Pequenas crônicas de carnaval

Quando eu era pequena, detestava carnaval. Muito. Di-cum-força, mesmo. Na época, era a única coisa que passava na televisão. Não tinha desenho, nem novela, nem sessão da tarde, nada. Era desfile de escola de samba o dia inteiro.

Eu me lembro de um tio que trabalhou na rádio de Jequié-BA. Ele me contou que, quando era Dia de Finados, a rádio era obrigada a tocar a Marcha Fúnebre de Chopin. Só, somente só, por todo o dia. Pois bem. No carnaval, era a mesma coisa. Era escola de samba o dia inteiro. Bom, pelo menos não era Marcha Fúnebre.

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Fui à minha primeira matinê com 9 anos. Na AABB de Brasília. Eu, meus pais e minha irmã de 4 anos. Nós precisávamos de uma fantasia, então minha mãe levou a gente nas Lojas Brasileiras do Conjunto Nacional. Se é para escancarar a idade, então vamos fazer bem-feito: saudosa Lobrás do CNB.

Compramos duas camisetas brancas da Hering, duas saias de havaiana também brancas, lantejoulas vermelhas e amarelas, e mais duas máscaras, vermelha e amarela (nossas cores favoritas). Fizemos franja na barra das camisas, colamos as lantejoulas. Produção caseira e artesanal. Ficaram uns tops engraçadinhos.

No grande dia, estávamos felizes com nossas fantasias. Mas foi só chegar à AABB, para ter início o vexame. Juntou um grupo de meninos atrás da gente, gritando: “olha a calcinha delas! Olha a calcinha delas!”

A gente era muito inocente, bem que podia ter posto uma calcinha de biquíni. Mas não. E, como a saia de havaiana era branca, óbvio que ficou transparente. Minha irmã não tava nem aí. Mas eu fiquei passada de vergonha, corri para sentar em nossa mesa e lá fiquei quase a festa inteira. Minha mãe, sempre a registradora oficial de momentos, tirou a foto. Coisa linda, um bico do tamanho do mundo.

Abre parênteses. Só não foi mais tétrico do que o dia em que eu fui para o ballet com uma bermuda branca. E a calcinha do dia da semana. Juntou um grupo similar de meninos (ora bolas, vão jogar bola, soltar pipa, em vez de seguir as garotas de roupas transparentes, pindaíba!) para ler. “Olha, tem uma coisa escrita. Ter-ça fei-ra. Terça-feira!!! Aaaaah, que fofo, uma para cada dia da semana!!!!” Fecha parênteses.

Voltando ao bailinho da AABB. Só havia uma coisa que poderia me tirar daquela mesa. E essa coisa aconteceu: tocar “O Balancê” com Gal Gosta. É, porque o Balancê era tudo de bom. Com calcinha aparecendo ou não, eu TINHA que dançar o Balancê, era uma questão de honra.

Fui para o meio do povo. Quando me dei conta, fui sugada por um trenzinho no salão. No início, me deu um pouco de pânico, tipo ser tragada por um furacão. Depois, achei aquilo o máximo e me senti a “grande”.

Não durou muito tempo. Um segurança tosco me puxou pelo braço, dizendo que aquilo não era pra criança.

Voltei à mesa, jurando que nunca mais iria participar de nada que chegasse perto de carnaval. No meio do Balancê. Muita injustiça. Minha mãe tirou outra foto.

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Minhas juras não duraram muito tempo. Minha avó resolveu levar a mim, meus três irmãos e minha prima para ver os Filhos de Gandhy em Salvador. Cinco crianças. Em pleno Campo Grande. Na pipoca. Os tempos eram outros. Mesmo.

Bloco Filhos de Gandhy em Salvador

Afoxé Filhos de Gandhy
Imagem: Irdeb

Aí eu vi um trio elétrico chamado “Traz a massa”. As pessoas saíam atrás dos trios com mortalhas. Não tinha essa conversa de abadá. Fiquei hipnotizada.

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No ano seguinte, vi o Chiclete com Banana pela primeira vez, na Avenida Sete. O hit era “Sementes”. O Chiclete era uma banda com repertório parecido com o da Cor do Som. Cada música linda. Apaixonei.

Cheguei em Brasília achando muito estranho que as pessoas ainda usassem fantasia. E que todos os anos tocassem as mesmas marchinhas, índio quer apito, alalaô, mamãe eu quero. Em Salvador, cada ano tinha uma safra nova de músicas. Mas nunca tocavam nas rádios das outras cidades, só na Bahia. As pessoas nunca tinham ouvido falar de nada daquilo. Chiclete? Cheiro de Amor? Dodô e Osmar? Quem?????

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Com 16 anos, depois de muitos pré-carnavais em janeiro e do carnaval propriamente dito em fevereiro, assisti (com meus irmãos) ao encontro de trios no Farol da Barra, na Terça Gorda. Muito antes de se cogitar o circuito Barra-Ondina. (Se é para entregar a idade, vamos fazer bem-feito). Era o Chiclete, Netinho com o trio Beijo, Ricardo Chaves com a banda Eva. E outros…

Muito difícil vivenciar outra coisa que se assemelhe àquela noite. Foi perfeito. Inesquecível. Qualquer outro carnaval pareceu sem-graça depois.

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Quando estava namorando meu marido, ainda tentei levá-lo a uma Lavagem do Bonfim. Ele achou muvucado demais. Ele nunca foi muito de carnaval, então acabei indo no embalo (ou melhor, não indo no embalo).

Mas achei que seria bacana que meus filhos conhecessem o carnaval. Não tenho coragem de levá-los para ver os Filhos de Gandhy, muito menos na pipoca. Então começamos por algo mais leve.

Ora, eu tinha que sublimar meus traumas de infância. Nada melhor que… a matinê da AABB!!!

Fantasiados de Super-Homem e Gatinha Bailarina (ou fosse lá o que fosse, comprei de última hora no armarinho), meus pimpolhos enfim teriam sua primeira experiência. Nada de adultos, nada de trenzinho. Muito índio quer apito e alalaô.

O problema é que também tinha muito spray de espuma. Eles (com 4 e 2 anos) ODIARAM aquilo. Ficaram com os olhos ardendo. Eu até segurava as mãozinhas deles, tentava fazer uma rodinha, alalaooooô, mas eles não se animaram nem um pouco. Os bicos estavam iguais aos meus.

Pois, na saída, o mais velho tomou um super-estabaco no chão por causa da bendita espuma. Fim de festa na floresta. E nem tocou o Balancê. Tragédia total.

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Claaaaro que eu me acomodei e nem me esforcei para dar a eles uma nova experiência. A escola se encarregou da tarefa, e eles curtiram de montão os bailinhos. Com os coleguinhas, olha que massa.

Este ano ficamos em Brasília. Vimos um pouquinho de Netflix, fomos patinar no Parque da Cidade, vimos a SENSACIONAL exposição da Yayoi Kusama no CCBB, e até fiz um “Shu” com bolinhas no teto (meu signo chinês). Amanhã é provável irmos ao cinema.

Exposição interativa Yayoi  Kusama

Exposição interativa Yayoi Kusama

Quem sabe um dia meus filhos poderão curtir um trio elétrico ao vivo e em cores. Quem sabe…

Sementes

(Chiclete com Banana)

Sementes de cores vivas que acendem novas recordações

E o vento solta faíscas bordando belas constelações

Que rondam o céu e o coração

Embalançando-se nas ondas de um baião

Licor de mel, doce canção

Animando o carrossel, no luar do meu sertão

Deixa que fogo semeie na escuridão

O amor

Somente se fores vivo verás as cores desses balões

que fingem-se de estrelas bailando livres com seus clarões

e se descer estende a mão

quem sabe o fogo te ilumina a escuridão

não vai doer, não diga não,

o fogo é pra derreter o gelo do coração

Deixa que o fogo semeie na escuridão

O amor.”

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Veja também:

Do travesseiro ao copinho de boneca: uma breve história da menstruação

Minha vida em 40 músicas

Quando eu era criança, achava que…

Cheiro de infância

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9 pensamentos sobre “Pequenas crônicas de carnaval

  1. Apesar de nunca haver visto Chiclete ao vivo, sempre foi e será a banda que para mim, representa o carnaval baiano. Adoro suas músicas e a vibe. Olha, eu odiava o carnaval quando era pivete, lembro que meus pais assistiam por 3 dias os desfiles e depois ainda havia a apuração na quarta, né? Algo assim… Nesse momento eu até assistia… Eu vivi 1 anos ao lado da Vai-Vai, GRES de São Paulo, minha escola em Sampa (No RJ torço pela Mocidade de Padre Miguel). Fui a festas, dentro e fora de clubes quando cresci, mas era muito mais “saudável”, não?… Os tempos mudam… Hoje fico em casa, minha esposa eu saímos a comer e na verdade, nem lembro de carnaval mais. Somente quando aqui falam “brasileiro? e o carnaval, como é?” rs… Eu digo para eles irem para Salvador e Recife.

    • Oi, Jorge!
      Quando a gente se pega sentindo saudade, tem que lembrar que é muito difícil reviver algo, sentir a mesma emoção. Então fico alegre com as recordações, consciente de que elas fazem parte daquele tempo, e que outras experiências bacanas virão. Quem sabe ir ao sambódromo? Sair em uma escola? Juntar coragem e levar a meninada para ver um trio ao vivo?
      Beijos!

  2. Marusia!!! Quantos carnavais memoráveis!!! Que delicia!! Tenho um pé na Bahia (minha mãe é baiana) e uma das grandes emoções dos meus 19-20 anos foi estar em um trio elétrico do Chiclete!! Pular na pipoca já não dava, não era mais tranquilo como na infancia…quem sabe meu Dan tb não vai aproveitar um carnaval assim?!

  3. Passei para dar uma espiadinha no seu blog e, de quebra, amei suas memórias de Carnaval. Já fui à Bahia, mas não na época do Carnaval. Já saí em trios, mas nas micaretas pelo país afora. Meus carnavais sempre foram em Pernambuco, com frevo e, sim, usando fantasia e cantando marchinhas antigas e típicas da região (é por isso que amo o Brasil e suas diferentes formas de comemorar a folia de Momo). Enfim, embora more fora de PE há algum tempo, volto sempre para visitar à família e, desta vez, larguei os filhotes na frevança. Marido nem gosta muito, mas eu confesso que amei ver meus pimpolhos se encantarem com o colorido da festa. Bem, parabéns pelo blog! Voltarei mais vezes! 🙂

    • Oi, Sheila!
      Tenho muita vontade de conhecer o carnaval de Pernambuco! Sou apaixonada por frevo!
      Um beijo,
      Marusia

  4. Marusia

    Eu sou apaixonada por carnaval, mas gosto de bloco, de estar no meio do pessoal, de dançar até as pernas aguentarem ficar em pé, não curto desfile de escola de samba.
    Com a maternidade não posso dançar até o dia estar claro pois no outro dia tenho três coisas princesas que acordam cedo e tem uma energia inesgotável, então carnaval para mim agora só baile infantil, ainda bem que trio curti uma boa bagunça, pois assim brincamos juntas e no outro dia estamos todas quebrados juntas.

    Tri-beijos Desirée
    http://astrigemeasdemanaus.blogspot.com.br/

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