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Maioridade penal: a pergunta que ninguém fez

Quero tranquilizar quem está lendo. Não vou defender nenhuma posição. Não quero convencer você a nada – até porque, no “Fla-Flu” que se tornou a discussão sobre maioridade penal, ninguém convence ninguém. Aqui, quero fazer a pergunta que ainda não vi ninguém fazer.

Não vou falar, por exemplo, sobre a idade a partir da qual uma pessoa tem discernimento acerca do certo ou do errado. Se o novo mundo globalizado, os meios de comunicação e a internet fazem com que as crianças amadureçam mais cedo. Se o fato de reduzir para 16, 12, 10 ou 6 anos faz diferença. Se há países com idades variadas para responsabilizar ou punir. Se há locais em que a redução foi feita e a criminalidade aumentou, ou o contrário.

Não serão assuntos deste post questões como: “a criança que comete um crime deixa de ser criança e passa a ser um bandido?”, “bandido bom é bandido preso?” Nem “escola é para criança que quer estudar, cadeia é para quem cometer crime contra a vida”, “direitos humanos para humanos direitos”, “culpar a sociedade é fácil”, “cada um deve ser responsável pelos seus atos”. Não lidarei com esses aspectos.

Nem vou comentar se a propensão para cometer um crime está ligada ou não à desigualdade de renda e de recursos materiais. Se a chance de um adolescente ser preso é maior ou menor dependendo da sua classe social ou da cor de sua pele. Se o capitalismo de mercado e a publicidade são responsáveis ou não por incentivar o consumo para quem não pode consumir, e se hoje em dia a pessoa é medida pelo que tem e não pelo que é. Se a mídia está fazendo sensacionalismo ou não quando há adolescentes envolvidos em crimes bárbaros.

Não vou entrar no debate sobre a presença do Estado. Se o Estado só vai aparecer na hora de punir, em vez de garantir, desde o nascimento de uma pessoa, os direitos básicos de educação, saúde, segurança.

Da mesma forma, não pretendo avaliar se, desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA chegou alguma vez a ser cumprido de fato ou não. Se é necessário fazer mais leis, ou se essa é mais uma lei que não vai resolver o problema. Se o que está sendo tratado é a causa ou a consequência.

O número de adolescentes entre 16 e 18 anos, que comete crimes, corresponde a somente 0,01% da população do Brasil? Qual é a fonte desse dado? Mesmo que esse número esteja certo: uma única vida que seja salva não é motivo de reduzir a maioridade penal? Nenhuma dessas dúvidas será objeto do meu texto.

Não vou discorrer sobre o adulto que alicia criança para cometer crimes em seu lugar, “porque sabe que não vai dar em nada”, ou “porque fica três anos e depois é solto”. Nem sobre a sensação de impunidade, as diferenças entre vingança e justiça, a necessidade de o Congresso Nacional “dar uma resposta rápida à sociedade”. Nem mesmo se as pesquisas que apontam 87% da população brasileira como a favor da redução da maioridade penal são confiáveis ou não.

Outra coisa que não vou discutir é o sistema penitenciário brasileiro; se o fato de termos a 4ª população carcerária do mundo tem algum impacto sobre a criminalidade, se apenas uma pequena porcentagem dos homicídios tem resolução. Ou se os detentos continuam comandando o crime de dentro da prisão, sem se preocupar com a retaliação das gangues rivais que estão do lado de fora.

Nem mesmo se os centros de medidas socioeducativas (como Febem, Fundação Casa e outros nomes), assemelham-se a cadeias, ou são até piores. Nem se a internação recupera alguém ou não, se há reincidências. Tampouco se a redução da maioridade penal é válida, desde que os sistemas entre adolescentes e adultos sejam separados. Nem se será exclusivo para crimes hediondos, sem considerar roubo de galinha.

Também não vou perguntar: “e se a vítima fosse um parente seu?” nem “e se o acusado fosse um parente seu?” Muito menos indagar “vai esperar matar para depois prender?” nem “prender o adolescente vai ressuscitar a pessoa que morreu?”

Finalmente, a pergunta que ninguém fez é:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ESTÃO MATANDO?

Vou ensaiar uma hipótese: crianças e adolescentes estão matando porque perderam o medo de morrer. E aí temos uma nova questão:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PERDERAM O MEDO DE MORRER?

Que sociedade é essa? A que grau de violência – psicológica, física, sexual, simbólica – nossa infância ficou exposta?

Um último arremate:

QUEM NÃO TEM MEDO DE MORRER VAI TER MEDO DE SER PRESO?

 

Todas as morais da história

Este é o tipo de vídeo que deixa a gente feliz.

A moral da história mais comum para ele é: “A união faz a força”.

Podemos citar ainda Mark Twain: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”

Mas há inúmeras outras lições nessa história, que servem como ótimas resoluções de fim de ano:

Banho de chuva alivia o stress.

Abraçar árvores deixa a gente mais alegre.

Dormir é fundamental, mas não deixe o sono te impedir de ver coisas sensacionais da vida.

O Natal existe, mesmo onde a maioria tem outra religião.

E a mais bacana:

Nada segura uma criança, quando ela está determinada a ir para a escola.

Se alguém disser que isso não acontece na vida real, diga que, para ser realidade, basta começar:

 

desenho e citação de Malala Yousafzai

“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”. (Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz 2014).
Desenho: Leif Bessa, Plenarinho

 

Um lindo Natal e um excelente Ano Novo!

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Veja também:

Caminhos

Quero ser criança quando eu crescer

Carta a meus filhos

 

O que você vai ser quando crescer?

Quando eu tinha 8 anos, vi este anúncio na revista:

propaganda vinho marjolet

Logo que te vi, eu disse que gostava de você. Você disse que era fita. / Em francês, o mar é “a mar”. Por que não em português? / De que página, de que livro, de que história de amor saiu esta folha? / No fundo, no fundo, nós somos duas crianças. / Tu és divina e graciosa, estátua majestosa… / Te escrevi sem saber se era teu amor, mas lembrando que gostaria de sê-lo. / Você não deveria ter me tentado com um bombom durante o concerto. Isso é papel que se faça? / Acho que eu vou tomar algumas medidas. A primeira é a medida do Bonfim. / A segunda é sacar a rolha de mais um Marjolet e começar tudo de novo.

Fiquei tão encantada com as frases, a criatividade, o clima evocado, que naquele instante decidi o que eu queria ser quando crescesse: queria ser a pessoa que bola essas coisas.

Fiz campanhas (bem-sucedidas) para a chapa do grêmio na escola e para a torcida organizada do colégio. E só fui descobrir, aos 16 anos, que o nome do curso superior para “a pessoa que bola essas coisas” era Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda.

Trabalho na área, pesquiso muito sobre o tema e tenho paixão pela minha profissão. Um dos momentos mais gratificantes foi conduzir, junto com a equipe, a campanha de arrecadação do Comitê de Ação e Cidadania (o do Betinho) para minimizar os efeitos da seca prolongada no Nordeste em 2012:

propaganda de doação para comunidades no sertão nordestino

SOS Nordeste – quem tem sede, tem pressa.

propaganda. Mídia extensiva. Toalheiro de WC

Toalheiro de WC: “A quantidade de água que você usou para lavar as mãos é a mesma que uma família do sertão nordestino tem para passar o dia.”

Conseguimos em alguns dias o valor de 30 mil reais, o suficiente para construir cinco poços artesianos comunitários nas áreas mais críticas. (Pausa para abrir os parênteses: sempre tem aquele engraçadinho adora ver significados esdrúxulos naquilo que parece claro; nesse caso, foi a piadinha: “puxa, nunca mais lavo a mão quando usar o banheiro…”)

O trabalho do comitê é maravilhoso, caso você tenha interesse: (http://www.youtube.com/watch?v=NGkAolFkYZQ)

É incrível poder usar nosso conhecimento em prol de ações dessa natureza. Isso também me coloca numa posição privilegiada e me dá chancela para compreender que os meandros da publicidade são ponte de acesso escancarado ao comportamento humano. Em vez de buscar os artifícios que ela usa para encantar, cabe descobrir por que as pessoas se encantam. Essa é a chave.

Propaganda sozinha não faz nada. Sua força está no pacto simbólico que ela faz com o público, evidenciando emoções que ele já tem, fazendo-o “sentir na pele” um pouquinho e propondo ações imediatas que trazem satisfação (comprar um produto, fazer uma doação). Se frases de efeito e metáforas mirabolantes fossem suficientes, ninguém mais usaria drogas, nem transaria sem camisinha, muito menos se arriscaria no trânsito, porque o que não falta é campanha pregando isso.

A propósito, eu guardo o anúncio como uma relíquia, ainda que nunca tenha tomado o vinho Marjolet, nem qualquer outro vinho, simplesmente porque não gosto do sabor do álcool. Sou abstêmia. Também sei dos problemas que seu excesso causa. Então este é um exemplo de que é possível consumir apenas o simbolismo de um anúncio, sem necessariamente consumir o produto de fato.

Hoje acompanho de camarote a imaginação dos meus filhos acerca do que eles vão ser quando crescer. O mais velho já foi médico, agora quer ser cientista, ganhador do Prêmio Nobel e dono de uma grande empresa de tecnologia que vai inventar o remédio que cura todas as doenças e o teletransportador.

A do meio também já foi médica de olho de criança, mais tarde incrementada para oftalmologista infantil, e hoje se delicia com a perspectiva de ser a nova Mauricio de Sousa e desenhar o próprio gibi.

O caçula já foi chef de cozinha de pizza, carregador de mala e agora é chef de cozinha de pizza novamente. O curioso é que comer, para ele, nunca foi a coisa que mais adora no mundo. Com minha mania de explicação, deduzi que ele escolheu situações em que me vê feliz: quando ele raspa o prato e o momento em que finalmente resgatamos todas as malas na esteira do aeroporto.

Aqui, observo que o tempo todo falei de profissões. E me lembro de uma conversa com uma amiga do trabalho. Eu estava frustrada com um projeto, que havia me consumido três anos antes, tinha sido abandonado por conta das marés da política, e agora precisava ser ressuscitado. Comentei que essas coisas nos faziam questionar o sentido de tudo, de quem eu era como profissional. Ela me disse: “Marusia, isso é só trabalho.”

SÓ trabalho? Só trabalho. Ainda que pensemos que seja, não é o trabalho o que nos define. Ainda que as pessoas perguntem: “o que você faz?” para saberem quem eu sou, não é isso que sou.

E terminamos nossa conversa propondo uma nova forma de escrever currículos:

Eu, Marusia,

  • adoro música, viagem, doce de leite e pegar jacaré no mar.
  • Adoro o sol, sou uma criatura diurna e absolutamente tropical.
  • Sou toda planejadinha e fico louca quando o planejamento fura, mas também sei curtir quando o imprevisto é muito mais legal do que o script.
  • Socializo minhas descobertas e fico muito feliz quando minha experiência tem reflexo positivo na vida de outras pessoas.
  • Meu maior defeito é minha maior virtude: ser transparente.
  • Minha família é meu bem mais precioso. Meu talento é incentivar as pessoas para que elas descubram o que têm de melhor.

Esse, sim, é um curriculum vitae real. Currículo vital. Currículo da vida.

Quero que meus filhos sejam livres para escolherem seus caminhos. Esse é o tipo de currículo que eu espero que eles escrevam, com suas próprias qualidades.

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Veja também:

Publicidade, Propaganda e Design em ideias simples e bem-boladas:

http://www.tumblr.com/blog/add1ad

Aqui no blog:

Os segredos dos publicitários

Quero ser criança quando eu crescer

O Livro do Bebê

Merenda

Barba Azul e a violência contra a mulher

capa do livro Barba Azul, de Ruth Rocha

Meu filho de 10 anos chegou para mim indignado:

– Peguei na biblioteca esse livro da Ruth Rocha e detestei!

– Que livro?

– Barba Azul.

– É um conto de fadas muito antigo.

– Antigo e horroroso!

***

Barba Azul é bem menos conhecido que Branca de Neve e Cinderela (que também têm seus requintes de crueldade). Para quem não leu, é a história de um nobre que se casa muitas vezes, e ninguém sabe o paradeiro das esposas. Ao se casar com a oitava, dá a ela as chaves de todos os aposentos do palácio, alertando-a apenas de um, no qual não deveria entrar jamais. Ela (obviamente) entra e encontra os corpos das esposas assassinadas. Ao ver seu segredo revelado, Barba Azul diz que ela terá o mesmo destino das demais, por ter traído sua confiança. Entretanto, os irmãos da moça chegam e conseguem impedi-lo, matando-o.

Eu li Barba Azul quando tinha a idade do meu filho. O curioso é que não me impressionou tanto. Em parte, penso que o fato de ter escolhido um livro da Ruth Rocha criou nele a expectativa de algo mais leve e divertido; daí a sua indignação. Mas resolvi ir mais a fundo e provoquei:

– Ué, você joga esses videogames do Lego, e se impressionou com Barba Azul?

– Totalmente diferente, mãe! Aquilo é só um jogo.

– Quando o Batman derrota o inimigo, o boneco explode, e sai cabeça, perna, braço de Lego para todo lado!

– O Lego é de brinquedo.

– E aquele game de luta? Aquele também é horrível.

– Luta é um esporte, e os lutadores têm a mesma força. As mulheres do Barba Azul não tinham como se defender.

(continuando a provocação) – Mas elas não mereceram? Elas foram desobedientes, ele tinha pedido para elas não entrarem naquela sala.

– Mas isso não é motivo para matar ninguém, mãe!

– Os irmãos da moça também mataram o Barba Azul.

Aí minha filha, que estava prestando atenção à conversa toda, disse:

– Mas ele é do Mal, mãe.

Eu reli Barba Azul quando estava grávida dela, em um contexto bem diferente: na análise formidável de Clarissa Pinkola Estés, no livro “Mulheres que correm com os lobos”. A autora associa cada personagem da história, e detalhes como a chave, aos elementos da psique feminina, tomando por base a teoria dos arquétipos de Jung. E mostra a importância de aniquilarmos, dentro de nós, o monstro mental que nos impede de sermos curiosas, criativas e termos acesso às NOSSAS VERDADES.

De aniquilarmos essa força que “é do Mal”.

Talvez, quando eu era criança, vivesse em uma sociedade em que a agressão às mulheres era “cultural”. Em que ler Barba Azul não despertava indignação. Em que as pessoas estavam “acostumadas” a ver, sem questionar, anúncios publicitários como estes (traduções livres):

Anúncio do tecido Dacron. Homem pisa na cabeça de mulher

“É bom ter uma garota por perto”

Anúncio do café Chase and Samborn, com marido batendo na mulher

“Se o seu marido descobrir que você não está escolhendo o café mais fresco…”

Anúncio da cerveja Schlitz. Marido consola esposa, que chora porque queimou a comida

“Não chore, querida, você não queimou a cerveja!”

Anúncio dos suéteres Drummond. Homens no topo da montanha e mulher pendurada.

“Homens são melhores que as mulheres. Em casa, elas são úteis – e até agradáveis. Na montanha, contudo, elas são um estorvo.”

Anúncio das gravatas Van Heusen. Mulher ajoelha-se e serve o café para o marido, na cama.

“Mostre a ela que este é o mundo do homem.”

Anúncio da batedeira Kenwood. Mulher com chapéu de chefe de cozinha abraça o homem de terno.

“O chefe faz tudo, exceto cozinhar – é para isso que servem as esposas!”

Anúncio de Palmolive. Mulher à frente do espelho, com ombro à mostra, olha de forma sedutora para o expectador.

“A maioria dos homens pergunta: ‘Ela é bonita?’ e não ‘Ela é inteligente?’ “

Anúncio das vitaminas Kellog's PEP.  Homem de terno abraça a esposa com avental e espanador.

“Quanto mais duro uma esposa trabalha, mais bonita ela fica! Vitaminas para animar”

Anúncio da máquina de franquia postal Pitney Bowes. Homem tenta convencer mulher a usar máquina.

“É sempre ilegal matar uma mulher?”

Hoje me choca ler a notícia de que a Lei Maria da Penha não conseguiu reduzir o número de homicídios de mulheres. Barba Azul de carne e osso ainda está atual. Mas, ao contrário da história, não é a pena de morte a solução. Deve-se destruir o aspecto simbólico, para que então isso se reflita na realidade – é por isso que os contos de fadas são tão preciosos. A resposta está no conhecimento, na educação.

Por isso, é maravilhoso ver meus filhos adotando uma postura de debate, de contestação. De não achar “normal” que mulheres sejam agredidas. Nem na ficção.

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Veja também:

Os segredos dos publicitários

Verdades

El Bigodito

Mães de animações e seriados 3: por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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Veja também:

Protesto Materno: eu quero mais

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

O aprendizado do amanhã

Sites Visitados:

Entrevista com José Pacheco – Revista Escola

Entrevista com José Pacheco – Revista Fórum

Projeto Âncora

Dez razões para achar que a escola parece uma prisão (em inglês – Top 10 reasons School is like prison)

Um sonho de educação

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Imagine uma escola sem classes, horários, provas. Um currículo que é decidido pelas crianças, em consenso, e inclui matérias como circo e meditação. Não há lista de chamada nem ponto, mas estudantes e professores não faltam. Tudo de graça. Agora imagine que esses estudantes provêm de lugares violentos, e já foram expulsos de diversas escolas. Pode parecer utopia. Até o dia em que você conhece a proposta da Escola da Ponte.

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir a uma palestra com o idealizador da Escola da Ponte, o Professor José Pacheco, de Portugal. Ele está no Brasil supervisionando a implantação de iniciativas similares, como a escola do Projeto Âncora, em São Paulo. Abaixo, estão as ideias que mais me chamaram a atenção:

Hospital não tem férias. Transporte público, jornal, supermercado não têm férias. Por que, então, a escola tem férias? Por acaso o conhecimento precisa de pausa? O que acontece é todo mundo sair ao mesmo tempo em julho, dezembro e janeiro, enfrentar engarrafamentos quilométricos e pagar mais caro na chamada “alta temporada”.

Atualmente, a letra D de Ideb não é Desenvolvimento. É Decoreba. A criança decora o conteúdo e depois da prova esquece tudo.

Uma boa maneira de avaliar se a escola tem noções básicas de cidadania é visitar os banheiros. Quem é consciente de seu papel na coletividade não precisa de cartazinho “por favor dê descarga”.

Palavras constroem a realidade. É de se admirar, por exemplo, termos como “grade” curricular, “carga” horária, “trabalho” escolar, “prova”, aluno “evadido”. É uma escola ou uma penitenciária?

Escola são pessoas. Pessoas são valores. Valores são projetos. Só não consegue quem não quer. O Projeto Âncora está aí para provar que não é só uma teoria de livro. E nem é coisa que só funciona na Europa.

E você? O que acha da proposta?

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O que aprendi sobre… semana de prova

Quero ser criança quando eu crescer

Caminhos

Mãe Horta, Mãe Jardim

Observo em mim duas funções maternas: a Mãe Horta e a Mãe Jardim. Essas analogias vieram da seguinte história:

Uma menina fica órfã de pai e mãe e vai morar com o primo em uma mansão. Ele é doente e também não tem mãe. As duas crianças iniciam uma amizade. Um dia, descobrem um jardim secreto (e abandonado) na mansão. Com a ajuda de uma aia, os primos voltam a cultivá-lo e desabrocham como as flores, em plena saúde e alegria de viver.

Esse é o enredo de “O Jardim Secreto”, sucesso de literatura escrito em 1911 por Frances Burnett. Diana e Mario Corso fazem uma linda análise deste livro. Na falta da presença materna física, os autores localizam duas pessoas que fazem as vezes de mãe na história: a rígida governanta, que cuidava do bem-estar básico; e a aia, que supria de fantasia os dias do menino doente e da prima.

Os Corsos ainda fornecem a metáfora-chave para a compreensão do clássico: o jardim evoca o símbolo materno, cuja função não pertence à ordem das necessidades básicas, mas à da beleza. Flores são cultivadas não como alimento, mas pelo deleite (“A Psicanálise na Terra do Nunca”, p 219). Aí reside o desabrochar da vida.

Eu sou Mãe Horta quando me preocupo com as necessidades básicas, com cada detalhe. Unha cortada, dente escovado, dever de casa feito. A Mãe Horta é racional. É o meu lado que pede para levar o casaco. Que programa cada segundo da viagem de férias, faz as malas. E também matricula na natação, leva ao médico e ao posto de vacinação. Participa das reuniões na escola. Elabora o cardápio diário. Impõe limites. Devora milhões de livros e lê os sites sobre maternidade.

Sou Mãe Jardim quando brinco, dou risada, fico espontânea. Conto história, canto, danço. Quando deixo a lógica de lado e abraço, mesmo quando meus filhos mereciam uma bronca.

O problema é que a Mãe Horta não deixa muito espaço para a Mãe Jardim. São tantas tarefas, num cotidiano cronometrado, mediante tanta pressão, que quando tudo é cumprido muitas vezes só resta o cansaço. Sobram ali as florezinhas murchas e mixurucas.

É como se meu lado Mãe Jardim, o arquétipo materno em sua essência e totalidade, estivesse sufocado. Sendo ele o componente fundamental para a constituição de uma criança, como afirmam os Corsos, essa constatação me fez parar diversos momentos para refletir.

A dificuldade existe porque a Mãe Horta também é fundamental. Tudo bem que essa função pode ser dividida com outras pessoas, mas nem sempre. Além disso, há um perigo: a Mãe Horta exagerada se enrijece, é repressora e tende a projetar nas outras mães tudo o que ela não concorda.

Então estou em busca de um outro símbolo: quero ser Mãe Pomar. No pomar, às flores sucede o alimento. Ser Mãe Pomar é tentar colocar afeto e criatividade nas tarefas, mesmo as mais comezinhas, fazendo com que elas percam o caráter de obrigação. Uma conversa legal durante o almoço, uma brincadeira na hora do banho, uma piada para cortar a unha. O simples ato de estar junto é uma oportunidade de conhecer melhor as crianças.

Confesso que estou mais para uma plantação de morango. Nutritiva, mas azedinha… 😉

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