fiona, Morticia, Samantha, Marge, Nenê, Helena, Jane: o que elas têm em comum? São ponderadas, sensatas. Centralizam e organizam a família em torno de si, são responsáveis por manter o equilíbrio da casa. São amorosas e dedicadas e suportam tudo.

Nenê da Grande Família é exceção: não encarna o lado racional da família. Puro sentimento, às vezes se atrapalha. Lineu assume a posição de sensato da casa, papel normalmente confiado às mulheres nessas produções.

Nenhuma das personagens trabalha fora de casa. As que experimentam acabam voltando. O dilema trabalho versus casa, portanto, é extirpado, bem como o babá versus creche.

O trabalho da casa é realizado integralmente pelas mães, exceto Jane Jetson, que tem a ajuda da robô Rose, e Mortícia Addams, que conta com o mordomo Frank e a mãozinha Coisa. Wilma Flintstone também tem a ajuda de seus eletrodomésticos com animais.

Todas as mães têm que esconder seus “superpoderes”, mas sempre “salvam” a família de enrascadas. Esses poderes podem ser mágicos, como no caso da Feiticeira Samantha, ou talentos profissionais, como o da hábil comunicadora Fran Sauro, que desiste de apresentar um programa de TV para cuidar da casa.

Não existe revolta. Todas estão resignadas em seu papel, cientes disso e de sua importância para a família.

Todas as personagens estão em boa forma física, ainda que não se explicite de que maneira elas chegam a esse resultado. Fran Sauro também, dentro do que se espera de um ser de sua espécie.

Os maridos são infantilizados e atrapalhados (também com exceção de Lineu). Trabalham como funcionários em empresas. Estão insatisfeitos com o trabalho, mas são conformados (exceto Gomez Addams: “um advogado que acumulou uma riqueza invejável e que agora vive tranquilamente acariciando seu polvo e explodindo trens de brinquedos em sua mansão”).

Sugestionáveis, ingênuos e teimosos, os pais das famílias de seriados e animações sempre se metem em confusão. Assim, as mulheres se posicionam como mães de toda a família, incluindo os maridos.

Seja na Idade da Pedra, na Idade Média ou no futuro, os padrões se repetem, se mantêm. Shrek, por mais anárquico que se pretenda, apresenta Fiona como uma mãe zelosa ao molde das demais. Ou seja, o roteiro de Shrek subverte tudo – a princesa é uma ogra, o herói é um ogro, a fada madrinha é má -, exceto o que se entende como amor materno.

São todas famílias nucleares – pai, mãe, filhos -, com intervenções de parentes em alguns casos. O protótipo do que se difunde como uma típica família dos anos 1950.

Nas produções, é curiosa a presença de outras mães, as mães das mães: as sogras. São vozes femininas de chamado à consciência. Elas parecem discordar da escolha das filhas e de tudo a que as elas se submetem, e estão sempre dispostas a aborrecer os genros. São incômodas mas também não ajudam nos afazeres (às vezes até pelo fato de contestá-los). Trata-se de um reforço contínuo ao estereotipado conflito entre sogras e genros.

Outras figuras podem cumprir o papel da sogra: a dinossaura Mônica (Família Dinossauro), a modista Edna (Os incríveis), as irmãs de Marge Simpson (Os Simpsons). Em Shrek, quem cria problemas é o sogro, mas por temor de que sua identidade verdadeira seja revelada (trata-se de um sapo transformado em humano).

 

Mulher elástica – algumas diferenças

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, merece uma análise à parte porque, no decorrer do filme, vai revelando facetas que a princípio podem distanciá-la das demais mães apresentadas anteriormente.

A Mulher Elástica é feminista no início da história. Em uma entrevista jornalística, ela discursa: “Sossego, qual é? Tô no auge da forma, em briga de cachorro grande. Garotas, na boa: deixar o mundo ser salvo pelos homens? Claro que não. É claro que não.”

Ela se casa com Beto Pera, o Sr. Incrível, mas algo põe a perder suas carreiras de super-heróis. O Sr. Incrível não se conforma em se esconder por trás de um medíocre vendedor de seguros. Mas a ex-Mulher Elástica parece conformar-se com a nova vida. Isso é um paradoxo, que vai contra o que ela diz na entrevista do começo do filme, no auge da juventude, e também para ele, que na mesma entrevista diz planejar constituir família.

Helena se resigna com seu papel de mãe zelosa. E luta para defender essa nova situação como uma escolha própria sua.

Em casa, as coisas são superdimensionadas por ela (e menosprezadas pelo marido, Beto). Seus superpoderes, que outrora salvavam o mundo, agora são utilizados para lidar com os desafios em família, a própria metáfora da mãe-malabarista, a quem se exige todo o tempo que se adapte, que se molde.

Sim, Helena está tentando se adaptar à vida de dona de casa e mãe, e está muito empenhada em manter as aparências, mas deixa transparecer aqui e ali o seu descontentamento. De todas as mães das séries e animações, é a mais impaciente e estressada.

Com o desaparecimento de Beto, que ela suspeita ser algo relacionado a traição conjugal, Helena deixa os filhos ao cuidado da primogênita para recuperar o casamento. Nesse raciocínio, o casamento é mais precioso para os filhos; o fim da união do casal é um perigo muito maior que o abandono. E, ao mesmo tempo, sob os conselhos de Edna, ela descobre que também precisa recuperar a heroína que um dia foi, para que se mantenha admirável aos olhos do marido – e aos próprios olhos.

A Mulher Elástica, então, volta à “ativa”. Mas somente porque os filhos vão junto com ela, quando demonstram poder se virar sozinhos. Ela percebe que sua superproteção tolhia os filhos, tornava-os infelizes. O desfecho traz a ideia de que a família é invencível quando está unida.

Helena é a única mãe das animações e seriados que volta para a sua profissão, ainda que sob circunstâncias próprias de quem tem uma família inteira com poderes especiais, que podem dispensar a dedicação absoluta da mãe.

Contudo, ainda que existam algumas diferenças entre Helena e as outras personagens de mães, o fio condutor é o mesmo: todas são mulheres que têm na família seu bem maior.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

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Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Nunca foram necessárias tantas qualidades para que uma mulher se sinta uma boa mãe, como nas últimas gerações. Um misto de administradora, executora, conciliadora, sempre com um sorriso no rosto e uma deliciosa refeição à mesa, tudo sem descuidar da beleza. Mas a mais preciosa e indispensável de todas as características é o amor incondicional, a capacidade inesgotável de suportar tudo a fim de manter a unidade da família.

Aminatta Forna encontra a imagem que melhor representa o amor materno: Nossa Senhora. Mas, segundo ela, é fácil ser plácida e serena com um bebê como o menino Jesus. Ser plácida e serena com filhos como Bambam Rubble (que hoje seria considerado hiperativo), Bart Simpson e Baby Sauro é muito mais heroico – e digno de admiração.

Para Elizabeth Badinter, esse conceito de amor materno (ou mesmo a noção de “instinto maternal”) é algo que foi construído – e o mais instigante: não pelas mães. O que ela chama de mito do amor materno tem sua raiz na necessidade de mudança de foco em relação à infância: as crianças, antes tidas como seres imperfeitos e incompletos que necessitavam de correção, passam a encarnar a esperança do futuro. A partir desse momento, os especialistas se dedicam de forma insistente a provar que sobre a mãe recai a responsabilidade primordial (e exclusiva) de formar os novos indivíduos.

Com o passar do tempo, o conceito fabricado de amor materno passou a ser ampla e irrefutavelmente aceito, naturalizado como se sempre tivesse existido.

Segundo Trisha Ashorth e Amy Nobile, muitas transformações ocorreram na vida de muitas mulheres das últimas gerações, que as impede de olharem para as próprias mães como modelos.

Susan Maushart enfatiza ainda a presunção e arrogância que torna maior o abismo entre as mães de hoje e a de mulheres que as antecederam na maternidade. Para ela, um conhecimento inestimável foi perdido com a quebra desse elo, inédita na história da humanidade. Tudo sob a alegação de que as mães da geração atual podem fazer diferente.

As mulheres não se espelham mais nas próprias mães. A grande contradição é que, enquanto os ideais de perfeição no “fazer” mudam com o tempo, os ideais de perfeição na postura da “mãe perfeita” se mantêm.

Somado à constatação de que as crianças também mudaram muito – a mulher também não vê nos filhos a criança que foi –, tudo isso resulta em um perene sentimento de inadequação, de estar perdido, em busca por um lugar.

Para Diana e Mário Corso, os pais parecem andar com aquele adesivo: "Não me siga, eu também estou perdido!"

Em sua experiência de psicanalistas, Diana e Mario Corso relatam o “sofrimento daqueles que julgam estar na família errada, uma ideia de que sua família não é como deveria ser ou não se comporta adequadamente como uma ‘verdadeira família’.” Os autores se perguntam: e qual é a família certa para os dias de hoje?

Sem bússola, e diante do excesso de escolhas, de expectativas e de responsabilidades, as mães encontram na mídia modelos dourados, que se acredita serem eternos desde sempre.

Sempre paira a tentação de se atribuir à “indústria cultural” (ou qualquer outra nomenclatura mais moderninha) a massificação de valores a fim de se obter boa-vontade por parte do público. Em outras palavras, a “teoria da conspiração”, que estaria “por trás” da fixação desses modelos da mãe perfeita, de paciência infindável, que se anula em prol da família.

Entretanto, o papel da mídia aqui é outro. As razões do sucesso desses produtos, ainda que sejam fonte de inspiração, repousam mais na necessidade de compartilhamento de experiências. Desenhos e seriados populares são produtos de entretenimento que colhem, sedimentam, reforçam, retroalimentam modelos que não são impostos, são acolhidos pelas mães de forma natural.

Para uma parcela de mães, a responsabilidade exclusiva pela criação dos filhos é um “poder” do qual não querem abrir mão e pelo qual abrem mão de todo o resto – razão da indignação de Helena no diálogo citado anteriormente. Para elas, um poder que só é legítimo pela via do sofrimento e da renúncia. Qualquer outra coisa que fuja a esse princípio é considerado egoísmo e só leva a um destino: o da eterna culpa.

“Como mulheres, e principalmente como mães, ainda não deixamos de ter medo de que, se é bom, deve ser egoísmo – e que cuidarmos de nós mesmas significa inevitavelmente faltar com nosso primeiro e mais legítimo dever: cuidar de todos os outros.”  (Susan Maushart)

 Assim, em muitos casos são as próprias mães que se agarram a esses padrões de perfeição. “Conspiração”, para elas, seria o que é praticado por quem tenta chamar a atenção para os padrões, quem tenta “libertá-las”: são as “máfias” das feministas, dos médicos, dos fabricantes de leite, dos homens, do sistema, do capitalismo, enfim.

Quando a realidade insiste em se impor ao idealizado, surge o mal-estar; mas, ainda assim, elas preferem continuar ostentando sua “máscara da maternidade”, como diz Susan Maushart.

“Quem quer a pressão de ser super em tempo integral?” pergunta o Sr. Incrível. Do que se depreende da presente análise, muitas mulheres querem.

Talvez por absoluta falta de opção do que pôr no lugar.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

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A Linguagem Secreta da Birra

Sites visitados:

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Tenho visto diversos livros e artigos que se dedicam a ensinar os pais a reconhecer, combater e até mesmo a prevenir a birra infantil. O objetivo máximo é evitar que esse comportamento se prolongue, intensifique, repita ou se torne uma constante. Muito do que li, entretanto, foca a birra do ponto de vista dos pais, em busca de algo que aplaque o alto poder irritante que ela tem sobre os adultos. Este post procura revelar a birra pela perspectiva da criança – a linguagem secreta dessa prática. E fala da importância de desenvolver a maturidade emocional: para filhos e também para mães e pais.

Para lidar com a birra, em primeiro lugar, a gente tem que afastar as possibilidades universais que estressam uma criança. São elas, segundo as Motherns:

  • TPS: Tensão Pré-Soninho;
  • TPA: Tensão Pré-Almoço;
  • TPD: Tensão Pré-Dentinho.

(CORRÊA, Laura Guimarães & OLIVEIRA, Juliana Sampaio. “Mothern: manual da mãe moderna”. São Paulo: Matrix, 2005)

 As Motherns também mencionam a “Verdade”: a de que todas as crianças choram. Em algumas vezes, só por vontade de dar uma chorada básica, mesmo. Sem razão. E sem neura, é bom extravasar, normal até para os adultos.

Vamos lembrar ainda que a criança tem o “prazo de validade de alegria”. Não insista em compras quilométricas em supermercados, visitas intermináveis ou outro programa típico de adulto quando sentir que esse prazo está findando.

Outra possibilidade é a criança ficar doentinha e, por isso, mais sensível e manhosa.

Esses casos tem origem certa e geralmente se resolvem com a supressão das tensões. Vamos então aos casos mais complicados.

Muitas vezes, nossos filhos estão assim:

Claudia Bebê n523B

Pais & Filhos 394

 

Guia da Mamãe 3

 
 

Crescer 98

 
 

Meu Nenê n85

Mas, muitas vezes, eles também estarão assim:

Família Bico. Montagem de Marusia com foto de Duchessa / Stock Xchng

Guia da Manha. Montagem de Marusia com foto de GerryT / Flickr

Meu Auê. Montagem de Marusia

Pitis & Pirraças. Montagem de Marusia com foto de Capture Queen / Flickr

Em um post só não iria caber tudo, então fiz uma série (cada item é um link)

  1. ACESSO DE RAIVA – Sobre esse eu já tinha escrito: Seu filho como você sempre sonhou
  2. TEIMOSIA
  3. FASTIO
  4. NECESSIDADE DE PALCO
  5. ATENÇÃO NEGATIVA
  6. O que é importante saber

P.S.: Essa sequência de posts foi escrita para todo mundo que se identifica, mas tendo em mente um destinatário em particular: eu mesma. (VIU, MARUSIA???)

A Linguagem Secreta da Birra – Necessidade de palco

Site visitado: “A quem ofereço o melhor de mim?”

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Para criar consciência de si, a criança precisa de plateia. Para se enxergar e enxergar o mundo, ela precisa antes do olhar dos pais. Em várias situações, a única coisa que ela quer é ser vista e ouvida e sentir que foi compreendida.

É tão engraçado, os pais querem que as crianças aprendam a falar, a bater palminhas e fazer outras gracinhas, mas depois não têm tanta paciência quando elas tomam “a pílula do Dr. Caramujo”, disparam a tagarelar e a fazer cena. Agem como se o filho tivesse um botão liga/desliga – “agora você é engraçadinho” / “agora não tenho tempo”.

Se a criança não consegue atenção, vai apelar. Aí, sim, você vai ver “O show”.

 O QUE FAZER?

No cotidiano, dê uma de Avatar e expresse: “Eu VEJO você”. Isso opera milagres, você nem imagina.

Filme "Avatar", de James Cameron. Twetieth Century Fox

Na hora da birra, faça o oposto. Diga à criança que você a compreende e respeita, mas que esse não é o modo de fazer as coisas acontecerem. Que só vai conversar quando ela estiver tranquila. E aí é sangue frio para dar um “gelinho”. Se ela estiver acostumada a ter palco sempre, se os pais a veem com frequência, ela vai sentir o peso do gelo e aos poucos vai percebendo que não vale a pena dar chilique. Mas, se ela nunca tem plateia e só consegue chamar a atenção quando começa o berreiro, não se iluda: o “show da birra” vai acontecer um bocado.

Tem coisas que o filho só apronta com pais. São bonzinhos e educadinhos com todo mundo e aprontam SÓ com os pais. De preferência na frente dos outros, pra te matar de vergonha. A criança, nesse caso, está passando dois recados:

  • Tenho segurança em vocês, que são os únicos a conhecer meu “lado B”;
  • Tudo o que é proibido é mais gostoso, e vocês vão pensar duas vezes antes de me chamar a atenção em público.

O QUE FAZER?

A regra é a mesma dentro e fora de casa, em família e em público.

Se você for imediatista para acabar logo com o barulho, é grande a tentação de ceder aos caprichos. O que estará sendo passado por você é: “o escândalo é via legítima para se conseguir qualquer coisa.”

Pense a longo prazo e só negocie se a criança estiver calma. Em suma: algo razoável, que você até cederia, simplesmente está fora de cogitação se houver birra. É o velho e bom “apelou, perdeu” (Isso vale para os pais, também).

Veja também:

A Linguagem Secreta da Birra – Teimosia

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

A Linguagem Secreta da Birra – Atenção Negativa

A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

A Linguagem Secreta da Birra – Toda a série

Decálogo dos meus desafios

A Linguagem Secreta da Birra – Atenção Negativa

Uma criança calma, carinhosa e cooperativa de repente se torna rebelde e agressiva. Qualquer momento que os pais se aproximam, ela cria uma confusão. Parece uma estratégia burra, não é? Ela quer atenção, mas o que consegue é irritar e afastar os pais cada vez mais.

Trata-se da atenção negativa. Apesar de aparentemente ser um comportamento ilógico, isso não acontece de graça. Quando acontece alguma mudança profunda na relação familiar, que reduz a atenção que ela vinha recebendo até então, ela reage. Que mudança pode ser essa? Os pais que aos poucos retomam seu ritmo de vida, a entrada na escola e a chegada de um irmãozinho são bons exemplos.

Mamãe está tricotando isto para meu futuro irmãozinho. Meu querido irmãozinho. Meu adorado irma... (Criação: Quino)

Ao contrário do que se pensa, a criança procura sempre agradar os pais (até por instinto de sobrevivência). Então, se ela percebe que o tempo dedicado a ela está diminuindo, ela vai criar uma RAZÃO CONCRETA que justifique isso. Inconscientemente, ela diz: “Mamãe, eu vou fazer uma birra e te dar um motivo real para não ficar comigo.”

O QUE FAZER?

Não é que a criança mudou e ficou irreconhecível. Ela sempre teve essas “armas” em sua personalidade, só não precisou usá-las até então. Assim, é importante observar o fenômeno como uma REAÇÃO a algo, externo a ela e ANTERIOR a seu comportamento.

Reproduzo aqui o que disse meu pediatra:

Quando a família atravessa um momento novo, NÃO É HORA DE DISCIPLINAR. Intensifique o carinho, o toque, e em frases curtas repita os ensinamentos quantas vezes forem necessárias.

Dá um trabalhão monstro. Mas funciona.

São gestos que passam confiança e retribuem com outra linguagem secreta: “Muita coisa mudou, mas meu amor por você, não. E, mesmo que você esteja aprontando um monte, eu continuo te amando muito.”

Veja também:

 A Linguagem Secreta da Birra – Teimosia

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

A Linguagem Secreta da Birra – Necessidade de Palco

A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

A Linguagem Secreta da Birra – Toda a série

Seu filho como você sempre sonhou

Decálogo dos meus desafios

Falando de sexualidade

Site visitado:

Aprendiz de Mãe – As crianças e a transmissão da cultura

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Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Cresci com 4 irmãos. Acostumadíssimos a tomar banho juntos – uma farra! Meus pais nunca trancaram a porta do banheiro, então era supernatural vê-los sem roupa. Sempre com muito respeito, claro. A conversa sempre fluiu tranquila, muito livro pra ler. Mas, ao mesmo tempo, muita inocência. Lembro de um de nós, com um tom risonho, segredando para os outros: “papai e mamãe transaram cinco vezes kkkkkkkkk!”

A vergonhinha veio na adolescência, a timidez para comprar modess (modess!!! vixi, tô ficando velha rsrs), sutiã e afins. Mas tudo sempre com muita naturalidade e cumplicidade.

Não tinha como ser diferente aqui em casa. A meninada toma banho com a gente, sempre há abertura para tirar qualquer dúvida.

Quando minha filha nasceu, o mais velho ficou intrigado com uma anatomia tão “explícita” (diferente da minha rsrsrs):

– Mãe! Olha! Ela não tem pinto! E o bumbum vem até a frente!!!!

***

Essa história de bumbum ainda rendeu. Quando minha cunhada ficou grávida, meu filho perguntou:

– O médico vai cortar sua barriga pra tirar o neném?

– Vou torcer para que não, querido.

– Ué, mas aí ele vai sair como?

-(já ficando vermelha) Ora, do jeito natural.

– Como?

– Por baixo.

– Onde?

– Por baixo…

Ele parou, pensou e perguntou curioso e empolgadíssimo:

– Mas aí o seu bumbum vai ter que abrir muito!!!!

– (rindo muito) Pois é, vai ter que ser!

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

***

Mais tarde, ele viu uma propaganda da campanha de prevenção à Aids: Não deixe a Aids te pegar, use camisinha. Seguiu-se o diálogo:

– Mãe, o que é Aids?

– É uma doença. As pessoas ficam com problemas nas células de defesa e podem pegar outras doenças.

– Quando a gente usa a camisinha, não pega?

– Não pega.

– Só de usar uma camisa?

– Bom, na verdade, não é bem uma roupa.

– Não? É como, então?

– É uma coisa que o homem coloca no pinto.

– Por quê, a Aids pega pelo pinto???

Observe-se que, até então, ele tinha somente a noção de que papai põe uma sementinha na mamãe e estava satisfeito. Até já sabia que o bebê saía da barriga da mãe “por baixo”. Mas, agora, a explicação tinha que se enveredar por mais detalhes. Fiquei com vergonhinha, botei desculpa na presença da irmã menor no recinto e apelei para o maridão.

Achei supercomédia quando cheguei à noite e vi, sobre a mesa do escritório, o livro da Larousse sobre corpo humano, cheio de páginas marcadas. Ele não me deixou acompanhar a conversa: “Ah, não, você jogou a pepinosa na minha mão, agora somos só eu e ele.”

Fiquei pra morrer de curiosidade, mas respeitei. Ao final, meu marido contou:

– Fui respondendo à medida que ele perguntava, nem mais nem menos. Ele me olhou e falou: “Só isso? Intão tá.” E foi brincar.

Dirimidas as dúvidas, diferenciados “bumbum” do órgão sexual feminino e tudo mais, fiquei contente: o mecanismo está todo explicadinho e bem aceito; a inocência continua.

Dá, sim, para mostrar para nossos filhos como a sexualidade é natural – e linda.

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Sugestões de livros:

Livro "Sexo não é bicho papão", de Marcos Ribeiro. Editora Zit.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Coleção Tris-Trás - Livro "De Onde Eu Venho?", de Sergi Càmara. Editora Escala

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Livro "Planeta Eu: Conversando sobre sexo", de Liliana e Michele Iacocca. Editora Ática

As coisas não acontecem como a gente quer

Sites visitados:

Ser mãe é descobrir a arte de morder a língua

Coisas que o manual da mamãe não diz

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 As coisas

as coisas não acontecem

como a gente quer

 

nem mesmo como a gente

não quer

 

as coisas nunca pedem

a nossa opinião

(DÍDIMO, Horácio. Amor, palavra que muda de cor. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984)

__________

Os filhos nascem, os filhos crescem, nem sempre “as coisas” acontecem da maneira como planejamos, ou imaginávamos. Ninguém conta, realmente, com o fato de um dia se deparar com uma birra, uma nota baixa, uma doença ou mesmo uma síndrome grave. Um dia chato, um cansaço, uma tristeza nunca fazem parte do que a gente pensa sobre os filhos antes de tê-los.

A blindagem da gravidez

O advento da gravidez é um fenômeno intrigante. No momento em que recebemos o resultado, algo diferente começa a se processar em nossa mente. É como se nos revestíssemos de uma poderosa armadura, que nos tornasse imunes a qualquer coisa.

Por quê? Porque estamos sob a égide do sonho. Porque nos achamos diferentes. Porque achamos que, por sermos diferentes, nossos filhos serão diferentes. Porque achamos que, se FIZERMOS diferente, nossos filhos também farão diferente.

O choque da realidade

Aí o bebê nasce. E tudo que a gente concebia começa a cair por terra, nos primeiros choros, nas primeiras noites em claro, nas primeiras desobediências e tudo mais que se segue naturalmente na infância.

Então, nasce o filho, mas também a mãe, o pai, a família. São todos recém-nascidos. O que nem sempre nos damos conta é que, paulatinamente, morrem as fantasias: o bebê perfeito, a mãe perfeita, a família perfeita, a vida perfeita.

E “as coisas” se sucedem, independentemente  do que a gente faça e de quem a gente seja. Coisas que não estão nos manuais. Que nos forçam a morder a língua. Achávamos que, conosco, seria diferente… E é mesmo… diferente do que a gente pensava kkkkkkkkk!

Nossa primeira reação pode ser de silêncio. Em seguida, a busca: o que está errado? Quando começamos a descobrir que outras pessoas passam ou passaram pela mesma experiência, sobrevém o sentimento de alívio. E, depois, a vontade de expressar.

O alerta no megafone

Surge um afã inesgotável de dizer pra todo mundo o que sentimos, de compartilhar, de alcançar plateias, para que ninguém precise “padecer no paraíso”. Mas tudo é um misto de muito altruísmo com muita ingenuidade.

E por quê?

Porque estamos sob a égide do sonho. Pensamos que nossas experiências podem fazer a diferença. Mas, do mesmo modo que não temos controle sobre o impacto que nossa experiência pode ter para nossos filhos, descobrimos que não temos a menor influência sobre as grávidas e neomamães. Elas, afinal, estão blindadas, filtrando as informações para continuarem sob a égide dos sonhos… Quem sou eu para dizer nada?…

 O que realmente faz diferença

Chegando nesse ponto do caminho, entre a desilusão e as altas doses de “vida real”, talvez a gente se sinta um pouco hesitante de dar o próximo passo. O segredo é não ficar passivo, nem “maria vai com as outras”. Ora, o tempo todo eu quero que “as coisas” ouçam, sim, a minha opinião. Acho legítimo querer ser a protagonista – melhor ainda, a roteirista da minha história.

Mas nunca devemos esquecer a lição – a mais rica de todas – que o “choque de realidade” nos proporciona: a humildade. A humildade de aceitar que não sou a dona da verdade. O que, cá pra nós, também é um alívio.

Veja também:

Biblioteca da Mãe desencucada

Conselhos que amei

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Você está esperando seu filho há muito mais de nove meses – Marusia fala

Cheiro de infância

Sempre fui muito ligada em cheiro. Olfato muito apurado, era a primeira a sentir cheiro de tudo: algo queimando, gás, até chuva chegando. O que mais me fascina é a capacidade que um perfume tem de transportar a gente pelo tempo. Chuva chegando, por exemplo, me conecta imediatamente à minha infância: ozônio, terra molhada…

Outros cheiros que me fazem voltar a ser criança:

  1. Vick Vaporub. Ai que delícia a massagem no peito quando a gente ficava gripado…
  2. Plástico. Lembro minha mãe encapando dezenas de cadernos e livros, também tão novos e cheirosos, impregnados da expectativa do início do ano letivo…
  3. Gasolina. Quando meu pai parava no posto, ficava tão admirada: quando eu for adulta, também tenho que ficar atenta a tantas tarefas, como abastecer o carro.
  4. Sargaço. Cheiro de mar, de alga, cheiro salgado de praia. Indizível, único, ímpar. Lembro a casa de praia do meu tio no Jauá, perto de Salvador.
  5. Bolo no forno. Aniversário. Era o bolo de cenoura, beijos de coco enrolados em papel cheio de franja, tudo feito em casa, e mais caju cristalizado e guaraná. Ainda não estávamos na “Era dos Serviços”. Tudo muito simples, mas muito feliz!
  6. Frango assado da Só Frango. Comprado no domingo. Nunca vi quem conseguisse reproduzir o aroma e o tempero desses frangos feitos naquelas máquinas “televisão de cachorro.” Depois do almoço, meu pai dizia: “Todo mundo lavar a mão – e a torneira também!!!”
  7. Bronzeador Cenoura e Bronze. Antes do advento do filtro solar. Também me lembro do cheiro da esteira de palha nova. E de fazer um “travesseiro” de areia para tomar sol.
  8. Esmalte. Minha mãe sempre pintou as próprias unhas, que costumo dizer que são as mais bonitas que já vi. O cheiro típico do óleo de banana do esmalte branco que ela usava me faz voltar no tempo, quando eu a assistia nesse ritual.
  9. Terno do meu pai. Esse é muito sutil. Passei a reconhecer depois que eu comecei a trabalhar. Quando meu pai chegava em casa, tinha o cheiro do ar condicionado do banco onde ele trabalhava. Cheiro de escritório, de gente grande importante e responsável, de quem eu me orgulhava tanto.
  10. Álcool das folhas mimeografadas. Antes que o xerox se popularizasse, antes de ter computador e impressora. Lembro da escola, das provas que às vezes chegavam úmidas, e eu sempre cheirava antes de começar.

 Aqui em casa a meninada também curte cheiro de gasolina. Alguns, não vamos poder compartilhar, como a folha mimeografada. E outros eles acrescentaram à lista: cheiro de condicionador de cabelo, cheiro de creme Nivea nos lábios (é ótimo, melhor que manteiga de cacau nesses tempos de seca), cheiro de carro novo.

Agradáveis conexões: eu e eles, eu e minha criança interior.

 

Veja também:

Lembranças de infância

Frases de Mãe – Marusia fala

Fiz minha lista particular de frases, nos meus melhores momentos “João Batista pregando no deserto para os gafanhotos.” Cri cri cri cri…

"Mas o teto está limpo!" The Family Circus, por Bil Keane

 FRASES QUE JÁ DISSE ALGUMAS VEZES

  • Não é para colocar giz de cera e figurinha dentro do aparelho de DVD.
  • As bolinhas de homeopatia NÃO são comidinha de boneca.
  • As laranjas NÃO são bolinhas de tênis.
  • Não é para beber a água da piscina.
  • Só pode riscar papel. Parede e sofá, não. É, eu sei, esse é papel, mas é o dever de casa de seu irmão e também não pode riscar, não.
  • Não, a violeta genciana NÃO é tinta roxa. E também não é para pintar a pia com ela.
  • Não, não pode tocar xilofone agora. São 5h50 da manhã… de domingo.
  • Não é para comer só o recheio e devolver os biscoitos para o saco.
  • Eu sei que o gosto do remédio é ruim, mas aí você tapa o nariz.
  • Para de esfregar o pão na cadeira!

 FRASES QUE JÁ DISSE 1 MILHÃO DE VEZES

  • Não cospe a pasta de dente em cima da torneira, cospe na pia!
  • Isso não é brinquedo!
  • Não bata no seu irmão!
  • Não pode assistir à televisão deitado!
  • Não enche demais a boca, tem que mastigar direito a comida!
  • Fecha a tampa do vaso sanitário!

 FRASES QUE JÁ DISSE 1 BILHÃO DE VEZES

  • Não pode fazer isso!
  • Vamos logo, já estamos atrasados!
  • Já falei isso 1 BILHÃO de vezes!

 FRASES QUE QUERO DIZER MAIS DE 1 BILHÃO DE VEZES

(Que ninguém é de ferro):

  • Ai, que abraço gostoso!
  • Parabéns, você é muito sabido!
  • Mamãe já disse que ama você?

    " Este é meu lugar favorito - dentro do seu abraço!" The Family Circus, por Bil Keane

Veja também:

São só os meus, ou os filhos de vocês também…

Seu filho como você sempre sonhou

Frases de mãe

Frases de Mãe

Qual é a visão que nossos filhos têm de nós como mães? O que você ouvia da sua mãe que não concordava e hoje fala igualzinho? O que nos espera quando nossos filhos virarem adolescentes? Essas e outras questões estão abordadas neste post, que traz a análise do perfil @frasesdemae no Twitter.

O método consistiu em coletar todas as frases até que se completassem 15 páginas. Em seguida, foram agrupadas em 12 categorias: Saúde, Educação, Organização, Disciplina/Boas Maneiras, Conselhos, Segurança, No meu tempo, Dinheiro/Economia, Diversão, Computador, Amizades/Namoro e Família.

A julgar pelas frases, as mães, na visão dos filhos, não assumem o modelo de perfeição em voga: nem tão onipotentes, nem tão doces, nem tão incondicionais assim. Estão, sim, preocupadas com a segurança, estressadas com a bagunça e com o pouco caso e querem mais a participação dos pais.

As frases são sempre reclamando, repreendendo, ameaçando. Claro que um perfil de humor no Twitter não iria se dedicar a frases idílicas como “Filho, eu te amo”, “Você é tudo pra Mamãe”.

@frasesdemae conta com nada menos que 112.724 seguidores (isso até a data de 19 de junho de 2011). São centenas de replicações (retweets). Tamanha popularidade vem da identificação que ele proporciona: “com certeza, já ouvi minha mãe dizer isso!”.

Plano de fundo do perfil @frasesdemae, criado por @_bfonseca

Os comentários entre parênteses – “(Todo ano ela diz a mesma coisa)”, “(Vc fica a tarde toda e quando ela chega, vc sai)”  passam bem a postura de pirraça, chacota e desdém.

Várias frases estão repetidas, algumas em conteúdo, outras ipsis literis. No início, pensei que fosse falha do Twitter. Depois, vi que realmente algumas estão duplicadas. No entanto, isso reflete EXATAMENTE o que se passa: as mães têm que repetir trocentas vezes as mesmíssimas coisas! IMPRESSIONANTE!

Haja paciência. Depois de muito repensar os dados dessa análise, cheguei à conclusão de que não são as mães as estressadas da história: os filhos é que nos tiram do sério! (Bom, quem disse que seria fácil rsrsrs? E vá tentar empreender tal tarefa em plena TPM!)

Educar é a arte de insistir, né não?

Saúde

  • Arruma essa coluna, olha só como você está sentando. Depois, quando ficar mais velho, tá corcunda.
  • Vai colocar o chinelo, depois fica doente, e eu tenho que ficar me incomodando com médico.
  • Não fica muito perto desse monitor, depois não reclama que tá com dor de cabeça.
  • Tá vendo, eu sabia que você ia machucar, vem cá pra mãe ver!
  • Como que você pode dizer se é ruim se você nunca experimentou? Besteiras vocês provam, agora comida de verdade não.
  • Para de roer essas unhas! Vc não sabe quanta sujeira tem nelas?
  • Não fica de ponta-cabeça que o sangue vai todo para a cabeça, e você morre.
  • Ai que perigo, Jesus, imagina se pega no olho.

 Educação

  • Não importa se todo mundo tirou nota baixa, eu não sou mãe de todo mundo.
  • Orkut vai cair na prova? Sai desse “Yorkut” já.
  • Mãe, nem acredita, tirei 8 na prova de matemática. O-I-T-O? Não faz mais que a sua obrigação.
  • Estudo é a única coisa que pode te dar um emprego bom. Eu e teu pai não tivemos oportunidades de estudar.
  • Você não faz nada além de estudar. Tem que tirar 10 em TUDO.
  • Se eu ouvir uma reclamação sua da escola, já sabe o que acontecer com o computador, né? Nem preciso dizer nada.
  • Presta atenção na aula, pergunta 10 vezes para o professor. Estou pagando escola para isso.
  • Se você for bem na prova, eu deixo você ir.
  • Só quero ver no final de ano suas notas, SÓ QUERO VER. Eu vou cancelar essa internet. (Tudo que acontece a culpa é da internet)
  • É assim que você quer passar no vestibular? Na frente dessa porcaria de computador?

 Organização

  • Tira essa roupa do chão, tira essa toalha molhada de cima dessa cama, pelo amor de Deus, tudo eu tenho que dizer.
  • Quero essa zona arrumada quando eu voltar, esse teu quarto é uma bagunça. E não tem “já vou”, é AGORA.
  • Você já é uma moça, já tá na hora de me ajudar dentro de casa!
  • Eu acabei de limpar a casa, se fosse para me ajudar ninguém vinha. Só vem pedir coisas quando quer sair, quando quer dinheiro.
  • Se chover fecha a janela, tira a roupa da rua, tá me ouvindo? Depois quando eu chegar em casa, não quero ouvir: “esqueci”.
  • Pronto, morreu? Caiu a mão por fazer isso?
  • Lavar uma louça tu não quer né? Já tá na hora de ajudar, só computador, UI.
  • Quando se quer achar uma coisa não dá, porque isso é uma ZONA. (Se referindo ao meu quarto.)
  • Vem cá me ajudar. –Ah, não, mãe. – Anão é um homem bem pequenininho.
  • Tá descalço? Continua só de meia no chão que pra você ver o que é bom! Não é você que lava, né?

 Disciplina / boas maneiras

  • Quem foi que quebrou isso aqui? – Não sei, mãe, tava quebrado. – Pode dizer, eu não vou bater. – Fui eu, mãe. – Plast Plast.
  • @anap_mn – Juízo hein?! Não vai me passar vergonha na frente dos outros
  • @vitorhugo_l – Eu vou contar até três: 1, 2, *atira o chinelo*, 3
  • @Eujacansei – Eu já falei! Parece que eu falo todos os idiomas, menos o seu, né.
  • Não aponta, que coisa mais feia. Eu já te ensinei.
  • O quê? Não me responde de novo, e não adianta resmungar que Deus tá ouvindo, hein?
  • Para de mentir, quando for verdade eu não vou acreditar, e ninguém vai te ajudar, achando que é mentira.
  • Se brigar na escola ou na rua, se prepara porque vai apanhar quando chegar em casa também.
  • Tá aprendendo só coisa ruim na rua, né, coisa BOA não aprende.
  • Vai ficar sem playstation e sem computador para aprender, e se reclamar vai ficar mais tempo sem.
  • Abaixa esse som que não tem ninguém surdo aqui, não. Isso aí é música?
  • Sai daí de cima, se cair e vir chorar vai apanhar, daí vai chorar por um motivo. #MEDO
  • Olha, me respeita, tá me ouvindo? Tá pensando que está falando com quem? Com seus amiguinhos da escola? Folgado(a).

Conselhos

  • Esqueceu como? Só não esquece a cabeça porque está grudada.
  • @alicemorango – Só vai me dar valor quando eu morrer.
  • Quero ver quando tiver que trabalhar e cuidar de filhos, vai ver o que eu passava. É não é fácil,não.
  • @FraseAdolecente    Minha mãe não briga , Dá PALESTRA. Se tiver a fim de assistir: Ingresso: 10 reais. Duração: No mínimo 2 horas. Volte sempre
  • Se eu ganhasse 1 real a cada vez que você me chama, eu estaria milionária.
  • Vem cá me ajudar um pouquinho. – Ai, mãe, depois. – Ah é? Quando você me pedir algo eu vou dizer isso também, “só depois”.
  • Você não tem casa, não? Só vive na rua!
  • Primeiro a obrigação, depois a diversão!
  • Não fala assim da comida, QUE PECADO. Tanta gente não tem nada para comer. Ai ai…
  • Quando você for dono do seu nariz, você faz o que quiser.
  • Quando as coisas são pra mim você demora 5 horas pra fazer. Mas se for pra você, você faz na hora! #Dramatica.
  • Mamis já volta, tá? Não se matem, monstrinhos.
  • Vai deixar tudo para o último dia? Tô até vendo já, chegar um dia antes de entregar, vai começar a se preocupar em fazer.
  • Não me interessa o que os outros fizeram ou deixaram de fazer, só me interessa você, que é meu filho.

Segurança

  • Eu confio em ti, eu não confio é nos outros.
  • @l_eeoH – eu não preciso falar pra você né? Não é pra usar nenhuma droga, se te oferecerem coisas estranhas, não pega. Está me ouvindo?
  • Se alguém te seguir, corre, grita, entra em alguma loja, liga para a polícia, ESCUTOU?
  • Cuidado lá na balada, tá? Fica de olho no seu copo, porque alguém vai lá e coloca droga dentro e te levam embora.
  • Pode até ir, mas quando chegar lá, me liga. Tá ouvindo, né? Senão, vou ficar a noite toda preocupada.
  • No mundo de hoje, está tudo mundo perigoso. Leva o celular e, quando eu te ligar, ATENDE.
  • Não passa nada pela internet, nem sua foto, nem onde mora. Tá me ouvindo? Não é exagero, tá cheio de tarados nessa internet!

No meu tempo

  • Pode sair desse computador, na minha época não tinha nada disso aí, e eu não morri.
  • Acha que eu já não tive sua idade? Sei bem como é.
  • Quando eu tinha sua idade, eu trabalhava e AINDA estudava e ajudava minha mãe em casa.
  • Na minha época a gente namorava na frente dos pais, sentadinhos na sala de mão dada, beijo era depois de meses. #CLARO

Dinheiro / Economia

  • @dabimarca  – QUASE UMA HORA NESSE BANHO, NÃO É VOCÊ QUE PAGA, NÉ?
  • Você acha que eu c*** dinheiro? Vê se tá escrito BANCO na minha testa!
  • O mamão ficou quase o mês inteiro na geladeira e NINGUÉM veio cortar, agora só porque EU descasquei vocês vieram comer.
  • Acha que já se manda? Eu que mando em ti, mocinho(a), eu pago sua internet, sua roupa, sua balada, sua COMIDA ( Joga na cara)
  • Mãe, eu te amo! – Não tenho dinheiro, nem vem.
  • Mãe, quebrou. – Não acredito, já quebrou? Aqui em casa não dura nada, você não toma cuidado, não dá VALOR.
  • Que tanta luz acesa nessa casa, vai apagar, anda.
  • Vamos comprar um tamanho maior, você ainda vai crescer. (HAHA) @tassiw_
  • Cuidado para não manchar essa blusa, é nova. Vai tirar antes que acabe sujando.

Diversão

  • @LessaL – Se você chegar tarde… Você não sai nunca mais!
  • Quando que vai ser a festa? Onde vai ser? Quem é o pai dessa menina? Eu conheço? Volta cedo, juízo lá…
  • Tá cansado do quê? Quando eu te peço alguma coisa você tá cansado, agora se fosse pra SAIR nem precisa mandar.
  • @kraautz  – Quando sua mãe falar: “Volta cedo, meu filho, senão eu fico preocupada”. Você tem que obedecer, volte 6, 7 horas da manhã.

Computador

  • Desliga esse computador que tá chovendo de trovoada, e se queimar isso aí, eu não vou dar OUTRO. Ouviu, né?
  • Amanhã você NEM TOCA nesse computador. (Amanhã já está no computador e ela nem fala nada)
  • Vou começar a colocar hora pra usar esse computador ano que vem. (Todo ano ela diz a mesma coisa)
  • Se eu voltar pra casa e vc ainda estiver na frente desse computador, já sabe (Vc fica a tarde toda, e quando ela chega, vc sai)

Amizades / namoro

  • Amigos interesseiros é o que mais tem. Agora quando você precisa, não existe UM.
  • @LuuhWeber – “Foi primeira e última vez que você saiu com seus amigos”
  • Quem é aquele menino com quem você tava conversando? HMMMM, é seu namoradinho, é? Juízo, né, filha.
  • A mãe dos seus amigos é sempre a melhor mãe, eu nunca sou boa pra você. Só quero o teu bem, por isso eu cobro.
  • Esses teus amiguinhos estão te influenciando, você não era assim.
  • Eu falo, falo. Mas você prefere dar atenção para seus amiguinhos do que eu, que sou sua MÃE. Quero só o teu bem, filho(a).

Família

  • Olha o teu tamanho, quer brigar com teu irmão que é menor? Vai criar juízo.
  • Tudo é a mãe nessa casa? E o pai ninguém chama? Vou ficar louca um dia. (Drama)
  • Não sei, vai ver com seu pai, pergunta se ele vai deixar você sair. Tudo eu? Vai falar com ele, vai.
  • Mãe, posso sair? Pergunta para o seu pai. Pai, posso sair? Não sei, pergunta para sua mãe.

Frases compiladas do perfil @frasesdemae no Twitter.

Veja:  pesquisa completa – mais de 230 frases – e a análise de quem está por trás do @frasesdemae no Twitter

100º post, 1 ano de blog

Aniversário de 1 ano do Blog Mãe Perfeita! E post número 100! Para marcar esta ocasião tão especial para mim, resolvi desenvolver uma metáfora que me ocorreu quando estava grávida do meu caçula. E aproveito para agradecer cada visita, cada sugestão, cada link, cada retorno e mensagem carinhosa.

Envelope

Estou grávida

Carrego dentro de mim um conteúdo muito precioso

Tal qual um envelope

Que mensagem eu trago comigo?

Um telegrama?

Isso que é entrega expressa!

Curto, objetivo, específico, direto, específico, imediato – fugaz – que não tem tempo a perder?

Um folheto de propaganda?

Slogan convincente, que alardeia ao mundo somente as maravilhas, que esconde os problemas, que compara (e diminui) os outros, com promessas de sucesso absoluto – que insiste na imagem mais perfeita da perfeição?

Um boleto bancário?

Com tudo o que deve ser pago, investido, poupado, aplicado, com planilhas de cálculos, fixando preços, valores, contas a prestar – com data certa e previsão de juros e multa?

Um formulário de pesquisa?

Muitas perguntas, interrogações, dúvidas – muitas lacunas a preencher, muitos campos obrigatórios?

Uma encomenda?

Em uma caixa muito bem embalada e lacrada, que atende aos requisitos da maneira exata, cumprindo fielmente o que foi predefinido e solicitado – que não tolera atrasos, que não tolera erros?

Ou uma carta de amor?

Imprecisa, às vezes engraçada, às vezes sem encontrar palavras, querendo acertar? Compromissada, às vezes meio doidinha, às vezes sem jeito, querendo melhorar?

Carta de amor de mãe e filho, de pai e filho, de irmão para irmão, de amor à família, de amor ao mundo, de amor à vida?

Selos produzidos pelos Correios da Turquia em homenagem ao Dia das Mães – 2009

Sim, quero enviar neste envelope uma linda carta de amor.

E já tem destinatário:

Esta é uma carta para ser entregue em mãos…

Nas mãos de Deus.

Ana Marusia Pinheiro Lima – maio de 2011

Veja também:

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2010

Decálogo dos meus desafios

Para as gravidinhas

A Fada dos Dentes

Site visitado: Galeria de Katmary / Flickr

A fase de troca de dentes é realmente muito interessante na infância. Antes da queda do primeiro dente de leite, a criança fica um pouco apreensiva. Claro, sempre há a dúvida de quando vai ocorrer, se vai doer para cair, se vai doer para nascer o permanente e assim por diante. Creio que, para facilitar o processo, inventaram a história da Fada dos Dentes. Um incentivozinho a mais.

Foto: Katmary / Flickr

Eu, particularmente, fui tomar conhecimento da Fada dos Dentes bem depois de crescida; não tinha tradição desse tipo de fantasia na família. Mas achei bacana a abordagem e resolvi fazer uso do expediente com meus filhos.

A troca dos dentes tem sido tranquila em casa. Eles acham um barato o dente mole, ficam alegres com o reforço monetário da Fada, enfim. Mas eles crescem, né? E aí começam a desconfiar das histórias.

Certa vez, o mais velho (na época com seis anos)  me perguntou:

– Mãe, Fada do Dente existe mesmo?

– Por quê?

– Porque eu quero saber se é de verdade ou é inventada.

Pensei, pensei, puxa, se disser que não, passo por mentirosa, né? E o que tem uma fantasia a mais? E se ele, sabendo a verdade, detonar com a fantasia dos irmãos mais novos? Saí-me com esta:

– Você quer que ela exista?

– Não sei, acho que sim.

– Quer que ela exista? – insisti.

– Quero.

– Então, pronto, ela existe para você, e é o que importa.

Foto: Katmary / Flickr

Ambos, eu e ele, ficamos satisfeitos com a resolução da polêmica.

Dias depois, um dos seus incisivos caíram. Ele deixou embaixo do travesseiro como de costume, à espera da Fada. No dia seguinte, com o dente na mão, me disse:

– Olha, mãe, o lençol atrapalhou a Fada.

– Cumequié?…

– O lençol é branco, Mamãe. Da cor do dente. A Fada não viu o dente, por isso não levou e não deixou moeda.

Olhei com “aqueles” olhares para o pai, o responsável logístico por deixar a moeda (que claramente esqueceu), ele ficou rindo. Concordei com meu filho:

– É mesmo, vamos colocar de novo, essa Fada tá meio míope.

Na manhã seguinte, a criança veio de novo:

– Ei, Mãe, dente quebrado vale menos?

– Cumequié???…

– Pois é, meu dente tava meio rachadinho, deve ser por isso que a Fada, em vez de me dar 1 real, me deu 25 centavos…

Lógico que havia alguém rindo pra caramba no quarto ao lado, que depois justificou para mim: “não tinha outra moeda na carteira…”

Foto: Katmary / Flickr

O Twitter “Mãe, por que…?” faz uma brincadeira, dizendo que a Fada dos Dentes ensina a garotada, de forma mercenária, a vender partes do corpo humano, o que é proibido por lei kkkkkkkkk!

Mas, desse episódio todo, só vi ganhos:

Percebi como meu filho tá esperto: fazendo conta de matemática, aplicando fundamentos da educação financeira, exercitando o raciocínio lógico. O mais importante, entretanto, foi vê-lo desenvolvendo a fantasia, arrumando argumentos altamente plausíveis para mantê-la viva.

Viva a fantasia! E nós, “gente grande”, somos os que mais precisamos dela!

(Meus filhos, até o momento, continuam acreditando na Fada dos Dentes.)

Foto: Katmary / Flickr

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Veja também:

Quero ser criança quando eu crescer

Olho de boi, olho d’água 

This post in English: The Tooth Fairy

Conselhos que amei

 

Foto: Anne Guedes

Sempre se fala da “chuva de palpites” a que uma grávida, mãe de primeira viagem (ou até de terceira viagem, como eu) está sujeita. De fato, em certos momentos, muitas intervenções, de fontes e conteúdos tão variados, podem acabar confundindo. Mas hoje quero falar de conselhos campeões, desses que fizeram e continuam fazendo a diferença e que faço questão de compartilhar: os conselhos que amei.De minha irmã, Maria: “Não espere a barriga crescer para passar hidratante.”

A pele tem que estar previamente preparada e hidratada, logo no comecinho da gravidez, mesmo quando a barriga ainda não apareceu. Assim, você evita que a pele fique sensível e frágil, o que pode originar estrias e manchas. A bem da verdade, a hidratação é bacana mesmo quando não estamos grávidas, é um ritual que merece ser diário.

 Da minha amiga Luciana: “O bebê suga com muita força logo na primeira mamada.”

Eu tinha uma ideia de que a amamentação não é tão simples no começo, mas pensava que isso decorresse da frequência de mamadas, e não da força de sucção e da pega do bebê. A frase de Luciana foi ótima para eu não ser pega de surpresa (com perdão do trocadilho rsrsrs)!

Da minha irmã, Maria: “Tudo passa.”

No pós-parto, quando a gente tem a sensação de que está no meio do furacão, com milhares de hormônios à flor da pele, de novas incumbências e emoções inéditas, tende a não acreditar nessa verdade. Mas, se nos permitimos aceitá-la, seu poder é libertador. Tudo passa. E passa rápido.

Da minha amiga Daniela, quando eu esperava o segundo filho: “Quando o bebê nascer, seu filho mais velho vai parecer muito grande.”

Isso é muito correto e valioso. Meu primogênito tinha somente 2 anos quando minha filha nasceu, mas pareceu um gigante perto da recém-nascida. O perigo, sabiamente alertado por Daniela, era agir como se ele já estivesse crescido e maduro. Foi ótimo, para que eu tivesse o cuidado de não exigir posturas e comportamentos para muito além da idade dele. Afinal, ele era um bebê, também, com necessidades e dengos, encarando a circunstância absolutamente nova da chegada de um irmão com quem teria que dividir a atenção dos pais.

 Do meu irmão, Jr: “Criança tem prazo de validade de alegria.”

Ficar atento a esse sábio conselho é evitar muita chateação. Quando o “prazo de validade de alegria” de uma criança se esgota, é sinal de que está na hora de voltar para casa e descansar. Insistir é arcar com as consequências de uma criança irritada, que vai fazer de tudo para tirar a gente do sério, e aí o passeio já perde o sentido. É importante lembrar que, ao levar uma criança para um “esquema de adulto”, sem atividades que a incluam e divirtam, o “prazo de validade” dela fica mais curto. Isso explica em parte as birras em supermercados e shopping-centers.

Do pediatra das crianças (que foi meu pediatra): “Toque seus filhos.”

Fala-se tanto em shantalla, massagem no banho, necessidade de colo, de contato pele-a-pele com os bebês. Basta a criança começar a crescer para o carinho rarear. Pois isso não é só com os bebês, não! Crianças de 8, 9, anos, adolescentes, mesmo os adultos precisam de abraço, do calor do toque dos pais. Chega a ter poder terapêutico, profilático, de cura mesmo.

 Da minha mãe: “Se quiser, você pode manter suas atividades, pode trabalhar fora. Mas é muito importante estar em casa na hora de colocar seus filhos para dormir.”

A hora de dormir realmente é sagrada e tem uma representação diferente na cabeça das crianças, de aconchego, de acolhimento. Vale a pena experimentar.

E você? Tem um conselho campeão?

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Perigo de ser mãe perfeita 1 – O que é ser mãe perfeita hoje?

O problema já começa no conceito. Queremos ser perfeitas, mas não temos muita noção do que isso significa. É, porque toda hora esse referencial muda. Sabe a sensação de “mudar a regra no meio do jogo”? Ou “trocar o pneu com o carro andando”? Mais ou menos isso.

Hoje, o que está em voga é a mãe perfeita natureba. Acontece que, há bem pouco tempo, mãe perfeita tinha que ter o parto no hospital, que afirmavam ser mais “científico” e seguro; dar leite artificial e farinha láctea na mamadeira, que diziam ser mais prático e mais nutritivo, além de permitir independência à “nova mulher moderna”; ser produtiva, desde que dedicasse “tempo de qualidade” aos filhos.

Há apenas uma geração atrás, mãe perfeita enfaixava o umbigo, dava de mamar de 3h/3h, oferecia chazinho de camomila à noite, punha para dormir de bruços, entupia o bumbum DO bebê de talco, dava biotômico Fontoura. Benzetacil era a promessa de cura para todo e qualquer mal. Tudo era meticulosamente esterilizado e haja álcool, inseticida e antibacteriano. Depois de criar um batalhão de alérgicos e ressuscitar superbactérias, trouxeram de volta a ideia da “vitamina S” e “se sujar faz bem”.

Pois ainda houve época em que se aconselhava deixar os filhos chorando, para não ficarem mimados. Aliás, diziam que chorar fazia bem para o pulmão. Que todos os banhos deveriam ser gelados, para aumentar a imunidade. Na década de 1970, era o oposto. Criança tinha que ser plenamente satisfeita, para não ficar traumatizada. Em seguida, mudaram o discurso: tem que impor limites.

Do meu primogênito ao caçula, descobri que tinha que esfregar os mamilos na gestação – depois, não podia mais, não; que o bebê tinha que dormir de lado – depois, não podia mais, não. Enfim. O que não falta é teoria.

Alegam que hoje, finalmente, encontramos o mix perfeito, que somos muito mais informadas que nossas mães, e que a ciência encontrou seu ápice. Pois nem quero pensar o que nossos filhos vão achar de nós quando eles tiverem filhos rsrsrs!

“Uma escritora famosa, mãe de muitos filhos, disse-me que teve cada filho numa década diferente criou cada um segundo o método vigente no momento, com um conjunto de regras diferente e conflitante a cada vez. Se a cada nascimento de um filho ela tivesse acreditado nas palavras da sumidade da moda, concluiria que a vida do filho anterior estava irremediavelmente arruinada.”

(FORNA, Aminatta. “Mãe de todos os mitos: como a sociedade modela e reprime as mães”. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999)

“Nós, da geração pós-feminista, parecemos ter perdido o respeito pela sabedoria de mulheres que trilharam o caminho da maternidade antes de nós. Como em todos os casos de jogar fora o bebê com a água do banho, essa foi uma perda incalculável. Em certa medida, o que não sabemos sobre a maternidade é o que nos recusamos a ouvir e ver na vida de mulheres que nos cercam, com a presunção arrogante de que somos únicas, de que vamos ser diferentes.”

(MAUSHART, Susan. “A máscara da maternidade: por que fingimos que ser mãe não muda nada?” São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006. Pp184-185)

Minha mãe não fez curso de puericultura nem leu as toneladas de livros e artigos que eu li. Mas sabia como ninguém cantar para nós dormirmos. E tinha uma coisa especial que não está em livro algum, sobrevive a qualquer teoria e vai atravessar os tempos: LEVEZA. Algo que é totalmente impossível de alcançar quando se tem perfeccionismo.

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Perigo de ser mãe perfeita 4 – Mãe perfeita quer família perfeita

Esse item é primo do item 3. Quem foi que disse que nossos filhos querem ser perfeitos? Que nosso marido quer ser perfeito? Ou seja, a gente endoida e quer endoidar todo mundo também, para que eles se encaixem em padrões que NÓS criamos. E nossa família pode simplesmente não estar a fim.

Além disso, ser mãe perfeita significa nunca falhar. Nunca errar.

“Hoje, qualquer mulher que decide ser mãe o faz com o cuidado e o medo de quem desarma uma bomba.”

“Vemo-nos refletidos das promessas de sucesso ou fracasso de nossos filhos, enquanto antes era o contrário, era nos antepassados que vinha nosso valor. Em função disso, como sabemos que tudo o que fizermos ou pensarmos influenciará o destino deles, nunca tivemos tanto medo de errar.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011, p54 e p108)

E mais: a mãe perfeita passa o exemplo de que os filhos também não podem falhar. Por medo do fracasso, eles evitam se aventurar, experimentar, CRIAR.

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