A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários 😉 )

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Três histórias de amamentação

O maior inimigo da mãe

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

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28 pensamentos sobre “A pior escolha que uma mãe pode fazer

  1. Nossa, excelente forma de abordar o tema. Tua linha de pensamentou mostrou exatamente do que se trata a guerra entre as mães: não importa a nossa escolha, seremos apontadas por ela de qualquer forma. Triste isso, né? Mas enfim, levantar questões assim já é um primeiro passo para tentar fazer diferente. Obrigada por abraçar nosso convite de blogagem. Beijos!

  2. Olá!!

    Primeiramente, muito obrigada pela divulgação do meu Blog e pelos elogios. Muito legal o seu Blog também. Gostei muito, especialmente do “manifesto do desencucamento” (não precisamos todas?)

    Creio que a “polêmica” em torno das duas mães é uma comprovação do fenômeno do “Mimimi-mas”, que eu descrevo como funciona no meu Blog (e inclusive, fui eu que inventei o nome hahaha)

    https://naosouexposicao.wordpress.com/2014/02/17/o-curioso-fenomeno-do-mimimi-mas/

    NENHUMA das duas mães recebe aprovação. Não interessa que tipo de mãe você é: você receberá críticas.

    Quando eu escrevi o meu post, eu não estava “atacando” a mãe atleta, como muitos interpretaram, mas não gosto nada da ideia de devermos explicações à sociedade pelas nossas escolhas.

    Ser uma mãe atleta: OK. Legal. Boa sorte.
    Ser uma mãe atleta e pedir uma justificativa das outras mães por não fazerem o mesmo: NÃO legal.

    Enfim, era isso!

    Um abraço!

    • Sim, nos sentirmos eternamente “em débito”, dando satisfações e justificativas a cada escolha, é devastador. A pergunta da primeira foto traz esse sentimento. Mas vejo como um mecanismo de transferência, sabe? O tempo todo pedindo ou cobrando “des-culpas”. Um ciclo. Uma vez, no MMqD, eu já havia chamado a atenção: se culpa resolvesse alguma coisa, o mundo seria um paraíso… desde a Idade Média.
      Beijos, obrigada!!!

  3. Arrasou na análise! Julgar é um comportamento humano, mas é tão mesquinho e pequeno que se torna abominável. A vida é tão complexa e profunda que a mera aparência, no caso específico, induz a erros grosseiros. Ninguém sabe dos bastidores do outro e é nesse espaço emocional q tudo realmente acontece.

    • Oi, Prisce!
      Adorei seu comentário! Sintetizou tudo: é no espaço emocional que as coisas acontecem. Quando nos abrimos para conhecer e acolher a realidade do outro, antes de querer julgá-lo, nos surpreendemos com a variedade dos matizes, do quanto podemos aprender. (E, depois que isso ocorre, já não vemos sentido em julgamento algum…)
      Um beijo carinhoso!

  4. Belo texto, gostei demais e concordo muito. As mulheres são as piores inimigas das mulheres na hora de julgar e condenar. Nada nunca é bom o bastante para suscitar o mínimo de empatia e de compreensão. Isso é muito difícil, pois ninguém pensa em quem ganha com isso e ninguém considera que o dedo apontado na cara da outra vai logo em seguida se voltar para você, consequência da própria hostilidade que ajudou a perpetuar. Falta solidariedade entre as mães. Um abraço, Alessandra.

    • Oi, Alessandra!
      Esse movimento já é um primeiro passo… Melhor que apontar o dedo é oferecer a mão. 😉
      Beijos!

  5. Oi Marusia,
    Achei excelentes as análises que vc fez nas duas posições!!
    É incrível como as próprias mulheres e mães são as primeiras a apontar o dedo na face alheia para criticá-la, deixando de lembrar que nem tudo que faz uma pessoa se sentir bem, é necessariamente igual à outra. Sem contar, a própria dinâmica de vida de cada uma, sempre será diferente, tanto nos valores, cultura, religião e tantos aspectos sociais e econômicos (e esse último faz grande diferença).
    Se houvesse mesmo mais solidariedade entre mães, cada uma, antes de julgar a outra, com certeza, iria pensar “eu a compreendo”…seja porque o corpo dela não está no padrão esperado pela sociedade, seja a maneira como ela, aparentemente, cria e educa seus filhos, enfim… tantas situações que poderiam ser lembradas que a maternidade é uma experiência de vida maravilhosa às mulheres, mas que também não é fácil, pois é algo que deve ser conciliado com si e tantas reações emocionais, com o outro e com a sociedade (incluindo carreira, lar, qualidade de vida, etc..).
    Na torcida, por mais compreensão no meio e que as mães respeitem as particularidades de outras mães…simples assim!

    Beijos,
    Larissa Andrade.

    http://maternidadeecotidiano.blogspot.com.br/

    • Oi, Larissa,
      bem lembrado: a maternidade é uma experiência intensa. Não é simples. E não tem padrão. Por isso, a troca entre as mães se torna tão importante, em vez de nos encastelarmos em dúvidas, competições e julgamentos. Eu também estou na torcida! 🙂
      Um beijo!

  6. Nossa, finalmente uma análise sensata sobre essas fotos! Vim ler achando que era mais um texto bombardeando as mães que se cuidam, que se alimentam bem e malham…mas que bom que é só alguém querendo o bem, que as pessoas sejam felizes à sua maneira. Parabéns!

    • Oi, Mariana,
      fiquei muito feliz com seu comentário! O mundo já tem bombardeio demais, nada melhor que a gente poder oferecer colinho de mãe… para outras mães!
      Beijos!

  7. Pingback: Blogs participantes da blogagem coletiva Coração Materno | Projeto de Mãe

  8. Eu adorei a questão, sério! Porque eu sou bem crítica com a questão dos padrões de beleza, mas penso eu aqui com meus botões, que quem deve ser atacada com toda a argumentação dos padrões de beleza não são nenhuma dessas duas mães, mas quem sustenta esses padrões. 🙂

    Beijos

    • Oi, Isabela,
      Sobre quem sustenta esses padrões: a que interesses serve? Isso explica muuuuita coisa!
      Obrigada pelo comentário!
      Beijos!

  9. Eu sou totalmente “live and let die”… Deixei de apontar os outros para que não me apontem o dedo… Acho que isso é liberdade… Melhor assim…. Quando vi as fotos pensi nisso, acredito que cada um é feliz da forma que quiser e sentindo-se bem.

    • Oi, Jorge!
      Vou até me atrever a mexer na letra do grande compositor: “live and let live” hahaha! E citar outro: “Qualquer maneira de amar vale a pena!”
      Beijos!

  10. A única coisa que tenho contra essa mulher da primeira foto é que parece que agora o padrão a ser seguido é esse: A mulher só vai ser bem aceita, se ela tirar tempo sei lá de onde (ninguém para pra pensar nas diferentes realidades das pessoas) pra malhar e ficar saradona, como se ela devesse uma explicação sobre suas medidas para os outros. Se a mulher não está dentro desses padrões, há vários dedos apontados pra ela, com o adjetivo “desleixada”.

    • Oi, Susana!
      Torço para chegar o dia em que as pessoas não precisem dar explicações (nem pedir explicações aos outros) para serem felizes do jeito que são.
      Beijos!

  11. Pingback: Ela e eu. | Barriga de bebê: o que as mães não dizem…

  12. Parabéns pela abordagem!! Muito bacana!! Uma pena que o julgar seja tão presente quando deveríamos estar juntas pela mesma causa…é preciso respeitar que o diferente nem sempre é errado! Adorei!!

    • Oi, Myriam,
      Permitir aos outros que eles encontrem a verdade deles também nos ajuda a encontrar nossa verdade! Bom demais!
      Beijos!

  13. Marusia,
    Também adorei sua reflexão! Nós somos sempre muito bombardeadas de críticas, pelos familiares, amigos, chefes, por NÓS MESMAS! E as nossas próprias críticas é que são as principais, pois são estas que ou nos moverão ou nos paralisarão… Tudo o que ouvimos dos outros passa por um filtro da nossa mente chamado Superego, que permite ou não que a crítica ou elogio permaneça dentro de nós, logo, é algo dentro de nós que captura ou não o que está do lado de fora. Cabe SEMPRE a nós mesmas reavaliarmos esta sentença dada pelo nosso Superego, para sabermos se iremos ou não “dar ouvidos” de fato a tudo que recai sobre nós. Somos nós que decidimos, a vida é nossa, o corpo, o tempo… Mas, como eu disse no meu texto, o preço da NOSSA decisão somos nós que pagamos, invariavelmente!!!

    • Verdade, Raquel! Não é fácil quando temos um dedo de fora apontado para nós. Mas o peso é praticamente insuportável quando isso encontra guarida em nós mesmos, com nossos dedos internos.
      Beijos!

  14. Muito boa a sua abordagem, porque a questão é exatamente que o julgamento nunca leva em conta a realidade da outra pessoa! Às vezes perdemos ótimas oportunidades de auxiliar uma mãe que está perdida e sozinha porque nosso discurso prima pelo ataque e não pelo entendimento. Também perdemos excelentes chances de aprendizado porque já julgamos nosso interlocutor pela primeira imagem/frase.

    • Oi, Gabriela,
      o ataque até pode chamar atenção, mas não deve se dirigir a outra pessoa que já está confusa. Melhor é nos unirmos a ela para lutarmos juntas pelo que importa.
      😀
      Beijos!

  15. Super concordo. Não devemos julgar. Cada um tem sua realidade, seja pai, mãe, homem ou mulher. Tem sua vida, seus problemas, suas virtudes, defeitos.

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