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No seu lugar: pelo direito de parir em paz

Uma estudante de medicina acompanha os horrores da violência obstétrica e resolve divulgar na mídia:

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/estudante-de-medicina-escreve-desabafo-depois-de-assistir-a-parto-violento-feito-por-professora-chorei-de-raiva-e-frustracao-no-quarto-dos-internos/

 

Eu me coloquei no lugar da parturiente. Uma jovem de apenas 16 anos, tendo seu primeiro filho. Vi pelos seus olhos, atônitos e aterrorizados, a sequência crescente de arbitrariedades, abusos e violências, no dia do nascimento do seu filho e também do seu nascimento como mãe. Querida jovem, eu desejo que você não deixe nascer o ódio, a amargura e o desalento. Que suas lágrimas façam germinar em seu coração toda a força que também é gentileza, toda confiança que também é doçura e todo o poder que também é generosidade.

Eu me coloquei no lugar da mãe da jovem, que a estava acompanhando. Eu pude sentir o desespero no seu coração materno por ter negado o direito de proteger sua filha. Eu não sei se você também teve partos difíceis e tristemente constatou que nada mudou desde então; que ser mãe ainda é sinônimo de sofrimento. Eu senti sua vulnerabilidade diante de um sistema doente, do qual você depende. Eu vivi a angústia do seu silêncio resignado, compartilhado por tantas e tantas mulheres que passaram por semelhante tortura. Querida mãe e recém-vovó, eu desejo que seus braços aconchegantes abracem sua filha e o bebê; que sejam braços grandes o suficiente para incluir a você mesma nesse abraço de consolo e conforto.

Eu me coloquei no seu lugar, estudante de medicina. Você sabia os procedimentos médicos corretos. Você conhecia a lei. Muito além da teoria, você percebia em seu coração que aquilo não era humano. Eu chorei com você pela impotência diante da injustiça. Seu relatório médico foi adulterado. Mas você teve coragem para contar à imprensa o que permaneceria nos muros daquele hospital, ou simplesmente desapareceria sob o argumento abjeto de que era “frescura de grávida”. Querida estudante, você será uma médica formidável. Desejo que você possa amparar em suas mãos carinhosas muitas vidas.

Eu me coloquei no lugar de todos os estudantes dessa “professora”. Não sei se vocês testemunharam práticas similares; por favor, não assumam que elas devam ser assim. Queridos estudantes, desejo que a vida lhes dê outros mestres que honrem o compromisso de verdadeiramente promover seu aprendizado e crescimento.

Eu me coloquei no lugar da mulher que conduziu o parto. Não sei se o que você fez é parte da sua rotina ou foi um caso isolado. Não faço ideia do que você quis “ensinar”. Para a jovem mãe, “que criar filho não é brincadeira”? Você a julgou pela idade? A única coisa que você transmitiu foi o absurdo que, de sua posição, do “seu lugar”, você podia humilhar os outros, estraçalhar o corpo, “a hora”, os sonhos de alguém. Você esbravejou para que todos se pusessem “em seus lugares” – a paciente, o bebê, a equipe do hospital, as estudantes.

Durante milênios, o parto era um momento sagrado, com presença exclusiva de pessoas do sexo feminino. No Século XX, os homens decidiram que queriam participar desse mistério, e o medicalizaram. Afinal, era algo muito profundo para deixar na mão só das mulheres. Esta é a origem da violência obstétrica: a violação do protagonismo feminino. Mas você, que estava no plantão obstétrico naquele dia, é mulher! Você tinha na sua frente um corpo igual ao seu! Nada, absolutamente nada, pode justificar o que você fez!

Você não é médica. Não tem capacidade de lidar com a vida. Não é professora. Não tem o direito de disseminar o que pensa. Você não é humana. Não pode conviver com os outros. Mesmo que você fosse sozinha para o ártico quebrar gelo, as rochas chorariam. Até o momento em que você decidisse quebrar o gelo do seu coração, que é o que lhe desejo. Mas, enquanto esse dia não chegar, eu desejo que instâncias superiores a impeçam de exercer sua profissão e a façam arcar com as consequências, para que você não continue colocando em risco a integridade e a dignidade de mais ninguém.

Eu também me coloquei no lugar do bebê. Você estava em seu tempo perfeito, mas alguém não o respeitou e quis lhe arrancar de sua primeira morada à força, como quem arrebenta as pétalas de uma flor para abri-la. Querido bebê, eu desejo que você se torne uma pessoa brilhante, que dê muito orgulho e amor à sua mãe, à sua família e a todos que tiverem o privilégio de contar com sua presença. Que, no compasso do seu coração, você busque a defesa da paz e da justiça, ajudando a inaugurar um novo tempo.

E eu, o que posso fazer aqui do meu lugar, além dos desejos sinceros e de ajudar a ampliar a discussão sobre a violência obstétrica?

Escrever para a Câmara dos Deputados, manifestando apoio ao projeto de lei que combate a violência obstétrica e cria mecanismos para que as mulheres sejam amparadas e tenham “uma boa hora”.

:: Conheça o Projeto de Lei 7633/14::

Desejo, de coração, que você que está me lendo agora possa se engajar nesse movimento.

Clique no link abaixo ou ligue para o Disque Câmara – 0800 619619 (ligação gratuita de qualquer lugar do Brasil), pedindo que os deputados aprovem o Projeto de Lei 7633/14. Ajude a divulgar!

http://www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco?contexto=agencia

Se você sofreu violência obstétrica ou sabe de alguém que teve experiências nesse sentido, entre em contato com a Artemis, organização que luta pelos direitos das mulheres de parirem em harmonia e segurança:

http://artemis.org.br/como-a-artemis-pode-ajudar/

 

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

A dor do mundo

Em boa hora

A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários 😉 )

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Três histórias de amamentação

O maior inimigo da mãe

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

El bigodito

Por Maria Amélia Elói*

pintura de Frida Kahlo com flores

“Cores de Frida Kahlo, cores” (Autorretrato)

Tanto a minha família quanto a família do meu marido têm mulheres de bigode. Eu mesma, na minha forma original — isto é, antes do advento da depilação com cera — sou uma dessas fêmeas com quem, como diz o ditado, nem o diabo pode. Muito natural, então, que minhas filhas nascessem com a tal penugem debaixo do nariz, acima da boca. E no caso delas, que são bem morenas, o pelo é preto, muito preto.

Minhas bigodudinhas têm ainda sobrancelhas fartas, praticamente umbrancelhas, e uns pelos visíveis no papo. Mas, na real, elas não são tão cabeludas quanto as mulheres barbadas que trabalham nos circos. Também não chegam a Frida Kahlo. São meninas cabeludas que esbanjam feminilidade!

Como eu já disse, fui bigoduda durante a infância inteira e até mesmo durante a adolescência. Nas minhas fotos de debutante, aos 15 anos, lá estava o buço! E, pelo menos que me lembre, eu não me preocupava muito com ele. Nem minha mãe, nem minhas amigas, nem minha depiladora me incentivavam a retirada dos pelos. Eles estavam lá, até os 17, sujando meu rosto; mas só resolvi encarar a dor da depilação no rosto quando o meu espelho sugeriu que eu poderia ficar com o semblante mais leve se tirasse a sobrancelha e o moustache. De lá pra cá, tiro o buço e a sobrancelha todo santo mês.

E não é que a minha filha mais velha, de apenas 6 anos, já está preocupada com seu bigodito? Outro dia, enquanto eu contava histórias para ela à noite, na cama, ela me surpreendeu com um choro sofrido e a confissão: “Eu não gosto de ter bigode, mamãe. Meus colegas ficam me perguntando por que eu tenho”.

Fiquei realmente assustada com essa precocidade, já que, lá em casa, ninguém incentiva vaidades estéticas. Com muito jeito, expliquei à angustiada menina que a nossa família tem várias mulheres de bigode e que isso não nos faz menos femininas. “Você é linda desse jeito, filha, com esse bigodinho. Quando você crescer um pouco mais, se você quiser, podemos tirar esses pelos do seu rosto. Só que dói, viu? Não vou mentir”.

Luana se acalmou, sorriu e não falou mais sobre o assunto. Mas eu sei que, logo em seguida, daqui a alguns dias ou anos, ela vai demonstrar preocupação com a sobrancelha, a barba, os pelos nos braços, nas costas, nas pernas… Vai também implicar com sua cor escurinha e com o próprio cabelo, que é anelado. E provavelmente vai querer clarear e alisar os cachos. Esticar o cabelo, eu confesso, também era o meu sonho desde a adolescência, quando meu cabelo começou a encrespar. Eu rodava toca de meia ou de grampo no cabelo e adorava fazer escova para vê-lo lisinho. Mas faz uns 15 anos que assumi com fervor a “crespitude”, atitude encaracolada, e agora quero defender, pelo menos até quando for possível, o cacheado do cabelo das minhas filhas.

Mas será que algum conselho meu poderá demover minha filha da ideia de que a Barbie e a Cinderela — que não têm nenhuma penugem no corpo — são as verdadeiras lindezas do planeta? O que fazer para que nossas crianças amem os próprios cabelos e os próprios pelos e os próprios corpos, mesmo que os colegas e a mídia e o mundo teimem em apontá-las como imperfeitas? Como elas podem adquirir autoestima suficiente para amar e valorizar a própria beleza natural? Como não escravizá-las a tantos procedimentos estéticos artificializadores?

Só agora, enquanto mãe de duas meninas, entendo como é forte a imposição da beleza sobre as mulheres e ilimitada a exigência da vaidade. É tão difícil dissuadir as pequenas do desejo de usar esmalte, batom, blush, perfume… É tão difícil que não queiram ser mulheres enfeitadinhas desde cedo!

Sinceramente, eu torço para que as lanugens da Luana resistam intactas pelo menos até os 12 anos. Para mim, aquele bigodito sapeca é sinal de que a primogênita continua e continuará sendo a minha menina!

* Maria Amélia Elói, 39 anos, é mãe de Luana Lis, 6, e Mariana Flor, 2.

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Veja também:

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade

Mamífera!

Cadê o barrigão? Sumiu

Cadê o barrigão? Marusia fala

Sobre ballet e bullying

Ballet Lago dos Cisnes

Cisne negro

Há alguns anos, minha cunhada, bailarina de alto naipe, me perguntou se eu matricularia minha filha no Ballet. Respondi que só se fosse a razão da vida dela, que fosse algo que ela quisesse mais do que tudo no mundo, porque minha experiência não tinha sido legal. Que, ao contrário da minha cunhada, eu não tinha muito talento pro negócio, e enfrentei situações muito humilhantes.

Entrei no Ballet aos 8 anos. A primeira professora era fofa. Nos quatro anos seguintes, entretanto, passei a ter aula com outra professora, mais rígida, que estava obcecada para formar um corpo de baile.

Eu nunca tive pretensão de ser solista. Conforme disse, nunca fui habilidosa. Era esforçada, obediente e tímida. E vibrava com os festivais de fim de ano.

Certa vez, fizemos “A Bela Adormecida”. Minha turma era de “aldeãs”. Foi quando eu comecei a sentir a pressão. Ensaiava de domingo a domingo, mas não foi suficiente. Faltando poucos dias para o espetáculo, a professora me tirou de duas coreografias. Durante elas, eu faria figuração, sentada imóvel em um banco no fundo do palco. Na única coreografia de que participei, eu, que tinha mais de 5 graus de miopia, fui obrigada a dançar sem óculos, porque “aldeãs não usavam óculos”.

No ano seguinte, fui cortada de outra coreografia. A alegação foi que eu era muito “baixinha”. Uma colega, que tinha estatura menor que a minha (mas era um esplendor dançando), levantou-se e perguntou: “Se fosse assim, eu também não estaria.” A professora limitou-se a ficar vermelha e não dizer nada. Mas eu entendi tudo.

No último dos quatro anos, minha turma finalmente foi promovida a “corpo de baile”. Menos eu, que teria que voltar para o nível anterior.

Apesar de ser magra como um palito, eu sempre tive o tronco largo, além de uma “pochetinha”. Então, ouvia sempre: “Encolhe essa barriga! Bailarina não tem barriga! Uma linguiça seca como você não pode ter barriga!”

Eu tinha 13 anos. Escrevi uma carta para a professora e saí do Ballet. Hoje, essa abordagem seria considerada bullying. Interessante que a rivalidade não existia entre as colegas (vide minha “defensora”, acima). O bullying que eu havia sofrido partiu de um adulto, do professor, da autoridade.

Minha mãe fica doidinha com essas histórias. “Por que vocês não contaram pra gente?” A resposta é unânime: “A gente não queria incomodar vocês com essas coisas de criança.”

Hoje eu e meus irmãos nos reunimos e lembramos morrendo de rir. Dizemos que é uma espécie de catarse coletiva, e rimos (e nos emocionamos) porque afinal não era privilégio individual de nenhum de nós: todos passamos por isso. Já meu marido não tem a mínima paciência para o que considera uma “autocomiseração”. Ele não concorda, diz que desde pequeno sempre procurou se dedicar ao que sabia fazer, e não o oposto.

Aconteceu com meu filho mais velho. Ele AMA futebol. Resolveu entrar na escolinha. Pensei que podia ser uma maneira de ele aprender a jogar melhor. O professor sempre foi muito respeitoso, mas no terceiro campeonato, meu filho me disse: “Quero sair. Passo a maior parte do tempo no banco. Não acho errado, porque não quero prejudicar a equipe. Então vou procurar algo em que eu seja bom.” Oito anos de idade.

Hoje ele faz Karatê. A academia foi pesquisadíssima, com o medo de ele ir parar na Academia Cobra Kai (de “Karatê Kid A hora da verdade”, lembra?). Todo cuidado é pouco. Pois encontramos o que considero o Sr. Miyagi brasileiro. Vou me permitir ser a coruja das corujas: em menos de um ano, ele já tinha sido aprovado em quatro exames de faixa (branca, azul, amarela e vermelha). Está na laranja. Parece que nasceu pra isso. Fico fofa de orgulho.

Professor da academia Cobra Kai encarando Sr. Miyagi

Karatê Kid – A hora da verdade

Voltando ao Ballet. Eis que, com 4 anos, minha filha entra na aula. Fazia parte da recreação, não era uma academia de Ballet. Pensei que, com isso, o clima seria mais leve. Não quis contaminar a situação com meus preconceitos. Comprei o uniforme e as sapatilhas na maior alegria. Meses depois, ela me pede para sair: “É chato.”

Alunas de ballet na barra e uma delas pendurada de cabeça para baixo

A professora me contou que ela “não tinha a disciplina necessária para o Ballet”. Que, durante a aula, havia uma espécie de “circuito” com objetos de isopor para marcar as estações, e que bastou virar as costas para minha filha misturar todos eles. Na surdina. Com a cara mais angelical do mundo.

Pensei:

Gente!!! Minha filha não tem NADA a ver comigo!!!

QUE MARAVILHA!!!

Quatro anos de idade.

Moral da história 1:

Existem academias e academias. Como pais, devemos ficar atentos. Nem sempre as crianças falam o que acontece nas aulas.

Moral 2: Numa dessas “sessões de autocomiseração” em família, minha cunhada se sentiu à vontade para contar os absurdos que ouvira da professora de Ballet. E olha que ela era solista. Hoje, ela está na turma para adultos e experimenta pela primeira vez “Ballet com amor” (quando criança, ela teve “Ballet com dor”).

Moral 3: Evitemos projetar nos nossos filhos nossas frustrações. Ou nossos sonhos.

Moral 4: Jamais percamos de vista que eles são crianças. Hoje minha filha faz Karatê, também. Se diverte pra caramba com o Miyagi brasileiro.

Menina de quimono lutando karatê

Quem foi mesmo que disse que ela não tinha disciplina?

menino e menina em pose de karatê __________________

Veja também:

Meu filho vai usar óculos

O anjo na areia

Caminhos

This post in English: On Ballet and bullying

Os segredos dos publicitários

Dia desses eu li no Facebook uma definição para alimentos saudáveis: todos os que não têm propaganda.

Os intervalos comerciais trazem realmente uma sucessão de produtos industrializados, cujos apelos se apoiam em:

  • Personalidade de Marca;
  • Design chamativo;
  • Predominância de enredos de conteúdo emocional, com associação a situações prazerosas, até mesmo fantásticas;
  • Praticidade no consumo. Exemplo: “pronto para beber”;
  • Algum elemento racional. Exemplo: “enriquecido de vitaminas”;
  • Presença constante na mídia; repetição.

A propaganda é o que garante visibilidade a esses produtos. E vai se estender em cuidadosas estratégias até ao ponto de venda, seja o supermercado ou a lanchonete.

Propaganda não é mera informação; é informação “embalada para presente”. Para encantar, convencer, persuadir. E superar a concorrência.

Os alimentos saudáveis têm todas as características para superar essa concorrência. Podemos aplicar as táticas da propaganda para dar a eles mais visibilidade.

Então, seguem alguns anúncios que gostaríamos de ver:

propaganda de banana. publicidade de alimento saudável.

Clique na imagem para ampliar

propaganda de água de coco. publicidade de alimento saudável

Clique na imagem para ampliar

anúncio publicitário de palitos de cenoura

Clique na imagem para ampliar

Nos Estados Unidos, a simples reorganização dos refeitórios gerou resultados impressionantes. O que foi feito?

  • Cartazes e banners com fotos maravilhosas de alimentos saudáveis logo na entrada;
  • Mesas com buffet permanente de frutas cortadinhas;
  • Frutas e legumes em bandejas separadas por cor, apresentados bem suculentos;
  • Refrigerantes, frituras, guloseimas fora do alcance dos olhos e da mão – todos escondidos atrás do balcão. Se a criança quiser, vai ter que pedir.
refeitório escolar

Foto: Larry Fisher

Podemos tomar emprestadas essas ideias e testar em casa. Os “garotos-propaganda” não poderiam ser melhores: nós, os pais. Saborear essas delícias em família é o melhor exemplo…

A propaganda é inteiramente fundamentada na marca. Todos os outros apelos são para enaltecer a assinatura, a marca. Podemos convidar as crianças a pensar em nomes, slogans e enredos divertidos para os alimentos.

Os mestres de redação publicitária são taxativos para que os trocadilhos sejam banidos para todo o sempre; mas estes são tão engraçados que a gente abre uma exceção…

Para a criançada que curte super-heróis:

(Campanha completa)

anúncio publicitário de uvas Hortifruti

anúncio publicitário laranja verde Hortifruti

anúncio publicitário He manga Hortifruti

Anúncio publicitário Mulher Marervilha Hortifruti

Para quem gosta de cinema:

(Campanha completa)

anúncio publicitário A incrível Rúcula Hortifruti

anúncio publicitário Hortaliça rebelde. Hortifruti

anúncio publicitário dois milhos de francisco. Hortifruti

batatas do caribe

anúncio publicitário Pepino Maluquinho Hortifruti

anúncio publicitário chuchurek hortifruti

anúncio publicitário e o coentro levou... hortifrutiPara quem adora música:

(Campanha completa)

anúncio publicitário couve garota de ipanema Hortifruti

anúncio publicitário eu uso brócolis Hortifruti

anúncio publicitário like a vagem hortifruti

Para exercitar a imaginação e encontrar formas semelhantes (como nas nuvens!):

(Campanha completa)

anúncio de gengibre Hortifruti

anúncio publicitário beterraba hortifruti

anúncio de tangerina Hortifruti

Para quem lê revista de fofoca:

(Campanha completa)

Revista Cascas Hortifruti

anúncio publicitário Revista Cascas alho hortifruti

Para os antenados em moda:

(Campanha completa)

Publicidade. A moda é usar roxo Hortifruti

A moda é usar verde anúncio da Hortifruti

Esta é importada (Diana Ross):

Na pesquisa, ainda encontrei perdido um anúncio de frutas brasileiras. Mas só foi veiculado no exterior. Apex, vamos divulgar no Brasil também…

campanha para promoção de frutas brasileiras no exterior

Um tiquinho de contrapropaganda:

Pense fora da caixinha. Salada de frutas Hortifruti

A diferença entre a publicidade e a realidade (rs!)

(post completo)

diferença entre foto da embalagem e a realidade

Nossa, agora vou ali na cozinha comer uns palitos de cenoura com água de coco… De sobremesa, uma banana amassadinha, hmmmmmmm! ^^,

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Veja também:

Brinquedos que gostaríamos de ver

Verdades

O que aprendi sobre… desfralde

Bebê usando fralda com gráfico

Por ocasião do desfralde dos pimpolhos, recebi várias dicas da família (mamãe, irmã, cunhada), que funcionaram para mim. A lista foi originalmente publicada no grupo “Desfralde” da Rede Mulher e Mãe.

Qual o melhor momento para o desfralde?

  • Não existe regra. Cada criança tem seu ritmo. Dois anos e meio é uma idade boa para começar, se a criança demonstrar vontade de desfraldar;
  • No inverno, como as crianças suam menos, tendem a fazer mais xixi. A época bacana pra desfraldar é o verão (no calor);
  • Crianças aprendem muito por imitação, e nem sempre os pais ficam à vontade para fazer da ida ao banheiro um evento público. Se ela tiver irmãos mais velhos ou estiver na escolinha, assistir a outras crianças fazerem o mesmo ajuda muito. Outra opção é usar brinquedos – ursinho, boneca, soldadinho…
  • Envolva ao máximo a criança no processo. Explique tudo, convide-a para ir à loja escolher as cuequinhas e calcinhas;
  • Não subestime a quantidade de calcinhas / cuequinhas que eles sujam no início. Compre mais de 1 dúzia;
  • O aspecto emocional é importantíssimo no desfralde. Evite iniciar o processo quando a criança está enfrentando outros desafios, como nascimento do irmão, volta da mamãe ao trabalho, adaptação na escola, alguma doença ou desarmonia em casa;

bye bye fraldas com Piggy muppets

Os apetrechos

  • No início, até comprei peniquinho colorido, desses que toca música. Mas não achei muito prático. Tinha que esvaziar no vaso sanitário e depois proceder à limpeza completa para não deixar mau cheiro. Preferi um assento adaptador, que usaram por muito tempo, até ficarem mais seguros;
  • Se optar por um adaptador, observe se ele está bem preso ao vaso. Se ele ficar frouxo, pode causar acidentes;
redutor para vaso sanitário

Gosto desse, que acopla no assento

  • Até hoje eu acho o Ó do Borogodó levar meus filhos aos banheiros públicos. Uma ótima sugestão é comprar protetores descartáveis de plástico para forrar o assento (aprendi com as Motherns);
  • Aproveito para fazer o apelo de órgãos públicos e empresas incluírem, em seus projetos arquitetônicos, o WC de família. Pai passeando com a filha: em que WC ele entra, oras bolas?
protetor de assento de vaso sanitário descartável

Protetor de assento

As “escapadas”

  • Xixi e cocô escapam, mesmo. Isso é natural;
  • Lembre-se de que a criança NUNCA teve necessidade de avisar ou de segurar para fazer no banheiro, uma vez que até agora ela usava fraldas. Tudo é novo para ela, e é necessário ter paciência;
  • Compre dois plásticos (desses de forrar livro), mais ou menos com 80x80cm. Quando eles estiverem no sofá / tapete / na cadeirinha do carro, forre com um dos plásticos e ponha por cima uma fralda de pano (para não escorrer). Ajuda muito na hora de limpar quando o xixi ou cocô “escapole” e evita molhar o sofá / tapete / o carro etc…;
  • Em casa, não é necessária superprodução, dá para nos primeiros dias a criança ficar só de calcinha ou cuequinha (menos roupa para lavar);
  • Criança que se entretém na brincadeira se esquece de ir ao banheiro. Ou fica segurando. Cuidado com isso, pode causar problemas sérios como prisão de ventre ou infecção urinária, e o desfralde pode ficar mais complicado;

criança usando o vaso sanitário

O desfralde noturno

  • Tire primeiro a fralda do dia; somente depois de totalmente controlado, comece a tirar a fralda da noite. Um bom indício é a fralda amanhecer sequinha;
  • Para tirar a fralda da noite, lembre-se de no início oferecer o último líquido para a criança 1 hora antes de dormir; leve ao banheiro antes de deitar; se for o caso, acorde de madrugada para levá-la, mesmo que esteja dormindo;
  • Eu também usava um plástico em tamanho maior para forrar a cama, por baixo do lençol. É fácil para limpar: apenas tirar o excesso, passar Veja e depois Álcool para evaporar. O protetor de colchão é mais um item para lavar, demora para secar e, mesmo que vc tenha mais de um, pode acontecer de a criança fazer xixi mais de uma vez na mesma noite;

bebê lendo livro sentado no vaso sanitário

As Dicas de Ouro

  • Uma vez iniciado o desfralde, RESISTA À TENTAÇÃO DE VOLTAR ATRÁS. Interromper toda hora faz com que a criança não aprenda e se sinta insegura;
  • Não compare. Um dos meus filhos levou 15 dias; o outro, apenas 3; e a outra… 3 meses.

Boa sorte!

=)

mãe vem me limpar

Esse “ritual” vai até os seis anos…Criação: Laerte

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Veja também:

A cidade dos cocôs

Do travesseiro ao copinho de boneca: breve história da menstruação

O que aprendi sobre… sono

O que aprendi sobre… gravidez

Conselhos que amei

Verdades

Sites visitados:

Nemo e a construção da paternidade

Utilização de Nemo no setting terapêutico

Violência na Turma da Mônica

Em defesa da Turma da Mônica

Princesas Disney

As princesas Disney e o feminismo

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Abaixo, estão versões diferentes de três produções infantis:

Marlin, Nemo, Dory no fundo do mar

Procurando Nemo – Disney Pixar

Órfão de mãe, portador de necessidades especiais, enfrenta o pai dominador. O enredo apresenta, sem cortes, cenas de canibalismo, sequestro de crianças, trabalho infantil, vício, mentira, violência e perseguição. Emocionante aventura de um pai em busca do filho, repleta de lindas lições, como a superação, a confiança, a amizade, o estabelecimento de metas e o autoconhecimento. Além disso, oferece novas perspectivas acerca da paternidade: os desafios, o conflito entre ser pai ou amigo do filho e o imprescindível amor paterno no desenvolvimento da criança.
Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali

Turma da Mônica – Mauricio de Sousa

Histórias de um grupo de crianças, em situações estereotipadas e sistemáticas de pancadaria, bullying, compulsão alimentar, inconsequência e falta de higiene. Uma produção que extrapola o mundo dos quadrinhos (atualmente um monopólio nacional, na falta de outras opções de gibis para crianças no Brasil) para compor uma poderosa indústria de bens de consumo. Histórias de uma turma de crianças que trazem lições como amizade, autoestima, criatividade, respeito à diversidade, em um ambiente bem brasileiro. Os quadrinhos mostram como pode ser divertido brincar na rua e a importância de se cuidar do meio ambiente. A personagem principal é do sexo feminino, que sabe se defender e exercer sua liderança sobre o grupo. Ela e as outras crianças foram inspiradas nas filhas e nos amigos de infância do autor, o que explica a sensação de identificação e a familiaridade por parte do leitor.
Aurora, Ariel, Branca de Neve, Jasmine, Cinderela e Bela

Princesas Disney

Universo sexista, em que as mulheres só têm valor se forem bonitas, e cuja realização pessoal só é possível no casamento. Para alcançar esse ideal, elas abandonam suas famílias e seus amigos, abrem mão de seus talentos e são capazes até mesmo de mudar o próprio corpo. Uma delas, na verdade, nem precisou estar acordada para conseguir a atenção do futuro marido. Adendo: Os homens também precisam ser lindos e ricos. Um convite ao sonho e à fantasia, com protagonismo feminino. No reino encantado dos contos de fadas, mulheres corajosas demonstram doçura, bondade, solidariedade e sacrifício pelo outro, e provam que a força poderosa do amor sempre vence o mal.

E aí? Qual é a versão “verdadeira”?

Nenhuma delas.

Porque nada é totalmente bom, nem totalmente mau. Nada tem apenas um lado.

Apegar-se a uma versão é fazer como os cegos que apalparam um elefante. Quem tocou na tromba, achou que era um bambu. Quem tocou no dorso, uma parede. O rabo virou uma corda; a pata, um pilar. Ora, um elefante não é uma soma de bambu, parede, corda ou pilar. É um todo, um conjunto maior que a soma dessas partes isoladas.

Os cegos apalpando o elefante

E quando o elefante nem existe? É uma ilusão, como essa gravura de cinco patas?

ilusão de ótica desenho de elefante

É o mesmo caso dessas produções infantis: não existem. São pura ficção, de entretenimento.

Nemo realmente é órfão, Marlin realmente é dominador. Há cenas de canibalismo (a barracuda que devora a mãe de Nemo), sequestro (o mergulhador que o leva para o aquário), exploração infantil (quando Gil o convence a travar o filtro). Mas também é uma história de superação e oferece uma rica gama de visões sobre o amor paterno.

Mônica realmente bate nos amigos, porque é vítima de bullying. Maurício de Sousa realmente tem muitos licenciamentos de produtos da Turma da Mônica, mas isso é reflexo do sucesso dos personagens. Magali é compulsiva, Cascão é avesso à higiene. Contudo, até esses estereótipos são úteis para ensinar. Existem vários exemplos de respeito às diferenças e exercício da cidadania. Fora que as histórias, tão brasileiras, são garantia de diversão.

Sobre as princesas Disney, elas são mais que o somatório das duas versões, a misógina e a cor de rosa.

A pergunta que surge é: por que essas e outras produções midiáticas fazem tanto sucesso entre as crianças, geração após geração? Muito, muito além de questões como consumismo e alienação, elas fazem sucesso porque contêm uma fortíssima carga simbólica. Porque trazem arquétipos e outros aspectos universais. Não necessariamente são exemplos a ser imitados.

Todos esses personagens e suas histórias estão abertos a infinitas interpretações. E continuarão a produzir sentidos no futuro.

Como diz Eni Orlandi, em Análise do Discurso, “sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo” (Discurso em Análise. Editora Pontes, 2012). Isso significa que, ao ter contato com determinado discurso, a pessoa que interpreta e a interpretação são indissociáveis. Além disso, autora afirma que “o sentido não se fecha, assim como o sujeito também é itinerante”. O mesmo discurso, portanto, é passível de inúmeras análises, até pelo mesmo sujeito.

E assim dão margem a muitas releituras:

princesas Disney vestidas como as vilãs

Como vilãs

Princesas Disney fazendo careta

Fazendo careta

Princesas Disney acima do peso

Inspiradas nos quadros de Fernando Botero

Ariel, Branca de Neve, Bela e Cinderela de óculos

Mulheres de óculos

Princesas Disney sem cabelo

Apoio na luta contra o câncer

Branca de Neve com bebês e marido descansando

Quem sabe o príncipe virou um sapo…

Quadrinho com princesas Disney falando dos maridos

Princesas na versão Desperate Housewives

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Princesa Merida com arco e flecha

Merida, uma princesa Disney que não se casa no final

O que fazer diante de Nemo, Mônica, princesas e todos os outros produtos infantis de entretenimento? São muitas as opções:

  1. Evitar que a criança tenha acesso a eles, para protegê-la;
  2. Esperar que a criança tenha maturidade antes de ter acesso a esses produtos;
  3. Deixar a criança escolher o que quer ver e confiar que ela saberá a diferença entre ficção e realidade;
  4. Mostrar os produtos à criança, até para que ela conheça o “lado sombrio da Força” e saiba se defender;
  5. Explicar à criança os prós e os contras;
  6. Deixar que a criança apresente sua própria interpretação sobre os produtos;
  7. Outras.

E aí? Qual é a opção correta?

Ora, essa também não é uma questão de certo ou errado. Cada família deve optar por aquilo que faz SENTIDO para ela, em razão de suas possibilidades e suas crenças. E nem sempre o que é verdade para uma, o é para outra.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 2: o que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: por que nos identificamos e espelhamos nelas?

O que aprendi sobre… gravidez

Mais especificamente sobre… os desconfortos da gravidez.

Uma coisa que chamou minha atenção quando eu estava esperando neném eram as fotos de anúncios e reportagens com grávidas. Todas serenas, em clima absolutamente zen.

Grávida fazendo yoga

grávida fazendo yoga

grávida fazendo yoga

grávida fazendo alongamento

Grávida fazendo yoga

grávida fazendo automassagem

Bom, também fiz caminhada, yoga e meditação, curti pra caramba a barriga, posso dizer que tive meus momentos zen. Mas também tive meus momentos toscos. Nesses últimos, além de não me enquadrar nas imagens da gravidez perfeita mostrada na mídia, nem sempre conseguia resposta para minhas dúvidas.

A pressão que a mulher enfrenta quando se torna mãe já começa na gravidez. Assim, é na gravidez que ela deve começar a se preparar para se proteger contra essa pressão. Conheça a regra número 1 do desencucamento: NINGUÉM é medida de ninguém. NINGUÉM pode tomar a experiência própria para julgar o outro. Cada um é um. Cada organismo é um. Cada mulher é diferente das outras. Até a mesma mulher: cada gravidez é um evento único e não pode ser comparado.

Você sabia, por exemplo, que toda a “aparelhagem” da gravidez é produzida pelo bebê? Que, após o espermatozoide se unir ao óvulo, o código genético do embrião (e não o da mãe!) cria a bolsa d’água, o cordão umbilical e até mesmo a placenta? E que isso acontece de forma independente? É por isso que cada gravidez é única.

Dito isso, vamos às dicas.

Enjoo

Olha, eu sofri, viu? Me lembro de, em pleno dia de Ano Novo, estar espetada no soro no hospital tomando anti-hemético na veia. E era um alívio momentâneo, porque não tinha remédio que resolvesse. Nem homeopatia. Nem Floral de Bach, do-in, nada fazia efeito.

Quando fui atrás das razões, ouvi de tudo:

– Deve ser um menino. Menino sempre causa mais enjoo na mãe. (No meu caso, que já tive menino e já tive menina, enjoei da mesma forma).

– O bebê deve ser cabeludo. (!!)

– Isso é psicológico.

– Isso é frescura.

– Isso é desculpa pra ficar “se encostando”, sem fazer nada.

– Gravidez não é doença.

– Mas você não está tomando remédio?

(Esta “pérola” eu li na internet): – No fundo, no fundo, você não queria esse bebê.

Até que meu obstetra e minha endocrinologista disseram (em linguagem pra leigo entender):

– Os hormônios da gravidez deixam os tecidos musculares flácidos, para inibir as contrações. Isso inclui os órgãos da digestão. O esôfago, por exemplo, fica “molinho”, e os ácidos do estômago podem retornar (refluxo).

– Há aumento na produção de saliva.

– A circulação sanguínea no corpo da mulher aumenta, e a pressão arterial pode cair – daí a sensação de cansaço e sonolência.

– Os dutos respiratórios podem ficar mais estreitos (isso explica também a alta incidência de congestão nasal, sinusite ou otite nas grávidas).

Quem diria: excesso de hormônios e sintomas desejáveis de uma gravidez saudável.

O cruel do enjoo é que você não tem vontade de fazer nada. A prostração é grande.

Houve uma vez, depois que tive as crianças, que nossa família inteira estava em um passeio de barco e todo mundo enjoou (menos eu, ora vejam só). Não resisti e comentei com cada um deles: “Tá vendo? Viu como você perde o gás? Agora imagina sentir isso todo dia, o dia todo, durante meses seguidos! Era o que eu sentia na gravidez.” Tome.

Se você está passando por isso, o jeito é conviver evitando piorar o negócio:

  1. Não fique de estômago vazio. Faça pequenas refeições, em intervalos menores. Tenha sempre uma coisa “sequinha”, como uma torrada ou uma bolachinha cream-cracker à mão. (Amei quando meu tio trouxe da Bahia um saco de beiju!)
  2. Não tome líquido durante as refeições. Intercale com elas.
  3. Experimente coisas ácidas, como suco de limão e maçã verde. E salgadas, como azeitona e pipoca.
  4. Na hora de escovar os dentes: respire fundo use o mínimo de creme dental possível.
  5. Evite doces e outras coisas de difícil digestão.

Anemia

  1. Nas refeições, não misture alimentos com ferro (carne, feijão, brócolis) e alimentos com cálcio (leite, queijo, iogurte), porque esses últimos atrapalham a absorção dos primeiros. Sugestão: muito cálcio no café-da-manhã, muito ferro no almoço e no jantar.
  2. Se houver necessidade de complemento, cuidado. Alguns compostos com ferro causam diarreia. Fiquei meses indo ao WC oito vezes ao dia, até exame de ameba eu fiz, e era o comprimido de ferro.

Dor nas costas

  1. Sempre que puder, deite e ponha os pés para cima (literalmente).
  2. Não fique muito tempo na mesma posição (nem de pé, nem sentada, nem deitada).
  3. Se seu médico concordar, experimente massagem e drenagem linfática.
  4. Para dormir, use uma almofadinha em forma de cunha: parece besteira, mas o efeito é fantástico, principalmente nos últimos meses.almofada para grávidas

Medo

– E se eu perder o bebê?

– Meu corpo voltará a ser como antes?

– Como será o parto? Vai doer?

– Será que meu bebê é normal?

– Será que vou dar conta?

Se você já se fez alguma dessas perguntas, saiba que isso é natural. Não se culpe. No que depende da gente, é mais simples. O problema está no que não depende (a maior parte dos medos).

O segredo é: permita-se sentir e observe. Mas em seguida libere os pensamentos e não se deixe envenenar ou dominar por eles, ok?

Proteja-se. Evite ler ou ver reportagens ou filmes violentos. Não permita que lhe contem histórias trágicas. Mantenha-se em uma vibração diferente.

Todos os desconfortos

Se, depois de esgumitar até as tripas no WC e sair com uma aparência meio verde, você ouvir:

– Oh, você deveria estar tão feliz! Tanta gente quer e não consegue engravidar!

Nessas horas, pense que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Sorria e faça como as Motherns: ative “um canal auditivo suplementar instantaneamente ligado a um canal auditivo de retorno – ou seja: deixe entrar por um ouvido e sair pelo outro.”

As mudanças orgânicas e as reações VARIAM DE MULHER PARA MULHER, por isso ninguém é parâmetro. Se alguém que você conhece está grávida e não sentiu nadica de nada, passou em brancas nuvens, zen como as fotos do ínicio do post, que bom para ela e ponto final.

Se você estiver grávida, pode ser que sinta algum desses desconfortos; pode ser que não, e assim espero. Mas, se você sentir, procure encontrar o SEU ponto de equilíbrio:

  1. Respeite-se. Se quiser ficar quietinha, fique. Se quiser espairecer, dê uma volta com seus amigos.
  2. Não fique se comparando.
  3. Compartilhe suas emoções. Pode ser com seu marido, um(a) amigo(a) de verdade, um terapeuta.
  4. Expresse sua criatividade. Desenhe, cante, dance.
  5. Curta muito a hora do banho. Deixe a água levar a tensão embora.
  6. Ouça música clássica ou de relaxamento, leia poesia, assista a filmes com mensagens alegres.
  7. Concentre-se na respiração. Imagine o seu coração como um ponto de luz. Imagine o coração do bebê como outro ponto de luz unindo-se ao seu e expandindo-se.
  8. Escreva. Pode ser num blog ou num diário secreto. Ou aproveite o espaço e deixe seu comentário.

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Para as gravidinhas

Você está esperando seu filho há muito mais que nove meses

Conselhos que amei

As coisas não acontecem como a gente quer

100º post, 1 ano de blog

Só entre se for convidado

(Na linha do post anterior…)

Li esta historinha na Revista do Correio, sobre as coisas engraçadas que as crianças falam. Mas ela encerra também uma realidade inevitável para as mães com filhos pequenos: bye bye, privacidade…

O garotinho irrompe no banheiro e surpreende a mãe trocando o absorvente.

– Mãe, o que você está fazendo?

Quase instintivamente, a mãe sai-se com esta:

– Mamãe está trocando a fraldinha dela. Vá brincar lá fora, que eu já vou.

Dias depois, o menino interrompe a mãe no vaso. De novo.

– Ué, mamãe, não vai colocar a fraldinha?

Como o ciclo já havia findado, ela responde:

– Hoje mamãe não precisa mais da fraldinha.

– Aê, mamãe! Parabéns, tá ficando grandona, né?

 

banheiro para família

Tudo em família. Só faltaram o gato, o cachorro e o papagaio...

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Do travesseiro ao copinho de boneca – uma breve história da menstruação

Se os homens amamentassem

Falando sobre sexualidade

Do travesseiro ao copinho de boneca: uma breve história da menstruação

Sites visitados:

Meluna

Blogueiras feministas – Tira-dúvidas sobre coletores

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Quando éramos pequenas, eu e minha prima pegávamos os modess das nossas mães para serem os travesseiros das bonecas.

“Modess” era como o absorvente era chamado, porque foi a primeira marca (do mesmo jeito que “Gilette” virou sinônimo de lâmina e “Chiclete”, de goma de mascar).

Na época, o absorvente não tinha abas, fitas adesivas, cobertura de microfunis nem floc-gel, controle de temperatura e odor, embalagens individualizadas. Era uma versão industrializada dos paninhos branquinhos que enchiam os varais de nossas avós uma vez por mês.

Tratava-se um treco de algodão de uns 2 centímetros de espessura, dentro de uma espécie de meia sem pé, de um tecido que lembrava TNT, bem comprido, que ficava sobrando por fora da calcinha para o “ajuste”. Tinha até um apetrecho feito uma cinta-liga para não sair do lugar.

absorvente feminino antigo

cinta para uso de absorvente

cinta para uso de absorvente

As propagandas antigas mostram sempre mulheres com “liberdade de movimentos” e roupas brancas… (eu disse “antigas”? Hoje não mudou muito, não…)

anúncio antigo de absorvente modess

anúncio antigo de absorvente modess

anúncio antigo de absorvente modess

Pois bem. Minha prima e eu não fazíamos ideia da função dos modess – apenas que eram uma “coisa de gente grande”. A gente se contentava com a resposta. E subtraía alguns da minha tia para fazer travesseiro de boneca.

Um belo dia, minha prima me pergunta:

– Você sabe o que é menarca?

– Não.

– Sai um sanguinho de você. É pra isso que serve o modess. Para não sujar a roupa.

– Ah, tá. (Estranho, mas tá.)

Outro belo dia, minha mãe me pergunta:

– Você sabe o que é menstruação?

– Sei. Sai um sanguinho da gente.

Ela me olhou com aquele ar de “Graças a Deus, não vou precisar explicar. E graças a Deus, ela está conformada.”

Em mais um belo dia, eu descubro que não é só um sanguinho que sai de você. É um SANGÃO, e TODO MÊS, por muito tempo, até chegar a menopausa! E que vem com cólica! Mas nada, nada, nada suplanta a TPM! E dessa ninguém me tirou da inocência. Dei por conta sozinha, quando comecei a perceber regularidade naquela vontade de embolachar meio mundo rsrsrs!

A gente estava brincando de pedir coisas a Deus: eu pediria a Deus isso, pediria a Deus aquilo. Aí alguém falou:

– Eu pediria para não menstruar mais.

Outra amiga disse:

– Eu pediria para a gente dividir – a mulher teria o filho, mas o homem é que menstruava. (bem, na verdade, menstruação e maternidade fazem parte do mesmíssimo mecanismo da natureza.)

Aí eu falei:

– Pois eu não sou tão radical. Pediria a Deus que só pegasse mais leve. Tudo bem menstruar. Tudo bem ser todo mês. Mas tinha que ser igual xixi: deu vontade, vai ao banheiro e faz. Só de não usar modess já seria grande adianto, não?

Pois Deus ouviu minhas preces. Inspirou mulheres a inventarem o coletor menstrual, um copinho de material estéril que recolhe o fluxo, e depois é só despejar no vaso. Uma coisa fantástica para quem conhece (ou quer conhecer) o próprio corpo. E a natureza agradece.

coletores menstruais

(Não dá mais pra ser travesseiro de boneca. Mas a criatividade infantil pode transformá-lo em copinho, funil, touca de boneca…)

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Veja também:

Falando sobre sexualidade

Mães de animações e seriados 4: Curiosidades imperdíveis

Sites visitados

http://www.anos80.com.br/desenhos/flintstones.html

http://natelinha.uol.com.br/noticias/2010/06/17/151402.php

http://www.tiosam.org/enciclopedia/index.asp?q=The_Incredibles

http://www.uarevaa.com/2010/12/nostalgia-animada.html

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Para dar conta da casa, Wilma Flintstone tem a ajuda de seus eletrodomésticos com animais. Confira alguns deles:

  • Máquina de lavar roupa: um pássaro que fica sapateando numa tina de pedra cheia de água e sabão.
  • Chuveiro e torneira: um mamute que fica do lado de fora da janela, espirrando água pela tromba.
  • Aspirador de pó: pequeno mamute sobre rodas, que aspira a poeira.
  • Vitrola: disco de pedra que gira sobre o casco de uma tartaruga. A agulha é o bico de um pássaro.
  • Triturador de alimentos: um porco (ou javali?) que fica instalado debaixo da pia.
  • Fogão: um quadrado de pedra, com bocal e tudo. Uma das partes é aberta, por onde um dragãozinho fica soltando fogo.
  • Ventilador: um pássaro que fica girando a cauda.

 

Após o nascimento de Pedrita, os Rubble ficam meio chateados de não poderem ter um filhinho só deles. E resolvem adotar Bam-Bam, um garoto com força sobre-humana que depois se tornaria namorado – e marido – de Pedrita. Agora, um parêntese: você já viu alguma outra série infantil, nos anos 60, tratar do tema da adoção de crianças?

(Fonte: site Anos 80)

Tem muito marmanjo encantado com os dotes físicos das mamães de seriados e animações. Duas delas já “posaram” para a Playboy:

 

Tem gente suspirando pela Mulher Elástica na web, como pode ser visto no trecho abaixo:

Helena possui quadris avantajados e usa roupa colante, o que eleva seu sex appeal. Ao mesmo tempo, Helena representa a companhia perfeita que todo homem gostaria de ter. Um usuário postou no fórum de discussão IMDB: ‘Acho que é por isso que tanta gente acha ela gostosa. Ela é esposa ideal. Inteligente, capaz, divertida, doce, gentil, forte, sexy…’ E flexível…”  (Fonte: site Tio Sam)

Já Dona Nenê, da Grande Família, fez um ensaio sensual vestida de oncinha:

“Indignada com uma reportagem que chama sua família de careta, ela resolve provar o contrário. O episódio foi ao ar no dia 1º de julho de 2010. A ideia surge quando um estúdio de fotografia abre perto de sua casa, e Nenê resolve investir pesado. Ela aparecerá toda vestida de onça e no começo ficará inibida em frente às câmeras, porém acaba se soltando logo depois.”  (Fonte: site Na Telinha)

Pois, com tudo isso, ainda tem quem ache que as personagens mães podem ser “mais” perfeitas do que já são. Olha essa campanha da Dove:

Quem diria, hein, Dove, com toda aquela conversa de “beleza real”… por que a insistência na ditadura do cabelo liso? Nisso O Boticário é menos hipócrita, quando assume ser uma empresa cuja razão de ser é vender cosméticos.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Mães de animações e seriados: Toda a série

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011

Falando de sexualidade

Site visitado:

Aprendiz de Mãe – As crianças e a transmissão da cultura

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Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Cresci com 4 irmãos. Acostumadíssimos a tomar banho juntos – uma farra! Meus pais nunca trancaram a porta do banheiro, então era supernatural vê-los sem roupa. Sempre com muito respeito, claro. A conversa sempre fluiu tranquila, muito livro pra ler. Mas, ao mesmo tempo, muita inocência. Lembro de um de nós, com um tom risonho, segredando para os outros: “papai e mamãe transaram cinco vezes kkkkkkkkk!”

A vergonhinha veio na adolescência, a timidez para comprar modess (modess!!! vixi, tô ficando velha rsrs), sutiã e afins. Mas tudo sempre com muita naturalidade e cumplicidade.

Não tinha como ser diferente aqui em casa. A meninada toma banho com a gente, sempre há abertura para tirar qualquer dúvida.

Quando minha filha nasceu, o mais velho ficou intrigado com uma anatomia tão “explícita” (diferente da minha rsrsrs):

– Mãe! Olha! Ela não tem pinto! E o bumbum vem até a frente!!!!

***

Essa história de bumbum ainda rendeu. Quando minha cunhada ficou grávida, meu filho perguntou:

– O médico vai cortar sua barriga pra tirar o neném?

– Vou torcer para que não, querido.

– Ué, mas aí ele vai sair como?

-(já ficando vermelha) Ora, do jeito natural.

– Como?

– Por baixo.

– Onde?

– Por baixo…

Ele parou, pensou e perguntou curioso e empolgadíssimo:

– Mas aí o seu bumbum vai ter que abrir muito!!!!

– (rindo muito) Pois é, vai ter que ser!

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

***

Mais tarde, ele viu uma propaganda da campanha de prevenção à Aids: Não deixe a Aids te pegar, use camisinha. Seguiu-se o diálogo:

– Mãe, o que é Aids?

– É uma doença. As pessoas ficam com problemas nas células de defesa e podem pegar outras doenças.

– Quando a gente usa a camisinha, não pega?

– Não pega.

– Só de usar uma camisa?

– Bom, na verdade, não é bem uma roupa.

– Não? É como, então?

– É uma coisa que o homem coloca no pinto.

– Por quê, a Aids pega pelo pinto???

Observe-se que, até então, ele tinha somente a noção de que papai põe uma sementinha na mamãe e estava satisfeito. Até já sabia que o bebê saía da barriga da mãe “por baixo”. Mas, agora, a explicação tinha que se enveredar por mais detalhes. Fiquei com vergonhinha, botei desculpa na presença da irmã menor no recinto e apelei para o maridão.

Achei supercomédia quando cheguei à noite e vi, sobre a mesa do escritório, o livro da Larousse sobre corpo humano, cheio de páginas marcadas. Ele não me deixou acompanhar a conversa: “Ah, não, você jogou a pepinosa na minha mão, agora somos só eu e ele.”

Fiquei pra morrer de curiosidade, mas respeitei. Ao final, meu marido contou:

– Fui respondendo à medida que ele perguntava, nem mais nem menos. Ele me olhou e falou: “Só isso? Intão tá.” E foi brincar.

Dirimidas as dúvidas, diferenciados “bumbum” do órgão sexual feminino e tudo mais, fiquei contente: o mecanismo está todo explicadinho e bem aceito; a inocência continua.

Dá, sim, para mostrar para nossos filhos como a sexualidade é natural – e linda.

Ilustração de Alice Charbin para Mini Larousse do Corpo Humano

Sugestões de livros:

Livro "Sexo não é bicho papão", de Marcos Ribeiro. Editora Zit.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Coleção Tris-Trás - Livro "De Onde Eu Venho?", de Sergi Càmara. Editora Escala

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Livro "Planeta Eu: Conversando sobre sexo", de Liliana e Michele Iacocca. Editora Ática

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

ESCRITORA CONVIDADA: Maria Amélia de Amaral e Elói*
Enquanto mãe de segunda viagem, agora já posso perguntar, zombeteira: “Espelho, espelho meu, existe alguma mãe mais perfeita do que eu?” E a resposta nua e crua nem me abate: “Decerto que sim, e muito mais que uma”. O amor crescente que sinto por minhas duas filhotas me convence de que o dia a dia em família não precisa ser perfeito para ser feliz.

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Sou Amélia e mãe que ama as duas crias de paixão, mas sinceramente:

senti muuita dor nos dois partos naturais;

odeio a queda de cabelo no pós-parto;

reclamo muito ao levantar de madrugada para amamentar;

sinto dor nas costas e pescoço por amamentar;

adoro ouvir o pediatra dizer que meu leite sustenta e engorda meu bebê;

sou superdesengonçada com bebês (todos choram quando eu os pego no colo, exceto as minhas filhas, graças a Deus);

acho dificílimo impor um ritmo de sono aos filhos;

adoro poder comer loucamente e não engordar enquanto estou amamentando;

prefiro trocar fralda de xixi a de cocô (ou melhor, prefiro mesmo as fraldas limpinhas);

tenho raiva da tal da cólica, que normalmente chega à tardinha, quando a mãe está cansada, a filha mais velha chegou da escola e a babá já foi embora;

morro de medo quando o bebê engasga;

adoro quando o bebê dorme;

não gosto de ouvir choro de bebê;

detesto lavar roupinha vomitada ou cagada;

não consigo, de pé, carregar o bebê no colo por muito tempo;

não sei equilibrar bebê e bolsa dentro de ônibus ou metrô (na verdade, não me equilibro bem nem sozinha);

acho complicado ajustar a cadeirinha do bebê ao cinto de segurança do carro;

tenho preguiça de fazer sopinha nova para o bebê todo santo dia;

odeio todas as vacinas e suas reações;

perco a paciência com birra de criança;

às vezes finjo que não vi minha filha desobedecendo, só para não ter de brigar;

muitas vezes já desejei que os dentes só nascessem quando as crianças completassem sete anos;

gostaria de ter corpo sarado logo após o parto e sem fazer nenhum esforço;

tenho preguiça de contar história e pôr as crianças para dormir toda noite;

gosto quando meu marido sai com as crianças para eu dormir;

quero ser elogiada não só como mãe, mas também como mulher;

não entendo por que, enquanto grávida, a mulher recebe tantos elogios pelo barrigão e, quando ganha bebê, todos acham um horror sua barriga flácida e murcha;

adoraria que a babá não tirasse folga nos sábados e domingos nem tivesse direito a férias.”

Maria Amélia, mãe da Luana Lis e da Mariana Flor

* Maria Amélia de Amaral e Elói venceu o 3º Concurso Literatura para Todos do Ministério da Educação, com o livro Poesia Torta, e o 5º Desafio de Escritores do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara, na categoria Crônica.

Veja também:

Só as mães são felizes
São só os meus?…
É só o meu, ou seu bebê também…

Mãe Perfeita no Top Five Mamães Blogueiras

Selo Primeiro Lugar no Top Five no Recanto das Mamães Blogueiras

Nossa, estou tão feliz e orgulhosa de ter um post em primeiro lugar no Top Five do Blog Recanto das Mães Blogueiras! Trata-se do post “Cadê o barrigão? Sumiu“, sobre a pressão que a gente sofre para estar em forma em tempo recorde depois que o bebê nasce. Valeu demais! Obrigada pelo carinho, Nádia!

Marusia

Cadê o barrigão? Sumiu

Matéria publicada na Revista Veja, no item Beleza

Emagrecer muito e depressa é o sonho das grávidas – mas não precisa exagerar

 Qual a mulher grávida que não sonha com o momento de voltar a vestir as roupas de “antes” e recuperar suas formas? É um anseio perfeitamente natural, contato que não se transforme em preocupação única e sem parâmetros. (…)

“Uma mulher gorda amamentando, há dez anos, era sinal de saúde. No período de seis semanas pós-parto, o chamado resguardo, não se exigia nada da mulher, nem beleza. Ela ficava lá, “chocando”, diz Wladimir Taborda, coordenador de ginecologia e obstetrícia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Hoje, é diferente. Seis horas depois do parto, as mulheres estão caminhando. No dia seguinte, começa o processo de embelezamento”, diz ele. Exemplos não lhes faltam – maus exemplos (…). Atrizes, cantoras e modelos, que já são esteticamente privilegiadas e ainda ganham para se manter bonitas e exibir excelente forma física, praticamente já saem da maternidade com o corpinho de antes.

Para a nova mãe, não é fácil seguir o exemplo, nem recomendado, em razão dos exageros a que muitas estrelas se submetem. “As celebridades chegam ao resultado que querem com a ajuda de uma equipe de especialistas, que vai de babás a personal trainers e nutricionistas. A maioria das mulheres não tem como bancar nem o tempo nem os profissionais que o esforço exige”, alerta o obstetra Yehudi Gordon, que cuidou das ex-modelos Jerry Hall, mãe de quatro filhos de Mick Jagger, e Elle MacPherson, que tem dois meninos.

(…) Há sessenta anos, elas engordavam sem nenhum controle, e se achava bonitinho. Hoje, quando vemos uma gestante gorda, a primeira coisa que pensamos é que ela não se cuidou”, diz o ginecologista Rubens Paulo Gonçalves, autor do livro Gravidez para grávidas. (…)

Legenda da foto de Kate Hudson:

Kate, ainda enorme 26 dias após o parto e três meses depois: adeus a 30 quilos com dieta e muita ginástica

 

Análise

A matéria traz um grande paradoxo: ainda que classifique como exagero o que as celebridades fazem para emagrecer depois do parto e queira enfatizar a saúde e não a forma física, traz citações de ginecologistas e uma série de expressões que desqualificam sobremaneira o corpo das mulheres grávidas e no pós-parto. Ao mesmo tempo, utiliza palavras bem mais elogiosas para quem se impõe a meta voltar à forma:

Grávidas, segundo a reportagem Metas, segundo a reportagem
Barrigão Embelezamento
Gorda Excelente forma física
Chocando Corpinho
Enorme Alta, magra e bela
Imensa Perfeitíssima forma
Engordavam sem nenhum controle e se achava bonitinho Esbelteza e glamour
Não se cuidou Esplendorosa
Barriguda Bela figura

 

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Cadê o barrigão? Marusia fala

O curioso é ver que os ginecologistas citados na matéria “Cadê o barrigão?” são todos homens. O que mais me chamou a atenção foi este:

“Uma mulher gorda amamentando, há dez anos, era sinal de saúde. No período de seis semanas pós-parto, o chamado resguardo, não se exigia nada [grifo meu] da mulher, nem beleza. Ela ficava lá, “chocando”, diz Wladimir Taborda, coordenador de ginecologia e obstetrícia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

 Como se cuidar de um recém-nascido fosse “nada”. O que a natureza levou 9 meses para fazer não se desfaz no dia seguinte. E impressionante como voltar à forma a qualquer custo está virando uma verdadeira obsessão para as celebridades e para as mortais.

 Respeite seu corpo, seu ritmo, sua saúde e seu bem-estar. Para quem disser o oposto, mande CATAR COQUINHO. (A propósito, água de coco é ótima no pós-parto…)

A aventura do primeiro bebê

Os trechos a seguir são de uma matéria foi publicada na Revista Claudia nº 5, ano 42, maio de 2003 – Ed. Abril:

 

O apartamento da produtora Priscila Borgonovi, 24 anos, e do ator Fabio Assunção, 31, (…) deixa bem claro quem reina no pedaço. No hall de entrada, continua estendida uma faixa com letras azuis: “Bem-vindo, João”, colocada pelos padrinhos do bebê, nascido em São Paulo, no dia 21 de janeiro.

 “No dia seguinte ao parto, acordei serena, me sentindo diferente e vendo tudo diferente. Desceu uma mãe em mim.”

 A verdade é que o recém-nascido contribui como poucos para a paz familiar: não tem cólicas, só chora quando está com fome, nunca engasgou ou pregou pequenos sustos na mamãe orgulhosa e dorme direto. “Dou a última mamada à meia-noite, daí ele só acorda às 6 da manhã. Mesmo dormindo menos do que gostaria, eu descanso legal”, revela Priscila. Ela tem consciência de ser privilegiada. “Ele é calmo, forte, nos deixa seguros. Nunca me fez passar uma noite em claro.”

 Grávida, levava a vida normalmente: fez hidroginástica até os sete meses e trabalhou até quase o bebê nascer. “Me sentia ótima, bonita, amada, com uma energia sensacional”. Assim, conseguiu vencer o medo do parto normal. (…)“Correu tudo bem, apesar das cinco horas de trabalho de parto e da indução, por causa do rompimento da bolsa. Na hora, fiz três esforços e o João nasceu, em quatro minutos.”.

 Fabio assistiu ao parto e também se emocionou profundamente. “Fiquei em transe, nem sabia onde eu estava. Como um evento tão normal pode ser tão extraordinário? Você tenta se enxergar no bebê e não se encontra… ele é outro, único. É lindo ver a mistura de nós mesmos com a pessoa que amamos.”

 Aos poucos, Priscila estabeleceu uma nova rotina. (…) “Mas devagar as coisas estão entrando nos eixos. A gente vai retomando o contato com o mundo, com a vida normal. (…) Também recupera a libido. É importante e gostoso você se sentir de novo bonita, mulher, lembrar de namorar o marido.” (…)

 Quando o bebê fez um mês, ela já havia perdido tudo o que engordou na gravidez e logo estava entrando nos jeans e calças justas. Com 1,75 metro, pesa agora 53 quilos. “Menos que antes”, orgulha-se.

 Fabio concorda que a vida do casal mudou bastante, mas não como o pessoal anunciava. “Todo mundo dizia; ‘Olha, cara, você vai ver só quando o bebê nascer… sua vida vai acabar’ etc etc. O João não nos cerceou de jeito nenhum, abriu uma nova vertente. (…)”.Paizão, o ator troca fraldas, dá banho, ajuda em tudo e adora curtir o filho.

 

Análise

Segundo o texto, podemos elaborar uma lista do que contribui para um início de maternidade feliz:

1. Mãe segura e serena;

2. Bebê que não chora, não tem cólica, mama bem e dorme a noite toda;

3. Gravidez tranquila, com a mãe trabalhando, fazendo ginástica e sentindo-se bonita e amada;

4. Parto normal e tranquilo;

5. Pai presente;

6. Vida voltando aos eixos;

7. Volta da libido;

8. Volta rápida à forma física.

Veja também: A aventura do primeiro bebê – Marusia fala

A aventura do primeiro bebê – Marusia fala

Meu primeiro filho nasceu no mesmo dia que o João: 21 de janeiro de 2003. Mas minha “aventura do primeiro bebê” foi totalmente diferente.
Quando fui inventar de preencher o “check-list” acima, já transcorridos quatro meses (a reportagem é de maio), fiquei pra morrer:
1. Mãe estressadinha e exausta;
2. Bebê que chora, mama de hora em hora e não dorme a noite toda;
3. Gravidez apreensiva, enjoo pra burro, mas ainda assim se sentindo bonita e amada;
4. Cesárea horrorosa e pós-parto mais horroroso ainda;
5. Pai presente.
6. Vida bem fora dos eixos;
7. Libido? Que libido?
8. Forma? Que forma?

Mas podia ser pior, né. Já pensou: “nenhuma das anteriores” …?
E esse negócio de horóscopo, então, também é bem maleável, porque como podem dois bebês do mesmíssimo dia serem tão diferentes? Bom, a matéria não dizia a hora do nascimento do João; às vezes é essa coisa de ascendente com Lua não sei onde…
Brincadeiras à parte, ainda bem que aos poucos fui percebendo que era maluquice total tentar ficar comparando e me enquadrar nesses padrões.
Padrões que comecei a reconhecer em outras matérias, em outras revistas… Daí surgiu a vontade de pesquisar sobre o assunto. E a necessidade de DESENCUCAR: Todas ao Manifesto do Desencucamento!!!

Marusia fala 2


Não tem nada a ver com maternidade, mas cá pra nós, uma das manchetes da capa é: “Elas não fazem chapinha e são felizes!”.
Como se felicidade e cabelo cacheado fossem uma combinação absolutamente inegociável.
(Meu Deus, como eu sobrevivi até hoje sem essa informação? Eu NÃO era feliz e não sabia!…)