No seu lugar: pelo direito de parir em paz

Uma estudante de medicina acompanha os horrores da violência obstétrica e resolve divulgar na mídia:

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/estudante-de-medicina-escreve-desabafo-depois-de-assistir-a-parto-violento-feito-por-professora-chorei-de-raiva-e-frustracao-no-quarto-dos-internos/

 

Eu me coloquei no lugar da parturiente. Uma jovem de apenas 16 anos, tendo seu primeiro filho. Vi pelos seus olhos, atônitos e aterrorizados, a sequência crescente de arbitrariedades, abusos e violências, no dia do nascimento do seu filho e também do seu nascimento como mãe. Querida jovem, eu desejo que você não deixe nascer o ódio, a amargura e o desalento. Que suas lágrimas façam germinar em seu coração toda a força que também é gentileza, toda confiança que também é doçura e todo o poder que também é generosidade.

Eu me coloquei no lugar da mãe da jovem, que a estava acompanhando. Eu pude sentir o desespero no seu coração materno por ter negado o direito de proteger sua filha. Eu não sei se você também teve partos difíceis e tristemente constatou que nada mudou desde então; que ser mãe ainda é sinônimo de sofrimento. Eu senti sua vulnerabilidade diante de um sistema doente, do qual você depende. Eu vivi a angústia do seu silêncio resignado, compartilhado por tantas e tantas mulheres que passaram por semelhante tortura. Querida mãe e recém-vovó, eu desejo que seus braços aconchegantes abracem sua filha e o bebê; que sejam braços grandes o suficiente para incluir a você mesma nesse abraço de consolo e conforto.

Eu me coloquei no seu lugar, estudante de medicina. Você sabia os procedimentos médicos corretos. Você conhecia a lei. Muito além da teoria, você percebia em seu coração que aquilo não era humano. Eu chorei com você pela impotência diante da injustiça. Seu relatório médico foi adulterado. Mas você teve coragem para contar à imprensa o que permaneceria nos muros daquele hospital, ou simplesmente desapareceria sob o argumento abjeto de que era “frescura de grávida”. Querida estudante, você será uma médica formidável. Desejo que você possa amparar em suas mãos carinhosas muitas vidas.

Eu me coloquei no lugar de todos os estudantes dessa “professora”. Não sei se vocês testemunharam práticas similares; por favor, não assumam que elas devam ser assim. Queridos estudantes, desejo que a vida lhes dê outros mestres que honrem o compromisso de verdadeiramente promover seu aprendizado e crescimento.

Eu me coloquei no lugar da mulher que conduziu o parto. Não sei se o que você fez é parte da sua rotina ou foi um caso isolado. Não faço ideia do que você quis “ensinar”. Para a jovem mãe, “que criar filho não é brincadeira”? Você a julgou pela idade? A única coisa que você transmitiu foi o absurdo que, de sua posição, do “seu lugar”, você podia humilhar os outros, estraçalhar o corpo, “a hora”, os sonhos de alguém. Você esbravejou para que todos se pusessem “em seus lugares” – a paciente, o bebê, a equipe do hospital, as estudantes.

Durante milênios, o parto era um momento sagrado, com presença exclusiva de pessoas do sexo feminino. No Século XX, os homens decidiram que queriam participar desse mistério, e o medicalizaram. Afinal, era algo muito profundo para deixar na mão só das mulheres. Esta é a origem da violência obstétrica: a violação do protagonismo feminino. Mas você, que estava no plantão obstétrico naquele dia, é mulher! Você tinha na sua frente um corpo igual ao seu! Nada, absolutamente nada, pode justificar o que você fez!

Você não é médica. Não tem capacidade de lidar com a vida. Não é professora. Não tem o direito de disseminar o que pensa. Você não é humana. Não pode conviver com os outros. Mesmo que você fosse sozinha para o ártico quebrar gelo, as rochas chorariam. Até o momento em que você decidisse quebrar o gelo do seu coração, que é o que lhe desejo. Mas, enquanto esse dia não chegar, eu desejo que instâncias superiores a impeçam de exercer sua profissão e a façam arcar com as consequências, para que você não continue colocando em risco a integridade e a dignidade de mais ninguém.

Eu também me coloquei no lugar do bebê. Você estava em seu tempo perfeito, mas alguém não o respeitou e quis lhe arrancar de sua primeira morada à força, como quem arrebenta as pétalas de uma flor para abri-la. Querido bebê, eu desejo que você se torne uma pessoa brilhante, que dê muito orgulho e amor à sua mãe, à sua família e a todos que tiverem o privilégio de contar com sua presença. Que, no compasso do seu coração, você busque a defesa da paz e da justiça, ajudando a inaugurar um novo tempo.

E eu, o que posso fazer aqui do meu lugar, além dos desejos sinceros e de ajudar a ampliar a discussão sobre a violência obstétrica?

Escrever para a Câmara dos Deputados, manifestando apoio ao projeto de lei que combate a violência obstétrica e cria mecanismos para que as mulheres sejam amparadas e tenham “uma boa hora”.

:: Conheça o Projeto de Lei 7633/14::

Desejo, de coração, que você que está me lendo agora possa se engajar nesse movimento.

Clique no link abaixo ou ligue para o Disque Câmara – 0800 619619 (ligação gratuita de qualquer lugar do Brasil), pedindo que os deputados aprovem o Projeto de Lei 7633/14. Ajude a divulgar!

http://www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco?contexto=agencia

Se você sofreu violência obstétrica ou sabe de alguém que teve experiências nesse sentido, entre em contato com a Artemis, organização que luta pelos direitos das mulheres de parirem em harmonia e segurança:

http://artemis.org.br/como-a-artemis-pode-ajudar/

 

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

A dor do mundo

Em boa hora

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6 pensamentos sobre “No seu lugar: pelo direito de parir em paz

  1. Marusia amada, que forte!
    Eu me arrepiei diversas vezes com seu texto!
    Eu me irmano com todos os seus desejos!
    Eu me solidarizo em movimento nas ações propostas!
    Gratidão por saber dar voz, com tanta beleza, a uma indignação tão profunda! Magia do Sagrado Feminino!
    Que nossa dor seja fonte de força! Que nossa força seja fonte de Paz! Paz que em nada é passiva. Paz que é luta por amor, respeito e verdade! Que haja Paz!

    • Oi, Dri,
      É impressionante como você capta o espírito do que escrevo. Nossa sintonia é muito acurada! Eu fiquei sem dormir quando tive acesso às informações sobre violência obstétrica. É exatamente a paz ativa que venho buscando!
      Muitos beijos, querida irmã!

    • Oi, Confeiteira!
      Que seu sonho seja realidade, em todos os sentidos! Que o parto humanizado seja regra, sem exceção!
      Beijos!

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