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Bancando os próprios sonhos

Hoje vou falar de seis filmes e de uma lição escondida para aplicar com meus filhos.

Os filmes são:

  • “Magia além das palavras”, sobre a vida da escritora da saga Harry Potter, Joanne K. Rowling;
  • “Escritores da liberdade”, com as incríveis iniciativas da professora Erin Gruwell, que trabalha com estudantes em situação de risco numa escola dos Estados Unidos;
  • “Uma lição de vida” (“O aluno”), sobre Kimani N’gan’ga Maruge, que aos 84 anos entrou na escola para aprender a ler, no Quênia. Mas o destaque que quero dar é para a professora que o aceita na turma, Jane Obinchu;
  • “A teoria de tudo”, baseado na história do astrofísico Stephen Hawking, que faz descobertas científicas impressionantes, apesar da doença degenerativa que paralisa seu corpo;
  • “Lion”, sobre Saroo, um garotinho indiano de 5 anos que se perde da família e depois é adotado por um casal australiano. Já adulto, ele inicia a jornada em busca de suas origens;
  • “Mãos talentosas: a história de Ben Carson”, que mostra a trajetória do neurocirurgião pediátrico que supera os desafios da infância pobre em Detroit para estudar medicina e salvar vidas.

O que todos têm em comum? São filmes emocionantes, baseados em fatos reais. Contam a história de pessoas que correram atrás de seus sonhos. Os três primeiros falam de mulheres; os três últimos, de homens.

*** ATENÇÃO: os trechos a seguir contêm alguns spoilers (revelações de enredo), mas sem interferir de modo algum na história dos filmes. Aliás, acho que muita gente nem sequer vai se dar conta dos aspectos que vou pontuar aqui.  Ah! E não são filmes para crianças, ok? ***

filme magic beyond words, magia além das palavras

No primeiro filme, Joanne se vê às voltas com o marido que começa a beber e agir com violência após perder o emprego e saber que ela está grávida. Ele se revolta com o tempo que a escritora dedica a esse tal Harry Potter.

Filme Freedom Writers, os escritores da liberdade

Em “Escritores da liberdade”, o marido de Erin sai de casa porque se ressente da ausência da esposa, que, segundo ele, é devotada demais a estudantes que “nem são seus filhos”. E diz a ela: “Você fez um ideal de mim”.

Filme Uma lição de vida, o aluno, The first grader

Jane Obinchu, a professora de Maruge, enfrenta enormes resistências, desde o colega da escola, passando pelo diretor de educação da cidade até às autoridades de educação do Quênia, para continuar lecionando ao senhor de 84 anos. O que ela não contava é com a falta de apoio do próprio marido, que alega “estarem falando” de sua esposa.

Filme A teoria de tudo

O filme “A Teoria de tudo” dá ênfase, no enredo, ao relacionamento do gênio Stephen com Jane Wilde. Ela o apoia incondicionalmente durante todo o tempo, mas é sábia para manter a distância saudável quando ele se torna famoso e a situação se mostra insustentável. No entanto, ela está junto dele no final.

Filme Lion, uma jornada para casa

Em Lion, Saroo se envolve com uma jovem que o incentiva a ir atrás de suas origens. Ela insiste para que ele conte a empreitada à mãe adotiva, coisa que ele não está disposto a fazer. Diante das atitudes obcecadas do namorado, ela, como no filme anterior, se afasta. Mas está disponível (assim como a mãe adotiva) para acolhê-lo e comemorar com ele no final.

Filme Mãos talentosas, a história de Ben Carson

“Ben Carson”, para mim, é o mais emblemático. A presença e a importância da mãe na vida do médico é notável. Entretanto, me impressionaram mais os diálogos com a namorada e depois esposa:

(Ben) – Vou me tornar um neurocirurgião! Isso significa que vou passar dias e noites fora de casa, no hospital!

(a resposta dela, com um sorriso): – Isso é uma promessa?

(Ela, no hospital, após perder a gravidez de dois gêmeos) – O que você está fazendo aqui? Está atrasado! Seus pacientes precisam de você!

(Ben) – Você precisa de mim.

Eu tenho você. Vá cuidar de seus pacientes.

E aí? Tirou suas conclusões sobre o que está em jogo nessas descrições?

Será que, para viver um grande sonho e fazer a diferença no mundo, as mulheres sempre estarão sozinhas? Diferentemente dos homens?

Que lição tenho a tirar desses aspectos em comum nos filmes? Que “por trás de todo grande homem tem sempre uma grande mulher”, mas que, “por trás de toda mulher, tem sempre ela mesma”?

Olha, me recuso a encontrar essas “morais da história”. E qual moral, então, devo escolher para aplicar na educação dos meus filhos? Sim, porque existe algo muito esquisito na permanência do patriarcado quando são as mulheres, em estrondosa maioria, as responsáveis pela criação dos filhos.

Será suficiente dizer a meus filhos que respeitem e apoiem quem eles escolherem para compartilhar a vida? E, à minha filha em particular, que ela aprenda a bancar seus próprios sonhos?

Não sei, sinceramente, como essa história termina. A bem da verdade, não sei nem como ela começa.

Se alguém souber, me conte. Sem medo de dar spoiler.

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O teste do pai que morre

Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro. Alguém chama a ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital às pressas. Ao chegar ao hospital, a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: “Não posso operar esse menino! Ele é meu filho!”

Qual foi seu primeiro pensamento ao ler esse texto?

Recebi esse teste. E resolvi fazer com minha filha e meu filho, de 11 e 9 anos respectivamente.

As respostas foram ótimas. O menino deve ter sido adotado. Ou é filho de dois pais. A mais viajante: o cirurgião recebeu, como médium, o espírito do pai que morreu.

Achei interessante que nenhum dos meus filhos pensou nos típicos episódios de novela mexicana: “Eu não sou seu pai verdadeiro! Seu pai é….” (Darth Vader. Não resisti à piadinha infame).

E fiquei feliz de ninguém ter pensado que a mãe do menino traiu o marido.

Adorei ver que meus filhos naturalizaram a adoção. A união homoafetiva. E até aquelas coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia não comporta, do mundo espiritual.

Mas eles não naturalizaram o que o teste queria medir:

POR QUE NINGUÉM PENSOU QUE O CENTRO CIRÚRGICO ESTAVA SENDO COMANDADO POR UMA MULHER?

“A pessoa mais competente” é a mãe do menino!

Feliz Dia das Mulheres!

E a vida, o que é? – 6 anos de blog

papel higiênico triste e vaso sanitário

Ilustração: Vyacheslav Shilov

Conclusões

Hope Silver (www.hopesilver.ru)

– A vida é um presente, – disse o papel de embrulho.

– A vida é imaginação, – proferiu o papel de escrita, com confiança.

– A vida é um arco-íris! – exclamou o papel colorido.

– A vida são eventos atuais, – relatou o jornal.

– A vida é uma m[…], – concluiu o papel higiênico, melancólico.

(SILVER, Hope / Nadezhda Serebrennikova. Curious Things. Berkeley – CA-USA, 2015. Tradução livre: Marusia)

 

Diferentes pontos de vista, diferentes percepções, diferentes conclusões. Diferentes papéis na vida. A esperança prevalece, no entanto. Nada, por mais determinista que pareça, é definitivo.

Minha filha de dez anos deu um novo fim para a historinha e para o tristonho papel higiênico. Na falta de espuma de enchimento, usou pedacinhos de papel higiênico para os bichinhos de crochê que estava fazendo.

A lição se aplica ao papel de escrita e ao colorido, e serve para o papel de embrulho e para o jornal, após aberto o presente e lidas as notícias:

A vida – com arte – é preenchimento.

unicórnio e rosquinha feitos de crochê

Um unicórnio e um donut de crochê, feitos pela minha menina

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Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

This post in English: And what is life?

No seu lugar: pelo direito de parir em paz

Uma estudante de medicina acompanha os horrores da violência obstétrica e resolve divulgar na mídia:

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/estudante-de-medicina-escreve-desabafo-depois-de-assistir-a-parto-violento-feito-por-professora-chorei-de-raiva-e-frustracao-no-quarto-dos-internos/

 

Eu me coloquei no lugar da parturiente. Uma jovem de apenas 16 anos, tendo seu primeiro filho. Vi pelos seus olhos, atônitos e aterrorizados, a sequência crescente de arbitrariedades, abusos e violências, no dia do nascimento do seu filho e também do seu nascimento como mãe. Querida jovem, eu desejo que você não deixe nascer o ódio, a amargura e o desalento. Que suas lágrimas façam germinar em seu coração toda a força que também é gentileza, toda confiança que também é doçura e todo o poder que também é generosidade.

Eu me coloquei no lugar da mãe da jovem, que a estava acompanhando. Eu pude sentir o desespero no seu coração materno por ter negado o direito de proteger sua filha. Eu não sei se você também teve partos difíceis e tristemente constatou que nada mudou desde então; que ser mãe ainda é sinônimo de sofrimento. Eu senti sua vulnerabilidade diante de um sistema doente, do qual você depende. Eu vivi a angústia do seu silêncio resignado, compartilhado por tantas e tantas mulheres que passaram por semelhante tortura. Querida mãe e recém-vovó, eu desejo que seus braços aconchegantes abracem sua filha e o bebê; que sejam braços grandes o suficiente para incluir a você mesma nesse abraço de consolo e conforto.

Eu me coloquei no seu lugar, estudante de medicina. Você sabia os procedimentos médicos corretos. Você conhecia a lei. Muito além da teoria, você percebia em seu coração que aquilo não era humano. Eu chorei com você pela impotência diante da injustiça. Seu relatório médico foi adulterado. Mas você teve coragem para contar à imprensa o que permaneceria nos muros daquele hospital, ou simplesmente desapareceria sob o argumento abjeto de que era “frescura de grávida”. Querida estudante, você será uma médica formidável. Desejo que você possa amparar em suas mãos carinhosas muitas vidas.

Eu me coloquei no lugar de todos os estudantes dessa “professora”. Não sei se vocês testemunharam práticas similares; por favor, não assumam que elas devam ser assim. Queridos estudantes, desejo que a vida lhes dê outros mestres que honrem o compromisso de verdadeiramente promover seu aprendizado e crescimento.

Eu me coloquei no lugar da mulher que conduziu o parto. Não sei se o que você fez é parte da sua rotina ou foi um caso isolado. Não faço ideia do que você quis “ensinar”. Para a jovem mãe, “que criar filho não é brincadeira”? Você a julgou pela idade? A única coisa que você transmitiu foi o absurdo que, de sua posição, do “seu lugar”, você podia humilhar os outros, estraçalhar o corpo, “a hora”, os sonhos de alguém. Você esbravejou para que todos se pusessem “em seus lugares” – a paciente, o bebê, a equipe do hospital, as estudantes.

Durante milênios, o parto era um momento sagrado, com presença exclusiva de pessoas do sexo feminino. No Século XX, os homens decidiram que queriam participar desse mistério, e o medicalizaram. Afinal, era algo muito profundo para deixar na mão só das mulheres. Esta é a origem da violência obstétrica: a violação do protagonismo feminino. Mas você, que estava no plantão obstétrico naquele dia, é mulher! Você tinha na sua frente um corpo igual ao seu! Nada, absolutamente nada, pode justificar o que você fez!

Você não é médica. Não tem capacidade de lidar com a vida. Não é professora. Não tem o direito de disseminar o que pensa. Você não é humana. Não pode conviver com os outros. Mesmo que você fosse sozinha para o ártico quebrar gelo, as rochas chorariam. Até o momento em que você decidisse quebrar o gelo do seu coração, que é o que lhe desejo. Mas, enquanto esse dia não chegar, eu desejo que instâncias superiores a impeçam de exercer sua profissão e a façam arcar com as consequências, para que você não continue colocando em risco a integridade e a dignidade de mais ninguém.

Eu também me coloquei no lugar do bebê. Você estava em seu tempo perfeito, mas alguém não o respeitou e quis lhe arrancar de sua primeira morada à força, como quem arrebenta as pétalas de uma flor para abri-la. Querido bebê, eu desejo que você se torne uma pessoa brilhante, que dê muito orgulho e amor à sua mãe, à sua família e a todos que tiverem o privilégio de contar com sua presença. Que, no compasso do seu coração, você busque a defesa da paz e da justiça, ajudando a inaugurar um novo tempo.

E eu, o que posso fazer aqui do meu lugar, além dos desejos sinceros e de ajudar a ampliar a discussão sobre a violência obstétrica?

Escrever para a Câmara dos Deputados, manifestando apoio ao projeto de lei que combate a violência obstétrica e cria mecanismos para que as mulheres sejam amparadas e tenham “uma boa hora”.

:: Conheça o Projeto de Lei 7633/14::

Desejo, de coração, que você que está me lendo agora possa se engajar nesse movimento.

Clique no link abaixo ou ligue para o Disque Câmara – 0800 619619 (ligação gratuita de qualquer lugar do Brasil), pedindo que os deputados aprovem o Projeto de Lei 7633/14. Ajude a divulgar!

http://www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco?contexto=agencia

Se você sofreu violência obstétrica ou sabe de alguém que teve experiências nesse sentido, entre em contato com a Artemis, organização que luta pelos direitos das mulheres de parirem em harmonia e segurança:

http://artemis.org.br/como-a-artemis-pode-ajudar/

 

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Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

A dor do mundo

Em boa hora

Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

Em boa hora

Este post é dedicado a minhas primas e a todas as outras mulheres que estão pertinho de ganhar neném.

mulher grávida com céu estrelado

Imagem: Another Sunrise

É um costume antigo desejar “uma boa hora” para a grávida que está prestes a dar à luz. É uma expressão curiosa, porque não se relaciona nem ao ato, nem à pessoa, mas ao tempo. Em especial, ao momento, ao presente. Ao agora. Desejamos que tudo corra bem nesse instante.

As mamães de primeira viagem me perguntam muitas coisas sobre essa “hora”: é normal ter medo? É normal chorar? É normal sentir dor? Sentir tristeza? Insegurança? É normal não sentir nada?

Respondo com outras perguntas: o que significa “normal”? Aquilo que segue “a norma”? O mais comum? Ou “o que é passível de acontecer”?

Bom, é possível ter medo, ou ser invadida por uma coragem inexplicável. É possível chorar, sorrir ou ficar em silêncio. É possível sentir dor, tristeza, insegurança. É possível entrar em êxtase, amar de paixão. Pode ser uma experiência transformadora, iniciática ou mesmo revolucionária. Ou ser fluida, natural. E até as duas coisas simultaneamente.

É possível não sentir nada. É possível que nada do que a gente imaginou ou planejou aconteça. É possível ficar frustrada. Ou surpresa.

Relógio com palavra AGORA no lugar dos númerosPara mim, a energia focada no presente é a chave. Quase um treinamento para a chegada da criança. O tempo inteiro a criança chama a nossa consciência para o agora. Por isso, é tão desafiante para nós, adultos, que nos acostumamos a remoer o passado e a nos preocupar com o futuro.

O que quer que ocorra, do modo que for, viva o agora. Entregue-se. Não existe norma, não existe o que é normal, porque é uma experiência ímpar.

Não há conhecimento, curso, dica, conselho, vivência anterior que prepare você para esse momento. É um mistério absoluto até para uma médica obstetra que está tendo o primeiro filho. Aliás, até quem já passou por isso mais de uma vez (no meu caso, três!), é incomparável.

E aí está a coisa mais louca. Cada parto é um parto, é um ato único, como cada um de nós é único. Ao mesmo tempo, o parto nos une como humanidade. Olhe em volta. Olhe para você. As pessoas podem ser diferentes em tudo, exceto numa coisa: necessariamente elas passaram pela experiência do parto, na hora do nascimento. Desde que o mundo é mundo.

Viva a perplexidade de olhar para alguém que simplesmente não existia antes de você engravidar. Que seja uma pessoa que possa nos ajudar a tornar este mesmo mundo o lugar que queremos.

Em boa hora!

grávida com planeta Terra na barriga

Imagem: Wild+Wee

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Para as gravidinhas

Mãe envelope

O que aprendi sobre… gravidez

É só o meu, ou seu bebê também…

O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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As coisas não acontecem como a gente quer

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