A dor do mundo

Quando eu estava grávida, minha mãe recomendava que me protegesse, evitando ter contato com filmes, notícias ou mesmo comentários tristes ou violentos. Para ela, a gravidez era um momento sagrado, em que eu era “coautora”, junto com o Universo, na concepção de um novo ser.

Segui as orientações e foi bom. Tanto que, depois, continuei evitando esse tipo de conteúdo – que chamo “histórias que perturbam a alma”, mesmo não estando grávida. Evitei por vários motivos, entre eles a sensação de que toda a realidade era daquele jeito, e que não havia mais remédio; e, ao mesmo tempo, algo entre ficar acostumado ou endurecido quanto à situação. Impotência e banalização.

Nem sempre consegui. A todo tempo, sempre havia alguém para me contar todos os descalabros de que a humanidade é capaz de realizar. Me parece que, ao lado da denúncia, existe mesmo uma curiosidade ou atração pelo que é mórbido. Somadas à alimentação de vingança. A mídia e o Facebook não cansam de repercutir os casos – até que esgotem o potencial de chamar a atenção e sejam substituídos, na tragédia nossa de cada dia.

Quando me tornei mãe, pude entender quando diziam: “nunca mais você vai assistir ao telejornal do mesmo jeito”. É verdade. Principalmente quando os horrores envolvem crianças. É automática a correlação que faço com meus filhos. Imagino suas carinhas, me coloco imediatamente no lugar daqueles pais e mães que choram. Chamam isso de “compaixão”. Sentir a dor do outro.

Aos poucos, fui percebendo que, mesmo evitando o envenenamento cotidiano, eu podia experimentar a dor do mundo em momentos improváveis, como durante uma meditação. Foi num desses momentos, de angústia profunda, que me veio a resposta: não há como ficar alheio ao sofrimento do mundo. Contudo, ao entrar em sintonia com essa frequência, não permaneça nela. É preciso sair para poder ajudar quem nela está.

Isso foi importante para encarar uma situação nova, em que o acesso a “histórias que perturbam a alma” deixou de ser opção para ser imperativo do trabalho. Há pouco mais de um mês, faço parte da equipe do Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Certo dia, vi a jovem estagiária pesquisando notícias hard. Ao sugerir que não se expusesse a tal envenenamento, ela respondeu: “Preciso endurecer o couro, sabe? Vou ser jornalista… Hoje, o Plenarinho visitou uma escola, e os professores pediram que fizéssemos um trabalho sobre abuso sexual de crianças. Tive que me conter para não chorar.”

Para fazer esse trabalho, também tive que mergulhar nos relatórios que sempre fiz questão de me abster de ler. Deputados e senadores, servidores das CPIs de exploração e abuso sexual, operadores do Disque 100, todos testemunham a necessidade de se reestruturar depois de conhecer os casos. Tive que ir ao sanitário para lavar o rosto e segurar o vômito. É muita atrocidade.

Meu ímpeto é fazer o que Barack Obama descreveu, quando (mais) um atirador matou crianças em uma escola: voltar para casa e abraçar meus filhos. Encontrar o tênue equilíbrio entre apavorá-los e conscientizá-los: “se alguém pedir que vocês não contem nada a ninguém, com certeza isso é uma coisa errada.”

Sobrevêm o avassalamento, a impotência e mesmo a indignação. Então, me lembro da intuição. Dessa vez, ela traz um adendo: talvez o trabalho de formiguinha do Plenarinho não dê conta desses casos. No entanto, se apenas uma criança tiver acesso às informações e consiga ter confiança para contar seu problema a alguém; se apenas uma criança crescer com a consciência de que não deve maltratar outras crianças, o trabalho de vocês já terá valido a pena.

Escrevo, por fim, outras coisas que têm me ajudado a “sair da frequência para poder ajudar a quem nela está”:

Lembro Norman Vincent Peale, que diz: o otimista não é quem desconsidera a dor do mundo, mas quem procura enxergar além dela, em busca de soluções.

Ao deparar com “histórias que perturbam a alma”, procuro ler “histórias que inspiram a alma”. Isso contribui para dissipar o sentimento de que “não tem mais remédio”. Tem muita gente boa fazendo o bem.

Desfrute:

http://asboasnovas.com/

http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/

http://cacadoresdebonsexemplos.com.br/blog/

http://www.boanoticia.org.br/

Penso nas pessoas que estão vivenciando o ápice do sofrimento. É possível mentalizar e enviar um facho de luz para a vítima? E para os familiares que choram a ausência de alguém?

E para quem praticou a violência? É possível?

“Mas ainda é tempo de plantar, fazer dentro de si a flor do bem crescer para lhe entregar quando Ele aqui chegar.”

____________________

Veja também:

Plenarinho contra a exploração sexual

Abuso sexual: não caia nessa

No blog:

Onde está meu bebê?

Olho de boi, olho d’água

Barba Azul e a violência contra a mulher

 

 

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6 pensamentos sobre “A dor do mundo

  1. Acredito que estamos mesmo num momento que um autor que gosto muito chama de : a civilização do espetáculo. Por maior que seja a desgraça apresentada, parece que há muita gente que gosta de se escandalizar e escandalizar os outros, sem contudo apresentar soluções, como vc bem colocou. Não gosto de ser alheia às violências, mas, confesso que não consigo ficar falando ou mostrando imagens como se fosse um troféu. As midias sociais exacerbam. E concordo com vc. Ainda há muita gente fazendo o bem! E isso sim merece toda a propagação do mundo!

    • Oi, Myriam,
      conheci uma pesquisa na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, sobre o alcance e a influência das notícias boas. Por muito tempo, pregou-se no jornalismo que notícia ruim é a que vende jornal. Essa pesquisa mostra um dado diferente: as notícias boas são as mais comentadas e compartilhadas.
      Fazer o bem faz bem! Esse é o verdadeiro espetáculo! 🙂

  2. Marusia, sempre é reconfortante vir aqui… Parece uma aula de conhecimento e paz.. Sempre estou em busca de paz tb… E de como doá-la. Enfim… Quando minha esposa esteve grávida, evitávamos esses programas ou noticiários.. Até agora, depois q ela cresceu e flagramos q por acaso ela assite TV, mudamos o canal.. Evitamos os ruídos nocivos (nocivos, não os normais q ela tem de conhecer).. Sempre é bom vir aqui.. 🙂 bjs

    • Jorge,
      fiquei muito feliz com seu comentário! O blog, para mim, é mesmo um reflexo dessa busca interior, e é muito gratificante saber que outras pessoas se identificam com ela. É quando vemos que temos companhia nesse mundão… 😉
      Obrigada de coração!

  3. Oi Marusia!
    Sabe que minha mãe também me dizia o mesmo na gravidez?! rsrsrs
    Bom, lembro-me, ainda na faculdade, em um dos estágios curriculares que fiz em um abrigo de crianças e, na época, eu ainda não era mãe, mas não tinha como não se sensibilizar pela dor que a maioria passou, mas o bom era que os profissionais que ali estavam e/ou estão, trabalhavam com muito amor e dedicação e transmitiam valores e alegrias também.
    De qualquer forma, queremos um mundo melhor pra todos nós e nossos filhos e, mesmo com tantas injustiças, podemos sim, ver o lado bom das coisas boas que a vida proporciona, assim como valorizar aquelas pessoas que fazem o bem…e há muitas por aí!
    Beijos,
    Larissa Andrade.

    http://maternidadeecotidiano.blogspot.com.br/

    • Larissa,
      Dia desses li uma frase atribuída a Madre Teresa de Calcutá: “os bons merecem nosso amor. Os maus precisam dele”. Tenho pensado nisso, com muita admiração pelas pessoas que conseguem colocar em prática. Elas são muitas, e é reconfortante saber disso.
      Beijos!

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