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O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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As coisas não acontecem como a gente quer

Carta a meus filhos

A arte de criar vazios

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A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários 😉 )

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Três histórias de amamentação

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“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

Três histórias de amamentação

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê exclusivamente por 5 meses. No começo, foi bem difícil – rachaduras, empedramento… depois, foi tranquilo. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que teve parto natural, sem analgesia, no melhor estilo indígena. A amamentação, contudo, não foi simples. O bebê “mordia” forte (com a gengiva), ficava impaciente e chorava muito. Com o apoio do marido, a mãe foi a um banco de leite, onde fizeram ordenha e ensinaram massagem. O leite não descia, e o mamilo ficou muito ferido com as investidas do bebê. E dá-lhe água na mãe, comida com “sustança”, homeopatia… E nada. Então chamaram a melhor doula da cidade, o anjo do aleitamento. Ela introduziu a técnica da relactação, para estimular a mama. Foi quando o bebê começou a vomitar sangue, que vinha dos mamilos da mãe. Chegou-se à conclusão de que deveria ser criado um clima de absoluta serenidade, porque a agitação do bebê e a consequente ansiedade da mãe estavam interferindo no processo. Então, ao final do primeiro mês, o leite desceu em plenitude, fazia gosto. Mas o bebê trancou a boquinha, virou o rosto e não quis mais mamar. Nem dormindo. Ninguém contou com a variável “comportamento do bebê”. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê até os dois anos. O começo não foi simples, porque ele ficava o tempo todo no peito. Depois, foi muito bom, e teria ido para além dos dois anos se não tivesse aparecido a horrorosa virose “mão-pé-boca” (mas isso é assunto para outro post). De toda forma, uma experiência maravilhosa para mãe e bebê. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Vou me ater à mãe da segunda história. Porque sua presença foi essencial para mim, quando meu primeiro filho nasceu. Eu, do alto da minha arrogância, cheia de cursos de puericultura, com centenas de livros lidos e teorias na cabeça, prostrei diante do desafio. E recebi dela palavras de puro aconchego e humildade, ao mesmo tempo em que traziam transbordante afeto e doação:

“Tá tudo certo.”

“No início, dói. Mas acredite, depois você vai achar uma delícia amamentar.”

“Segura as pontas só mais um pouquinho, confie em mim.”

“Não existe nada igual quando você vem com o peito cheio de leite e sente o bebê esvaziar tudinho.”

“No começo é punk, mas depois que eles crescem a gente morre de saudade de amamentar. Curta cada segundo.”

Eu confiei nela, como as antigas mães em seus círculos, e deu tudo certo.

Meu coração se estilhaça de indignação quando lembro o que ela ouvia dos outros:

“Você não está amamentando?”

“Olha, até o suorzinho do bebê cheira diferente, porque não é leite materno.”

“Essa criança vai viver no hospital.”

“Faltou força de vontade, caiu na esparrela da indústria do leite.”

O que essa mãe tem de diferente das outras duas? NADA.

Nada MESMO, porque essas três histórias são da MESMA MÃE.

Hoje, com três filhos lindos, amados, saudáveis e inteligentes, essa mãe é alvo de toda a minha admiração e gratidão. Pois foi com ela que eu aprendi:

A minha experiência é minha.

Cada experiência minha é única.

Se minha experiência for bem-sucedida, pode inspirar outra mãe.

Se não for, não deve desestimular ninguém. Contudo, minha experiência pode aliviar outra mãe, quando ela descobre que não está sozinha.

E o mais importante:

A minha experiência não é referência para medir outra mãe.

A MINHA experiência não é motivo para julgar – e muito menos condenar – outra mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=yEQ_qHcVv2g

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Quando não é possível amamentar – Marusia fala

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Perigo de ser mãe perfeita 5 – Vá pela sombra

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

Este post faz a análise do texto “Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” de Lia Miranda e dos comentários, publicados no Portal Minha Mãe que Disse!

Até o dia 14/02/2013, foram publicados 110 comentários. A autora do post não comentou.

Muitas pessoas manifestaram opinião em relação a outros comentários, e não necessariamente ao post. Assim, não há como estabelecer a divisão numérica e precisa de quem concordou e quem discordou do texto em si.

Optou-se, assim, por organizar a análise por tópico, iniciando com o argumento de Lia e prosseguindo com os comentários.

1.       Julgamentos

Argumento de Lia:

“A teoria de que cada um faz o que acha melhor para o próprio filho traz o discurso ingênuo de que não podemos julgar os outros, e que qualquer maneira de maternar é válida. Quem defende essa teoria, embora não o admita, tem suas próprias convicções do que acha melhor e, mesmo que internamente, condena quem faz diferente. […]

“Essa teoria não traz nenhum benefício para as nossas crianças e abre espaço para que os meios de comunicação de massa (pessoas querendo lucrar) entupam a cabeça das mães mais “abertas” com teorias maliciosas como a da culpa zero.”

Concordam com o texto

  • “Essa coisa de tentar o melhor é um discurso vazio, que não leva ninguém a lugar nenhum, só serve mesmo pra passar a mão na cabeça.”
  • Sou muito grata à minha culpa e ao meu não-conformismo, que me fizeram não virar mais uma ‘mãezinha’ que tudo aceita, que acha que está muito certa e, é claro, julga (mal) as que criam com muito amor, muito peito e muito apego.”
  • “As mães que clamam pelo equilíbrio, as que se dizem coluna do meio, muitas vezes torcem o nariz para as lutas pelos direitos das mulheres (que falam mal da Marcha pelo Parto em Casa, Marcha das Vadias, Mamaços, amamentação prolongada, amamentação em público etc.) Mas estas dizem que não, não julgam ninguém.”

Discordam do texto

  • “Você rejeita a teoria de que cada um faz o que acha melhor. Mas não é exatamente isso o que você tá fazendo? Me incomoda o fato de que este argumento é amplamente utilizado na defesa de causas e teorias que eu acho muito corretas, o que acaba reforçando o rótulo de ‘radical’ de quem o faz.”
  • ” ‘Rejeito a teoria de que cada um faz o que acha melhor’ – só aceito a teoria de que todos tem que fazer o que EU acho que seja melhor.
  • Em geral, julgo, sim, no entanto, julgo atitudes abusivas e incoerentes demais – que não dariam para não serem julgadas por qualquer pessoa de bom senso.
  • Muitas vezes mães que seguem um determinado caminho tendem a querer reforçar a validade deste caminho colocando que todos devem segui-lo e quem não vai por aí é pior. Não acho que seja apenas uma questão de tempo que se dedica aos filhos (não é tão simples esta matemática).”
  • “Tento de verdade não julgar, para ensinar a não julgar, ter bom senso e explicar que na maioria das casas a educação dos coleguinhas será diferente, e que ser diferente nem sempre é melhor ou pior.”
  • “O que não concordo é julgar sem saber, falar que se fez cesárea é pior, se não amamentou é pior, se deixa chorando é pior, se pega no colo toda hora é pior, criação com apego é melhor do que criação sem muito apego.”

2.       Preocupação com o futuro

Argumento de Lia:

“O que eu tenho a ver com o que fazem os outros pais e mães? Muito. Porque essas crianças com as quais minhas filhas estão convivendo na escola, na igreja e no parquinho serão seus futuros amigos, namorados, colegas de trabalho, vizinhos, patrões, governantes.”

 Concordam com o texto

  • “Os pais são sim responsáveis pelo que os seus filhos se tornarão.”
  • “Infelizmente minha filha vai ser amiguinha do filho da idiota que coloca ele do lado de fora do apartamento para ficar gritando porque dá eco. O que para essa mãe [idiota aos meus olhos] é uma coisa bonitinha, para mim é um caos.”

 Discordam do texto

  • “Nossos filhos terão que conviver com o diferente, assim como nós convivemos com pessoas que tiveram criações totalmente diferentes das nossas (e certamente absurdas aos olhos dos nossos pais!). E não acho isso um problema, é um fato imutável.”
  • “Ficar preocupada com que tipo de colega de trabalho e patrão suas filhas irão se relacionar é protecionismo besta! Meus filhos não são prioridade, minha família é! Não por isso serão péssimos colegas de trabalho, vizinhos e quem sabe até governantes. Uma família feliz tem filhos felizes. Simples assim.”

3.       Culpa

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero se traveste de um herói que vem nos resgatar de um sentimento negativo e opressor. Mas não é a culpa que essa teoria tenta aniquilar: é a nossa consciência. As consequências são desastrosas.”

Concordam com o texto

  • “Mães e pais que se colocam como prioridade frente ao bebê colocarão a culpa na criança, no adolescente e no adulto futuro. Se não conseguem dar a educação que gostariam por alguma impossibilidade real, que ao menos sintam culpa e tenham consciência de que a culpa não é dos seus filhos.”
  • “Como uma revista pode me dizer que eu não tenho culpa de nada!? Eu é que tenho que correr atrás, e fazer direito o ‘dever de casa’ para parar de sentir culpa. Se fazemos o melhor que podemos, não tem como a culpa aparecer.”
  • “Eu senti muita culpa por não ter conseguido levar a amamentação da minha primeira filha adiante e, se não fosse por esta culpa, que se transformou em sede de conhecimento, em busca por informação de qualidade, por pessoas e profissionais que me apoiassem, teria ficado satisfeita, pensado que ‘tomou LA e não morreu’ e repetido com a segunda.”
  • “Eu convivo bem com as culpas que carrego e a campanha deveria ser sobre a importância da culpa e não negar a sua existência.”
  • “Acredito que a culpa seja realmente importante, pois ela traz a reflexão, traz a conscientização do que é melhor. E imunizá-la seria cancelar essa consciência do certo e errado.”

Discordam do texto

  • O meu ‘culpa não’ se refere a ausência de culpa por tirar os meus filhos do pedestal e botar a família inteira junto.
  • ” ‘Culpa’ tão somente não nos coloca de frente à responsabilidade das consequências. Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa!
  • A culpa é um sentimento que paralisa, que enfraquece, que tira o eixo. O caminho para mudar aquilo que não está legal é autoconhecimento, reflexão, questionamento e na minha visão compaixão. A sociedade é muito cruel com homens e mulheres.”
  • “O meu ‘culpa não’ é o que me dá é leveza no exercício da maternidade, e não um passe-livre para ser uma mãe de merda. De um para outro existe uma enorme diferença.”

4.       A “menos mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero está aí para dizer que ninguém é menos mãe porque – complete com qualquer coisa: não pariu, não amamentou, deu papinha industrializada, não passou tempo suficiente com a criança.

“Minha amiga Cíntia não é ‘menos mãe’ – sejamos francos: mãe pior – porque não amamentou. Mas a Galisteu, que desmamou o filho porque precisava viajar com o marido pra Ibiza quando o bebê tinha dois meses, talvez seja.

“ ‘Menos pais’ e ‘menos mães’ relegam seus filhos a um abandono emocional em nome das suas próprias rotinas. Crianças perdidas, sem educação, sem carinho, sem disciplina, jogadas na frente de uma televisão enquanto a babá fala ao celular.

“Seja porque têm menos disponibilidade para exercerem esses papéis, seja porque os exercem com total irresponsabilidade, pais e mães piores são aqueles que se colocam como prioridade diante de seus filhos, são os que querem a todo custo desvencilhar-se deles com medo se se encontrarem consigo mesmos e preferem viver anestesiados pelo consumo, pelo lazer, pelo ócio.

“É verdade que não se pode jugar a qualidade da prática de uma mãe por um aspecto isolado, especialmente se desconsiderarmos todo o contexto cultural e social no qual ela está inserida.”

Outros conceitos de “menos mãe”, segundo os comentários

  • “Mãe que sai para o bar e deixar o filho dentro do carro esperando é pior do que a que se dedica e busca programas para os quais possa incluir seus filhos.”
  • “Mãe que deixa chorando é pior do que a que acalenta. Faz isso pensado em si própria, em seu sono, não no bebê.”
  • “Mãe que não tem saco de acordar à noite para acolher o filho choroso é uma péssima mãe.”
  • “Eu sinto pena da Adriane Galisteu, porque ela poderia viajar em qualquer outro momento de sua vida. Mas ser mãe daquele recém-nascido e amamentá-lo com esplendor seria um momento único, e na minha opinião, sagrado.”
  • “Mãe que abandona os filhos para ir para Ibiza e substitui tempo com os filhos para ir para uma festa à noite toda semana.”
  • “A Galisteu foi uma ‘menas’ mãe quando desmamou um recém nascido pra sair em lua de mel.”
  • “É menos mãe/pai quem negligencia seus filhos, quem não educa, não passa valores, não dá carinho, tempo, atenção.”
  • “Colocar uma criança no mundo, dar todos os brinquedos tecnológicos, deixá-la sentada a frente da televisão porque a galinha pintadinha canta músicas de criança e se dizer boa mãe.”
  • “Mãezinhas que escolheram a maternidade que tinha salão de beleza para receberem as visitas pós-parto na beca.”
  • “Mulher que prefere assistir seus filhos brincarem no tanquinho de areia do que interagir com eles para não estragar as unhas. Mas não entro no mérito do texto em dizer que isso é ser menos mãe. Até porque sei lá o conceito de mãe que uma pessoa assim tem.”
  • “Mãe que vive na ‘umbigolândia ‘”.
  • “Mães que choram ao quarto ao lado, com o coração apertado por deixar o filho chorando, mas não têm coragem de se desvencilhar dos cordões de marionete que a prendem.”
  • “Mães e pais que terceirizam a criança por causa da ideia cada vez mais popularizada (e levada ao extremo) de que ‘mãe feliz, filho feliz’.”
  • “Mães e pais que acham que devem mais à sociedade que ao seu próprio filho e são capazes de cometer a barbárie de dar uma festa de ‘boas vindas’ ao bebê ainda na maternidade.”
  • “MENOS mãe é aquela que tem todas as informações e ainda assim, age pensando em si mesma apenas.”
  • “Pais que acham que os filhos é que têm que se adaptar a vida deles, e dá-lhe horas em salão de beleza, redes sociais, com celular em punho sem sequer olhar o sorriso da criança, viagem do casal, que precisa muito desse tempo.”

Questionamentos ao conceito de “menos mãe”:

  • “Conheço quem adotou o método horrendo do Nana, neném com a convicção de que isso ajudaria o bebê a dormir melhor, e que estava fazendo o melhor por seus filhos. Não fez para melhorar seu próprio sono porque, mesmo com seus bebês dormindo que nem ‘anjo’ depois do método funcionar, passava a noite acordando para ver se estava tudo em ordem com as crias.”
  • “Não gostei do texto! Achei uma volta ao passado sem tamanho! Cada um com a sua realidade e seus problemas! Julgar é fácil demais, fazer o que a maioria das mães brasileiras faz para sustentar, dar amor e carinho tudo ao mesmo tempo não é tarefa para qualquer um! Isso não é abandono emocional, isso é responsabilidade!”
  • “Ser mãe não é receita de bolo!”
  • “Babá, suco de caixinha, e televisão não é liberalismo ‘demoníaco’, é realidade!!!”

5.       A “mais mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da maternidade ativa e consciente vê mãe e pai como responsáveis pelos filhos, buscando as melhores escolhas, mesmo com sacrifícios pessoais.

“A ‘mais mãe’ exerce a maternidade em maior quantidade (de tempo, por exemplo), ou uma maternidade de melhor qualidade.

“Filhos são uma dádiva. Não caiamos na armadilha de achar que qualquer coisa vale mais do que eles. Nossos filhos são nossos parceiros, representam oportunidade única de nos redescobrirmos.”

Questionamentos ao conceito de “mais mãe”

Se a “menos mãe” foi duramente criticada, o conceito de “mais mãe”, por oposição, também foi alvo de muitos questionamentos:

  • “Uma mãe culpada ou que age por culpa não é uma boa mãe. Mas isto não significa se isentar de suas responsabilidades.”
  • “O que dizer da mãe que expõe as questões, imagens e intimidades dos filhos em um blog na internet, podendo causar a eles desconforto no futuro?”
  • “Acho que sei como essa mãe, tão comprometida com o maternar, age. Mas sei muito pouco sobre como ela sente. Se essa mãe está verdadeiramente feliz e completa, maravilha. Maternidade ativa é o melhor caminho para o filho e também para ela. E se ela não está assim tão feliz?”
  • “Uma mãe infeliz não seria uma ‘mãe menos’ “?
  • “Não vejo como seria possível uma mulher se negligenciar e, ainda assim, ser boa mãe. Se não cuidarmos de nós mesmas, como poderemos cuidar dos nossos filhos?”
  • “O que é melhor, brincar com o filho quando ele chega em casa da creche ou deixar o filho pra lá brincando sozinho pra fazer uma papinha caseira?”
  • “Não vou comentar mais nada, porque é perigoso eu ficar com sentimento de culpa por estar lendo textos na Net ao invés de brincar com a minha filha neste momento.”
  • “Alguém já inventou a tabela de medição, tipo INMETRO para mãe? Em que tempo/espaço medimos a eficiência da mãe? Na qualidade da infância? Nos confrontos da adolescência? Ou no ser que deixamos para o mundo na idade adulta? Porque eles mudam, e mudam muito. E o meio muda, e a atitude da mãe muda…”
  • “Talvez as pessoas estejam errando a dose: supervalorização da criança em detrimento do coletivo. Quem garante que esse desvio não se deve a pais grudentos demais, anulados como pessoas e dispostos a viver em função do filho 28h por dia? Não dá para dizer isso, nem o contrário.”
  • “Conforme a criança cresce as coisas mudam, pq cada fase é uma fase, e se os filhos são criados para o mundo, então uma hora eles se tornam independentes. Conforme essa independência é construída a mãe precisa saber ir igualando as prioridades.”
  • “Não ha coisa pior, nem pra mãe e nem pro filho, do que depois q a cria cresce e sai do ninho, a mãe fica sem chão e se descobre um ser sem vida própria. Daí podem nascer diversos problemas, uma sogra chata que quer a todo custo continuar vivendo a vida da cria, uma pessoa depressiva/rabugenta/lamurienta que acha q o filho é um ingrato e se revolta contra tudo/todos, e um filho que vai sentir culpa.
  • Se minha mãe me perguntasse se eu gostaria que ela abrisse mão de TODA sua vida e seus sonhos por mim, eu diria que não, acho que se anular -completamente- em prol de outro alguém, mesmo que esse alguém seja seu filho, é um fardo muito, muito pesado de se carregar.”
  • “Mamãe projetou a felicidade dela em nós, mas, como é natural, ao crescermos, cada um tomou o seu caminho. Eu continuo muito próxima dela, mas o afastamento natural de meu irmão para ela é uma mágoa profunda, uma ferida sem cura. Se, por algum motivo, eu não puder me fazer tão presente na vida dela, ela será infeliz. E como eu vivo com isso? Se ela tivesse deixado de passar algumas horas por dia comigo, não teria sido menos mãe por isso. Parte de minha felicidade como filha é a felicidade de minha mãe, e é muito melhor se a felicidade dela não depender apenas do ‘ser mãe’ “.

6.       Ter filhos

Argumento de Lia:

O Dr. José Martins, em A Criança Tercerizada, teve a coragem de dizer que quem não está disposto a mudar suas rotinas para cuidar de seus filhos não os deveria ter.

Concordam com o texto

  • “Não dá pra simplesmente ‘encaixar’ a maternidade e levar a mesma vida de antes de ter um filho – se é pra ser assim, por que tê-lo então?”
  • “Os motivos apontados por TODOS para ter filhos são egocêntricos. Garantir descendência, por costume social ou por que é ‘um sonho’ não são motivos centrados não na criança.”

7.       A influência da Mídia

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero é a preferida das grandes mídias e agências de publicidade. O princípio demoníaco da identidade própria, auto-suficiente, é um engodo para nos desumanizar e nos tornar vítimas perfeitas do consumismo e do capitalismo industrial. Segundo a grande mídia e a indústria publicitária, ser você mesmo é ser igual a um padrão de sucesso e beleza estabelecido por outras pessoas, ser uma marionete.

“A mídia coloca o adulto em primeiro lugar e pinta a maternidade como uma tarefa de mártir e a criança como um estorvo. O conflito entre mães e filhos é um mito criado para vender.”

Concordam com o texto

  • “Minha avó (84 anos) queria dar ruffles para minha filha e eu disse que não, que fazia mal… ela olhou o rótulo, indignada, e disse ‘Meniiiinaaaa, é só batata’. Minha avó é analfabeta, foi da roça, é megasaudável e ACREDITA que ali só tem batata e que alguma espécie de milagre faz aquela batata não se decompor. Ela achava que era o melhor para a bisneta.”
  • “Isso me lembrou a sugestão da revista Crescer sobre decoração de quartos de bebês e havia lá um berço e uma cama, a cama da babá.”
  • “Queremos mães que entendam os problemas de saúde pública da sociedade brasileira (desmame precoce, epidemia de desnecesáreas, excesso de sódio na alimentação infantil) que se repercutem na saúde de seus filhos e que entendam que somos enganadas e manipuladas cotidianamente em nome do lucro.”
  • “Não é martirizar ninguém pelo passado nem condenar por um evento isolado na vida materna. Estamos aqui como mulheres que defendem mulheres. A maternidade é aprendizado. E é muito interessante ao mercado ter mães não pensantes.”

Discordam do texto

  • “Eu não sei que revistas você anda lendo, mas destoam completamente das que eu leio. Em geral, pregam que a mulher deve ser uma heroína, cuidando integralmente dos filhos, sem abrir mão de todo o resto, como se a mulher tivesse de seguir padrões inviáveis de perfeição.”
  • “Se tem pai e mãe que larga, não são as revistas e as propagandas que ensinam, estimulam ou incentivam esse comportamento.”

8.       Comentário: Adendos ao texto

  • “Há uma teoria de maternidade que não foi contemplada e que é a mais importante: a que considera que a educação e cuidado das crianças não é somente de responsabilidade dos pais, a que considera que a maternidade mais comum será praticada também de acordo com as condições sociais na qual se perpetua. Ter um Estado e uma sociedade que valorizam a infância é fundamental para que sejamos bons pais sem sofrer mais do que necessário.”

9.       O Caminho do meio

Propostas de caminho do meio, segundo os comentários

  • “Não consigo abraçar um estilo de maternidade que considera as necessidades do filho mas não as da mãe.”
  • “O objetivo final é de felicidade, para pais e filhos. Com RESPEITO aos limites e às necessidades pessoais.”
  • “Vislumbro o tal caminho do meio, no qual as pessoas têm direito a fazer suas escolhas.”
  • “O caminho do meio não mata, não fere, só fortalece, porque ser mãe é um dos meus muitos papéis nessa vida.”
  • “O sentir me diz que eu quero ser ‘mais mãe’, sem deixar de ser ‘mais eu’. Dedicar, estender, absorver, me sentir feliz pra fazer feliz, à vezes com muita abdicação, às vezes nem tanto. Observar constantemente para saber onde posso e devo ‘ser mais’ e onde devo ‘ser menos’.
  • Eu sou da maternidade ativa às vezes e sou uma “menas main” outras vezes – depende da hora do dia que você encontrar comigo. Exerço os dois papéis com relativa tranquilidade.”
  • “Não é questão de ficar em cima do muro, e muito menos de falta de envolvimento. Quero o danado do equilíbrio, não consigo me enquadrar em nenhuma categoria, quero fazer do jeito que funcione pra mim e para os meus, quero poder experimentar e mudar de opinião, fazer valer se é que me entendem. Quero valores (morais) sim e amores, quero a honestidade e a capacidade de realizar, quero a frustação para poder crescer, quero a conquista para a determinação e disciplina, quero a reflexão sempre em qualquer atitude, quero bem estar, quero estar bem.”

Críticas ao Caminho do meio, segundo os comentários

  • “O Brasil não precisa de MAIS GENTE passando a mão na cabeça das mães que abdicam do filho para ter uma ‘vida’. Até porque isso é viver em função do mercado, não do filho. Condenam tanto quem vive em função do filho e não se tocam que vivem em função do mercado, do status, da aparência, do carro novo e das unhas e cabelos impecáveis.”
  • “O discurso contemporizador busca minimizar uma responsabilidade que é nossa, faz com que vibre ainda a mais a nossa natureza, que já é egoísta.”
  • “Espero um dia chegar a esse equilíbrio. Mas temo que palavras assim ditas num portal formador de opinião do porte do MMqQ pode fazer mais mal que bem.”
  • “No Canadá esse discurso faz completo sentido, já que a maternidade e a paternidade se completam. Mas não acho que o Brasil está precisando de mais passada de mão na cabeça agora, de mais uma referência pra se apoiarem e se eximirem da responsabilidade.”
  • “Se continuarmos falando, teclando, denunciando, gravando!, engrossando o coro e o caldo… mais e mais pessoas vão se tocar, vão ouvir o barulho e dar atenção a ele.”
  • “Meio termo, mediano, estar na média são sinônimos para medíocre.”

Tréplicas do Caminho do meio, segundo os comentários:

  • “Quando encontrei esse mundo de informações me senti mais desesperada e deprimida, do que acalentada. Isso pq a quantidade de mães que acham que só há um jeito certo de maternar é infinita, e desculpem, mas isso não é legal.”
  • “Essa postura do ‘não precisamos disso agora’ desrespeita as mães que leem o texto. Primeiro porque não é honesta – omite propositalmente um lado da questão para convencê-la de que o outro é certo. Segundo, porque as subestima: diz que a mãe brasileira não está pronta para um discurso que não a trate como uma cretina e que ela precisa ouvir o lado mais duro, ‘que não passa a mão na cabeça’, pra entender direitinho. Terceiro, porque é arrogante: vende uma única verdade possível (mesmo que, no fundo, admita que existem sim outras leituras).”
  • “Com quem o texto está falando? Nunca vi na blogosfera nenhuma mãe assim, tão extrema, tão descomprometida, tão ‘menas’. Nem na vida real eu já vi essa mãe. Essa mãe tão errada – pois foi erroneamente construída pelo sistema – existe e tá aí, condenando o seu filho ao abandono emocional completo. Pergunta: ela tá lendo blog de maternidade? E, na remota possibilidade de estar: ela foi adiante no texto ou parou logo no ‘asneiras’ do título, prevendo as pauladas que viriam? E, se foi adiante: ela está aberta ao texto ou vestiu uma armadura que vai comprometer a sua leitura?”
  • “Mães se sentem agredidas o tempo todo. Mães agredidas levantam as armas. Mães armadas não estão dispostas a ouvir. Distorções de discurso acontecem muito por causa da disposição (ou falta de) de uma mãe ouvir a outra. O que cria essa disposição? Empatia. Como se cria empatia? Pela identificação, pelo respeito, pela tentativa de compreender o outro.”
  • “O problema é que eu vejo a blogosfera mais militante tentando atingir pela dureza justamente quem precisa de acolhimento.”

Marusia fala

Após ler o post, os comentários, as réplicas e as tréplicas, me parece que todos estão de acordo com uma coisa: é necessário investir em uma sociedade melhor, e o cuidado com a infância é imprescindível. O que não tem consenso é a forma de alcançar esse objetivo.

Cada forma é defendida com unhas e dentes, quando não há nada que comprove sua eficácia. Só o futuro poderá dizer como serão os filhos de “mais mães” e “menos mães”. Além disso, essas crianças terão recebido influências múltiplas, o que nos impedirá de afirmar se foi a forma de maternagem que definiu seu modo de ser.

Sem garantia nenhuma, as mães se prendem a convicções. O pensamento diferente é tomado automaticamente como crítica: “se não está comigo, então é meu inimigo”. Não sobra espaço para o meio termo, nem para a tentativa de apaziguamento.

Assim, presas à forma e em eterna guerra pela sociedade de amanhã, nós mães nos desviamos do objetivo de ter uma sociedade melhor HOJE.

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Radicalismo: a que custo?

Não raro, vejo na internet textos bem intencionados que, pela forma com que são escritos, acabam atraindo resultados opostos ao que almejavam.

Acho fantástico quando se divulga a “maternidade real”, aquela que não está nas capas cor-de-rosa das revistas. Quando se mostram os desafios, quando se fala da necessidade de preparo e responsabilidade para ser pai e mãe. Mas não posso concordar com o que li em um blog: “Se a criação de filhos está fácil, a pessoa não está fazendo direito.” http://paperthoughts.wordpress.com/2013/02/10/bigger-the-better/

Os momentos mais maravilhosos que tenho com meus filhos são fluidos. Fáceis. E sem culpa.

Prosseguindo no post, dá-se como exemplo a mãe “O”, que não teria capacidade emocional para criar os filhos – “pessoas assim não deveriam tê-los”. No final, o texto diz que não adianta falar nada a “O”, porque ela simplesmente não entenderia. Silencia na presença dela, mas divulga seu comportamento para toda a web para impor seu ponto de vista. Isso não a ajuda, nem a seus filhos. (Quis deixar um comentário, mas esse recurso não foi habilitado no blog).

Acho ótimo quando as mães se reúnem na Câmara dos Deputados para propor novas leis. Organizam marchas para fazerem valer seus direitos. Boicotam uma grande marca. Acionam o Conar e suspendem um anúncio publicitário abusivo. Mas me preocupa quando ninguém se pergunta qual o verdadeiro poder da publicidade: por que ela é poderosa para vender hambúrguer, mas não convence ninguém a usar camisinha no carnaval? Por que Fernanda Lima consegue vender carros para a Chevrolet, mas não consegue reduzir o número de cesáreas com a campanha pelo parto normal?

Fernanda Lima faz propaganda para a Chevrolet

Fernanda Lima defende o parto normal em anúncio do ministério da saúde

Acho importante quando se alerta para crianças entregues 24h às babás. Mas sinto falta de quem defenda as crianças entregues ao tráfico de drogas. É legítimo questionar se o bebê deve ou não chorar no berço. Mas acho ainda mais valioso quem protege os bebês que choram sem berço, sem cama, sem casa.

Esses problemas são só do Governo, do Estado? O que então estaria sob “nossa” alçada? A bola da vez são as outras mães, mães como “O”. Acusá-las indistintamente na praça pública da internet e esperar que cada vez mais carapuças sirvam – essa é a melhor solução? O que de prático isso está resolvendo? Qual o valor da crítica, se não há nada a oferecer no lugar? Se culpar os outros fosse solução, já viveríamos no paraíso. Desde a Idade Média.

Lembro os livros de psicologia infantil, que recomendam julgar a atitude, não a criança. Se desejo que meus filhos sejam tratados assim, assim devo tratar o mundo. Existem atitudes mais adequadas, menos adequadas, totalmente inadequadas. Atitudes que SEMPRE estão atreladas a condições históricas, econômicas, sociais e psicológicas. Julguemos as condições e as atitudes, não as pessoas. Ofereçamos a elas oportunidades de rever e melhorar.

Para mães que maltratam deliberadamente as crianças, que espancam, torturam, exploram, um texto na internet é inócuo. São casos de polícia, Disque 100.

Não há determinismo na criação dos filhos, como se a mãe “radical” garantisse um futuro melhor. Eu até acreditei e gostaria que existisse esse controle (para o bem), mas é apenas ilusão. Ilusão perigosa se formos a fundo, pois significa acreditar que:

  • A mãe “radical” que age da mesma forma com cada um dos filhos terá, quando eles crescerem, réplicas idênticas a ela e entre si – isso é irreal;
  • A sociedade de hoje, tão individualista, é fruto de uma legião de mães “não radicais” – as nossas. – isso é infundado e leviano;
  • O filho de uma mãe “não radical” ou alguém sem a presença materna (um órfão, por exemplo) irremediavelmente não terá um futuro melhor, nem contribuirá para uma sociedade melhor – isso é absurdamente falso.

Fala-se tanto: “Quem não quer responsabilidades, não tenha filhos”. Ora, qual a tendência, não só brasileira, mas mundial? Queda constante na taxa de fecundidade. O discurso está funcionando. O curioso é que quem opta por não ter filhos é chamado de egoísta.

Em meio ao consumismo inveterado, é imprescindível valorizar a infância. Mas, até que ponto, sob o argumento de colocar a criança indefesa acima de todas as coisas, está meu discurso que prega a “minha” verdade acima de todas as coisas?

A radicalização indubitavelmente chama a atenção. A reflexão é importante, mas a que custo? Ao contrário do que se pensa, o extremismo não abre o debate. Fecha as portas. Em vez de informar, sensibilizar, criar um movimento sadio em prol de algo comum a todos, o que pode ocorrer?

  1. Chover no molhado. Encontrar eco somente em quem já pensa do mesmo jeito;
  2. Cair no vazio. Deixar de ser levado em consideração – “apelou, perdeu”;
  3. Cair no risível, ser motivo de piada, de ironia;
  4. Como se existissem apenas duas classes de mães: as boas e as más;
  5. Culpabilizar e afastar quem quer acertar – que é quem lê blog de maternidade;
  6. A mais grave de todas: provocar reações ainda mais extremadas.

Os próprios termos citados: “militância”, “patrulha”, “xiita”, fazem referência à guerra e evidenciam o campo de batalha que isso se tornou. Mas que inimigo é esse? O sistema, o capitalismo, os publicitários, a mídia, os médicos irresponsáveis, os pedófilos, os traficantes não precisam se preocupar: as mães já estão ocupadas demais brigando umas com as outras.

Considero essencial apostar numa sociedade melhor, resgatando o empoderamento feminino, a humanização dos atos, a dedicação, o toque, o afeto. Observemos, contudo, se estamos oferecendo todo o amor aos nossos filhos e reservando todo o ódio a quem pensa diferente.

Muitas mães blogueiras têm filhos ainda pequenos. Eles crescerão, lerão o que foi escrito. Que lição está sendo passada? A de tolerância?

Admiro demais os blogs de mães que têm crianças com síndromes, doenças ou deficiências, que se unem em busca da cura, da informação, de uma resposta do Estado. Questões sobre mães “radicais” ou “não radicais” nem entram na pauta.

Eu acredito na revolução silenciosa da Pastoral da Criança. No trabalho amoroso do Child Fund, das orquestras de meninos. No trabalho carinhoso dos bancos de leite – sim: o Brasil das cesáreas também é o país com o maior programa de doação de leite materno no mundo. Essa é a sociedade amorosa que queremos, esse é o trabalho de formiguinha que reverte estatísticas, que constrói realidades.

“O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente, que há no mundo. Se uma única pessoa chega à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões.” (Mahatma Gandhi).

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Veja também:

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Perigo de ser mãe perfeita 5: Vá pela sombra

Decálogo dos meus desafios

Você está esperando seu filho há muito mais de 9 meses – Marusia fala

Quem vai ficar com as crianças? Análise

Li um texto de Rosely Sayão sobre o que fazer quando as crianças entram em férias escolares, ampliando o escopo para o que significa ter filhos. O artigo por si só já chama a atenção, mas os comentários dão novas matizes à discussão. Assim, optei por desdobrar a análise do texto em dois estágios:

  1. Análise do artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?” e os comentários feitos pela internet – neste post;
  2. Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos.

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  1. O artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?”

Leia o artigo e os comentários:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/1195154-quem-vai-ficar-com-as-criancas.shtml

Análise

Em Análise do Discurso, não se busca o que está “por trás” do texto. A mensagem fala por si só. Assim, a segunda coluna evidencia, em outras palavras, o que já está presente no artigo, sem fazer juízo de valor.

Pontos principais do texto Análise
Uma mãe se magoou porque teve que ficar com o filho e não pôde ir a um cruzeiro sozinha. A mãe efetivamente ficou com o filho e não viajou, cumprindo com “suas obrigações”. Ela se magoou, mas não deveria se sentir assim. Afinal, “Reclamar não é produtivo, já que o desejo de ter filhos foi dos próprios pais.” Deste trecho, depreende-se: filhos são sempre fruto de desejo.
Ir para a escola quando a maioria dos colegas não está não deve ser agradável. As crianças sabem o significado de férias. Ninguém gostaria de passar férias em seu local de trabalho. Crianças também precisam de férias.
Ter filhos significa ter de renunciar, mesmo que temporariamente, a diversas coisas. Ter filhos implica sacrifícios, ainda que por um tempo.
É recente essa ânsia dos adultos de criar programação para os filhos. Eles mesmos podem fazer isso, mas só se tiverem tempo para o ócio. Crianças são superestimuladas no decorrer de todo o ano, e os pais devem garantir seu descanso.
Por que muitos pais tratam as férias dos filhos como um problema? Talvez seja difícil conviver com eles por períodos maiores do que os pais estão acostumados. O convívio com os filhos é algo difícil. Se fosse natural e bom, os pais não precisariam se habituar para darem conta.
É um problema quando queremos viver com filhos do mesmo modo que vivíamos antes de tê-los, e quando nossa vida desobrigada deles parece ser muito mais sedutora. Ter filhos muda a vida dos pais para uma vida “obrigada” e pior em comparação com a vida de antes.
Por que temos filhos? A resposta já foi dada no texto: “Ter filhos significa acompanhar a vida de uma criança, cuidar dela, dedicar-se a ela, ficar disponível para o que possa acontecer.” Denota um movimento sempre na direção dos pais para filhos, sem abordar nenhum tipo de contrapartida.

Os comentários ao texto de Rosely

Até o dia 8/1/2013, foram feitos 27 comentários pela web. Participaram 11 homens e 9 mulheres (em certos casos, houve mais de um comentário por pessoa – todos de homens). A maioria (13) concordou com o texto.

Argumentos de quem concordou Análise dos comentários
Ter filhos não é para qualquer um. Ter filhos é uma empreitada complexa, que requer preparação.
As pessoas querem ter filhos e continuar com a vida de solteiro. Isso reflete a imaturidade, o egoísmo e a infantilidade desses pais. A vida de solteiro é imatura, egoísta e infantil, o oposto da vida que devem ter os pais.
Hoje todo mundo quer apenas olhar para os direitos, se esquecendo dos deveres. “Filhos” estão no rol de “deveres”.
Ninguém deve pôr filhos no mundo pra dar trabalho pros outros. Filhos dão trabalho. E quem deve assumir esse trabalho são os pais.
Filhos são pessoas, não bonecos. Filhos nem sempre correspondem às expectativas dos pais.
Os pais abdicam por um período de algumas coisas, como seus próprios pais também fizeram. Dar continuidade ao processo de criar filhos equivale a oferecer um tributo à atitude dos próprios pais. E se os próprios pais foram irresponsáveis? Além disso, se for uma questão de retribuição, não é mais lógico fazê-la com os próprios pais em vez dos filhos?
Em vez de reclamar, eles deveriam aproveitar melhor o tempo, pois em breve as crianças serão adultas. Este é um paradoxo. Se o convívio é bom e deve ser aproveitado enquanto os filhos são crianças, não haveria motivo para reclamar.
A criança não pediu para nascer. Se foi um “um acidente”, é necessário “pagar” o preço pelo “acidente”. Ao contrário do texto, aponta-se a possibilidade de um filho não planejado. Mesmo esse “acidente” deve ser assumido.
A criança enxerga a escola como um depósito. Crianças também precisam de férias.
Por causa da falta do convívio familiar, a criança não vai respeitar os pais, pois são estranhos. Os pais perdem o controle, e os professores também. As consequências de não cumprir a obrigação de pais são funestas e vão além do ambiente familiar.
Filho em casa deve ser uma alegria e não um estorvo. Pela primeira vez, alguém não classifica o convívio com os filhos como algo penoso, dando uma pista de que as férias com eles podem, sim, ser prazerosas.
Caso os pais tratem seus filhos como estorvo, logo aparecerá alguém oferecendo alternativas sedutoras que supostamente preenchem esse vazio, como as drogas. O convívio com os filhos é um sacrifício, mas evita sacrifícios ainda maiores depois que eles crescem.

Houve quem concordasse com Rosely e criticasse quem foi contra:

“A verdade incomoda aqueles que já se sentem culpados, mas tentam esconder até de si mesmos e adoram rebater com jargões do tipo ‘não sou menos mãe porque quero ir pro cruzeiro sozinha’ “.

As justificativas de quem não concordou foram:

Argumentos de quem discordou Análise dos comentários
As mulheres trabalham e têm somente 30 dias de férias por ano, enquanto as crianças têm no mínimo 60 dias. Em pelo menos metade das férias as crianças não poderão ficar com os pais que trabalham. A insistência nisso força o conceito de incompatibilidade entre trabalhar fora e cuidar dos filhos.
As famílias que não herdaram fortunas precisam trabalhar para criar os filhos e fazer deles pessoas felizes. Filhos demandam investimentos financeiros.
As mães não devem ser julgadas. Elas trabalham por necessidade, e não por hobby. É muito fácil falar quando se pode optar simplesmente por “não trabalhar” para cuidar dos filhos. Nem sempre a mãe pode optar entre trabalhar fora e ficar em casa, principalmente na ausência do pai.
“Não deixaria de trabalhar por causa dos meus filhos, e não deixaria de ter filhos por causa do trabalho.” As mães querem conciliar maternidade e carreira.
A inexistência de estruturas adequadas para as crianças nos 60 ou mais dias de férias é um problema real e não deveria ser apresentada nunca como “pais irresponsáveis que não ligam para os filhos”. A criação dos filhos também é um dever do Estado.
Seria um retrocesso obrigar as mulheres a ficar em casa e serem donas de casa. O texto cita o exemplo de uma mãe, mas não distingue o trabalho dos pais entre os sexos. Entretanto, para maioria dos leitores, é uma obrigação típica das mulheres.
Todos tivemos na criação a presença marcante e fundamental de uma das avós ou tias ou afins. Isso também é terceirizar? Antigamente, havia uma rede de apoio familiar e comunitária, que assumia a criação das crianças como um compromisso coletivo – e não uma obrigação exclusiva dos pais. Tal rede já não se vê na atual classe média.

Houve quem perguntasse à autora: “E você trabalhava ou era professora?” Respostas de internautas nos comentários salientam que os professores têm férias de 60 dias, como as crianças, e que assim poderiam acompanhar seus filhos por conta disso.

Marusia fala

O único lado não ouvido nessa discussão inteira foi justamente o mais interessado: as crianças. O que ELAS preferem fazer nas férias?

Sobre o texto de Rosely, se a motivação foi conscientizar os pais a manterem o convívio com as crianças, digo que não aposto nesse tipo de abordagem. Primeiro, porque os pais que realmente não têm responsabilidade, e não se sensibilizam com seus próprios filhos, não vão se sensibilizar com um texto de internet. Aliás, eles nem sequer leem esse tipo de coisa. E quem é que lê? Os pais (principalmente as mães) que querem melhorar. E o que eles vão conseguir? Apenas a sensação de que nunca vão dar conta.

Segundo, porque critica determinados comportamentos sem oferecer nenhuma sugestão. Além disso, apresenta a convivência com as crianças como algo penoso, como um fluxo infindável de obrigações que deve partir dos pais em direção aos filhos, sem que se obtenha contrapartida de satisfação.

Terceiro, porque esses artigos contribuem para polarizar ainda mais uma discussão absolutamente infrutífera sobre as decisões de ter ou não filhos. Uma decisão que é pessoal, intransferível.

Faço questão de acompanhar meus filhos sempre, mas também me dou o direito de descansar – e de reclamar, principalmente quando eles não cooperam. Não existe coisa mais opressora para uma criança do que ter uma mãe perfeita, nas férias ou não…

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Veja também:

Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Viajando com crianças. Parte II – As contradições