Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Veja também:

Para Vovó Carmó

Noite Profética

 

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4 pensamentos sobre “Para Vovó Tude

  1. Emocionante Marusia. Sua vovó era mesmo uma grande mulher. Admirável, cumpriu sua missão e agora descansa em paz junto aos anjos protetores.

    • Obrigada, Nubinha! Privilegiados somos por termos compartilhado bons momentos com ela!
      Beijos carinhosos!

  2. Sim! E tinha tanto orgulho dos filhos, seus tesouros….

    Agora no final seu olhar era profundo, com olhos que enxergam a alma da gente. Após essa leitura, para cada pessoa que se aproximava dela dizia algo positivo, pra se guardar na memória e no coração. Muito especial a nossa vozinha💕

    • Oi, Prisce,
      Mâmi identificou esse olhar nos bebês, olha que interessante! Ela dizia que muitas vezes havia ali naquele corpinho pequenino uma alma gigante, e que, como ainda não conseguia falar, se expressava totalmente através dos olhos… Assim também foi com nossa Vozinha! Que bom que você estava com ela!
      Beijos!

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