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O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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Veja também:

As coisas não acontecem como a gente quer

Carta a meus filhos

A arte de criar vazios

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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Veja também:

Mãe envelope – 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

 

A dor do mundo

Quando eu estava grávida, minha mãe recomendava que me protegesse, evitando ter contato com filmes, notícias ou mesmo comentários tristes ou violentos. Para ela, a gravidez era um momento sagrado, em que eu era “coautora”, junto com o Universo, na concepção de um novo ser.

Segui as orientações e foi bom. Tanto que, depois, continuei evitando esse tipo de conteúdo – que chamo “histórias que perturbam a alma”, mesmo não estando grávida. Evitei por vários motivos, entre eles a sensação de que toda a realidade era daquele jeito, e que não havia mais remédio; e, ao mesmo tempo, algo entre ficar acostumado ou endurecido quanto à situação. Impotência e banalização.

Nem sempre consegui. A todo tempo, sempre havia alguém para me contar todos os descalabros de que a humanidade é capaz de realizar. Me parece que, ao lado da denúncia, existe mesmo uma curiosidade ou atração pelo que é mórbido. Somadas à alimentação de vingança. A mídia e o Facebook não cansam de repercutir os casos – até que esgotem o potencial de chamar a atenção e sejam substituídos, na tragédia nossa de cada dia.

Quando me tornei mãe, pude entender quando diziam: “nunca mais você vai assistir ao telejornal do mesmo jeito”. É verdade. Principalmente quando os horrores envolvem crianças. É automática a correlação que faço com meus filhos. Imagino suas carinhas, me coloco imediatamente no lugar daqueles pais e mães que choram. Chamam isso de “compaixão”. Sentir a dor do outro.

Aos poucos, fui percebendo que, mesmo evitando o envenenamento cotidiano, eu podia experimentar a dor do mundo em momentos improváveis, como durante uma meditação. Foi num desses momentos, de angústia profunda, que me veio a resposta: não há como ficar alheio ao sofrimento do mundo. Contudo, ao entrar em sintonia com essa frequência, não permaneça nela. É preciso sair para poder ajudar quem nela está.

Isso foi importante para encarar uma situação nova, em que o acesso a “histórias que perturbam a alma” deixou de ser opção para ser imperativo do trabalho. Há pouco mais de um mês, faço parte da equipe do Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Certo dia, vi a jovem estagiária pesquisando notícias hard. Ao sugerir que não se expusesse a tal envenenamento, ela respondeu: “Preciso endurecer o couro, sabe? Vou ser jornalista… Hoje, o Plenarinho visitou uma escola, e os professores pediram que fizéssemos um trabalho sobre abuso sexual de crianças. Tive que me conter para não chorar.”

Para fazer esse trabalho, também tive que mergulhar nos relatórios que sempre fiz questão de me abster de ler. Deputados e senadores, servidores das CPIs de exploração e abuso sexual, operadores do Disque 100, todos testemunham a necessidade de se reestruturar depois de conhecer os casos. Tive que ir ao sanitário para lavar o rosto e segurar o vômito. É muita atrocidade.

Meu ímpeto é fazer o que Barack Obama descreveu, quando (mais) um atirador matou crianças em uma escola: voltar para casa e abraçar meus filhos. Encontrar o tênue equilíbrio entre apavorá-los e conscientizá-los: “se alguém pedir que vocês não contem nada a ninguém, com certeza isso é uma coisa errada.”

Sobrevêm o avassalamento, a impotência e mesmo a indignação. Então, me lembro da intuição. Dessa vez, ela traz um adendo: talvez o trabalho de formiguinha do Plenarinho não dê conta desses casos. No entanto, se apenas uma criança tiver acesso às informações e consiga ter confiança para contar seu problema a alguém; se apenas uma criança crescer com a consciência de que não deve maltratar outras crianças, o trabalho de vocês já terá valido a pena.

Escrevo, por fim, outras coisas que têm me ajudado a “sair da frequência para poder ajudar a quem nela está”:

Lembro Norman Vincent Peale, que diz: o otimista não é quem desconsidera a dor do mundo, mas quem procura enxergar além dela, em busca de soluções.

Ao deparar com “histórias que perturbam a alma”, procuro ler “histórias que inspiram a alma”. Isso contribui para dissipar o sentimento de que “não tem mais remédio”. Tem muita gente boa fazendo o bem.

Desfrute:

http://asboasnovas.com/

http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/

http://cacadoresdebonsexemplos.com.br/blog/

http://www.boanoticia.org.br/

Penso nas pessoas que estão vivenciando o ápice do sofrimento. É possível mentalizar e enviar um facho de luz para a vítima? E para os familiares que choram a ausência de alguém?

E para quem praticou a violência? É possível?

“Mas ainda é tempo de plantar, fazer dentro de si a flor do bem crescer para lhe entregar quando Ele aqui chegar.”

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Veja também:

Plenarinho contra a exploração sexual

Abuso sexual: não caia nessa

No blog:

Onde está meu bebê?

Olho de boi, olho d’água

Barba Azul e a violência contra a mulher

 

 

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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Veja também:

Protesto Materno: eu quero mais

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

O aprendizado do amanhã

Sites Visitados:

Entrevista com José Pacheco – Revista Escola

Entrevista com José Pacheco – Revista Fórum

Projeto Âncora

Dez razões para achar que a escola parece uma prisão (em inglês – Top 10 reasons School is like prison)

Um sonho de educação

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Imagine uma escola sem classes, horários, provas. Um currículo que é decidido pelas crianças, em consenso, e inclui matérias como circo e meditação. Não há lista de chamada nem ponto, mas estudantes e professores não faltam. Tudo de graça. Agora imagine que esses estudantes provêm de lugares violentos, e já foram expulsos de diversas escolas. Pode parecer utopia. Até o dia em que você conhece a proposta da Escola da Ponte.

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir a uma palestra com o idealizador da Escola da Ponte, o Professor José Pacheco, de Portugal. Ele está no Brasil supervisionando a implantação de iniciativas similares, como a escola do Projeto Âncora, em São Paulo. Abaixo, estão as ideias que mais me chamaram a atenção:

Hospital não tem férias. Transporte público, jornal, supermercado não têm férias. Por que, então, a escola tem férias? Por acaso o conhecimento precisa de pausa? O que acontece é todo mundo sair ao mesmo tempo em julho, dezembro e janeiro, enfrentar engarrafamentos quilométricos e pagar mais caro na chamada “alta temporada”.

Atualmente, a letra D de Ideb não é Desenvolvimento. É Decoreba. A criança decora o conteúdo e depois da prova esquece tudo.

Uma boa maneira de avaliar se a escola tem noções básicas de cidadania é visitar os banheiros. Quem é consciente de seu papel na coletividade não precisa de cartazinho “por favor dê descarga”.

Palavras constroem a realidade. É de se admirar, por exemplo, termos como “grade” curricular, “carga” horária, “trabalho” escolar, “prova”, aluno “evadido”. É uma escola ou uma penitenciária?

Escola são pessoas. Pessoas são valores. Valores são projetos. Só não consegue quem não quer. O Projeto Âncora está aí para provar que não é só uma teoria de livro. E nem é coisa que só funciona na Europa.

E você? O que acha da proposta?

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Veja também:

O curso mais interessante do mundo

O que aprendi sobre… semana de prova

Quero ser criança quando eu crescer

Caminhos

Dai-me paciência!

De uns tempos pra cá, comecei e a ficar meio encucada com meu limiar de paciência. A criançada andava me tirando do sério, principalmente quando me obrigava a repetir a mesma coisa um milhão de vezes. Na primeira, eu até pedia bonitinho. Na segunda, o tom não era tão amistoso; na terceira, pronto, ficava braba. Uma amiga, rindo, disse que ela já tinha passado do tempo de esperar a terceira vez. Economizava as energias e já chegava berrando na primeira rs!

Um dia, eu estava numa loja de departamentos, e um livro saltou aos meus olhos como se a capa estivesse escrita em neon: “O poder da paciência”. Pensei: “Puxa, preciso realmente disso!” Pela módica quantia de R$ 9,90, em nenhum momento perdi de vista o possível caráter de auto-ajuda “Tabajara” da obra (“Seus problemas acabaram!”) Mas, pela mesma módica quantia de R$9,90, valeria a pena: no mínimo seria um apanhado dessas dicas que a gente sabe mas nunca é demais lembrar.

Livro O poder da paciência

Para minha surpresa, encontrei um livro de linguagem agradabilíssima, bem fundamentado, recheado de citações pertinentes e exemplos de situações reais, em capítulos enxutos e bem alinhavados. Não tem aquele papo de transmissão de sapiência. A própria autora se assume como uma “aprendiz”. O mais interessante, contudo, são as dicas práticas, simples como têm de ser e – imprescindível – que funcionam.

Abaixo, transcrevo alguns trechos só para abrir o apetite deste livro que merece estar na Biblioteca da Mãe Desencucada.

Sobre pontos de vista:

“Existe algo mais encantador do que as crianças? Elas dizem coisas tão afetuosas, cobrem você de beijos e abraços, querem tanto agradar. Observar suas descobertas e avanços é sempre um prazer.

“Existe algo tão exasperador quanto as crianças? Elas derramam suco de uva em seu tapete branco novinho em folha, fazem as mesmas perguntas repetidamente e transformam ações corriqueiras, como escovar os dentes, em incessantes lutas pelo poder. Estar perto delas pode ser um tormento.” (RYAN, M.J. “O poder da paciência”. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. p52)

Crianças são tudo isso ao mesmo tempo: adoráveis e punks. Como a vida. E muito do que essa relação pode revelar está em nosso modo de ver as coisas.

Sobre controle (esse capítulo é simplesmente sensacional):

“Tim Gallwey apresenta uma lista do que podemos ou não controlar em relação às outras pessoas. Você não pode controlar a atitude ou a receptividade da pessoa; o quanto ela ouve; suas motivações e prioridades; sua disponibilidade; o fato de ela gostar ou não de você; a capacidade de compreender o seu ponto de vista e aceitá-lo; a maneira como ela interpreta o que você diz.

“Você pode controlar as suas atitudes em relação a uma outra pessoa; sua própria atitude em relação ao aprendizado, sua maneira de ouvir; sua aceitação do ponto de vista de outra pessoa; seu respeito em relação ao tempo dela; sua expressão de entusiasmo pela ideia dela; a quantidade de tempo que você gasta ouvindo e falando; sua auto-imagem.” (vide acima, p96)

A autora também nos convida a descobrir o que nos tira a paciência. Descobri, por exemplo, que repetir a mesma coisa faz com que eu me sinta “invisível”, desimportante. Sob outro prisma, vale questionar a eficácia dessa insistência e ver se não é hora de mudar de estratégia…

Para coroar, um parágrafo que tem tudo a ver com o tema do blog (grifo meu):

“A impaciência é, na verdade, um sintoma de PERFECCIONISMO. Se esperarmos que nós e os outros sejamos perfeitos, que o metrô, os elevadores e os sistemas de mensagens eletrônicas sempre funcionem bem, perderemos a paciência todas as vezes que alguma imperfeição surgir: a bagagem extraviada, um esquema de horários arruinado, garçons mal-educados, familiares intrometidos, crianças malcriadas. Por outro lado, quanto mais admitirmos que a vida é desorganizada e imprevisível, e que as pessoas se viram da melhor maneira possível, mais paciência teremos em relação às circunstâncias e às pessoas que nos cercam.” (vide acima, pp-181-182).

Tão eu!

E você? Como está seu limiar de paciência?

Bebê rezando

E não é que agora até está dando sinal de vida?

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Veja também:

Biblioteca da Mãe Desencucada

Irritada?? EEEEEEU???!!!?

A linguagem secreta da birra: o que é preciso saber

Frases de Mãe

O Meio Termo de Ouro para pais e mães

Mãe Horta, Mãe Jardim

Observo em mim duas funções maternas: a Mãe Horta e a Mãe Jardim. Essas analogias vieram da seguinte história:

Uma menina fica órfã de pai e mãe e vai morar com o primo em uma mansão. Ele é doente e também não tem mãe. As duas crianças iniciam uma amizade. Um dia, descobrem um jardim secreto (e abandonado) na mansão. Com a ajuda de uma aia, os primos voltam a cultivá-lo e desabrocham como as flores, em plena saúde e alegria de viver.

Esse é o enredo de “O Jardim Secreto”, sucesso de literatura escrito em 1911 por Frances Burnett. Diana e Mario Corso fazem uma linda análise deste livro. Na falta da presença materna física, os autores localizam duas pessoas que fazem as vezes de mãe na história: a rígida governanta, que cuidava do bem-estar básico; e a aia, que supria de fantasia os dias do menino doente e da prima.

Os Corsos ainda fornecem a metáfora-chave para a compreensão do clássico: o jardim evoca o símbolo materno, cuja função não pertence à ordem das necessidades básicas, mas à da beleza. Flores são cultivadas não como alimento, mas pelo deleite (“A Psicanálise na Terra do Nunca”, p 219). Aí reside o desabrochar da vida.

Eu sou Mãe Horta quando me preocupo com as necessidades básicas, com cada detalhe. Unha cortada, dente escovado, dever de casa feito. A Mãe Horta é racional. É o meu lado que pede para levar o casaco. Que programa cada segundo da viagem de férias, faz as malas. E também matricula na natação, leva ao médico e ao posto de vacinação. Participa das reuniões na escola. Elabora o cardápio diário. Impõe limites. Devora milhões de livros e lê os sites sobre maternidade.

Sou Mãe Jardim quando brinco, dou risada, fico espontânea. Conto história, canto, danço. Quando deixo a lógica de lado e abraço, mesmo quando meus filhos mereciam uma bronca.

O problema é que a Mãe Horta não deixa muito espaço para a Mãe Jardim. São tantas tarefas, num cotidiano cronometrado, mediante tanta pressão, que quando tudo é cumprido muitas vezes só resta o cansaço. Sobram ali as florezinhas murchas e mixurucas.

É como se meu lado Mãe Jardim, o arquétipo materno em sua essência e totalidade, estivesse sufocado. Sendo ele o componente fundamental para a constituição de uma criança, como afirmam os Corsos, essa constatação me fez parar diversos momentos para refletir.

A dificuldade existe porque a Mãe Horta também é fundamental. Tudo bem que essa função pode ser dividida com outras pessoas, mas nem sempre. Além disso, há um perigo: a Mãe Horta exagerada se enrijece, é repressora e tende a projetar nas outras mães tudo o que ela não concorda.

Então estou em busca de um outro símbolo: quero ser Mãe Pomar. No pomar, às flores sucede o alimento. Ser Mãe Pomar é tentar colocar afeto e criatividade nas tarefas, mesmo as mais comezinhas, fazendo com que elas percam o caráter de obrigação. Uma conversa legal durante o almoço, uma brincadeira na hora do banho, uma piada para cortar a unha. O simples ato de estar junto é uma oportunidade de conhecer melhor as crianças.

Confesso que estou mais para uma plantação de morango. Nutritiva, mas azedinha… 😉

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Veja também:

O Meio Termo de Ouro para pais e mães

Caminhos

Feche a boca e abra os braços

A sabedoria que só se conquista aos dois anos

Felicidade real

Hoje estou no Blog Mãe Bacana, em postagem especial para o Mês das Mães:

Felicidade real

De todas as definições para “filhos”, esta é a que adoro:
“Crianças: adoráveis seres com objetivo de nos fazer sempre revisitar nossas certezas.” (Nanci)
Trata-se de uma permanente reconfiguração do que parecia estabelecido para sempre, acompanhada da inevitável comparação entre “antes” e “agora”.

[continue lendo]

Blog Mãe Bacana de Gisa Hangai

Verdades

Sites visitados:

Nemo e a construção da paternidade

Utilização de Nemo no setting terapêutico

Violência na Turma da Mônica

Em defesa da Turma da Mônica

Princesas Disney

As princesas Disney e o feminismo

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Abaixo, estão versões diferentes de três produções infantis:

Marlin, Nemo, Dory no fundo do mar

Procurando Nemo – Disney Pixar

Órfão de mãe, portador de necessidades especiais, enfrenta o pai dominador. O enredo apresenta, sem cortes, cenas de canibalismo, sequestro de crianças, trabalho infantil, vício, mentira, violência e perseguição. Emocionante aventura de um pai em busca do filho, repleta de lindas lições, como a superação, a confiança, a amizade, o estabelecimento de metas e o autoconhecimento. Além disso, oferece novas perspectivas acerca da paternidade: os desafios, o conflito entre ser pai ou amigo do filho e o imprescindível amor paterno no desenvolvimento da criança.
Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali

Turma da Mônica – Mauricio de Sousa

Histórias de um grupo de crianças, em situações estereotipadas e sistemáticas de pancadaria, bullying, compulsão alimentar, inconsequência e falta de higiene. Uma produção que extrapola o mundo dos quadrinhos (atualmente um monopólio nacional, na falta de outras opções de gibis para crianças no Brasil) para compor uma poderosa indústria de bens de consumo. Histórias de uma turma de crianças que trazem lições como amizade, autoestima, criatividade, respeito à diversidade, em um ambiente bem brasileiro. Os quadrinhos mostram como pode ser divertido brincar na rua e a importância de se cuidar do meio ambiente. A personagem principal é do sexo feminino, que sabe se defender e exercer sua liderança sobre o grupo. Ela e as outras crianças foram inspiradas nas filhas e nos amigos de infância do autor, o que explica a sensação de identificação e a familiaridade por parte do leitor.
Aurora, Ariel, Branca de Neve, Jasmine, Cinderela e Bela

Princesas Disney

Universo sexista, em que as mulheres só têm valor se forem bonitas, e cuja realização pessoal só é possível no casamento. Para alcançar esse ideal, elas abandonam suas famílias e seus amigos, abrem mão de seus talentos e são capazes até mesmo de mudar o próprio corpo. Uma delas, na verdade, nem precisou estar acordada para conseguir a atenção do futuro marido. Adendo: Os homens também precisam ser lindos e ricos. Um convite ao sonho e à fantasia, com protagonismo feminino. No reino encantado dos contos de fadas, mulheres corajosas demonstram doçura, bondade, solidariedade e sacrifício pelo outro, e provam que a força poderosa do amor sempre vence o mal.

E aí? Qual é a versão “verdadeira”?

Nenhuma delas.

Porque nada é totalmente bom, nem totalmente mau. Nada tem apenas um lado.

Apegar-se a uma versão é fazer como os cegos que apalparam um elefante. Quem tocou na tromba, achou que era um bambu. Quem tocou no dorso, uma parede. O rabo virou uma corda; a pata, um pilar. Ora, um elefante não é uma soma de bambu, parede, corda ou pilar. É um todo, um conjunto maior que a soma dessas partes isoladas.

Os cegos apalpando o elefante

E quando o elefante nem existe? É uma ilusão, como essa gravura de cinco patas?

ilusão de ótica desenho de elefante

É o mesmo caso dessas produções infantis: não existem. São pura ficção, de entretenimento.

Nemo realmente é órfão, Marlin realmente é dominador. Há cenas de canibalismo (a barracuda que devora a mãe de Nemo), sequestro (o mergulhador que o leva para o aquário), exploração infantil (quando Gil o convence a travar o filtro). Mas também é uma história de superação e oferece uma rica gama de visões sobre o amor paterno.

Mônica realmente bate nos amigos, porque é vítima de bullying. Maurício de Sousa realmente tem muitos licenciamentos de produtos da Turma da Mônica, mas isso é reflexo do sucesso dos personagens. Magali é compulsiva, Cascão é avesso à higiene. Contudo, até esses estereótipos são úteis para ensinar. Existem vários exemplos de respeito às diferenças e exercício da cidadania. Fora que as histórias, tão brasileiras, são garantia de diversão.

Sobre as princesas Disney, elas são mais que o somatório das duas versões, a misógina e a cor de rosa.

A pergunta que surge é: por que essas e outras produções midiáticas fazem tanto sucesso entre as crianças, geração após geração? Muito, muito além de questões como consumismo e alienação, elas fazem sucesso porque contêm uma fortíssima carga simbólica. Porque trazem arquétipos e outros aspectos universais. Não necessariamente são exemplos a ser imitados.

Todos esses personagens e suas histórias estão abertos a infinitas interpretações. E continuarão a produzir sentidos no futuro.

Como diz Eni Orlandi, em Análise do Discurso, “sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo” (Discurso em Análise. Editora Pontes, 2012). Isso significa que, ao ter contato com determinado discurso, a pessoa que interpreta e a interpretação são indissociáveis. Além disso, autora afirma que “o sentido não se fecha, assim como o sujeito também é itinerante”. O mesmo discurso, portanto, é passível de inúmeras análises, até pelo mesmo sujeito.

E assim dão margem a muitas releituras:

princesas Disney vestidas como as vilãs

Como vilãs

Princesas Disney fazendo careta

Fazendo careta

Princesas Disney acima do peso

Inspiradas nos quadros de Fernando Botero

Ariel, Branca de Neve, Bela e Cinderela de óculos

Mulheres de óculos

Princesas Disney sem cabelo

Apoio na luta contra o câncer

Branca de Neve com bebês e marido descansando

Quem sabe o príncipe virou um sapo…

Quadrinho com princesas Disney falando dos maridos

Princesas na versão Desperate Housewives

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Princesa Merida com arco e flecha

Merida, uma princesa Disney que não se casa no final

O que fazer diante de Nemo, Mônica, princesas e todos os outros produtos infantis de entretenimento? São muitas as opções:

  1. Evitar que a criança tenha acesso a eles, para protegê-la;
  2. Esperar que a criança tenha maturidade antes de ter acesso a esses produtos;
  3. Deixar a criança escolher o que quer ver e confiar que ela saberá a diferença entre ficção e realidade;
  4. Mostrar os produtos à criança, até para que ela conheça o “lado sombrio da Força” e saiba se defender;
  5. Explicar à criança os prós e os contras;
  6. Deixar que a criança apresente sua própria interpretação sobre os produtos;
  7. Outras.

E aí? Qual é a opção correta?

Ora, essa também não é uma questão de certo ou errado. Cada família deve optar por aquilo que faz SENTIDO para ela, em razão de suas possibilidades e suas crenças. E nem sempre o que é verdade para uma, o é para outra.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 2: o que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: por que nos identificamos e espelhamos nelas?

Quem vai ficar com as crianças? Análise

Li um texto de Rosely Sayão sobre o que fazer quando as crianças entram em férias escolares, ampliando o escopo para o que significa ter filhos. O artigo por si só já chama a atenção, mas os comentários dão novas matizes à discussão. Assim, optei por desdobrar a análise do texto em dois estágios:

  1. Análise do artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?” e os comentários feitos pela internet – neste post;
  2. Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos.

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  1. O artigo de Rosely – “Quem vai ficar com as crianças?”

Leia o artigo e os comentários:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/1195154-quem-vai-ficar-com-as-criancas.shtml

Análise

Em Análise do Discurso, não se busca o que está “por trás” do texto. A mensagem fala por si só. Assim, a segunda coluna evidencia, em outras palavras, o que já está presente no artigo, sem fazer juízo de valor.

Pontos principais do texto Análise
Uma mãe se magoou porque teve que ficar com o filho e não pôde ir a um cruzeiro sozinha. A mãe efetivamente ficou com o filho e não viajou, cumprindo com “suas obrigações”. Ela se magoou, mas não deveria se sentir assim. Afinal, “Reclamar não é produtivo, já que o desejo de ter filhos foi dos próprios pais.” Deste trecho, depreende-se: filhos são sempre fruto de desejo.
Ir para a escola quando a maioria dos colegas não está não deve ser agradável. As crianças sabem o significado de férias. Ninguém gostaria de passar férias em seu local de trabalho. Crianças também precisam de férias.
Ter filhos significa ter de renunciar, mesmo que temporariamente, a diversas coisas. Ter filhos implica sacrifícios, ainda que por um tempo.
É recente essa ânsia dos adultos de criar programação para os filhos. Eles mesmos podem fazer isso, mas só se tiverem tempo para o ócio. Crianças são superestimuladas no decorrer de todo o ano, e os pais devem garantir seu descanso.
Por que muitos pais tratam as férias dos filhos como um problema? Talvez seja difícil conviver com eles por períodos maiores do que os pais estão acostumados. O convívio com os filhos é algo difícil. Se fosse natural e bom, os pais não precisariam se habituar para darem conta.
É um problema quando queremos viver com filhos do mesmo modo que vivíamos antes de tê-los, e quando nossa vida desobrigada deles parece ser muito mais sedutora. Ter filhos muda a vida dos pais para uma vida “obrigada” e pior em comparação com a vida de antes.
Por que temos filhos? A resposta já foi dada no texto: “Ter filhos significa acompanhar a vida de uma criança, cuidar dela, dedicar-se a ela, ficar disponível para o que possa acontecer.” Denota um movimento sempre na direção dos pais para filhos, sem abordar nenhum tipo de contrapartida.

Os comentários ao texto de Rosely

Até o dia 8/1/2013, foram feitos 27 comentários pela web. Participaram 11 homens e 9 mulheres (em certos casos, houve mais de um comentário por pessoa – todos de homens). A maioria (13) concordou com o texto.

Argumentos de quem concordou Análise dos comentários
Ter filhos não é para qualquer um. Ter filhos é uma empreitada complexa, que requer preparação.
As pessoas querem ter filhos e continuar com a vida de solteiro. Isso reflete a imaturidade, o egoísmo e a infantilidade desses pais. A vida de solteiro é imatura, egoísta e infantil, o oposto da vida que devem ter os pais.
Hoje todo mundo quer apenas olhar para os direitos, se esquecendo dos deveres. “Filhos” estão no rol de “deveres”.
Ninguém deve pôr filhos no mundo pra dar trabalho pros outros. Filhos dão trabalho. E quem deve assumir esse trabalho são os pais.
Filhos são pessoas, não bonecos. Filhos nem sempre correspondem às expectativas dos pais.
Os pais abdicam por um período de algumas coisas, como seus próprios pais também fizeram. Dar continuidade ao processo de criar filhos equivale a oferecer um tributo à atitude dos próprios pais. E se os próprios pais foram irresponsáveis? Além disso, se for uma questão de retribuição, não é mais lógico fazê-la com os próprios pais em vez dos filhos?
Em vez de reclamar, eles deveriam aproveitar melhor o tempo, pois em breve as crianças serão adultas. Este é um paradoxo. Se o convívio é bom e deve ser aproveitado enquanto os filhos são crianças, não haveria motivo para reclamar.
A criança não pediu para nascer. Se foi um “um acidente”, é necessário “pagar” o preço pelo “acidente”. Ao contrário do texto, aponta-se a possibilidade de um filho não planejado. Mesmo esse “acidente” deve ser assumido.
A criança enxerga a escola como um depósito. Crianças também precisam de férias.
Por causa da falta do convívio familiar, a criança não vai respeitar os pais, pois são estranhos. Os pais perdem o controle, e os professores também. As consequências de não cumprir a obrigação de pais são funestas e vão além do ambiente familiar.
Filho em casa deve ser uma alegria e não um estorvo. Pela primeira vez, alguém não classifica o convívio com os filhos como algo penoso, dando uma pista de que as férias com eles podem, sim, ser prazerosas.
Caso os pais tratem seus filhos como estorvo, logo aparecerá alguém oferecendo alternativas sedutoras que supostamente preenchem esse vazio, como as drogas. O convívio com os filhos é um sacrifício, mas evita sacrifícios ainda maiores depois que eles crescem.

Houve quem concordasse com Rosely e criticasse quem foi contra:

“A verdade incomoda aqueles que já se sentem culpados, mas tentam esconder até de si mesmos e adoram rebater com jargões do tipo ‘não sou menos mãe porque quero ir pro cruzeiro sozinha’ “.

As justificativas de quem não concordou foram:

Argumentos de quem discordou Análise dos comentários
As mulheres trabalham e têm somente 30 dias de férias por ano, enquanto as crianças têm no mínimo 60 dias. Em pelo menos metade das férias as crianças não poderão ficar com os pais que trabalham. A insistência nisso força o conceito de incompatibilidade entre trabalhar fora e cuidar dos filhos.
As famílias que não herdaram fortunas precisam trabalhar para criar os filhos e fazer deles pessoas felizes. Filhos demandam investimentos financeiros.
As mães não devem ser julgadas. Elas trabalham por necessidade, e não por hobby. É muito fácil falar quando se pode optar simplesmente por “não trabalhar” para cuidar dos filhos. Nem sempre a mãe pode optar entre trabalhar fora e ficar em casa, principalmente na ausência do pai.
“Não deixaria de trabalhar por causa dos meus filhos, e não deixaria de ter filhos por causa do trabalho.” As mães querem conciliar maternidade e carreira.
A inexistência de estruturas adequadas para as crianças nos 60 ou mais dias de férias é um problema real e não deveria ser apresentada nunca como “pais irresponsáveis que não ligam para os filhos”. A criação dos filhos também é um dever do Estado.
Seria um retrocesso obrigar as mulheres a ficar em casa e serem donas de casa. O texto cita o exemplo de uma mãe, mas não distingue o trabalho dos pais entre os sexos. Entretanto, para maioria dos leitores, é uma obrigação típica das mulheres.
Todos tivemos na criação a presença marcante e fundamental de uma das avós ou tias ou afins. Isso também é terceirizar? Antigamente, havia uma rede de apoio familiar e comunitária, que assumia a criação das crianças como um compromisso coletivo – e não uma obrigação exclusiva dos pais. Tal rede já não se vê na atual classe média.

Houve quem perguntasse à autora: “E você trabalhava ou era professora?” Respostas de internautas nos comentários salientam que os professores têm férias de 60 dias, como as crianças, e que assim poderiam acompanhar seus filhos por conta disso.

Marusia fala

O único lado não ouvido nessa discussão inteira foi justamente o mais interessado: as crianças. O que ELAS preferem fazer nas férias?

Sobre o texto de Rosely, se a motivação foi conscientizar os pais a manterem o convívio com as crianças, digo que não aposto nesse tipo de abordagem. Primeiro, porque os pais que realmente não têm responsabilidade, e não se sensibilizam com seus próprios filhos, não vão se sensibilizar com um texto de internet. Aliás, eles nem sequer leem esse tipo de coisa. E quem é que lê? Os pais (principalmente as mães) que querem melhorar. E o que eles vão conseguir? Apenas a sensação de que nunca vão dar conta.

Segundo, porque critica determinados comportamentos sem oferecer nenhuma sugestão. Além disso, apresenta a convivência com as crianças como algo penoso, como um fluxo infindável de obrigações que deve partir dos pais em direção aos filhos, sem que se obtenha contrapartida de satisfação.

Terceiro, porque esses artigos contribuem para polarizar ainda mais uma discussão absolutamente infrutífera sobre as decisões de ter ou não filhos. Uma decisão que é pessoal, intransferível.

Faço questão de acompanhar meus filhos sempre, mas também me dou o direito de descansar – e de reclamar, principalmente quando eles não cooperam. Não existe coisa mais opressora para uma criança do que ter uma mãe perfeita, nas férias ou não…

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Veja também:

Um ensaio sobre a pergunta que fecha o texto: “Por que temos filhos?”, com os argumentos a favor e contra ter filhos

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Por que temos filhos?

Elisabeth Badinter, no livro “O conflito – A mulher e a mãe” (Editora Record, 2011), cita uma pesquisa realizada em 2009 pela revista Philosophie Magazine, com as justificativas de homens e mulheres para terem filhos:

  • Um filho torna a vida mais bonita e alegre;
  • Permite à família perdurar, transmitir seus valores, sua história;
  • Um filho dá amor e faz com que sejamos menos sós na velhice;
  • Damos a vida de presente a alguém;
  • Torna mais intensa e sólida a relação do casal;
  • Ajuda a tornar adulto, a assumir responsabilidades;
  • Permite deixar parte de si na Terra depois da morte;
  • O filho pode fazer o que não pudemos fazer;
  • É uma nova experiência;
  • Para satisfazer o parceiro;
  • Uma escolha religiosa ou ética;
  • Não houve motivo, foi um acidente.

Filhos: ter ou não ter?

O blog de Ruth Aquino (Mulher 7 por 7) trouxe o depoimento de Mateus Carrilho de Almeida: “Não queremos ter filhos. Por que não nos respeitam?”

http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2012/03/26/nao-queremos-ter-filhos-por-que-nao-nos-respeitam/

Abaixo, estão trechos do texto:

Filho não fará falta na minha vida. Não farei algo só porque os outros fazem.

Adotar cumpre a mesma função, acrescido de uma responsabilidade social.

Não tenho o mínimo interesse em abrir mão da minha vida. Eu quero viajar com minha esposa, curtir  ir a show de rock, balé, teatro, ver filme adulto, namorar. Somos colorados, vamos nos jogos. Juntinhos. Poderíamos com bebês? E pior, imagina se eu tenho um filho gremista (rsrsrs)?

Dizem que não teremos quem cuide de nós na velhice. Essas mesmas pessoas não cuidam dos seus pais na velhice. O que lhes garante que seus filhos não farão o mesmo?

E na adolescência, quando te dizem a célebre frase “não pedi pra nascer”? Eu não quero me arrebentar pra dar educação, ensino, abrir mão de um monte de coisa pra ter que ouvir isso depois quando eu não deixar um filho fazer um troço que só irá lhe prejudicar.

Vejo os problemas que conhecidos meus têm com seus filhos. Meninas têm dado mais problemas que os meninos.

Pegamos há pouco um filhote de guaipeca, vira-lata. Agora eu tenho certeza que filho é mesmo para os outros.

Já existem 7 bilhões de pessoas no mundo.

Estou já cheio das cobranças, como se só existisse uma maneira de ser feliz e comprometido nessa vida.

Análise

Até o dia 8/1/2013, este texto recebeu 180 comentários, de 149 pessoas (houve quem comentasse mais de uma vez). Dos que se identificaram, foram 31 homens (28%) e 111 mulheres (78%). Ressalte-se que a coluna Mulher 7 por 7 é voltada ao público feminino.

A opinião dos homens ficou equilibrada: 41% discordaram do texto, enquanto 58% demonstraram concordância.

Entre as mulheres, a diferença foi bem maior. Apenas 27% foram contra, e 60% a favor do texto de Mateus. O restante ficou neutro ou respeitou, apesar de pensar diferente.

No cômputo geral, 33% foram contra, e 57% manifestaram apoio à decisão de não ter filhos.

O mais interessante é observar a reação das pessoas que comentaram. Alguns foram tão radicalmente contra, com comentários por vezes ácidos, que ensejaram a resposta da colunista, Ruth Aquino, do Mateus, da esposa dele, Denise, e até da própria mãe do Mateus, Lucy.

Os que concordam com Mateus

Para o grupo que concorda com o texto, os casais que optam por não ter filhos são criticados e pressionados por pessoas com as seguintes características (expressões retiradas dos comentários): hipócritas, egoístas, irresponsáveis, fundamentalistas, intrometidos e imbecis de uma sociedade julgadora, cujo patrulhamento conservador quer a estandartização dos comportamentos humanos.

Segundo os que concordam com Mateus, filho não é a melhor coisa do mundo. Não tê-los é melhor que terceirizar para babás e creches tomarem conta, melhor que abandonar nas lixeiras, espancar. E a mesma sociedade que cobra filhos é responsável por crianças mimadas, adolescentes rebeldes, pais manipuláveis pelos filhos.

Outros argumentos:

  • “É por pensar demais se meu filho será feliz que não o tenho”.
  • Melhor que ser maria-vai-com-as-outras, ter filho só por causa da cobrança da sociedade. “Quem tem filho e vive dizendo que é uma maravilha é como aquela pessoa que pulou numa piscina fria num dia de inverno e fica te chamando, dizendo que tá gostoso”. Ter filhos é uma coisa muito séria, tem que parar para pensar, o que muita gente não faz.
  • Narcisista é quem precisa de um “mini mim” pra “ser feliz”. Se a felicidade não está em nós, não é em esposas, maridos e em filhos que vamos achá-la.
  • Muitos usam os filhos como desculpas pra não fazer nada. “Não posso, não dá, meu filho e coisa e tal”.
  • Nem todos os filhos são umas gracinhas, vide o caso Ricthofen e tantos outros que matam para ficar com herança, abandonando em em asilos, na rua… se a mãe de Suzane Von Richtofen tivesse pensado como o Mateus, pelo menos ainda “estaria entre nós”.
  • Filho JAMAIS será garantia de apoio e amor incondicional na velhice.
  • Casamento não é contrato de procriação!
  • A decisão afeta EXCLUSIVAMENTE a quem não quer ter filhos!
  • A humanidade não vai acabar por causa disso. Viva o controle de natalidade. “A superpopulação é um dos reais fatores que podem levar à extinção da humanidade. Mesmo quem deseje filho, deve limitá-los. Todas as demais campanhas como economizar água, racionar isso, racionar aquilo, somente são paliativos a curto prazo. Maternidade responsável, onde se inclui a ausência de maternidade, é a única salvação!!!”
  • Melhor coisa do mundo é ser tia.
  • Mulher grávida é horrorosa.
  • É melhor adotar as crianças que ninguém deseja, como crianças maiores e até mesmo adolescentes que estão precisando de uma família.
  • Quem abriu mão de sua liberdade para procriar sabe que não pode recuar e fica uma pessoa amarga.

 

Por fim, um contundente depoimento de uma filha indesejada:

Ana28/03/2012 | 3:44

Bom…parece que estão todos a discutir motivos de ter X motivos de não ter. Sabem de uma coisa? Esses motivos não importam. Vou dar meu depoimento de filha que nasceu indesejada. E pessoas como eu existem aos montes, mas grande parte das pessoas (principalmente do time pater-/maternidade-a-qualquer-custo) acham que ignorando o problema e contando sobre o mito do amor materno o problema desaparece. Minha mãe nunca me deixou faltar nada, materialmente falando. Sempre tive roupa, comida, estudo e médico. Mas eu carrego até hoje as frustracões dela, ela me culpa e me cobra a vida que ela não teve pra me criar. Me culpa e me cobra cada centavo que gastou comigo. Sempre desmerece o que eu faço, me humilha sempre que tem oportunidade, nunca festejou uma vitória minha, mas sempre engrandeceu minhas derrotas. Sempre disse que o maior erro da vida dela foi ter filhos e se pudesse voltar atrás jamais nos teria. Tive uma colega na faculdade que passava por algo ainda pior – a mãe dela tentou abortá-la e não conseguiu – passou a vida inteira falando pra filha o quanto se ressente de não ter conseguido abortá-la!!! Alguém aqui tem noção do que é ser rejeitado pela própria mãe? Aqui alguém tem noção das marcas que eu carrego e tantos outros carregam por isso? Hoje estou numa luta para fazer meu plano de saúde pagar o meu psiquiatra – desenvolvi distúrbios de atenção e às vezes machuco a mim mesma. Eu tenho um pedido a fazer – nao critiquem quem não quer ter filhos. Não os chamem de monstros egoístas e qualquer outro adjetivo. Sei que há pais que amam profundamente seus filhos – mas não são todos! Os motivos de não querê-los não importam – o importante que essa decisão JAMAIS vai machucar alguém. Mas ter filhos indesejados – essa decisão, sim, pode ser catastrófica para os envolvidos!!!

Os que discordam de Mateus

Para o grupo de discorda do texto de Mateus, as pessoas que não querem filhos são (expressões retiradas dos comentários): despreparadas, cruéis, insanos, infantis, sem atitude, sem amor, sem nada, desnaturadas, imaturas, fracotes, egoístas, extremamente individualistas, indiferentes a tudo e a todos, a não ser suas carreiras e suas posses. Fazem parte de uma sociedade do espetáculo, adultocêntrica, do prazer imediato. Tiveram problemas na criação, deveriam ser sido abortados pelos próprios pais, e é até melhor que não tenham filhos, porque  SER MÃE É ALGO ESPECIAL, SOMENTE PARA PESSOAS RESPONSÁVEIS, VERDADEIRAS, BATALHADORAS, HUMANAS E AMOROSAS…

Outros argumentos:

  • “Daqui a pouco vão chamar eles de heróis. Hérois são os pais que trabalham duro, e ainda dão amor, têm que pagar escola, universidade, dividem tudo.”
  • E mais infantilidade ainda ficar dizendo que não quer seguir os conceitos da sociedade, mas fica pondo a culpa na sociedade, achando que quem tem filhos os teve por imposição social.
  • “Se não gosta da sociedade, caro amigo sem filhos, crie uma nova. Mas adotar pets não vai te fazer uma pessoa melhor.”
  • Vão se arrepender mais tarde e fazer tratamento para engravidar.
  • Muita justificativa denota indecisão, o discurso não convence, há problemas em aceitar a própria decisão. Para se expor assim, o casal não respeita nem a si mesmo. Devem parar de se fazer de vítimas. Reclamões, só ficam dando desculpas.
  • Casamento não é sinônimo de felicidade.
  • “Viemos ao mundo para reproduzir, isso é da nossa natureza, escolher o contrário é ir contra um fato natural.”
  • “Se mata, amigo, vai ter menos uma pessoa, e suas preocupações estarão resolvidas.”
  • Só focam o lado negativo de ter filhos. “Não respeito casais que acham que estão certíssimos em ñ terem filhos se eles acham que os outros são idiotas em tê-los.”
  • Filhos crescem tão rápido que logo os pais poderão viajar, ir a shows, peças de teatro, etc
  • Filhos adotados também precisam de cuidados. “Vc não abriria mão da sua vida para criar do mesmo jeito????”

Por fim, o relato de uma mulher que ama ser mãe e não condena aqueles que optam por não ter filhos:

“[…] Sua explicação pra não querer procriar é típica de quem não tem filho. Nasce com filho um altruísmo que supera vc querer ir ao jogo de futebol ou balé, Mateus. Não vou explicar muito porque vc não entenderia. E nem precisa. Já decidiu e a decisão é o que conta. Só cuidado para não desmerecer a vontade daqueles que querem ter filhos. Não faço o jogo oposto, usando as mesmas armas. A pressão. As explicações bobas. E, mais do que tudo, comece a selecionar melhor seus amigos.”

Os childfree

Mais e mais mulheres optam por não serem mães. Não é por acaso que governos investem em políticas de incentivo à natalidade, principalmente naqueles países que se concebe comumente como “desenvolvidos”: quem vai pagar a conta de uma população que envelhece?

Existe até um termo para definir as pessoas que não desejam filhos: childfree (“livre de crianças”, em tradução sem compromisso). Há comunidades Childfree em diversos países do mundo. No site do grupo brasileiro, entre as diversas razões que balizam sua escolha, estão:

http://www.semfilhos.org/trocentos-motivos-para-nao-ter-filhos/

  1. O parto é uma tortura;
  2. Não se tem vontade de fazer sexo tendo em volta o alvoroço de pirralhas brigando;
  3. Crianças custam caro;
  4. Você vai passar noites acordada e não será na balada e sim ouvindo choro;
  5. O filho é a despedida dos seus sonhos de juventude;
  6. Ser mãe ou ter sucesso: é preciso escolher;
  7. Quando o filho aparece, o pai desaparece;
  8. Você não tem tempo para os amigos;
  9. Sua pele fica feia com estrias, varizes, celulites e gordura localizada;
  10. Tem crianças demais na Terra.
  11. Filhos dão muito trabalho
  12. A gravidez deixa a mulher chata
  13. Filhos são uma obrigação eterna
  14. Desnecessário para perpetuação da espécie (já são 8 bilhões de seres humanos no mundo)
  15. Crianças são capazes de colocar os pais em situação de vexames na rua
  16. Filhos são como alto-falante de pedir coisas.
  17. O filho é um ser humano como outro ser qualquer então dele se pode esperar de tudo, inclusive fazer mal aos pais
  18. Filhos tomam tempo, algo cada vez mais escasso
  19. É frustrante ficar corrigindo seu filho todo tempo.
  20. Com filhos, liberdade limitada
  21. Criança boa só tem duas: aquela que já fomos e a dos outros.
  22. Colocar alguém no mundo só pra ele cuidar de você na velhice, e atender seus projetos pessoais é egoísta e mesquinho.
  23. Se vc for procurar uma casa de aluguel e outra pessoa também, se você tiver filhos, difícil conseguir!
  24. Filhos dão muita dor de cabeça, e exigem muita paciência além gasto físico e mental.
  25. Se divorciar e tentar uma vida nova com alguém, fica muito difícil por está ligada à outra pessoa por causa dos filhos e dessa nova pessoa vai aceitar você com seus filhos.
  26. Quando for viajar terá que levar os filhos e todos os ônus que trazem consigo, ou deixá-las com seus pais (ou com sua sogra!).
  27. Ter filhos é igual piscina gelada, depois que o primeiro tonto entra, fica falando para os outros: – Pula que a água tá boa.
  28. Chegada dos filhos atrapalha vida sexual do casal.
  29. Você pode ser uma péssima mãe ou um péssimo pai.
  30. Criar filhos é igual criar cachorro: depois que cresce perde a graça.
  31. Filhos só sabem limpar a bunda após os 4 anos. São 4 anos ouvindo Acabeeeeiiiiii
  32. Se você for homem e se divorciar, cada filho seu vai levar no mínimo 10% do seu salário, isso se a mãe não tiver bem orientada por um bom advogado!
  33. Ser pai ou mãe é o trabalho mais difícil do mundo, e pior que não existe aposentadoria!
  34. A gravidez deixa a mulher horrorível e traz uma série de complicações de saúde.
  35. Meio milhão de mães morrem durante o parto todos os anos.
  36. Seu filho pode nascer hiperativo (já pensou que inferno?).

Conclusão

Que pai e que mãe, ao ler a lista dos childfree (ainda que se repita em diversos pontos), não fica com a língua coçando para gritar? “Espera aí! Não é bem assim! Vocês só estão focando o lado pesado, e de forma exagerada!”

Que pai e que mãe não ficaria inclinado a enumerar outra lista, somente com as benesses de ter filhos?

Abrindo o leque: por que a discussão em torno da escolha entre ter ou não ter filhos é tão inflamada? Por que as pessoas se ofendem e chegam ao ponto de se xingarem?

O que está em jogo no artigo de Rosely Sayão, na pesquisa citada por Elisabeth Badinter, no texto de Mateus de Almeida, nos comentários?

  • O eterno binômio da natureza humana: obrigação x prazer;
  • Os apelos de uma sociedade cada vez mais individualista;
  • A polêmica em torno do aborto;
  • O aumento da violência no mundo;
  • A questão da adoção;
  • As diferentes relações de trabalho entre homens e mulheres;
  • O papel do Estado e da comunidade em relação às crianças;
  • A pressão real da sociedade para que as pessoas tenham filhos, que surge até para quem tem filho único;
  • A promessa para a mulher, como se somente depois de virar mãe ela seria realizada;
  • O trabalho intenso e a responsabilidade que envolve a criação dos filhos;
  • A velha conhecida que fazem questão de imputar às mães: a culpa.

Toda vez em que há um esforço para defender determinado ponto de vista, aparecem alguns problemas: a radicalização e a generalização.

Não adianta querer colocar todas as pessoas no mesmo balaio. Se formos subdividindo, teríamos um grupo com os que não querem ter filhos. Desses, há os que não querem agora, os que querem adotar, os que não querem de jeito nenhum. Há os convictos e os que se arrependem.

No outro grupo, há os que querem ter filhos. Desses, há quem esteja preparado e quem não esteja. Dos que não estão preparados, há os que aprendem e os que não aprendem. Dos que estão preparados, os que se desapontam com expectativas. Os que estão realizados, mas enfrentam situações de estresse, afinal são todos humanos: filhos e pais.

Pessoas sonham, se frustram. Erram. Mudam de opinião. Crescem.

Marusia fala

Sempre quis ter filhos, por uma série de motivos. O principal era querer transmitir a eles o que eu havia aprendido. É óbvio que eu não pensei: “quero filhos porque eles dão trabalho, é preciso dinheiro, vou ficar acordada muitas noites, vou ter que repetir a mesma coisa mil vezes, vou renunciar a isso ou àquilo.” Eu estava consciente disso e disposta a enfrentar tudo em prol de outros desejos. Mas eu tinha uma ideia muito diferente do que era ser mãe. Na minha cabeça, planejamento e informação seriam suficientes para manter tudo sob meu controle.

Quanta ilusão…  com crianças, nada segue um roteiro predeterminado, nada está sob nosso controle. Nunca havia me deparado com situações que exigissem tanta humildade, além de desapego, força, calma, discernimento, superação. Já até reconfigurei meu motivo original: muito mais que transmitir o que eu aprendi, eu é que tenho que ser ensinada…

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Veja também:

“Quem vai ficar com as crianças?” – Análise

Caminhos

Ryotiras

Ryotiras

Recentemente, escrevi sobre o Meio Termo de Ouro, ou o Caminho do Meio. Na pesquisa, havia encontrado a tirinha acima. Acabei ilustrando o post com fotos, mas a deixei guardada. Hoje, abri os arquivos e me deparei com o bonequinho andando pela grama. Mantendo de lado a metáfora de criar nossos próprios caminhos alternativos, me perguntei: quando foi a última vez que andei na grama?

De sapatos não vale. De salto, então, nem se fala, porque ele teima em se enterrar, uma lambreca só. Estou falando de andar descalça (e sem me importar com a lambreca). Eu, que jogava bolinha de gude, descia o barranco em caixa de papelão, subia em árvore, guiava de propósito a bicicleta para as poças de lama, me transformei na Miss Fresca. Por si só já seria uma perda individual; o problema é estender a frescura para meus filhos. Já deixei que andassem descalços, mas com o Baby Wipes na bolsa para limpar depois…

Deve ser por isso que adoro praia. Deve ser o único lugar do universo em que sento e deito na areia, que mexo com lama. Deve ser porque, depois de seca, a areia desprende.

Dia desses vi um vídeo sobre Aelita Andre, uma menina de 5 anos, um talento precoce, considerada um fenômeno em galerias de arte. O pai montou na garagem um ateliê para que ela tivesse liberdade de criação. Bom, moro em apartamento, mas, mesmo se eu tivesse uma garagem, pensaria duas vezes antes de permitir tamanha lambreca. Junte-se a isso meu drama com o desperdício (veja como ela derrama as latas de tinta!) e talvez não despertasse essa pequenina gênia no mundo… o_O

Também vi uma plaquinha dessas de boas-vindas, que dizia: “Perdoe a bagunça. Aqui as crianças estão criando memórias”. Assim, não tenho impedido meus filhos de fazer cabana de lençol, encher a janela de adesivos, ampliar os territórios dos brinquedos para a casa toda. Mas, por que, na hora que eles mexem com guache, ainda faço questão de forrar o chão com jornal? Por que deixo, mas fico agoniada quando eles não limpam o pincel antes de mergulhá-lo em outro pote de tinta? Por que deixo, mas temo que sujem a roupa?

Semana passada, estávamos na aula de natação (sim, fazemos eu e os três no mesmo horário, para otimizar) e de repente o solzão deu lugar ao maior pé d’água. Se é chuva sem relâmpago, os professores não interrompem a aula. Acho que foi a primeira vez, em décadas, que peguei chuva. Já tinha me esquecido de como é bom… O curioso é que também deve ter sido a primeira vez que o caçula (de 4), e quiçá os outros dois, tinham a experiência de ficar embaixo na chuva por um tempo tão comprido (e não correndo dela).

Ainda falta 1 mês, mas uma das resoluções de Ano Novo será: pegar o caminho da grama. De preferência, com chuva.

Chorei rios com esse anúncio…

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Veja também:

Só as mães são felizes – Marusia fala

Quero ser criança quando eu crescer

O anjo na areia

O Meio Termo de Ouro para Pais e Mães

This post in English: Paths

Irritada?? EEEEEEEU???!!!!?

Estávamos lindos e louros, toda a família no carro, voltando do almoço na casa dos meus pais. De repente, cogitou-se a ideia de colocar nossa filha no balé. Diante da minha agenda cronometrada, fiz um inocente pedido:

– Ok, mas vamos ver se é isso mesmo que ela quer, porque, com tantas atividades da “mãetorista” aqui, vou precisar de um clone…

Sem pestanejar, recebo o seguinte míssil do meu mais velho:

– Deveria ter um clone seu que não se irritasse…

UIA…

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Claro que aquilo foi certeiro. Como eu estava com o “bate-pronto” ligado, o disparo de reação também foi instantâneo:

– E vocês, deveriam ter clones QUE NÃO ME IRRITASSEM!!!!

– Olhaí, não falei?

UIA (2, a Missão)…

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Petulância mor, a do rapazinho, não??? Mas também admirei a sinceridade e, principalmente, a coragem.

Dar conta dessa meninada não é “coisa de fifi”, mesmo, não. E a minha resposta também foi verdadeira: na maior parte das vezes, ELES me tiram do sério.

Mas sabe que eu tenho uma neurinha? Não quero que a imagem que eles tenham de mim seja a da doida descabelada dando bronca no meio da casa. “Manter a fleuma” também é um dispêndio enorme de energia.

Tô tentando a meditação. E aí fico mais resignada quando me vem à consciência que, se duvidar, até meu clone ia pirar o cabeção rsrs!

 

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A Linguagem secreta da birra – Teimosia

Frases de mãe – Marusia fala

Viajando com crianças. Parte II: As contradições

Os segredos das supermulheres – agendas de Marusia

Mãe Malabarista? Não, obrigada

Site visitado:

Talk show “A mulher e sua pluralidade de papéis” – vídeos da TV Câmara disponíveis para assisitir e baixar

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mãe malabarista

Imagem: Journal Times - Tim Ludwig / The Wichita Eagle / MCT)

A expressão “vida de malabarista” sugere uma existência caracterizada por atividade incessante, consciência e concentração, em que o verdadeiro “truque” consiste em manter a ilusão de ausência de esforço.

[…] O castigo para a malabarista de sucesso é maior ainda que para a fracassada. Quanto melhor você é na sua arte, tanto mais vai ter que trabalhar. E quanto mais você trabalha, tanto mais invisíveis se tornam seus esforços.

(MAUSHART, Susan. “A máscara da maternidade – porque fingimos que ser mãe não muda nada?” São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006. pp 242-243)

Eu trabalho na Câmara dos Deputados, na área de Comunicação. No dia 31 de março deste ano, por ocasião das comemorações do Mês da Mulher, foi organizado o talk show “A mulher e sua pluralidade de papéis”. A imagem de divulgação era uma sequência de desenhos com a mesma mulher em várias situações: executiva, mãe, atleta, dona de casa e assim por diante.

Na época, postei no Facebook meu desconforto em relação a essa imagem: “não pela pluralidade em si, que pode ser enriquecedora, mas pela insistência no conceito de mulher multitarefa e perfeita em todos os papéis. Ainda dizem que é um atributo cerebral feminino, inato, naturalizando sem questionar. Para mim, esse ‘pedestal’ só gera uma vida fragmentada, exaustiva e frustrante.”

Os comentários foram muito legais! Desde a observação de que todos podem ser múltiplos, tanto homens quanto mulheres; à constatação de que entramos numa piração cansativa, mesmo quando temos consciência de que não precisamos disso. E ainda a vontade de ser só “eu” mesma, sem papel nenhum…

Minha amiga Vera Morgado, a apresentadora do evento, sugeriu que eu abrisse a questão no debate.

Minha pergunta para as debatedoras foi a seguinte:

Fala-se muito da mulher malabarista. Mas a malabarista tem os pratos no ar. Ela não se apropria dos pratos. Não prioriza nenhum para eles não caírem. Se cai um prato, ela é que se quebra. E, quando segura os pratos, o espetáculo acaba e ninguém presta atenção, ninguém valoriza. Como fugir dessa metáfora?

As respostas das participantes do talk show foram muito interessantes!

A atriz Elisa Lucinda falou sobre o perigo de nós confundirmos nossa personalidade com as tarefas que desempenhamos. E que não devemos sofrer com o prato que caiu, afinal, “vão-se os broches, ficam os peitos”.

A psicóloga Carmita Abdo disse que devemos aproveitar nossa característica feminina de multitarefa em nosso benefício, agregando, pacificando, em prol de nosso progresso pessoal.

E a deputada Janete Pietá resumiu em uma frase tudo que eu busco hoje:

Melhor que ser malabarista é ser a dona do circo.

É sermos gerentes de nós mesmas.

Melhor chefe do mundo!

 

Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Fran, Wilma, Beth, Fiona, Morticia, Samantha, Marge, Nenê, Helena, Jane: o que elas têm em comum? São ponderadas, sensatas. Centralizam e organizam a família em torno de si, são responsáveis por manter o equilíbrio da casa. São amorosas e dedicadas e suportam tudo.

Nenê da Grande Família é exceção: não encarna o lado racional da família. Puro sentimento, às vezes se atrapalha. Lineu assume a posição de sensato da casa, papel normalmente confiado às mulheres nessas produções.

Nenhuma das personagens trabalha fora de casa. As que experimentam acabam voltando. O dilema trabalho versus casa, portanto, é extirpado, bem como o babá versus creche.

O trabalho da casa é realizado integralmente pelas mães, exceto Jane Jetson, que tem a ajuda da robô Rose, e Mortícia Addams, que conta com o mordomo Frank e a mãozinha Coisa. Wilma Flintstone também tem a ajuda de seus eletrodomésticos com animais.

Todas as mães têm que esconder seus “superpoderes”, mas sempre “salvam” a família de enrascadas. Esses poderes podem ser mágicos, como no caso da Feiticeira Samantha, ou talentos profissionais, como o da hábil comunicadora Fran Sauro, que desiste de apresentar um programa de TV para cuidar da casa.

Não existe revolta. Todas estão resignadas em seu papel, cientes disso e de sua importância para a família.

Todas as personagens estão em boa forma física, ainda que não se explicite de que maneira elas chegam a esse resultado. Fran Sauro também, dentro do que se espera de um ser de sua espécie.

Os maridos são infantilizados e atrapalhados (também com exceção de Lineu). Trabalham como funcionários em empresas. Estão insatisfeitos com o trabalho, mas são conformados (exceto Gomez Addams: “um advogado que acumulou uma riqueza invejável e que agora vive tranquilamente acariciando seu polvo e explodindo trens de brinquedos em sua mansão”).

Sugestionáveis, ingênuos e teimosos, os pais das famílias de seriados e animações sempre se metem em confusão. Assim, as mulheres se posicionam como mães de toda a família, incluindo os maridos.

Seja na Idade da Pedra, na Idade Média ou no futuro, os padrões se repetem, se mantêm. Shrek, por mais anárquico que se pretenda, apresenta Fiona como uma mãe zelosa ao molde das demais. Ou seja, o roteiro de Shrek subverte tudo – a princesa é uma ogra, o herói é um ogro, a fada madrinha é má -, exceto o que se entende como amor materno.

São todas famílias nucleares – pai, mãe, filhos -, com intervenções de parentes em alguns casos. O protótipo do que se difunde como uma típica família dos anos 1950.

Nas produções, é curiosa a presença de outras mães, as mães das mães: as sogras. São vozes femininas de chamado à consciência. Elas parecem discordar da escolha das filhas e de tudo a que as elas se submetem, e estão sempre dispostas a aborrecer os genros. São incômodas mas também não ajudam nos afazeres (às vezes até pelo fato de contestá-los). Trata-se de um reforço contínuo ao estereotipado conflito entre sogras e genros.

Outras figuras podem cumprir o papel da sogra: a dinossaura Mônica (Família Dinossauro), a modista Edna (Os incríveis), as irmãs de Marge Simpson (Os Simpsons). Em Shrek, quem cria problemas é o sogro, mas por temor de que sua identidade verdadeira seja revelada (trata-se de um sapo transformado em humano).

 

Mulher elástica – algumas diferenças

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, merece uma análise à parte porque, no decorrer do filme, vai revelando facetas que a princípio podem distanciá-la das demais mães apresentadas anteriormente.

A Mulher Elástica é feminista no início da história. Em uma entrevista jornalística, ela discursa: “Sossego, qual é? Tô no auge da forma, em briga de cachorro grande. Garotas, na boa: deixar o mundo ser salvo pelos homens? Claro que não. É claro que não.”

Ela se casa com Beto Pera, o Sr. Incrível, mas algo põe a perder suas carreiras de super-heróis. O Sr. Incrível não se conforma em se esconder por trás de um medíocre vendedor de seguros. Mas a ex-Mulher Elástica parece conformar-se com a nova vida. Isso é um paradoxo, que vai contra o que ela diz na entrevista do começo do filme, no auge da juventude, e também para ele, que na mesma entrevista diz planejar constituir família.

Helena se resigna com seu papel de mãe zelosa. E luta para defender essa nova situação como uma escolha própria sua.

Em casa, as coisas são superdimensionadas por ela (e menosprezadas pelo marido, Beto). Seus superpoderes, que outrora salvavam o mundo, agora são utilizados para lidar com os desafios em família, a própria metáfora da mãe-malabarista, a quem se exige todo o tempo que se adapte, que se molde.

Sim, Helena está tentando se adaptar à vida de dona de casa e mãe, e está muito empenhada em manter as aparências, mas deixa transparecer aqui e ali o seu descontentamento. De todas as mães das séries e animações, é a mais impaciente e estressada.

Com o desaparecimento de Beto, que ela suspeita ser algo relacionado a traição conjugal, Helena deixa os filhos ao cuidado da primogênita para recuperar o casamento. Nesse raciocínio, o casamento é mais precioso para os filhos; o fim da união do casal é um perigo muito maior que o abandono. E, ao mesmo tempo, sob os conselhos de Edna, ela descobre que também precisa recuperar a heroína que um dia foi, para que se mantenha admirável aos olhos do marido – e aos próprios olhos.

A Mulher Elástica, então, volta à “ativa”. Mas somente porque os filhos vão junto com ela, quando demonstram poder se virar sozinhos. Ela percebe que sua superproteção tolhia os filhos, tornava-os infelizes. O desfecho traz a ideia de que a família é invencível quando está unida.

Helena é a única mãe das animações e seriados que volta para a sua profissão, ainda que sob circunstâncias próprias de quem tem uma família inteira com poderes especiais, que podem dispensar a dedicação absoluta da mãe.

Contudo, ainda que existam algumas diferenças entre Helena e as outras personagens de mães, o fio condutor é o mesmo: todas são mulheres que têm na família seu bem maior.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 1: Por que elas são consideradas “boas mães”?

Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Mães de animações e seriados 4: Curiosidades imperdíveis

Mães de animações e seriados: Toda a série

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011

Mães de animações e seriados 3: Por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Nunca foram necessárias tantas qualidades para que uma mulher se sinta uma boa mãe, como nas últimas gerações. Um misto de administradora, executora, conciliadora, sempre com um sorriso no rosto e uma deliciosa refeição à mesa, tudo sem descuidar da beleza. Mas a mais preciosa e indispensável de todas as características é o amor incondicional, a capacidade inesgotável de suportar tudo a fim de manter a unidade da família.

Aminatta Forna encontra a imagem que melhor representa o amor materno: Nossa Senhora. Mas, segundo ela, é fácil ser plácida e serena com um bebê como o menino Jesus. Ser plácida e serena com filhos como Bambam Rubble (que hoje seria considerado hiperativo), Bart Simpson e Baby Sauro é muito mais heroico – e digno de admiração.

Para Elizabeth Badinter, esse conceito de amor materno (ou mesmo a noção de “instinto maternal”) é algo que foi construído – e o mais instigante: não pelas mães. O que ela chama de mito do amor materno tem sua raiz na necessidade de mudança de foco em relação à infância: as crianças, antes tidas como seres imperfeitos e incompletos que necessitavam de correção, passam a encarnar a esperança do futuro. A partir desse momento, os especialistas se dedicam de forma insistente a provar que sobre a mãe recai a responsabilidade primordial (e exclusiva) de formar os novos indivíduos.

Com o passar do tempo, o conceito fabricado de amor materno passou a ser ampla e irrefutavelmente aceito, naturalizado como se sempre tivesse existido.

Segundo Trisha Ashorth e Amy Nobile, muitas transformações ocorreram na vida de muitas mulheres das últimas gerações, que as impede de olharem para as próprias mães como modelos.

Susan Maushart enfatiza ainda a presunção e arrogância que torna maior o abismo entre as mães de hoje e a de mulheres que as antecederam na maternidade. Para ela, um conhecimento inestimável foi perdido com a quebra desse elo, inédita na história da humanidade. Tudo sob a alegação de que as mães da geração atual podem fazer diferente.

As mulheres não se espelham mais nas próprias mães. A grande contradição é que, enquanto os ideais de perfeição no “fazer” mudam com o tempo, os ideais de perfeição na postura da “mãe perfeita” se mantêm.

Somado à constatação de que as crianças também mudaram muito – a mulher também não vê nos filhos a criança que foi –, tudo isso resulta em um perene sentimento de inadequação, de estar perdido, em busca por um lugar.

Para Diana e Mário Corso, os pais parecem andar com aquele adesivo: "Não me siga, eu também estou perdido!"

Em sua experiência de psicanalistas, Diana e Mario Corso relatam o “sofrimento daqueles que julgam estar na família errada, uma ideia de que sua família não é como deveria ser ou não se comporta adequadamente como uma ‘verdadeira família’.” Os autores se perguntam: e qual é a família certa para os dias de hoje?

Sem bússola, e diante do excesso de escolhas, de expectativas e de responsabilidades, as mães encontram na mídia modelos dourados, que se acredita serem eternos desde sempre.

Sempre paira a tentação de se atribuir à “indústria cultural” (ou qualquer outra nomenclatura mais moderninha) a massificação de valores a fim de se obter boa-vontade por parte do público. Em outras palavras, a “teoria da conspiração”, que estaria “por trás” da fixação desses modelos da mãe perfeita, de paciência infindável, que se anula em prol da família.

Entretanto, o papel da mídia aqui é outro. As razões do sucesso desses produtos, ainda que sejam fonte de inspiração, repousam mais na necessidade de compartilhamento de experiências. Desenhos e seriados populares são produtos de entretenimento que colhem, sedimentam, reforçam, retroalimentam modelos que não são impostos, são acolhidos pelas mães de forma natural.

Para uma parcela de mães, a responsabilidade exclusiva pela criação dos filhos é um “poder” do qual não querem abrir mão e pelo qual abrem mão de todo o resto – razão da indignação de Helena no diálogo citado anteriormente. Para elas, um poder que só é legítimo pela via do sofrimento e da renúncia. Qualquer outra coisa que fuja a esse princípio é considerado egoísmo e só leva a um destino: o da eterna culpa.

“Como mulheres, e principalmente como mães, ainda não deixamos de ter medo de que, se é bom, deve ser egoísmo – e que cuidarmos de nós mesmas significa inevitavelmente faltar com nosso primeiro e mais legítimo dever: cuidar de todos os outros.”  (Susan Maushart)

 Assim, em muitos casos são as próprias mães que se agarram a esses padrões de perfeição. “Conspiração”, para elas, seria o que é praticado por quem tenta chamar a atenção para os padrões, quem tenta “libertá-las”: são as “máfias” das feministas, dos médicos, dos fabricantes de leite, dos homens, do sistema, do capitalismo, enfim.

Quando a realidade insiste em se impor ao idealizado, surge o mal-estar; mas, ainda assim, elas preferem continuar ostentando sua “máscara da maternidade”, como diz Susan Maushart.

“Quem quer a pressão de ser super em tempo integral?” pergunta o Sr. Incrível. Do que se depreende da presente análise, muitas mulheres querem.

Talvez por absoluta falta de opção do que pôr no lugar.

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Veja também:

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Mães de animações e seriados 2: O que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 4: Curiosidades imperdíveis

Mães de animações e seriados: Toda a série

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: Formações imaginárias da mãe em animações e seriados – artigo completo apresentado no XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2011

A Linguagem Secreta da Birra

Sites visitados:

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Tenho visto diversos livros e artigos que se dedicam a ensinar os pais a reconhecer, combater e até mesmo a prevenir a birra infantil. O objetivo máximo é evitar que esse comportamento se prolongue, intensifique, repita ou se torne uma constante. Muito do que li, entretanto, foca a birra do ponto de vista dos pais, em busca de algo que aplaque o alto poder irritante que ela tem sobre os adultos. Este post procura revelar a birra pela perspectiva da criança – a linguagem secreta dessa prática. E fala da importância de desenvolver a maturidade emocional: para filhos e também para mães e pais.

Para lidar com a birra, em primeiro lugar, a gente tem que afastar as possibilidades universais que estressam uma criança. São elas, segundo as Motherns:

  • TPS: Tensão Pré-Soninho;
  • TPA: Tensão Pré-Almoço;
  • TPD: Tensão Pré-Dentinho.

(CORRÊA, Laura Guimarães & OLIVEIRA, Juliana Sampaio. “Mothern: manual da mãe moderna”. São Paulo: Matrix, 2005)

 As Motherns também mencionam a “Verdade”: a de que todas as crianças choram. Em algumas vezes, só por vontade de dar uma chorada básica, mesmo. Sem razão. E sem neura, é bom extravasar, normal até para os adultos.

Vamos lembrar ainda que a criança tem o “prazo de validade de alegria”. Não insista em compras quilométricas em supermercados, visitas intermináveis ou outro programa típico de adulto quando sentir que esse prazo está findando.

Outra possibilidade é a criança ficar doentinha e, por isso, mais sensível e manhosa.

Esses casos tem origem certa e geralmente se resolvem com a supressão das tensões. Vamos então aos casos mais complicados.

Muitas vezes, nossos filhos estão assim:

Claudia Bebê n523B

Pais & Filhos 394

 

Guia da Mamãe 3

 
 

Crescer 98

 
 

Meu Nenê n85

Mas, muitas vezes, eles também estarão assim:

Família Bico. Montagem de Marusia com foto de Duchessa / Stock Xchng

Guia da Manha. Montagem de Marusia com foto de GerryT / Flickr

Meu Auê. Montagem de Marusia

Pitis & Pirraças. Montagem de Marusia com foto de Capture Queen / Flickr

Em um post só não iria caber tudo, então fiz uma série (cada item é um link)

  1. ACESSO DE RAIVA – Sobre esse eu já tinha escrito: Seu filho como você sempre sonhou
  2. TEIMOSIA
  3. FASTIO
  4. NECESSIDADE DE PALCO
  5. ATENÇÃO NEGATIVA
  6. O que é importante saber

P.S.: Essa sequência de posts foi escrita para todo mundo que se identifica, mas tendo em mente um destinatário em particular: eu mesma. (VIU, MARUSIA???)

A Linguagem Secreta da Birra – Teimosia

Há quem atribua a chegada aos 2, 3 anos, como a “adolescência” do bebê. Então aquele neném fofinho de repente começa a questionar os pais por tudo: é fase do “Por quê?” e do “Não.”

Quando uma criança diz NÃO, principalmente em resposta a alguma instrução (“Guarde seus brinquedos”, “calce o sapato” etc), ela está imitando os adultos. Ela não tem a noção completa de que os pais dizem NÃO para impor limites. Para ela, é simplesmente o impedimento de algo que ela gostaria de fazer, e é essa recíproca que ela quer infligir aos pais.

Quando a gente explica com carinho, eles aprendem (e imitam) direitinho (aaaaawn, que foooooofa!!!):

O QUE FAZER?

Consiga a cooperação, ou seja, trabalhe junto. Se a criança diz NÃO como um treinamento para ser adulto, dê a ela o “gostinho” de tomar decisões pequenas, enquanto você toma as decisões importantes (que incluem as situações de risco).

Há quem leve muito a sério essa coisa de interpretar a linguagem das crianças. Quer testar?

Quando começa a crescer, a motivação para a teimosia ganha outras nuances. Nessa hora, é interessante lembrar o que nos fazia teimar com nossos pais. Trata-se de um jogo sutil onde o PRAZER que a criança sente ao fazer algo indevido é MAIOR que o MEDO da repreensão.

O QUE FAZER?

Não fique dizendo NÃO para tudo, até para não “gastar”, sob o risco de não ser levado a sério quando o caso for mais grave.

Pirraça e crise de riso dão uma raiva danada, a gente se sente com cara de palhaço. Mas se não for nada que machuque (em todos os sentidos), é só coisa de criança e não precisa virar um cavalo de batalha.

Nem os adultos, no meio de um trabalho sério, na frente do chefe e de toda a equipe, sendo acompanhados ao vivo por milhares de pessoas, conseguem se segurar! o que dizer das crianças??

A partir dos 8 anos e na adolescência propriamente dita, vem o desejo de autoafirmação. O jovem quer se diferenciar dos pais, quer ter vontade própria. Isso significa que QUALQUER coisa que os pais digam ou proponham será negada. Nem adianta perder tempo mostrando que não faz sentido. Faz parte.

O QUE FAZER?

Lógico que, no momento da birra, a primeira coisa que nos vem à cabeça como pais é que nossa autoridade está sendo posta em xeque, e a tendência é reagir com autoritarismo. O problema é que não funciona…

Não fique discursando. No meio de uma crise, ninguém quer ouvir nada. E, com o passar do tempo, vai se criando um mecanismo de não prestar atenção em coisa alguma. É igual ao desenho do Snoopy. Já viu como é a voz dos adultos? Plá, plá, plá… plá, plá, plá…

Ou como essa linguagem engraçadíssima:

Não seja irônico, sarcástico. Crianças aprendem com exemplos, e numa hora vão querer fazer igualzinho. E pode acreditar: dá muita raiva.

Não dissimule, não finja que está tudo bem. Não precisa perder a estribeira, mas mantenha a firmeza. Você fica ali, artificialmente calma, cheia de dengo e nhém-nhém-nhém e a criança só obedece na hora que você berra. E aí ela volta ao normal, como se nada tivesse acontecido.

Não é que ela seja “movida a grito”, ou só faça quando você perde a paciência pra valer; na verdade, é um alívio. Primeiro, porque a criança PEDE limites (por incrível que pareça). Segundo porque, no entender dela, você não estava sendo autêntica. Ela pensa: “Puxa, minha mãe foi abduzida por um ET, mas graças a Deus, voltou. ESSA SIM é minha mãe!”

Veja também:

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

A Linguagem Secreta da Birra – Necessidade de Palco

A Linguagem Secreta da Birra – Atenção Negativa

A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

A Linguagem Secreta da Birra – Toda a série

Viajando com crianças. Parte II: As contradições

Frases de Mãe

Frases de Mãe – Marusia fala

A Linguagem Secreta da Birra – Necessidade de palco

Site visitado: “A quem ofereço o melhor de mim?”

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Para criar consciência de si, a criança precisa de plateia. Para se enxergar e enxergar o mundo, ela precisa antes do olhar dos pais. Em várias situações, a única coisa que ela quer é ser vista e ouvida e sentir que foi compreendida.

É tão engraçado, os pais querem que as crianças aprendam a falar, a bater palminhas e fazer outras gracinhas, mas depois não têm tanta paciência quando elas tomam “a pílula do Dr. Caramujo”, disparam a tagarelar e a fazer cena. Agem como se o filho tivesse um botão liga/desliga – “agora você é engraçadinho” / “agora não tenho tempo”.

Se a criança não consegue atenção, vai apelar. Aí, sim, você vai ver “O show”.

 O QUE FAZER?

No cotidiano, dê uma de Avatar e expresse: “Eu VEJO você”. Isso opera milagres, você nem imagina.

Filme "Avatar", de James Cameron. Twetieth Century Fox

Na hora da birra, faça o oposto. Diga à criança que você a compreende e respeita, mas que esse não é o modo de fazer as coisas acontecerem. Que só vai conversar quando ela estiver tranquila. E aí é sangue frio para dar um “gelinho”. Se ela estiver acostumada a ter palco sempre, se os pais a veem com frequência, ela vai sentir o peso do gelo e aos poucos vai percebendo que não vale a pena dar chilique. Mas, se ela nunca tem plateia e só consegue chamar a atenção quando começa o berreiro, não se iluda: o “show da birra” vai acontecer um bocado.

Tem coisas que o filho só apronta com pais. São bonzinhos e educadinhos com todo mundo e aprontam SÓ com os pais. De preferência na frente dos outros, pra te matar de vergonha. A criança, nesse caso, está passando dois recados:

  • Tenho segurança em vocês, que são os únicos a conhecer meu “lado B”;
  • Tudo o que é proibido é mais gostoso, e vocês vão pensar duas vezes antes de me chamar a atenção em público.

O QUE FAZER?

A regra é a mesma dentro e fora de casa, em família e em público.

Se você for imediatista para acabar logo com o barulho, é grande a tentação de ceder aos caprichos. O que estará sendo passado por você é: “o escândalo é via legítima para se conseguir qualquer coisa.”

Pense a longo prazo e só negocie se a criança estiver calma. Em suma: algo razoável, que você até cederia, simplesmente está fora de cogitação se houver birra. É o velho e bom “apelou, perdeu” (Isso vale para os pais, também).

Veja também:

A Linguagem Secreta da Birra – Teimosia

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

A Linguagem Secreta da Birra – Atenção Negativa

A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

A Linguagem Secreta da Birra – Toda a série

Decálogo dos meus desafios

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

Site visitado: Meu filho, você não merece nada

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Chiliques são imprevisíveis. Podem acontecer a qualquer momento, e pelos motivos mais bobos (pelo menos pra gente). Mas existe um motivo difícil de perceber: o fastio. Ou seja, o tédio, quando tudo perde a graça.

Você já se sentiu como uma animadora de circo? Que tem que ficar inventando novas atrações o tempo inteiro? Que o seu filho está sempre demandando? Isso é resultado de uma geração superestimulada, que não consegue lidar com os “vazios”, que não consegue ficar sozinha.

Muito cuidado, porque a abundância de estímulos gera futuras compulsões. Em busca permanente de algo que preencha esses vazios, vêm as tentações “fáceis”: gula, consumismo, hipocondria, sexo, bebida e o pior: drogas.

Se um dia, como eu, você perguntar a seu filho: “Você tem tudo, o que falta para você????”- a resposta está implícita: “A falta da falta”. É o que preconiza a psicanálise de Lacan.

O QUE FAZER?

Dê espaço a ele. Mostre que ficar sozinho também é importante, pra gente “processar”, “digerir” os fatos da vida.

Incentive-o a criar, do nada, coisas interessantes. Não o deixe dependente de você, dos outros, do mundo.

Ensine-o a lidar com as frustrações. Demonstre apoio, mas deixe-o experimentar a falta, a tristeza, o luto.

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Perigo de ser mãe perfeita 6 – Cresça e Apareça

A Linguagem Secreta da Birra – Atenção Negativa

Uma criança calma, carinhosa e cooperativa de repente se torna rebelde e agressiva. Qualquer momento que os pais se aproximam, ela cria uma confusão. Parece uma estratégia burra, não é? Ela quer atenção, mas o que consegue é irritar e afastar os pais cada vez mais.

Trata-se da atenção negativa. Apesar de aparentemente ser um comportamento ilógico, isso não acontece de graça. Quando acontece alguma mudança profunda na relação familiar, que reduz a atenção que ela vinha recebendo até então, ela reage. Que mudança pode ser essa? Os pais que aos poucos retomam seu ritmo de vida, a entrada na escola e a chegada de um irmãozinho são bons exemplos.

Mamãe está tricotando isto para meu futuro irmãozinho. Meu querido irmãozinho. Meu adorado irma... (Criação: Quino)

Ao contrário do que se pensa, a criança procura sempre agradar os pais (até por instinto de sobrevivência). Então, se ela percebe que o tempo dedicado a ela está diminuindo, ela vai criar uma RAZÃO CONCRETA que justifique isso. Inconscientemente, ela diz: “Mamãe, eu vou fazer uma birra e te dar um motivo real para não ficar comigo.”

O QUE FAZER?

Não é que a criança mudou e ficou irreconhecível. Ela sempre teve essas “armas” em sua personalidade, só não precisou usá-las até então. Assim, é importante observar o fenômeno como uma REAÇÃO a algo, externo a ela e ANTERIOR a seu comportamento.

Reproduzo aqui o que disse meu pediatra:

Quando a família atravessa um momento novo, NÃO É HORA DE DISCIPLINAR. Intensifique o carinho, o toque, e em frases curtas repita os ensinamentos quantas vezes forem necessárias.

Dá um trabalhão monstro. Mas funciona.

São gestos que passam confiança e retribuem com outra linguagem secreta: “Muita coisa mudou, mas meu amor por você, não. E, mesmo que você esteja aprontando um monte, eu continuo te amando muito.”

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 A Linguagem Secreta da Birra – Teimosia

A Linguagem Secreta da Birra – Fastio

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A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

A Linguagem Secreta da Birra – Toda a série

Seu filho como você sempre sonhou

Decálogo dos meus desafios

A Linguagem Secreta da Birra – O que é importante saber

Cada criança é única, cada caso é um caso, cada momento também, e não existe dica universal e eterna. Mas uma coisa é fato: não vá VOCÊ fazer birra também…

(Engraçado pra caramba, mas, como muita coisa na vida, só funciona na propaganda…)

Não se preocupe: toda criança faz birra, é inclusive um componente importante que indica que ela está crescendo.

Não prossiga com discursos intermináveis após a crise passar. Faça o fechamento com uma frase “moral da história” e pronto. Acabou, acabou. Também não vale jogar na cara depois.

Não precisa ficar se mortificando ou se questionando, a cada birra, se a educação que você está dando é falha, #mimimi. É coisa de criança, é normal, todo mundo enfrenta isso.

Respeito sempre. Dos filhos com os pais, dos pais com os filhos, e também auto-respeito.

Mostre a seus filhos que você faz questão deles, que eles são importantes para você.

Ao começar a entender a linguagem secreta por trás da birra, você aguça sua sensibilidade para outras linguagens secretas. Surpreenda-se com declarações de amor sutis e incríveis.

Para crescer um adulto responsável, a criança deve aprender desde cedo que, a cada ato, sobrevém uma consequência.

Encare o processo todo de outro jeito: não como se estivesse “moldando” uma criaturinha para que se adapte ao “mundo civilizado”. Eduque para que ela saiba lidar com seus desafios internos, tenha maturidade para se moldar e discernimento para moldar o exterior quando necessário.

O MUNDO PRECISA DE CRIATIVIDADE.

Fico de cara nas teimosias mais bizarras, que nunca fui capaz de fazer quando criança: mas não é o que o moleque é valente?… Longe de mim querer filhos que “só sabem dizer sim”. No fim das contas, o que mais me irrita também é o que mais espero e admiro.

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Seu filho como você sempre sonhou

Decálogo dos meus desafios

Liberdade

Gostei muito deste texto:

Muitas pessoas preferem a dependência à liberdade, mas conscientemente elas negarão veementemente isso. […] Quando as pessoas são dependentes, elas são como pássaros numa agradável e limpa gaiola de ouro, onde seu suporte mútuo, embora reconfortante, na verdade os mantém presos. […] Elas cantam uma canção em particular e os versos são “culpa, queixa e comparação”. […] Nunca se esquecem dessas palavras, sempre encontrando algo, alguém ou alguma circunstância sobre a qual cantar. Nunca olhando para si mesmas, elas não percebem o seu próprio potencial para ir além dos limites auto-impostos, para se libertarem. Não percebem que são elas mesmas que dão poder às situações negativas e que tornam as outras pessoas e as outras situações os seus senhores.

Elas voam em círculos em sua gaiola circular de limitações, algumas vezes sentindo a frustração destes limites e reclamando sobre eles, mas raramente percebendo que criaram suas próprias gaiolas. Afinal de contas, uma gaiola pode ser conveniente e confortável e, acima de tudo, ela é familiar.

Quanto menos as pessoas olham para si mesmas, mais elas olham externamente, projetando as responsabilidades sobre os outros. Cada projeção cria outra barra na gaiola. A chave dessa gaiola está sempre ao alcance, pois está lá dentro.”

STRANO, Anthony. “O Ponto Alpha – um relance de Deus”. São Paulo: Organização Brahma Kumaris, 1999. Pp58-60

Veja também:

Perigo de ser Mãe Perfeita 5 – Vá pela sombra

Tome uma atitude MATERNAL

As coisas não acontecem como a gente quer

Sites visitados:

Ser mãe é descobrir a arte de morder a língua

Coisas que o manual da mamãe não diz

__________

 As coisas

as coisas não acontecem

como a gente quer

 

nem mesmo como a gente

não quer

 

as coisas nunca pedem

a nossa opinião

(DÍDIMO, Horácio. Amor, palavra que muda de cor. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984)

__________

Os filhos nascem, os filhos crescem, nem sempre “as coisas” acontecem da maneira como planejamos, ou imaginávamos. Ninguém conta, realmente, com o fato de um dia se deparar com uma birra, uma nota baixa, uma doença ou mesmo uma síndrome grave. Um dia chato, um cansaço, uma tristeza nunca fazem parte do que a gente pensa sobre os filhos antes de tê-los.

A blindagem da gravidez

O advento da gravidez é um fenômeno intrigante. No momento em que recebemos o resultado, algo diferente começa a se processar em nossa mente. É como se nos revestíssemos de uma poderosa armadura, que nos tornasse imunes a qualquer coisa.

Por quê? Porque estamos sob a égide do sonho. Porque nos achamos diferentes. Porque achamos que, por sermos diferentes, nossos filhos serão diferentes. Porque achamos que, se FIZERMOS diferente, nossos filhos também farão diferente.

O choque da realidade

Aí o bebê nasce. E tudo que a gente concebia começa a cair por terra, nos primeiros choros, nas primeiras noites em claro, nas primeiras desobediências e tudo mais que se segue naturalmente na infância.

Então, nasce o filho, mas também a mãe, o pai, a família. São todos recém-nascidos. O que nem sempre nos damos conta é que, paulatinamente, morrem as fantasias: o bebê perfeito, a mãe perfeita, a família perfeita, a vida perfeita.

E “as coisas” se sucedem, independentemente  do que a gente faça e de quem a gente seja. Coisas que não estão nos manuais. Que nos forçam a morder a língua. Achávamos que, conosco, seria diferente… E é mesmo… diferente do que a gente pensava kkkkkkkkk!

Nossa primeira reação pode ser de silêncio. Em seguida, a busca: o que está errado? Quando começamos a descobrir que outras pessoas passam ou passaram pela mesma experiência, sobrevém o sentimento de alívio. E, depois, a vontade de expressar.

O alerta no megafone

Surge um afã inesgotável de dizer pra todo mundo o que sentimos, de compartilhar, de alcançar plateias, para que ninguém precise “padecer no paraíso”. Mas tudo é um misto de muito altruísmo com muita ingenuidade.

E por quê?

Porque estamos sob a égide do sonho. Pensamos que nossas experiências podem fazer a diferença. Mas, do mesmo modo que não temos controle sobre o impacto que nossa experiência pode ter para nossos filhos, descobrimos que não temos a menor influência sobre as grávidas e neomamães. Elas, afinal, estão blindadas, filtrando as informações para continuarem sob a égide dos sonhos… Quem sou eu para dizer nada?…

 O que realmente faz diferença

Chegando nesse ponto do caminho, entre a desilusão e as altas doses de “vida real”, talvez a gente se sinta um pouco hesitante de dar o próximo passo. O segredo é não ficar passivo, nem “maria vai com as outras”. Ora, o tempo todo eu quero que “as coisas” ouçam, sim, a minha opinião. Acho legítimo querer ser a protagonista – melhor ainda, a roteirista da minha história.

Mas nunca devemos esquecer a lição – a mais rica de todas – que o “choque de realidade” nos proporciona: a humildade. A humildade de aceitar que não sou a dona da verdade. O que, cá pra nós, também é um alívio.

Veja também:

Biblioteca da Mãe desencucada

Conselhos que amei

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Você está esperando seu filho há muito mais de nove meses – Marusia fala

Frases de Mãe – Marusia fala

Fiz minha lista particular de frases, nos meus melhores momentos “João Batista pregando no deserto para os gafanhotos.” Cri cri cri cri…

"Mas o teto está limpo!" The Family Circus, por Bil Keane

 FRASES QUE JÁ DISSE ALGUMAS VEZES

  • Não é para colocar giz de cera e figurinha dentro do aparelho de DVD.
  • As bolinhas de homeopatia NÃO são comidinha de boneca.
  • As laranjas NÃO são bolinhas de tênis.
  • Não é para beber a água da piscina.
  • Só pode riscar papel. Parede e sofá, não. É, eu sei, esse é papel, mas é o dever de casa de seu irmão e também não pode riscar, não.
  • Não, a violeta genciana NÃO é tinta roxa. E também não é para pintar a pia com ela.
  • Não, não pode tocar xilofone agora. São 5h50 da manhã… de domingo.
  • Não é para comer só o recheio e devolver os biscoitos para o saco.
  • Eu sei que o gosto do remédio é ruim, mas aí você tapa o nariz.
  • Para de esfregar o pão na cadeira!

 FRASES QUE JÁ DISSE 1 MILHÃO DE VEZES

  • Não cospe a pasta de dente em cima da torneira, cospe na pia!
  • Isso não é brinquedo!
  • Não bata no seu irmão!
  • Não pode assistir à televisão deitado!
  • Não enche demais a boca, tem que mastigar direito a comida!
  • Fecha a tampa do vaso sanitário!

 FRASES QUE JÁ DISSE 1 BILHÃO DE VEZES

  • Não pode fazer isso!
  • Vamos logo, já estamos atrasados!
  • Já falei isso 1 BILHÃO de vezes!

 FRASES QUE QUERO DIZER MAIS DE 1 BILHÃO DE VEZES

(Que ninguém é de ferro):

  • Ai, que abraço gostoso!
  • Parabéns, você é muito sabido!
  • Mamãe já disse que ama você?

    " Este é meu lugar favorito - dentro do seu abraço!" The Family Circus, por Bil Keane

Veja também:

São só os meus, ou os filhos de vocês também…

Seu filho como você sempre sonhou

Frases de mãe

Frases de Mãe

Qual é a visão que nossos filhos têm de nós como mães? O que você ouvia da sua mãe que não concordava e hoje fala igualzinho? O que nos espera quando nossos filhos virarem adolescentes? Essas e outras questões estão abordadas neste post, que traz a análise do perfil @frasesdemae no Twitter.

O método consistiu em coletar todas as frases até que se completassem 15 páginas. Em seguida, foram agrupadas em 12 categorias: Saúde, Educação, Organização, Disciplina/Boas Maneiras, Conselhos, Segurança, No meu tempo, Dinheiro/Economia, Diversão, Computador, Amizades/Namoro e Família.

A julgar pelas frases, as mães, na visão dos filhos, não assumem o modelo de perfeição em voga: nem tão onipotentes, nem tão doces, nem tão incondicionais assim. Estão, sim, preocupadas com a segurança, estressadas com a bagunça e com o pouco caso e querem mais a participação dos pais.

As frases são sempre reclamando, repreendendo, ameaçando. Claro que um perfil de humor no Twitter não iria se dedicar a frases idílicas como “Filho, eu te amo”, “Você é tudo pra Mamãe”.

@frasesdemae conta com nada menos que 112.724 seguidores (isso até a data de 19 de junho de 2011). São centenas de replicações (retweets). Tamanha popularidade vem da identificação que ele proporciona: “com certeza, já ouvi minha mãe dizer isso!”.

Plano de fundo do perfil @frasesdemae, criado por @_bfonseca

Os comentários entre parênteses – “(Todo ano ela diz a mesma coisa)”, “(Vc fica a tarde toda e quando ela chega, vc sai)”  passam bem a postura de pirraça, chacota e desdém.

Várias frases estão repetidas, algumas em conteúdo, outras ipsis literis. No início, pensei que fosse falha do Twitter. Depois, vi que realmente algumas estão duplicadas. No entanto, isso reflete EXATAMENTE o que se passa: as mães têm que repetir trocentas vezes as mesmíssimas coisas! IMPRESSIONANTE!

Haja paciência. Depois de muito repensar os dados dessa análise, cheguei à conclusão de que não são as mães as estressadas da história: os filhos é que nos tiram do sério! (Bom, quem disse que seria fácil rsrsrs? E vá tentar empreender tal tarefa em plena TPM!)

Educar é a arte de insistir, né não?

Saúde

  • Arruma essa coluna, olha só como você está sentando. Depois, quando ficar mais velho, tá corcunda.
  • Vai colocar o chinelo, depois fica doente, e eu tenho que ficar me incomodando com médico.
  • Não fica muito perto desse monitor, depois não reclama que tá com dor de cabeça.
  • Tá vendo, eu sabia que você ia machucar, vem cá pra mãe ver!
  • Como que você pode dizer se é ruim se você nunca experimentou? Besteiras vocês provam, agora comida de verdade não.
  • Para de roer essas unhas! Vc não sabe quanta sujeira tem nelas?
  • Não fica de ponta-cabeça que o sangue vai todo para a cabeça, e você morre.
  • Ai que perigo, Jesus, imagina se pega no olho.

 Educação

  • Não importa se todo mundo tirou nota baixa, eu não sou mãe de todo mundo.
  • Orkut vai cair na prova? Sai desse “Yorkut” já.
  • Mãe, nem acredita, tirei 8 na prova de matemática. O-I-T-O? Não faz mais que a sua obrigação.
  • Estudo é a única coisa que pode te dar um emprego bom. Eu e teu pai não tivemos oportunidades de estudar.
  • Você não faz nada além de estudar. Tem que tirar 10 em TUDO.
  • Se eu ouvir uma reclamação sua da escola, já sabe o que acontecer com o computador, né? Nem preciso dizer nada.
  • Presta atenção na aula, pergunta 10 vezes para o professor. Estou pagando escola para isso.
  • Se você for bem na prova, eu deixo você ir.
  • Só quero ver no final de ano suas notas, SÓ QUERO VER. Eu vou cancelar essa internet. (Tudo que acontece a culpa é da internet)
  • É assim que você quer passar no vestibular? Na frente dessa porcaria de computador?

 Organização

  • Tira essa roupa do chão, tira essa toalha molhada de cima dessa cama, pelo amor de Deus, tudo eu tenho que dizer.
  • Quero essa zona arrumada quando eu voltar, esse teu quarto é uma bagunça. E não tem “já vou”, é AGORA.
  • Você já é uma moça, já tá na hora de me ajudar dentro de casa!
  • Eu acabei de limpar a casa, se fosse para me ajudar ninguém vinha. Só vem pedir coisas quando quer sair, quando quer dinheiro.
  • Se chover fecha a janela, tira a roupa da rua, tá me ouvindo? Depois quando eu chegar em casa, não quero ouvir: “esqueci”.
  • Pronto, morreu? Caiu a mão por fazer isso?
  • Lavar uma louça tu não quer né? Já tá na hora de ajudar, só computador, UI.
  • Quando se quer achar uma coisa não dá, porque isso é uma ZONA. (Se referindo ao meu quarto.)
  • Vem cá me ajudar. –Ah, não, mãe. – Anão é um homem bem pequenininho.
  • Tá descalço? Continua só de meia no chão que pra você ver o que é bom! Não é você que lava, né?

 Disciplina / boas maneiras

  • Quem foi que quebrou isso aqui? – Não sei, mãe, tava quebrado. – Pode dizer, eu não vou bater. – Fui eu, mãe. – Plast Plast.
  • @anap_mn – Juízo hein?! Não vai me passar vergonha na frente dos outros
  • @vitorhugo_l – Eu vou contar até três: 1, 2, *atira o chinelo*, 3
  • @Eujacansei – Eu já falei! Parece que eu falo todos os idiomas, menos o seu, né.
  • Não aponta, que coisa mais feia. Eu já te ensinei.
  • O quê? Não me responde de novo, e não adianta resmungar que Deus tá ouvindo, hein?
  • Para de mentir, quando for verdade eu não vou acreditar, e ninguém vai te ajudar, achando que é mentira.
  • Se brigar na escola ou na rua, se prepara porque vai apanhar quando chegar em casa também.
  • Tá aprendendo só coisa ruim na rua, né, coisa BOA não aprende.
  • Vai ficar sem playstation e sem computador para aprender, e se reclamar vai ficar mais tempo sem.
  • Abaixa esse som que não tem ninguém surdo aqui, não. Isso aí é música?
  • Sai daí de cima, se cair e vir chorar vai apanhar, daí vai chorar por um motivo. #MEDO
  • Olha, me respeita, tá me ouvindo? Tá pensando que está falando com quem? Com seus amiguinhos da escola? Folgado(a).

Conselhos

  • Esqueceu como? Só não esquece a cabeça porque está grudada.
  • @alicemorango – Só vai me dar valor quando eu morrer.
  • Quero ver quando tiver que trabalhar e cuidar de filhos, vai ver o que eu passava. É não é fácil,não.
  • @FraseAdolecente    Minha mãe não briga , Dá PALESTRA. Se tiver a fim de assistir: Ingresso: 10 reais. Duração: No mínimo 2 horas. Volte sempre
  • Se eu ganhasse 1 real a cada vez que você me chama, eu estaria milionária.
  • Vem cá me ajudar um pouquinho. – Ai, mãe, depois. – Ah é? Quando você me pedir algo eu vou dizer isso também, “só depois”.
  • Você não tem casa, não? Só vive na rua!
  • Primeiro a obrigação, depois a diversão!
  • Não fala assim da comida, QUE PECADO. Tanta gente não tem nada para comer. Ai ai…
  • Quando você for dono do seu nariz, você faz o que quiser.
  • Quando as coisas são pra mim você demora 5 horas pra fazer. Mas se for pra você, você faz na hora! #Dramatica.
  • Mamis já volta, tá? Não se matem, monstrinhos.
  • Vai deixar tudo para o último dia? Tô até vendo já, chegar um dia antes de entregar, vai começar a se preocupar em fazer.
  • Não me interessa o que os outros fizeram ou deixaram de fazer, só me interessa você, que é meu filho.

Segurança

  • Eu confio em ti, eu não confio é nos outros.
  • @l_eeoH – eu não preciso falar pra você né? Não é pra usar nenhuma droga, se te oferecerem coisas estranhas, não pega. Está me ouvindo?
  • Se alguém te seguir, corre, grita, entra em alguma loja, liga para a polícia, ESCUTOU?
  • Cuidado lá na balada, tá? Fica de olho no seu copo, porque alguém vai lá e coloca droga dentro e te levam embora.
  • Pode até ir, mas quando chegar lá, me liga. Tá ouvindo, né? Senão, vou ficar a noite toda preocupada.
  • No mundo de hoje, está tudo mundo perigoso. Leva o celular e, quando eu te ligar, ATENDE.
  • Não passa nada pela internet, nem sua foto, nem onde mora. Tá me ouvindo? Não é exagero, tá cheio de tarados nessa internet!

No meu tempo

  • Pode sair desse computador, na minha época não tinha nada disso aí, e eu não morri.
  • Acha que eu já não tive sua idade? Sei bem como é.
  • Quando eu tinha sua idade, eu trabalhava e AINDA estudava e ajudava minha mãe em casa.
  • Na minha época a gente namorava na frente dos pais, sentadinhos na sala de mão dada, beijo era depois de meses. #CLARO

Dinheiro / Economia

  • @dabimarca  – QUASE UMA HORA NESSE BANHO, NÃO É VOCÊ QUE PAGA, NÉ?
  • Você acha que eu c*** dinheiro? Vê se tá escrito BANCO na minha testa!
  • O mamão ficou quase o mês inteiro na geladeira e NINGUÉM veio cortar, agora só porque EU descasquei vocês vieram comer.
  • Acha que já se manda? Eu que mando em ti, mocinho(a), eu pago sua internet, sua roupa, sua balada, sua COMIDA ( Joga na cara)
  • Mãe, eu te amo! – Não tenho dinheiro, nem vem.
  • Mãe, quebrou. – Não acredito, já quebrou? Aqui em casa não dura nada, você não toma cuidado, não dá VALOR.
  • Que tanta luz acesa nessa casa, vai apagar, anda.
  • Vamos comprar um tamanho maior, você ainda vai crescer. (HAHA) @tassiw_
  • Cuidado para não manchar essa blusa, é nova. Vai tirar antes que acabe sujando.

Diversão

  • @LessaL – Se você chegar tarde… Você não sai nunca mais!
  • Quando que vai ser a festa? Onde vai ser? Quem é o pai dessa menina? Eu conheço? Volta cedo, juízo lá…
  • Tá cansado do quê? Quando eu te peço alguma coisa você tá cansado, agora se fosse pra SAIR nem precisa mandar.
  • @kraautz  – Quando sua mãe falar: “Volta cedo, meu filho, senão eu fico preocupada”. Você tem que obedecer, volte 6, 7 horas da manhã.

Computador

  • Desliga esse computador que tá chovendo de trovoada, e se queimar isso aí, eu não vou dar OUTRO. Ouviu, né?
  • Amanhã você NEM TOCA nesse computador. (Amanhã já está no computador e ela nem fala nada)
  • Vou começar a colocar hora pra usar esse computador ano que vem. (Todo ano ela diz a mesma coisa)
  • Se eu voltar pra casa e vc ainda estiver na frente desse computador, já sabe (Vc fica a tarde toda, e quando ela chega, vc sai)

Amizades / namoro

  • Amigos interesseiros é o que mais tem. Agora quando você precisa, não existe UM.
  • @LuuhWeber – “Foi primeira e última vez que você saiu com seus amigos”
  • Quem é aquele menino com quem você tava conversando? HMMMM, é seu namoradinho, é? Juízo, né, filha.
  • A mãe dos seus amigos é sempre a melhor mãe, eu nunca sou boa pra você. Só quero o teu bem, por isso eu cobro.
  • Esses teus amiguinhos estão te influenciando, você não era assim.
  • Eu falo, falo. Mas você prefere dar atenção para seus amiguinhos do que eu, que sou sua MÃE. Quero só o teu bem, filho(a).

Família

  • Olha o teu tamanho, quer brigar com teu irmão que é menor? Vai criar juízo.
  • Tudo é a mãe nessa casa? E o pai ninguém chama? Vou ficar louca um dia. (Drama)
  • Não sei, vai ver com seu pai, pergunta se ele vai deixar você sair. Tudo eu? Vai falar com ele, vai.
  • Mãe, posso sair? Pergunta para o seu pai. Pai, posso sair? Não sei, pergunta para sua mãe.

Frases compiladas do perfil @frasesdemae no Twitter.

Veja:  pesquisa completa – mais de 230 frases – e a análise de quem está por trás do @frasesdemae no Twitter

Decálogo dos meus desafios

Imersa em um turbilhão de pensamentos e sentimentos e tendo que administrar expectativas e cobranças, estou, aos poucos, em busca de equilíbrio. Escrever me faz bem, e o registro é importante para internalizar, compreender e só então deixar fluir. Diria que estou em processo. Resolvi organizar tudo em dez propósitos.

O que quer que eu faça com meus filhos:

1.  vou fazer sem esperar algo em troca.

Penso em minha infância. Nossa, para mim seria um fardo muito grande se meus pais contabilizassem cada gesto para cobrar a conta depois. Além disso, vou procurar observar que dar e receber são dois lados da mesmíssima moeda.

Montagem sobre charge de Piero Tonin

2. vou fazer sem esperar gratidão.

Permito-me voltar novamente e lembrar quando eu era pequena. Eu não enxergava o que meus pais faziam por mim como algo que eu devesse expressar continuamente minha gratidão. Não porque eu era ingrata ou incapaz de dar o reconhecimento que eles mereciam. É apenas um traço típico da infância. Crianças têm um mecanismo interno de proteção psíquica que as torna propícias a receber cuidados sem se sentirem em eterno débito. Em outras palavras, tudo o que os pais fazem, na cabecinha delas, é absolutamente natural.

“Suportar a dependência é uma capacidade própria da infância.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011 P250)

Gratidão, portanto, é uma coisa que devemos adquirir à medida que crescemos e ficamos autônomos. Para que as crianças aprendam, é importante os pais darem o exemplo: nem sempre nos lembramos de agradecer nossos filhos.

3. vou fazer sem pensar no que os outros vão achar.

O dia-a-dia da maternidade já é bastante complexo para ficarmos tentando “agradar à plateia”.

“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém.” (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Renato Rocha)

4. não vou fazer só porque os outros estão fazendo.

Cada criança é um indivíduo, cada família tem sua realidade. Não é porque todo mundo está fazendo que é a atitude mais adequada para meu caso. E, para alcançar esse discernimento, devemos observar e ficar sensíveis ao que se passa em nossa casa.

Cada vez que almejamos o lugar do outro, deixamos nosso lugar vazio.

5. não vou fazer somente por obrigação.

Se não houver prazer, a maternidade pode se tornar um peso insuportável. Estou atrás de mais espontaneidade.

Montagem sobre charge de Amâncio

6. não vou fazer por medo.

O medo é uma emoção perigosa. Não é a mesma coisa de ter prudência ou precaução. É um sentimento que paralisa. Está na raiz de toda emoção negativa: ciúme é medo de perder; inveja é medo de fracassar; e assim por diante.

“Ei, Medo! Eu não te escuto mais! Você não me leva a nada. E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol: é pra lá que eu vou.” (Antônio Júlio Nastácia)

7. não vou fazer por culpa.

Esse propósito está no mesmo rol dos dois primeiros, tem a ver com algo que ficamos “computando”, “calculando” para compensar uma suposta ausência, uma omissão. Às vezes fazemos isso até por antecipação, prevendo uma falta futura e já amealhando “créditos”. Culpa é um sentimento torturante, melhor substituir por uma responsabilidade sadia, sem “cálculos”.

8. vou fazer sem raiva.

É muito fácil perder a paciência às vezes. Mas fazer uma coisa com raiva é certeza de arrependimento depois. Não significa “ter sangue de barata” e ficar serena e linda o tempo todo. Faço questão de assinalar para meus filhos algo que tenha me irritado: é uma questão de transparência didática, tenho esse direito. Mas meu desafio agora é procurar me acalmar antes de tomar qualquer atitude.

9. vou fazer por eles, com consciência de que também vou fazer algo pelo casamento – e algo por mim.

Um grande equívoco é cuidar das crianças achando que isso está colaborando para o casamento. Todo relacionamento merece seu próprio cuidado. Não que a criação dos filhos e a relação do casal sejam coisas concorrentes ou excludentes. Diria que são coexistentes e devem estar em harmonia, até para incluir o pai no processo. Crianças tomam um tempão da nossa atenção, mas também devemos abrir espaço para estarmos enamoradas. Ah! E um momento para cuidar de nós mesmas, claro.

"A preguiça é a mãe de todos os vícios, mas uma mãe é uma mãe e é preciso respeitá-la, pronto!" Charge de Quino

10. Pensando bem, nove propósitos é muita coisa. Vou substituir tudo por um só: Vou fazer por e com amor.

“Meu amor, minha prenda encantada

Minha eterna morada

Meu espaço sem fim

Meu amor não aceita fronteira

Como a primavera

Não escolhe jardim”

(Silvio Rodriguez)

Veja também:

Os perigos de ser uma mãe perfeita

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Lei da Palmada

Encontrando Nemo

Disney Pixar 2001

Marlin: “Eu prometi que nunca deixaria nada acontecer com ele…”

Dory: “Coisa engraçada de se prometer. Se você deixar nada acontecer com ele, aí nada vai acontecer com ele. Não seria bacana pro Nemo.”

“Procurando Nemo”. Disney Pixar, 2001.

Perigo de ser mãe perfeita 2 – Ser (ou parecer) perfeita vale o esforço?

“Mãe perfeita:

  • Sorri serenamente
  • Tem uma casa impecável
  • Pega uma fralda e a transforma numa pipa
  • Lê livros sobre o desenvolvimento das crianças
  • Nunca levanta a voz.”

(PURVES, Libby. “Como NÃO ser uma mãe perfeita”. São Paulo: Publifolha, 2003 – quarta capa)

 “Veja um exemplo parcial do que as mães nos disseram que PRECISAVAM executar:

  • Passar tempo de qualidade com cada filho individualmente […] e família.
  • Parecer descansada, descontraída, em forma e na moda – mesmo com um orçamento apertado e poucas horas de sono.
  • Fazer um jantar delicioso e nutritivo toda noite e conseguir que as crianças o comam.
  • […] Avaliar todos os prestadores de serviços: médicos, babás, professores.
  • Controlar todas as flutuações de humor de… todo mundo.
  • Voltar do trabalho com toneladas de energia para gastar com seus filhos.”

(ASHORTH, Trisha & NOBILE, Amy. “Eu era uma ótima mãe até ter filhos”. Rio de Janeiro: Sextante, 2008, p35)

Diana e Mário Corso também identificaram outra lista de pressões:

  • Ser bem-sucedida na profissão e no trabalho;
  • Ter participação no mundo, engajar-se em causas sociais;
  • Ser atraente para o marido;
  • Ser alegre e criativa com as crianças, como Mary Poppins.

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011, p87)

A busca pela perfeição não é mole. Em nenhuma ocupação humana. Mas a busca por ser mãe perfeita consegue ser a mais exaustiva de todas. Porque são muitíssimas as variáveis: comportamento, casa, corpo, saúde, relacionamento, intelecto, tempo, trabalho, causas sociais, tudoaomesmotempoagora, tudo irretocável.

Tudo tem que estar planejado nos mínimos detalhes, sem nenhum furo. E quem disse que a maternidade é “controlável”? Pelo contrário. Não há coisa mais fora de controle.

Aí, claro que nosso ideal de mãe perfeita se encaminha para um lugar ermo. Vou no popular: vai para a cucuia. Mas nós não queremos dar o braço a torcer: continuamos perfeitas nem que seja na fachada.

Uma pesquisa no Reino Unido mostrou que:

“69% das cinco mil mulheres inquiridas admitiram ter escondido a verdade sobre a facilidade com que lidam com as exigências da vida familiar. […] Apesar de 64% das mães reconhecerem que é impossível ser a “mãe perfeita”, 41% sentem-se culpadas por não conseguirem alcançar esse ideal.”

(Mães mentem sobre forma como cuidam dos filhos. Disponível em: <http://www.mae.iol.pt/maternidade/maternidade-mae/1233026-5535.html> março de 2011)

Quase 70% admitiram que mentiam. Não ponho minha mão no fogo pelos 30% restantes, não. Mas 70% é um número considerável.

O negócio é que, tal qual a busca pela perfeição, segurar essa fachada NÃO É MOLE. Para dizer a verdade, é MUITO mais desgastante que as exigências da maternidade em si.

São necessários oito braços para fazer tantas tarefas. Mas apenas dois para abraçar seu filho.

 Veja também:

Os perigos de ser mãe perfeita – Toda a série

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Tô ocupada

Perigo de ser mãe perfeita 4 – Mãe perfeita quer família perfeita

Esse item é primo do item 3. Quem foi que disse que nossos filhos querem ser perfeitos? Que nosso marido quer ser perfeito? Ou seja, a gente endoida e quer endoidar todo mundo também, para que eles se encaixem em padrões que NÓS criamos. E nossa família pode simplesmente não estar a fim.

Além disso, ser mãe perfeita significa nunca falhar. Nunca errar.

“Hoje, qualquer mulher que decide ser mãe o faz com o cuidado e o medo de quem desarma uma bomba.”

“Vemo-nos refletidos das promessas de sucesso ou fracasso de nossos filhos, enquanto antes era o contrário, era nos antepassados que vinha nosso valor. Em função disso, como sabemos que tudo o que fizermos ou pensarmos influenciará o destino deles, nunca tivemos tanto medo de errar.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011, p54 e p108)

E mais: a mãe perfeita passa o exemplo de que os filhos também não podem falhar. Por medo do fracasso, eles evitam se aventurar, experimentar, CRIAR.

Veja também:

Os perigos de ser mãe perfeita – Toda a série

Perigo de ser mãe perfeita 5 – Vá pela sombra

Alguma vez você já agiu de modo esquisito, como se não fosse você? Tipo explodir e não se reconhecer depois? Eu chamo de “despertar da monstra”. O psicólogo Carl Jung chamou de “manifestação da Sombra”.

A Sombra é um aspecto da personalidade que se alimenta de tudo o que a gente rejeita, de tudo o que a gente não quer ser. Essa repressão de emoções negativas é útil para a vida em sociedade, mas a negação absoluta desse nosso “lado B” pode se transformar em uma bomba-relógio.

Quanto mais perfeita a mãe quer ser, mais lixo ela empurra para debaixo do tapete de sua psique. Quanto mais luz ela joga na perfeição, maior fica sua Sombra. E quanto mais a Sombra é ignorada, mais poderosa, perigosa e imprevisível ela fica. Parece até história de “dupla-personalidade”.

Aí, entra em cena o “triângulo nefasto”: frustração – explosão – culpa. É o que explica quando a gente se comporta de modo explosivo com as crianças, se arrepende e se pergunta depois: “fui eu mesma que fiz essas coisas?” E haja culpa!!!

Há outra manifestação da Sombra que é batata: julgar os outros. Só conseguimos identificar nos outros o que temos dentro de nós.

“Não aceitamos nos outros o que não aceitamos em nós mesmos.”

(ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (orgs.) “Ao encontro da Sombra”. São Paulo: Cultrix, 1991, p37)

“Precisamos culpar alguém pela nossa imperfeição.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011, p117)

Charge: Matt Golding

Então, é bom ficar atento. Se a “monstra” de quando em quando está mostrando a cara (à nossa revelia), e estamos nos dedicando muito a julgar as outras mães e culpá-las, devemos fazer uma pausa para olhar debaixo do tapete e admitir que somos duais: pessoas muito legais, mas ao mesmo tempo com problemas. Somos humanas. E isso não é ruim, não. Assumir é fazer amizade com a Sombra. Lulu Santos já cantava: sem escuridão, não haveria luz.

“Somos imperfeitos, por mais que neguemos. Naquilo que não aceitamos em nós mesmos – agressividade, vergonha, culpa, dor – descobrimos nossa humanidade”.

(ZWEIG, Connie & ABRAMS, Jeremiah (orgs.) “Ao encontro da Sombra”. São Paulo: Cultrix, 1991, p27)

"Mãe, eu posso ser uma sombra cheia de más intenções?" Charge: Stuart

Veja também:

Os perigos de ser mãe perfeita – Toda a série

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

ESCRITORA CONVIDADA: Maria Amélia de Amaral e Elói*
Enquanto mãe de segunda viagem, agora já posso perguntar, zombeteira: “Espelho, espelho meu, existe alguma mãe mais perfeita do que eu?” E a resposta nua e crua nem me abate: “Decerto que sim, e muito mais que uma”. O amor crescente que sinto por minhas duas filhotas me convence de que o dia a dia em família não precisa ser perfeito para ser feliz.

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Sou Amélia e mãe que ama as duas crias de paixão, mas sinceramente:

senti muuita dor nos dois partos naturais;

odeio a queda de cabelo no pós-parto;

reclamo muito ao levantar de madrugada para amamentar;

sinto dor nas costas e pescoço por amamentar;

adoro ouvir o pediatra dizer que meu leite sustenta e engorda meu bebê;

sou superdesengonçada com bebês (todos choram quando eu os pego no colo, exceto as minhas filhas, graças a Deus);

acho dificílimo impor um ritmo de sono aos filhos;

adoro poder comer loucamente e não engordar enquanto estou amamentando;

prefiro trocar fralda de xixi a de cocô (ou melhor, prefiro mesmo as fraldas limpinhas);

tenho raiva da tal da cólica, que normalmente chega à tardinha, quando a mãe está cansada, a filha mais velha chegou da escola e a babá já foi embora;

morro de medo quando o bebê engasga;

adoro quando o bebê dorme;

não gosto de ouvir choro de bebê;

detesto lavar roupinha vomitada ou cagada;

não consigo, de pé, carregar o bebê no colo por muito tempo;

não sei equilibrar bebê e bolsa dentro de ônibus ou metrô (na verdade, não me equilibro bem nem sozinha);

acho complicado ajustar a cadeirinha do bebê ao cinto de segurança do carro;

tenho preguiça de fazer sopinha nova para o bebê todo santo dia;

odeio todas as vacinas e suas reações;

perco a paciência com birra de criança;

às vezes finjo que não vi minha filha desobedecendo, só para não ter de brigar;

muitas vezes já desejei que os dentes só nascessem quando as crianças completassem sete anos;

gostaria de ter corpo sarado logo após o parto e sem fazer nenhum esforço;

tenho preguiça de contar história e pôr as crianças para dormir toda noite;

gosto quando meu marido sai com as crianças para eu dormir;

quero ser elogiada não só como mãe, mas também como mulher;

não entendo por que, enquanto grávida, a mulher recebe tantos elogios pelo barrigão e, quando ganha bebê, todos acham um horror sua barriga flácida e murcha;

adoraria que a babá não tirasse folga nos sábados e domingos nem tivesse direito a férias.”

Maria Amélia, mãe da Luana Lis e da Mariana Flor

* Maria Amélia de Amaral e Elói venceu o 3º Concurso Literatura para Todos do Ministério da Educação, com o livro Poesia Torta, e o 5º Desafio de Escritores do Núcleo de Literatura do Espaço Cultural da Câmara, na categoria Crônica.

Veja também:

Só as mães são felizes
São só os meus?…
É só o meu, ou seu bebê também…

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Cena 6 – um disco voador pousou e um ET menino entrou em minha casa

Um disco voador pousou no gramado em frente ao meu apartamento. Dele emanavam ondas de energia com minúsculas partículas de luz, um espetáculo lindo. Eu e meu marido, junto com meus pais e irmãos, assistíamos a tudo da janela da cozinha. Logo, havia uma porção de gente no local, inclusive pipoqueiro, sorveteiro e repórteres. De repente, duas luzinhas daquelas pousaram no chão e se transformaram em dois ETs, como os que aparecem em filmes (com a cabeça branca grande e dois olhos grandes). Usavam roupa de astronauta.

Uma dessas luzes entrou pela nossa janela, pousando devagar. Todos correram para a sala, exceto eu e meu marido. A luz se transformou também em um ET. Percebi que a cabeça e os grandes olhos eram apenas um capacete, e o ET na verdade tinha a aparência de um lindo menino loiro, de mais ou menos 7 anos. Comecei a lhe fazer várias perguntas e descobri que ele era um adulto. Estava muito assustado com tudo aquilo.

De repente, todos começaram a gritar na sala e a bater na porta para saber o que estava acontecendo. Ele se assustou mais e começou a chorar. Eu o abracei e disse que não tivesse medo, que não iríamos deixar nada de ruim acontecer. Então sugeri que fôssemos continuar a conversa em seu disco. Ele concordou.

Imagem: digitalFRANCE/Flickr

Estávamos nos preparando para desmaterializar quando meu marido deixou o casaco do ET cair no gramado. Eu fiquei com medo que aquilo chamasse a atenção e sugeri que os dois fossem na frente enquanto eu recuperaria o casaco. Eles foram e eu desci pelas escadas. Minha mãe foi atrás. Quando chegamos no térreo, tinham acabado de construir uma parede fechando a saída. Pensava que tinha que atravessar a parede, uma vez que precisava fazer a mesma coisa para chegar ao disco. A falta de fé era tanta que acabei desistindo. Minha mãe dizia que não havia mistério algum e mostrava como fazer. Mas eu dava a volta.

Isso aconteceu de verdade. Nos meus sonhos.

E também na vida real.

Quando viajei com meu primogênito, na época com 11 meses, foram sete dias em que ele não chorou nenhuma vez. Claro, antes que ele sentisse qualquer coisa, eu já tinha me antecipado a todas as necessidades. Fome? Leite quentinho, papinha pronta. Cansaço? Banheira com água morna, roupinha escolhida, tudo já preparado. Eu me transformei em uma espécie de “ministra do bem-estar”, com cada hora do dia devidamente planejada nos mínimos detalhes.

É verdade, ele nem precisou chorar. Todo mundo ficou admirado: “que coisa linda, não dá um pingo de trabalho.” Como assim? E, por que, ao fim da viagem, eu estava exausta?

Ora essa, porque eu não tinha “subido ao disco”. Enquanto meu filho e meu marido partilhavam juntos a mesma experiência e a mesma energia, eu estava na retaguarda, “pegando o casaco”, cuidando da parte burocrática e não aproveitando nada. E, exatamente como no sonho, ninguém entende como uma coisa simples pode ser vista como complicada.

Hoje eu continuo preocupada com o casaco, mas me permito subir ao disco. Seguem alguns pré-requisitos, já fazendo uma síntese do que tratamos nos outros posts da série:

  1. Ter planejamento e organização;
  2. Contar com possibilidades adversas e já arquitetar o plano B (e o C e o D);
  3. Internalizar e racionalizar o trabalho – foco no AGORA;
  4. Dar-se tempo. Como eu começo a relaxar só a partir do 3º dia, nunca planejo férias com as crianças com menos de sete dias (até porque a mala de higiene é idêntica para um dia e para sete, não vale a pena);
  5. Reconfigurar seu conceito anterior de “férias”.

Mais dicas da Libby Purves, autora do livro “Como NÃO ser uma mãe perfeita” (São Paulo: Publifolha, 2003):

  1. “O segredo, para quem tem filhos pequenos, é reduzir as expectativas em relação às atividades adultas. […] O esforço de tentar fazer uma atividade de adultos tendo junto crianças pequenas raramente vale a pena. Já me veio à cabeça que uma coisa que os pais nunca devem fazer é embarcar, com seus filhos pequenos, no tipo de excursão que lhes dava enorme prazer quando estavam sozinhos.
  2. Quem tem dois ou mais filhos abaixo dos 5 anos precisa tirar proveito de cada pequeno prazer.”

Quando você se entrega, experimenta um prazer diferente nas suas férias. É quando o momento começa a se parecer com as fotos dos anúncios dos resorts. Nossos álbuns de férias não são realmente muito diferentes. A gente só gosta de registrar os momentos felizes, não é? 

Mas, aos poucos, vai descobrindo que as melhores fotos, MESMO, não são as posadas. As poses não são naturais, saem aqueles sorrisinhos armados, congelados. As mais deliciosas histórias de viagem são repletas de tragicomédias, coisas engraçadas. E as melhores fotos captam o instante, a brincadeira, o inesperado.

Essas fotos podem até não refletir o que aconteceu na maior parte do tempo. Mas vão traduzir o que de fato importa. Aquilo que, com toda a certeza, é inesquecível.

E aí? Preparou-se para subir no disco e explorar o fantástico universo que só as crianças podem proporcionar?

Foto: The Scarer/Stock Xchng

Veja também:

Viajando com crianças. Parte I – A mala

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Viajando com crianças. Parte III – O clubinho

Viajando com crianças. Parte IV – Os senões

Toda a série Viajando com crianças

Viajando com crianças. Parte IV – Os senões

Cena 5 – minha filha de 1 ano e meio correndo e batendo palmas em todos os cômodos da casa. Ao final, beijando o berço

Foto: Brokenarts / Stock xchng

Fizemos uma viagem de 10 dias com meu filho de 4 e minha filha de 1,5 ano. Desses, sete dias foram um cruzeiro. Para o menino, foi uma viagem maravilhosa e inesquecível. Mas para ela… Descobri – lá no navio – que cruzeiros não são o melhor esquema para bebês. Por quê?

  1. Ela não se deu bem com a comida. E a única opção que tínhamos (já que estávamos no meio do mar) era papinha Nestlé.
  2. Era verão, muito calor, mas o ar condicionado central (sobre o qual não tínhamos controle) era muito frio.
  3. Ela pegou uma virose, teve febre e diarreia.
  4. Ela sujou todas as roupinhas. O WC da cabine não tinha exaustão adequada para secá-las. Foi tudo para a lavanderia do navio, que demora para retornar.
  5. O navio em alto-mar balançava pra burro e deixou todo mundo enjoado.
  6. Ela estava aprendendo a andar e se sentiu insegura.
  7. O WC da cabine era um ovo, mal cabia a piscina inflável que usávamos como banheira.
  8. Tudo era muito demorado: o desembarque em cada cidade do circuito, os traslados até o aeroporto, as conexões etc.

Resumo da ópera: quando chegamos em casa, ela começou a dar gritinhos de alegria já na garagem. Era como se, na cabecinha dela, ela tivesse feito algo de MUITO errado e que estava sendo punida. Mas, graças a Deus, o castigo havia finalmente terminado. Quando ela beijou o berço, meu coração ficou minúsculo. Puxa vida, pensei, nunca mais vou fazer isso.

Essa história é para dizer que, nas viagens planejadas para serem momentos de sonho, podem acontecer alguns senões. Eles devem ser avaliados previamente para que o melhor programa seja escolhido – em algumas vezes ele pode mesmo ser adiado para quando as crianças forem maiorzinhas. E, também, com a decisão já tomada, para nos cercarmos de alguns cuidados:

  1. Crianças podem adoecer. Faça check-ups antes da viagem. Leve farmacinha, de acordo com orientações do pediatra.
  2. Remédios fazem efeito 30 minutos depois. Quando eu vejo que um dos meus filhos está meio constipado (o que pode causar uma dor de ouvido bizarra no avião) já dou logo o Paracetamol assim que a gente embarca. Dou mesmo. (veja isso com seu pediatra).
  3. Leve sempre mudas de roupa reserva na mala.
  4. Crianças podem estranhar o ambiente. Leve o travesseiro e um bichinho de pano com o qual seu filho esteja acostumado a dormir, para que tenha alguma referência de casa.
  5. Crianças podem vomitar. E, como “remédios fazem efeito 30 minutos depois”, antes de viagens de carro ou de barco já dou logo o anti-hemético (veja isso com seu pediatra). Além disso, eles devem evitar ler dentro do carro e não comer comida-de-beira-de-estrada não confiável.
  6. Leve sempre mudas de roupa (inclusive para os adultos) na bagagem de mão. Dizem que isso é útil para o caso de extravio de bagagem. Mas eu faço porque uma vez tive que comprar roupa para mim no aeroporto depois de uma “esgumitada” homérica do caçula.
  7. Crianças podem atrasar. Não dê chance à Lei de Murphy e sempre se programe para chegar aos lugares com pelo menos 30 minutos antes do que for determinado.
  8. Deixe a mala “pré-pronta” na véspera de ir embora. Na hora de desocupar o quarto, coisas como tirar a areia dos baldes e esvaziar boias e piscininhas infláveis demoram mais do que se imagina.
  9. Antes de qualquer esquema, leve ao banheiro, mesmo que eles digam que “não estão com vontade”. Por três vezes resolveram fazer “o número 2” na hora que o atendente da companhia chamou no microfone para embarcar.
  10. Tenha sempre protetores plásticos de vaso sanitário para as meninas e para “o número 2” dos meninos. WCs públicos são nojentos.
  11. Se decidir por um cruzeiro, NUNCA escolha cabines internas sem iluminação natural. Por mais que digam que é frescura, que a escotilha é pequena etc, luz do sol FAZ DIFERENÇA. A menos que você curta a sensação de que está dormindo dentro do elevador ou do WC do avião.

Enfim, conhecer os “senões” é importante. Se não há como impedi-los, pelo menos estamos conscientes.

Mas “estar junto 24h” com as crianças não está no rol dos “senões”.

Fiquei atônita com uma matéria da Revista Viagem e Turismo que compara resorts e cruzeiros, e fala sobre o assunto:

Viagem e Turismo n9 ano 12 set 2006 p64 – Ed. Abril

Cruzeiros ou resorts?

“Lazer Criança – Vencedor: Resort

Todos os navios têm kids club. Mas nenhum tem baby-sitter. Ou seja, se quiser alguma independência das crianças, vá para um resort, com trupes de funcionárias treinadas para entreter e cuidar dos pequenos a pequenas fortunas […]. Você agradecerá cada vintém, verá a lua da praia, tomará um drinque a mais no bar… É muito chato ser obrigado a voltar para o quarto por não ter com quem deixar as crianças. E nos navios, […] você terá de: a) dormir mais cedo; b) se consolar com a pobre programação da TV ou c) arrastar as crianças para todo lado. Durante o dia, os cruzeiros levam um olé dos resorts de novo. […] Nos resorts, a programação para a criançada é interminável. Aliás, os “tios” recebem os pequenos pela manhã e, com exceções, devolvem só para o banho. […] Quer mais que isso? Mande-os para uma ilha.”

TÔ BEGE!!!!

Na minha experiência, o cruzeiro não foi bacana para crianças pequenininhas por OUTROS motivos, nunca por causa do “contato full time”. Se esse contato se transformar em um dos “senões”, tem alguma coisa fora do lugar aí – e não é exclusiva da viagem.

Veja também:

Viajando com crianças. Parte I – A mala

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Viajando com crianças. Parte III – O clubinho

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Toda a série Viajando com crianças 

 

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Cena 2 – Pai brigando com o filho na fila de entrada do parque aquático

Quando assisti à cena acima, eu ainda não tinha filhos. Fiquei um tempão pensando na contradição absoluta que aquilo representava: quem vai a um parque pretende se divertir. Pois nem ao menos a diversão começou, o estresse já estava instalado. Pensei na frustração da criança com a impaciência do pai. Pensei na frustração do pai, que planejou o passeio.

Aí, um belo dia eu virei mãe. E me vi, por muitas vezes, em contradições parecidas. O mais importante é ter consciência disso, de preferência no momento em que ocorre. Como diz minha mãe: “Atenção, para não haver tensão”. Repita comigo: “Eu estou de férias. Eu estou de férias. OOOOOOMMMMM…”

Outra coisa válida é passar a contar com certas possibilidades. Não se trata de “antever o pior” ou “sofrer por antecipação”. Trata-se de estar preparado para algumas situações (que, com sorte, até podem não ocorrer! rsrs).

Por experiência própria, enumero algumas coisinhas que nunca achei que pudessem acontecer nos meus planos dourados de “férias perfeitas com as crianças”:

  1. Brigas entre irmãos. Claro, sempre por motivos muito graves: “Olha, o avião tá descendo!” “Não, tá subindo.” “Não, tá descendo, você não ouviu o piloto falar?” “Subindo.”. “Claro que não, olha a cidade lá embaixo!” “Subindo!”  “TÁ DESCENDO!!!!” POU, PLAFT, SOC, TUM! “Ô MÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEE!!!!!” (fato verídico).
  2. Processos de bobeira. Não acho correto dizer “ataque” ou “acesso” de bobeira. “Acesso” traduziria algo momentâneo, passageiro. Considero mais adequado falar de “processo” de bobeira (“processo”, realmente, lembra mesmo uma coisa beeem demorada). Em suma, são aquelas risadinhas bestas intermináveis, quando você não consegue a atenção deles para nada.
  3. Teimosia. Principalmente na frente dos outros, porque seus filhos sabem que você hesitará em chamar a atenção.
  4. Desobediência. Em algumas vezes, a desobediência perigosa, como ir para o fundo do mar ou da piscina.
  5. Renúncia. Muito do que a cidade ou o hotel oferecer não vai dar para levar as crianças, o que significa que será difícil para você ir. Mesmo coisas inocentezinhas, como curtir uma caminhada na praia.
  6. Interrupção. As coisas (dentre as que você conseguir fazer) poderão ser interrompidas a qualquer instante. Vai parar para oferecer água, pegar lanche, renovar o protetor solar, encher boia, enrolar na toalha e assim por diante. Ainda tem a CLÁSSICA: você fez o prato de todo mundo, cortou a carne, colocou suco e quando finalmente dá sua primeira garfada… “Mãe!!! Quero fazer cocô!!!”
  7. Improviso. Não espere reproduzir no hotel o conforto e a estrutura que você tem em casa. Isso é ilusão. Aliás, se você quer um lugar igual à sua casa, bem… fique em casa. Sair e viajar pressupõe mudar os ares, espairecer… e improvisar. Faz parte do pacote.
  8. Impaciência. Deles. Ouvir milhões de vezes: “Tá chegando???” “Não quero passar protetor solaaaaaar!” Ou, no auge do bem-bom, quando você finalmente achava que estava chegando ao nirvana do verão: “Ai, tá tão chato, quando a gente vai voltar?”

Aviso aos navegantes: O fato de saber disso tudo ajuda. Mas “não nos responsabilizamos por estresses posteriores”.

 

Via de regra…

Saímos de um restaurante alimentados.

Saímos de uma escola ensinados.

Saímos de uma academia malhados.

De um parque de diversão, temos que sair “divertidos”, né não? kkkkkk

Site visitado: http://www.familycircus.com/

Veja também:

Viajando com crianças. Parte I – A mala

Viajando com crianças. Parte III – O clubinho

Viajando com crianças. Parte IV – Os senões

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Toda a série Viajando com crianças

Grande responsabilidade

“Mas será que eu tinha a responsabilidade de ter uma família? Ai, meu Deus – responsabilidade. Essa palavra ficou martelando na minha cabeça até eu prestar atenção nela, observá-la com cuidado, e dela derivar duas palavras que compõem sua verdadeira definição: a habilidade, ou capacidade, de responder, ou de reagir.”

GILBERT, Elizabeth. “Comer, rezar, amar”. Rio de Janeiro – Objetiva, 2008. P 102

 Marusia fala

Elizabeth Gilbert falou fundo ao meu coração, sobre a apreensão quanto à RESPONSABILIDADE – habilidade de reagir! Ora, a gente só “reage” ao que sai do nosso script – ou seja, ao que sai do nosso controle. Quando está no nosso script, a gente simplesmente age, não “reage”. E o medo de perder o controle da situação geralmente é o que me faz perdê-lo. Entendeu? (Eu também não… rs)

Seu filho como você sempre sonhou

Anúncio do Vitabase - Johnson&Johnson

“Bagunceiro, capeta, sem-vergonha, malandro, impossível. Seu filho como você sempre sonhou.

Vitabase Complexo Vitamínico ajuda a garantir as vitaminas e minerais para seu filho crescer forte e saudável. Vitabase Vitamina C ajuda a aumentar a resistência das crianças. Vitabase é gostoso e suas pastilhas mastigáveis vêm no formato de personagens da Turma da Mônica.

Johnson&Johnson

Vitabase. Nunca uma geração teve tanto para crescer forte e saudável.”

 Marusia fala

“Bagunceiro, capeta, sem-vergonha, malandro, impossível. Seu filho como você sempre sonhou.” VOCÊ quem, cara pálida? Alguém já sonhou ter um filho “impossível”?

 Já vi esse mesmo mote em uma campanha de vacinação. Dá a entender que a mãe deve ter uma paciência infinita e agradecer aos céus pela bagunça do filho, sinal de “boa saúde”.

Prefiro fazer a distinção:

“Ser criança + Ser saudável” não é a mesma coisa que “não ter limites”.

Mas diferenciar isso não é fácil. Quantas vezes a criança realmente está só “sendo criança” e brincando com a vivacidade própria da infância, e nós a tolhemos em prol da “boa educação” ou – mais provavelmente – porque estamos cansados demais para acompanhar?

De fato, o título do anúncio do Vitabase não é regra geral, pelo contrário. (Veja o post “Como educar  crianças para a paz”).

Mas como lidar com a agressividade natural da criança?

  1. Reconheça e respeite o sentimento da criança. Por mais que achemos que o motivo não justifique o “acesso de fúria”, não subestime, não ironize nem ridicularize;
  2. Por outro lado, não supervalorize. Esperar acalmar é uma boa alternativa;
  3. Faça a criança perceber que a cada ato dela corresponderá uma consequência.

 Na prática:

Não diga: “Você tá com raivinha?” “Quando casar, sara.” “Ai, que mêda!”

Diga: “Olha, você tem todo o direito do mundo de estar com __________ (raiva, medo, frustração, chateação, ciúme etc). Mas não pode machucar ninguém, nem se machucar.”

Qualquer coisa que ele fizer, terá que assumir:

  • Rabiscou ou rasgou o dever de casa? A criança vai ter que explicar à professora;
  • Quebrou o brinquedo? Não vai ter reposição.

E assim por diante.

Não se iluda: você não vai ficar imune a um novo “acesso”. Vai ter que lidar com isso um milhão de vezes.

Contudo, agindo assim, você ensina que não dá para controlar o sentimento, mas dá para controlar a reação. E também proporciona a você próprio, como pai e mãe, o direito de fazer o mesmo: ficar com raiva, medo, frustração, chateação, ciúme etc.

Como educar crianças para a paz

Como educar crianças para a paz

Laura Perls

[…] A exigência por paz está em oposição direta a um dos instintos mais vitais de todo ser vivo, notoriamente o instinto da agressividade.

Por agressividade, a maioria das pessoas entende o desejo de atacar, destruir e matar. Por essa razão, condenam esse ato com toda a força do coração, e a tendência geral da nossa civilização, há muitos séculos, é a de suprimir de maneira quase ou totalmente completa esse instinto, aparentemente o mais perigoso de todos.

[…] Usualmente, a família mediana rege da seguinte maneira: cada sinal manifesto de agressividade por parte da criança (chorar, chutar, morder, quebrar coisas etc) é tratado pelos adultos com desaprovação. A mesma desaprovação ocorre diante da impaciência infantil e de seus maus humores. Suas explosões temperamentais frequentemente levam a severas punições. Pais conscientes tentam realizar o seu ideal de bom cidadão – ideal que nem eles mesmos conseguem realizar – nos seus filhos. É dito para a criança que ela deve ser de boa natureza, obediente e respeitosa. Esse objetivo é normalmente alcançado apelando ou para o medo que a criança tem de causar algum problema ou de sofrer punição, ou pelo desejo que ela tem de ser amada.

Pode-se ter a expectativa de que pessoas que foram treinadas desde o início de suas vidas para ter consideração para com os seus vizinhos, para respeitar a propriedade, para obedecer a autoridades, teriam tido a melhor educação possível para a paz. Mas, se olharmos hoje para os países, onde centenas de gerações de pessoas foram criadas dessa maneira, devemos admitir que os resultados são bastante decepcionantes.

[…] Primeiro, a fim de entender, temos que examinar a concepção geral de comum de agressividade. Essa concepção é principalmente derivada dos efeitos que a agressividade tem sobre as pessoas que a ela são expostas. A agressividade de crianças pequenas causa muita inconveniência e aborrecimento aos adultos. Por esta razão, muitas pessoas a veem como indesejável e tentam suprimir os desejos da criança. Mas eles correm o risco de não apenas suprimir a inconveniência da criança, seus gritos e berros, mordidas, chutes e arranhões, lágrimas e destruição de coisas, mas também suprimir sua curiosidade e ânsia por saber. É claro que a ânsia de saber da criança e sua agressividade física são muito penosas para os adultos. Sua satisfação demanda muito tempo e paciência e podem ser muito inoportunos e desagradáveis. Eles até mesmo podem chamar a atenção para a própria ignorância dos adultos, o que muitos pais veem como um sério risco à sua autoridade. Mas, por outro lado, a curiosidade e o desejo de saber são condições indispensáveis ao desenvolvimento intelectual da criança, à sua capacidade de aprender e de estudar, de entender as pessoas e as circunstâncias. E a completa supressão da agressividade causa – se não estupidez ou então, certamente, séria inibição intelectual – levando à impossibilidade do pensamento crítico.

[…] É claro que a imaturidade intelectual não é causada apenas pela supressão da agressividade infantil prematura. De igual importância para o desenvolvimento do fascismo  [e mais tarde do nazismo], está no fato de que a repressão à agressividade no indivíduo geralmente traz um aumento da agressividade universal. Em todos os países altamente civilizados, podemos ver onde o indivíduo mediano não desenvolveu suas capacidades agressivas de modo considerável, mas ao contrário, ficou restrita, bem comportada, até mesmo com medo de complicações, dado que a comunidade desenvolveu seus meios de agressão a um ponto extremo, terrível, assustador. O aperfeiçoamento do maquinário de guerra (armas, tanques, aviões, bombas, gás venenoso, treinamento militar e eficiências estratégicas) parece estar na proporção direta da supressão da agressividade individual, como se a agressividade reprimida de todos os indivíduos tivesse se acumulado em algo além da individualidade e simplesmente tivesse que forçar essa saída.

[…] É um falso questionamento se reprimimos ou não reprimimos a agressividade. Já que a agressividade é um ingrediente indispensável para compor o humano, temos que usá-la, para desenvolvê-la com um instrumento valioso para administrar nossas vidas. Isso significa, particularmente, que não devemos obstruir os primeiros sinais de agressividade na criança pequena;  antes, devemos encorajá-la e apoiá-la adequadamente para tal.”

 “Como educar crianças para a paz” foi escrito em alemão e publicado em Joannesburgo, África do Sul, em 1939. Foi editado para publicação por Joe Wysog. Sua primeira publicação em inglês foi no The Gestalt Journal Press, pp 37-44, em 1992, sob o título “Living at the boundary”. (Tradução de Helena Raíra Magaldi e Elayne Magaldi Daemon).

Feche a boca e abra os braços

Minha querida tia Leninha me enviou esta linda mensagem. Já conhecia, mas foi tão bom lembrar!

“Feche a boca e abra os braços

Diane C. Perrone

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema “Como pôde fazer isso conosco?” Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes? Fiquei tão arrasada com a situação que fiz o que faço – com alguma frequência – quando não consigo pensar com clareza: liguei para minha mãe.

Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: “Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços.” Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos. Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido – e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe. Parei no meio da frase e abri os braços. Kim correu para eles dizendo:

– Desculpa… Desculpa – repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

– Eu também sinto muito, Kim – disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou. Felizmente, ela me perdoou.

O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração. Quando meus filhos eram adolescentes – todos os cinco ao mesmo tempo – me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação.

Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, por vezes, ruidosa e unilateral.

Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação atrás dela, quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, contudo. Dava para trabalharmos com “o que você acha que devemos fazer agora”, em vez de ficarmos presos a “como foi que a gente veio parar aqui?”

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse “Mãe, cometi uma idiotice…”

Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha. Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

– Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.”

(CANFIELD, Jack. [e al.]. “Histórias para aquecer o coração das mães”. Rio de Janeiro: Sextante, 2002, pp99-102

A aventura do primeiro bebê – Marusia fala

Meu primeiro filho nasceu no mesmo dia que o João: 21 de janeiro de 2003. Mas minha “aventura do primeiro bebê” foi totalmente diferente.
Quando fui inventar de preencher o “check-list” acima, já transcorridos quatro meses (a reportagem é de maio), fiquei pra morrer:
1. Mãe estressadinha e exausta;
2. Bebê que chora, mama de hora em hora e não dorme a noite toda;
3. Gravidez apreensiva, enjoo pra burro, mas ainda assim se sentindo bonita e amada;
4. Cesárea horrorosa e pós-parto mais horroroso ainda;
5. Pai presente.
6. Vida bem fora dos eixos;
7. Libido? Que libido?
8. Forma? Que forma?

Mas podia ser pior, né. Já pensou: “nenhuma das anteriores” …?
E esse negócio de horóscopo, então, também é bem maleável, porque como podem dois bebês do mesmíssimo dia serem tão diferentes? Bom, a matéria não dizia a hora do nascimento do João; às vezes é essa coisa de ascendente com Lua não sei onde…
Brincadeiras à parte, ainda bem que aos poucos fui percebendo que era maluquice total tentar ficar comparando e me enquadrar nesses padrões.
Padrões que comecei a reconhecer em outras matérias, em outras revistas… Daí surgiu a vontade de pesquisar sobre o assunto. E a necessidade de DESENCUCAR: Todas ao Manifesto do Desencucamento!!!

Marusia fala 2


Não tem nada a ver com maternidade, mas cá pra nós, uma das manchetes da capa é: “Elas não fazem chapinha e são felizes!”.
Como se felicidade e cabelo cacheado fossem uma combinação absolutamente inegociável.
(Meu Deus, como eu sobrevivi até hoje sem essa informação? Eu NÃO era feliz e não sabia!…)