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Maioridade penal: a pergunta que ninguém fez

Quero tranquilizar quem está lendo. Não vou defender nenhuma posição. Não quero convencer você a nada – até porque, no “Fla-Flu” que se tornou a discussão sobre maioridade penal, ninguém convence ninguém. Aqui, quero fazer a pergunta que ainda não vi ninguém fazer.

Não vou falar, por exemplo, sobre a idade a partir da qual uma pessoa tem discernimento acerca do certo ou do errado. Se o novo mundo globalizado, os meios de comunicação e a internet fazem com que as crianças amadureçam mais cedo. Se o fato de reduzir para 16, 12, 10 ou 6 anos faz diferença. Se há países com idades variadas para responsabilizar ou punir. Se há locais em que a redução foi feita e a criminalidade aumentou, ou o contrário.

Não serão assuntos deste post questões como: “a criança que comete um crime deixa de ser criança e passa a ser um bandido?”, “bandido bom é bandido preso?” Nem “escola é para criança que quer estudar, cadeia é para quem cometer crime contra a vida”, “direitos humanos para humanos direitos”, “culpar a sociedade é fácil”, “cada um deve ser responsável pelos seus atos”. Não lidarei com esses aspectos.

Nem vou comentar se a propensão para cometer um crime está ligada ou não à desigualdade de renda e de recursos materiais. Se a chance de um adolescente ser preso é maior ou menor dependendo da sua classe social ou da cor de sua pele. Se o capitalismo de mercado e a publicidade são responsáveis ou não por incentivar o consumo para quem não pode consumir, e se hoje em dia a pessoa é medida pelo que tem e não pelo que é. Se a mídia está fazendo sensacionalismo ou não quando há adolescentes envolvidos em crimes bárbaros.

Não vou entrar no debate sobre a presença do Estado. Se o Estado só vai aparecer na hora de punir, em vez de garantir, desde o nascimento de uma pessoa, os direitos básicos de educação, saúde, segurança.

Da mesma forma, não pretendo avaliar se, desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA chegou alguma vez a ser cumprido de fato ou não. Se é necessário fazer mais leis, ou se essa é mais uma lei que não vai resolver o problema. Se o que está sendo tratado é a causa ou a consequência.

O número de adolescentes entre 16 e 18 anos, que comete crimes, corresponde a somente 0,01% da população do Brasil? Qual é a fonte desse dado? Mesmo que esse número esteja certo: uma única vida que seja salva não é motivo de reduzir a maioridade penal? Nenhuma dessas dúvidas será objeto do meu texto.

Não vou discorrer sobre o adulto que alicia criança para cometer crimes em seu lugar, “porque sabe que não vai dar em nada”, ou “porque fica três anos e depois é solto”. Nem sobre a sensação de impunidade, as diferenças entre vingança e justiça, a necessidade de o Congresso Nacional “dar uma resposta rápida à sociedade”. Nem mesmo se as pesquisas que apontam 87% da população brasileira como a favor da redução da maioridade penal são confiáveis ou não.

Outra coisa que não vou discutir é o sistema penitenciário brasileiro; se o fato de termos a 4ª população carcerária do mundo tem algum impacto sobre a criminalidade, se apenas uma pequena porcentagem dos homicídios tem resolução. Ou se os detentos continuam comandando o crime de dentro da prisão, sem se preocupar com a retaliação das gangues rivais que estão do lado de fora.

Nem mesmo se os centros de medidas socioeducativas (como Febem, Fundação Casa e outros nomes), assemelham-se a cadeias, ou são até piores. Nem se a internação recupera alguém ou não, se há reincidências. Tampouco se a redução da maioridade penal é válida, desde que os sistemas entre adolescentes e adultos sejam separados. Nem se será exclusivo para crimes hediondos, sem considerar roubo de galinha.

Também não vou perguntar: “e se a vítima fosse um parente seu?” nem “e se o acusado fosse um parente seu?” Muito menos indagar “vai esperar matar para depois prender?” nem “prender o adolescente vai ressuscitar a pessoa que morreu?”

Finalmente, a pergunta que ninguém fez é:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ESTÃO MATANDO?

Vou ensaiar uma hipótese: crianças e adolescentes estão matando porque perderam o medo de morrer. E aí temos uma nova questão:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PERDERAM O MEDO DE MORRER?

Que sociedade é essa? A que grau de violência – psicológica, física, sexual, simbólica – nossa infância ficou exposta?

Um último arremate:

QUEM NÃO TEM MEDO DE MORRER VAI TER MEDO DE SER PRESO?

 

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Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

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Veja também:

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

El Bigodito

Mamífera!

Por que temos filhos?

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários 😉 )

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Três histórias de amamentação

O maior inimigo da mãe

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Cena 1: Com 2 litros diários enviados aos bancos de leite, Michele é considerada a maior doadora de leite materno do mundo

Cena 2: O comediante Danilo Gentili compara o leite doado à performance do ator pornô Kid Bengala

Cena 3: Michele é ridicularizada onde mora e tem a produção de leite comprometida

Cena 4: Michele entra na Justiça contra Gentili

Cena 5: O caso repercute na opinião pública. Michele recebe apoio de Neymar e do Governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

O objetivo deste post é fazer perguntas.

Por que Neymar e o governador de Pernambuco só se manifestaram depois da piada? Doar 2 litros diários não é motivo suficiente para angariar esse apoio?

Por que as pessoas riem desse tipo de piada? Porque “não é com elas”? Porque sempre se riu disso? Porque também já foram alvo? Ou riem de nervoso, para não serem as próximas?

Qual a diferença entre esse tipo de piada e o bullying que se pretende banir das escolas? O que caracteriza o bullying? A força física do buller? Ou a força do grupo – o apoio de colegas, ou mesmo dos pais, que o protegem? Isso não é covardia?

Quem são as vítimas? Como torná-las alvos permanentes, a chamada “piada pronta”? Usar pessoas cujas características não foram objeto de “escolha” delas? É possível mudar a cidade onde se nasceu? A cor da pele? A estatura, a orientação sexual ou outro aspecto genético – por exemplo, a produção de leite materno?

Que efeitos a piada tem sobre a vítima? Devastadores, até porque nem sempre a pessoa tem como mudar o que deu origem à piada, como dito acima? Do que depende a capacidade de superar a humilhação? Da estrutura individual, que é construída com o apoio de alguém? E se não houver esse apoio?

E se o bullying for a única chance para uma pessoa ter a atenção dos outros e sair da invisibilidade? Isso serve para o buller e para a vítima? Os dois são vítimas?

Há como prever os efeitos de uma piada sobre o público? De quem é a responsabilidade: do comediante ou de quem ri? Fazer esse tipo de piada é dar munição para ignorantes se acharem no direito de ofender os outros?

Tanto Gentili quanto as pessoas que humilharam Michele pensaram nos bebezinhos alimentados por ela?

E o que dizer de quem acusa Michele de estar se “promovendo”, com interesses “escusos”, visando à candidatura política? Qual o problema nisso? Como seria um país que contasse com uma Michele em cada prefeitura, em cada governo, nas câmaras de vereadores ou no Congresso Nacional, com pessoas que pensassem em ajudar os outros?

É “só” uma piada? Mobilizar sentidos não é coisa séria? Ou isso é desculpa para quando ocorre a reação – uma forma de desqualificar o sentimento de quem reage?

A reação é nova? Por que, antes, ninguém dizia nada? Era “normal” rir de quem já estava vulnerável? Ou faltava coragem para reagir?

Só o comediante tem “liberdade de expressão”? Por que, quando uma pessoa reage, é acusada de fazer “patrulha do politicamente correto”? Ela também não tem direito à liberdade de expressão?

O humor tem função social? É ofensa ou é crítica? Humor inteligente e transformador é quando o comediante ri de si mesmo, e quando ataca quem é forte? (Para saber mais, assista ao excelente documentário “O riso dos outros”, de Pedro Arantes, apresentado pela TV Câmara – use fone de ouvido, porque o conteúdo não é para crianças: https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54).

Calar o comediante é a solução? E se o que ele estiver fazendo for evidenciar, jogar um holofote sobre o que está arraigado na sociedade, mas de forma subterrânea? Não funciona como um termômetro dos nossos tempos, tal qual a publicidade? O que isso diz sobre nós?

 Seria o humor um importante catalisador de reações, com poder agregador? Estaria dando munição também para as pessoas se unirem e protestarem? Precisamos disso?

Para fechar com síndrome de Poliana: o episódio todo pode ser ponto de partida para que as pessoas possam debater a importância do leite materno? Quantas pessoas passaram a saber que leite humano pode ser doado? O que representam esses 2 litros? Será que as pessoas sabem que apenas 10ml são uma “refeição completa” para um bebê prematuro?

Qual a sua opinião? E o que isso diz sobre você?

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Veja também:

Campanhas de Amamentação: uma análise séria e franca

Porque nós somos mamíferos

Quando não é possível amamentar: Marusia fala

Sobre Ballet e bullying

Meu filho vai usar óculos

Barba Azul e a violência contra a mulher

capa do livro Barba Azul, de Ruth Rocha

Meu filho de 10 anos chegou para mim indignado:

– Peguei na biblioteca esse livro da Ruth Rocha e detestei!

– Que livro?

– Barba Azul.

– É um conto de fadas muito antigo.

– Antigo e horroroso!

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Barba Azul é bem menos conhecido que Branca de Neve e Cinderela (que também têm seus requintes de crueldade). Para quem não leu, é a história de um nobre que se casa muitas vezes, e ninguém sabe o paradeiro das esposas. Ao se casar com a oitava, dá a ela as chaves de todos os aposentos do palácio, alertando-a apenas de um, no qual não deveria entrar jamais. Ela (obviamente) entra e encontra os corpos das esposas assassinadas. Ao ver seu segredo revelado, Barba Azul diz que ela terá o mesmo destino das demais, por ter traído sua confiança. Entretanto, os irmãos da moça chegam e conseguem impedi-lo, matando-o.

Eu li Barba Azul quando tinha a idade do meu filho. O curioso é que não me impressionou tanto. Em parte, penso que o fato de ter escolhido um livro da Ruth Rocha criou nele a expectativa de algo mais leve e divertido; daí a sua indignação. Mas resolvi ir mais a fundo e provoquei:

– Ué, você joga esses videogames do Lego, e se impressionou com Barba Azul?

– Totalmente diferente, mãe! Aquilo é só um jogo.

– Quando o Batman derrota o inimigo, o boneco explode, e sai cabeça, perna, braço de Lego para todo lado!

– O Lego é de brinquedo.

– E aquele game de luta? Aquele também é horrível.

– Luta é um esporte, e os lutadores têm a mesma força. As mulheres do Barba Azul não tinham como se defender.

(continuando a provocação) – Mas elas não mereceram? Elas foram desobedientes, ele tinha pedido para elas não entrarem naquela sala.

– Mas isso não é motivo para matar ninguém, mãe!

– Os irmãos da moça também mataram o Barba Azul.

Aí minha filha, que estava prestando atenção à conversa toda, disse:

– Mas ele é do Mal, mãe.

Eu reli Barba Azul quando estava grávida dela, em um contexto bem diferente: na análise formidável de Clarissa Pinkola Estés, no livro “Mulheres que correm com os lobos”. A autora associa cada personagem da história, e detalhes como a chave, aos elementos da psique feminina, tomando por base a teoria dos arquétipos de Jung. E mostra a importância de aniquilarmos, dentro de nós, o monstro mental que nos impede de sermos curiosas, criativas e termos acesso às NOSSAS VERDADES.

De aniquilarmos essa força que “é do Mal”.

Talvez, quando eu era criança, vivesse em uma sociedade em que a agressão às mulheres era “cultural”. Em que ler Barba Azul não despertava indignação. Em que as pessoas estavam “acostumadas” a ver, sem questionar, anúncios publicitários como estes (traduções livres):

Anúncio do tecido Dacron. Homem pisa na cabeça de mulher

“É bom ter uma garota por perto”

Anúncio do café Chase and Samborn, com marido batendo na mulher

“Se o seu marido descobrir que você não está escolhendo o café mais fresco…”

Anúncio da cerveja Schlitz. Marido consola esposa, que chora porque queimou a comida

“Não chore, querida, você não queimou a cerveja!”

Anúncio dos suéteres Drummond. Homens no topo da montanha e mulher pendurada.

“Homens são melhores que as mulheres. Em casa, elas são úteis – e até agradáveis. Na montanha, contudo, elas são um estorvo.”

Anúncio das gravatas Van Heusen. Mulher ajoelha-se e serve o café para o marido, na cama.

“Mostre a ela que este é o mundo do homem.”

Anúncio da batedeira Kenwood. Mulher com chapéu de chefe de cozinha abraça o homem de terno.

“O chefe faz tudo, exceto cozinhar – é para isso que servem as esposas!”

Anúncio de Palmolive. Mulher à frente do espelho, com ombro à mostra, olha de forma sedutora para o expectador.

“A maioria dos homens pergunta: ‘Ela é bonita?’ e não ‘Ela é inteligente?’ “

Anúncio das vitaminas Kellog's PEP.  Homem de terno abraça a esposa com avental e espanador.

“Quanto mais duro uma esposa trabalha, mais bonita ela fica! Vitaminas para animar”

Anúncio da máquina de franquia postal Pitney Bowes. Homem tenta convencer mulher a usar máquina.

“É sempre ilegal matar uma mulher?”

Hoje me choca ler a notícia de que a Lei Maria da Penha não conseguiu reduzir o número de homicídios de mulheres. Barba Azul de carne e osso ainda está atual. Mas, ao contrário da história, não é a pena de morte a solução. Deve-se destruir o aspecto simbólico, para que então isso se reflita na realidade – é por isso que os contos de fadas são tão preciosos. A resposta está no conhecimento, na educação.

Por isso, é maravilhoso ver meus filhos adotando uma postura de debate, de contestação. De não achar “normal” que mulheres sejam agredidas. Nem na ficção.

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