A análise

A ideia da pesquisa é mostrar como a mídia apresenta modelos de mãe (perfeita) e observar até que ponto a gente absorve e naturalmente acaba por se auto-impor esses modelos.

A motivação

No início, pensei em fazer uma pesquisa acadêmica, com todo o rigor que lhe é exigido. Mas a motivação tinha origem em uma experiência pessoal,e não havia meio de me desvencilhar dela. Quando meu primeiro filho nasceu, em 2003, me vi às voltas com desafios que eu nunca pude prever. Um dia, sentada na sala de espera do consultório do ginecologista, li uma matéria na revista Claudia com uma moça que tinha tido seu filho no mesmíssimo dia que eu: 21 de janeiro. Era maio e seu bebê completava 4 meses, como o meu, mas para ela tudo tinha transcorrido com absoluta tranquilidade… bem diferente do que eu estava vivenciando…

De repente me vi invadida por um enorme sentimento de culpa. Ou incompetência. Ou inveja. Não sei… As revistas sobre bebês nos consultórios, as Caras e Contigos do cabeleireiro com tantos depoimentos ótimos, os anúncios de fraldas e papinhas descortinavam um mundo tão cor-de-rosa…Comecei a sentir obrigação de reproduzir esse mundo.

 O método

No mesmo ano de 2003, defendi minha dissertação de mestrado, sobre propaganda social. A questão da pesquisa era: por que anúncios de utilidade pública não têm o mesmo impacto que os anúncios comerciais? Por que era mais fácil se convencer a comprar um automóvel que a obedecer os limites de velocidade? Essa pesquisa deu origem, mais tarde, ao livro “Duas Faces da Publicidade – campanhas sociais e mercadológicas”, da Editora Annablume.

Muito bem, eu utilizei os métodos da Análise do Discurso francesa nesse trabalho. E essa mesma Análise do Discurso fez acender a lâmpada: “é muita inocência sua querer adotar esses modelos de mãe perfeita…”

Quem começa a trabalhar com a Análise do Discurso (AD) se encanta, porque passa a observar tudo com um olhar diferente – mais que isso, uma postura diferente.

O objeto

De repente, aquele mundo ideal que eu folheava nas revistas deixou de me angustiar para se transformar em um instigante tema de análise. Comecei a identificar as regularidades (o que se repetia naqueles discursos). Juntei todas as revistas sobre bebês que eu tinha e, por dois anos, sempre no mês de maio, ia a várias bancas de jornal e comprava tudo o que encontrasse sobre o assunto – por ser mês das mães, é claro que o número de edições era bem considerável. Ao mesmo tempo, recortava e guardava matérias e anúncios de outras revistas diversas sempre que algo me chamava a atenção. Pronto. Agora também já tinha um respeitável objeto de pesquisa.

Eu poderia esperar para alinhavar tudo e transformar em um artigo ou monografia, mas decidi ir escrevendo aos pouquinhos (nas pílulas de tempo que sobram, afinal agora, dez anos depois, já são três crianças). Também é necessário ter desapego –e coragem – para compartilhar algo que ainda está em gestação. Ao mesmo tempo, contar com a possibilidade de escrever a “muitas mãos” (e muitas mães), na medida em que se abre o espaço para a participação de outras pessoas, pela Internet.

Isso me motivou a incluir na pesquisa outros “modelos de mãe perfeita”, para além do que está na mídia institucionalizada: os que nascem nas redes sociais e são responsáveis pela multiplicidade de “vozes” sobre o tema. Assim, pode-se estabelecer o diálogo entre esses dois discursos – na mídia e na web.

 Livros

Ao objeto fui acrescentando (e ainda estou) a literatura, tanto a erudita quanto a coloquial. Todo esse arcabouço está sob a categoria Livros.

Teoria da Conspiração? Tô fora!

Para mim, um dos aspectos mais revolucionários da AD está em colocar o destinatário da mensagem como coautor do discurso. Isso sepulta aquela noção maniqueísta de “dominantes e dominados”, dos grandes meios de comunicação de massa alienando as pobres vítimas indefesas, reféns da informação, e de segundas intenções de um “sistema” que planeja obrigar todo mundo a seguir a mesma cartilha.

Ora, os modelos perfeitos da maternidade na mídia se sustentam porque existe eco, receptividade. Interesse. Diria até necessidade desse “mundo ideal”, seus personagens, cenários, suas histórias. O que não se pode perder de vista é que são recortes, instantâneos com pose para a foto, na vida dessas celebridades. Momentos fabricados.

O mundo ideal não precisa ter compromisso com o dia-a-dia. Mas é preciso observá-lo com uma postura crítica.

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