Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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Veja também:

Mãe envelope – 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

 

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15 pensamentos sobre “Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

  1. Quando desperto, busco pensar na paz de todos os dias. As vezes minha esposa pergunta porque não falo muito sobre meu trabalho. O trabalho vai bem. Mas cansa, repete apesar de desafiador a cada etapa mensal. Mas cansa. A alegria está em casa. A alegria de cada dia. Feliz 4 anos, Má! 🙂

  2. Marusia, eu queria dar um beijo na sua filha! Gente, que respostas sensacionais!! Imagino o orgulho dessa mãe?!
    Eu também sou perfeccionista e tenho tido muita dificuldade de lidar com as imperfeições do dia a dia…Venho chamando a atenção do Dan mais do que eu gostaria e seu texto veio bem a calhar! Corrigir faz parte mas com cautela para não passarmos o dia todo só vendo as coisas ruins e esquecendo de elogiar as milhares que são bacanas!
    Beijos e boa semana!

    • Myriam,
      ela é mesmo uma criaturinha altamente beijável kkkk!
      Uma coisa que venho percebendo é que a correção de rumo tem efeitos, mas o elogio move mundos!
      Beijos!

  3. Marusia, gostaria que seu texto fosse disseminado por muitos e muitos leitores. Sabe, há muitas pessoas que insistem em querer usar o óculos de ver coisas erradas e acabam não desfrutando dos óculos do amor.
    Eu também sou, mas tenho me esforçado bastante para flexibilizar o meu lado perfeccionista e, hoje, como no seu exemplo, quando há coisas fora do lugar, já consigo deixá-las para organizá-las no dia seguinte. Consegui perceber que, enquanto isso, há algo bom esperando para ser desfrutado, bem ao meu lado. Simples assim!
    Torço para que todos nós possamos enxergar com os óculos do amor, pois mesmo com erros, podemos encontrar soluções, aprender e ser feliz!
    Ah! Sábias respostas de sua filha! 🙂
    Beijos,
    Larissa Andrade.

  4. Marusia lindo texto, linda reflexão.

    Parabéns pelo dia das mães atrasado, mas de coração. Parabéns pelo 4 anos de blog.

    Sou bastante exigente e exigo muito de mim e de todos a o meu redor, principalmente das meninas, seu texto veio para mim com uma inspiração para colocar o pé no freu e aproveitar o passeio.

    Tri-beijos Desirée
    astrigemeasdemanaus.blogspot.com.br

    • Oi, Desirée,
      Obrigada pelas felicitações!
      Aproveitar a viagem toda, incluindo o percurso, é mesmo a melhor ideia!
      Beijos!

  5. Como diria um nosso conhecido: “Como deixar uma pérola dessa (respostas de sua filha) escondida?” Beleza pura! A filhinha dando mostras de que herdou a inteligência superior da mãe.

    • Que lindo e inesperado comentário! Ainda tenho cá para mim que essa herança vem de antes… De um cronista conhecido por Ivan!…
      Beijos!

  6. olá! adorei o texto, tenho há tempos esta “campanha” do óculos cor-de-rosa ajudando o óculos cinza a se equilibrarem!
    mas queria perguntar uma coisa.. cadê os erros ortográficos das ótimas metáforas de sua filhota? ehhe ela usou a crase?

    • Oi, Gisele!
      Essa é uma campanha que vale a pena abraçar!
      Sobre os erros… ausência de acentuação (o acento grave indicador da crase, com certeza, não está no repertório dela rs!), troca de letras (como de s por c)… Coisinhas que o corretor ortográfico do Word resolve rapidinho. O que o Word não vai conseguir nunca é ter essa criatividade rsrs!!
      Beijos!

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