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Depois que fui mãe…

Este é mais do que um texto; é um presente da minha amiga Claudia Brasil. Feliz Dia das Mães!

Depois que fui mãe…

Por Claudia Brasil*

1. Aprendi o que é, de fato, uma noite mal dormida. Ou não dormida e em condições adversas.

2. Aprendi o real valor de uma noite bem dormida.

3. Aprendi o que é medo. Desenvolvi medos estranhíssimos. “Será que ele está respirando? Faz horas que está dormindo sem emitir qualquer som audível…” – Que mãe nunca? Hoje temo, de verdade, a violência urbana, a violência sexual, a violência no trânsito, a psicopatia, doenças que nem conheço ou que inventei (durante meses, tive a convicção de que um dos meus filhos enxergava em preto e branco) ou doenças reais (durante meses temi que um deles tivesse algum comprometimento neurológico que o impedia de começar a andar logo; pedi ao pediatra um encaminhamento ao neuropediatra; dias depois, o menino estava correndo pela casa….). Medo, agora, é para o resto da vida.

4. Aprendi o que é coragem. Acho até que mataria um sapo que ousasse se aproximar de um deles. Tenho pavor de sapo, que fique bem claro. Coragem, agora, é para o resto da vida.

5. Entendi “mágoa de mãe”. Sabe aquele negócio de que seu filho diz a coisa mais besta do mundo pra você (você é muito chata!) e você passa dias ruminando aquilo? Agora eu entendo. Ah, sim, isso faz você chorar, tá? Imagine as coisas mais graves! Tudo “mágoa de mãe”. Nem vou falar dos casais separados e que o filho chega e comunica: quero morar com meu pai. A vida, até o momento, tem sido generosa comigo. Não sei até quando.

6. Aprendi o que é chorar em festinha da escola. Sim, a cantoria é desafinada, a coreografia sai toda errada, as fantasias são desengonçadas, rola esquecimento do texto na peça de teatro. Mas é ele quem está cantando, é ele quem está dançando, foi ele quem confeccionou a fantasia, é ele quem está representando. Logo, fechou a equação: ele faz, você chora. E não é de vergonha, não: é de emoção sincera e profunda. Vai vendo o que é a maternidade…

7. Aprendi a comer resto. Resto da comida do filho, da sobremesa do filho, da papinha do filho, do iogurte do filho, do bolo do filho, da sopa do filho, do biscoito do filho… virei uma usina de reaproveitamento de alimentos.

8. Aprendi o que é paciência. Minha mãe sempre me olhava no exercício pleno da maternidade e dizia “jamais poderia imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que você seria paciente com criança como é com seus filhos”. Na boa? Nem eu.

9. Aprendi o que é simplicidade. Quer coisa mais simples do que ir para outra dimensão apenas porque, agora, seu filho não tem mais dor? Porque ele voltou a se alimentar depois de uma gripe incapacitante? Porque ele aprendeu a andar? Porque ele aprendeu a pronunciar “mãe”? Simplicidade em estado bruto.

10. Aprendi o que é dor. Ver um filho seu se contorcendo de dor e nada poder fazer para alterar esse estado de coisas é um aprendizado prático do que é a “dor das mães”. Ver um filho sofrendo por aquelas razões que você não consegue evitar, desculpe, te leva às lágrimas e te faz sofrer até mais do que ele. É assim que funciona.

11. Aprendi a pedir a Deus. E a agradecer também. Você pede a Ele que proteja seu rebento, que o livre de todo mal, que ele saiba dizer “não” para o que não presta, que só diga “sim” para as coisas do bem, que ele seja feliz, que seja estudioso, que respeito o próximo, que não fique doente mas, se adoecer, que fique bom logo. E agradece por qualquer coisinha que aconteça, afinal, é seu filho, né?

12. Aprendi a entender a minha mãe. Em quase tudo.

13. Aprendi a ser feliz. Qualquer coisa e lá estão os olhos marejados…

14. No final das contas, aprendi que a maternidade foi a minha maior e melhor escola. Aprendi que, nessa escola, a formação é infinita. A gente nunca termina de aprender. Cada dia, uma lição. Cada episódio, um aprendizado. Cada etapa, uma nova conquista. Diploma em papel não há. Mas olhar para o filho e perceber, ao longo da vida, os bons resultados, deve ser mais gratificante do que qualquer grau de doutor. Olhos marejados, alma lavada.

Sou mãe. Fim.

*Claudia Brasil é jornalista e mãe de dois meninos.

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Veja também:

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Decálogo dos meus desafios

Carta a meus filhos

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Anjos

bebezinho anjo dormindo

Uma vez, perguntei a meus filhos sobre seus anjos da guarda. O mais velho me disse que seu anjo era adulto e tinha seis asas, como um pokémon.

anjo guerreiro com seis asas

Eu nunca tinha imaginado um anjo que tivesse mais de duas asas, então fui pesquisar no Google e descobri que ele existe, sim. Na verdade, é um serafim. Os serafins têm seis asas, são os anjos mais poderosos que existem e estão na primeira posição na hierarquia celeste, mais próximos de Deus. Surpreendente, não?

Já minha filha disse que sua “anja” tinha a mesma idade dela. Quando ela fez o desenho, o irmão perguntou: “Mas ela tem asa de borboleta? É anja ou é fada?”

desenho de criança com anja

Bem, se pararmos para pensar, as asas são os membros superiores dos animais, como aves ou até o morcego. Seguindo as regras da natureza, se os anjos têm asas, não teriam braços, portanto. Assim, o mais certo seria aproximá-los dos insetos, como a borboleta, que tem os membros separados das asas.

Capa do livro Menino de Asas, de Homero Homem

Asas no lugar de braços, como no livro de Homero Homem, que li quando tinha 13 anos

Divagações à parte, ainda prefiro a definição da minha filha: a anja é do jeito que é e pronto.

O anjo do caçula “é um ano mais velho” que ele. Sorridente e com asas bicolores, parece um super-herói.

anjo

Quando meus filhos estão assustados com alguma coisa, peço que eles se lembrem de seus anjos. É muito bom saber que nunca estamos sozinhos.

Anjos são universais. Independentemente do nome que se dê a eles – mentores, mestres, espíritos guardiões, intuição -, a referência a eles está presente, não importa a religião ou doutrina, ou mesmo o saber popular. É a experiência do sagrado em nós, e ainda que prefiramos outro nome para isso também, é o acesso à inteligência máxima, à consciência antiga do Universo.

anjo da guarda acompanhando criança

 

É reconfortante acreditar que existe um componente divino que é exclusivamente seu. Na verdade, é uma alegria um tiquinho egoísta ;), de ter uma força que está permanentemente a seu lado. Uma certeza de proteção, orientação, consolo e, ao mesmo tempo, de respeito ao seu livre-arbítrio. De compreensão do que você é, com todos os seus defeitos.

Amo os anjos.

E eles são fáceis de amar, mesmo, porque são pura expressão do amor sem condições.

anjo da guarda com cabelos compridos

O meu anjo cresceu junto comigo. Quando eu era pequena, ele tinha minha idade. Hoje, é um loirão de responsa, com asas poderosas, para que eu caiba dentro delas. Com ele, não tem moleza. Costumo dizer até que ele é meio brabo. Quando penso besteira, quase dá para ouvi-lo: “Ai ai ai, lá vai você de novo!”

anjo loiro com grandes asas

Para as crianças, a convivência com os anjos é natural. Aí, nós vamos crescendo e nos esquecendo de sua companhia.

Os anjos não necessariamente se apresentam com seus halos de luz e suas asas. Às vezes, não têm nem aparência. Podem ser apenas uma voz sábia, que parece vir de dentro. Outras vezes, nem mesmo isso: podem ser apenas uma sensação.

Noutros momentos, se estivermos em sintonia com eles, eles nos mandam recados de diferentes formas:

No verso de uma música que toca na rádio.

Na frase de um cartaz na rua.

No comentário de alguém que você nunca viu e nunca tornará a ver, mas que faz a diferença no seu dia – e por que não? -, na sua vida.

Acreditando nos anjos ou não, pensando neles ou não, o que importa de fato é saber que podemos ser anjos para os outros.

E você? Como é seu anjo? Você foi anjo para alguém hoje?

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Quem acompanha o blog já se deparou com posts que falam sobre anjos:

O anjo de origami

O anjo na areia

Onde está meu bebê?

Perda do bebê

A dor do mundo

 

“I believe in angels, something good in everything I see”. (Abba)

Eu acredito em anjos: algo bom em tudo o que vejo.

 

Quem é que abranda a saudade dessa neta?

“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

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Para Vovó

Noite profética

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