Três histórias de amamentação

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê exclusivamente por 5 meses. No começo, foi bem difícil – rachaduras, empedramento… depois, foi tranquilo. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que teve parto natural, sem analgesia, no melhor estilo indígena. A amamentação, contudo, não foi simples. O bebê “mordia” forte (com a gengiva), ficava impaciente e chorava muito. Com o apoio do marido, a mãe foi a um banco de leite, onde fizeram ordenha e ensinaram massagem. O leite não descia, e o mamilo ficou muito ferido com as investidas do bebê. E dá-lhe água na mãe, comida com “sustança”, homeopatia… E nada. Então chamaram a melhor doula da cidade, o anjo do aleitamento. Ela introduziu a técnica da relactação, para estimular a mama. Foi quando o bebê começou a vomitar sangue, que vinha dos mamilos da mãe. Chegou-se à conclusão de que deveria ser criado um clima de absoluta serenidade, porque a agitação do bebê e a consequente ansiedade da mãe estavam interferindo no processo. Então, ao final do primeiro mês, o leite desceu em plenitude, fazia gosto. Mas o bebê trancou a boquinha, virou o rosto e não quis mais mamar. Nem dormindo. Ninguém contou com a variável “comportamento do bebê”. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê até os dois anos. O começo não foi simples, porque ele ficava o tempo todo no peito. Depois, foi muito bom, e teria ido para além dos dois anos se não tivesse aparecido a horrorosa virose “mão-pé-boca” (mas isso é assunto para outro post). De toda forma, uma experiência maravilhosa para mãe e bebê. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Vou me ater à mãe da segunda história. Porque sua presença foi essencial para mim, quando meu primeiro filho nasceu. Eu, do alto da minha arrogância, cheia de cursos de puericultura, com centenas de livros lidos e teorias na cabeça, prostrei diante do desafio. E recebi dela palavras de puro aconchego e humildade, ao mesmo tempo em que traziam transbordante afeto e doação:

“Tá tudo certo.”

“No início, dói. Mas acredite, depois você vai achar uma delícia amamentar.”

“Segura as pontas só mais um pouquinho, confie em mim.”

“Não existe nada igual quando você vem com o peito cheio de leite e sente o bebê esvaziar tudinho.”

“No começo é punk, mas depois que eles crescem a gente morre de saudade de amamentar. Curta cada segundo.”

Eu confiei nela, como as antigas mães em seus círculos, e deu tudo certo.

Meu coração se estilhaça de indignação quando lembro o que ela ouvia dos outros:

“Você não está amamentando?”

“Olha, até o suorzinho do bebê cheira diferente, porque não é leite materno.”

“Essa criança vai viver no hospital.”

“Faltou força de vontade, caiu na esparrela da indústria do leite.”

O que essa mãe tem de diferente das outras duas? NADA.

Nada MESMO, porque essas três histórias são da MESMA MÃE.

Hoje, com três filhos lindos, amados, saudáveis e inteligentes, essa mãe é alvo de toda a minha admiração e gratidão. Pois foi com ela que eu aprendi:

A minha experiência é minha.

Cada experiência minha é única.

Se minha experiência for bem-sucedida, pode inspirar outra mãe.

Se não for, não deve desestimular ninguém. Contudo, minha experiência pode aliviar outra mãe, quando ela descobre que não está sozinha.

E o mais importante:

A minha experiência não é referência para medir outra mãe.

A MINHA experiência não é motivo para julgar – e muito menos condenar – outra mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=yEQ_qHcVv2g

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Veja também:

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

O maior inimigo da mãe

Perigo de ser mãe perfeita 5 – Vá pela sombra

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8 pensamentos sobre “Três histórias de amamentação

  1. Vou escrever ao som da maravilhosa Bethania, depois de um maravilhoso relato (amei o “no melhor estilo indígena” e recriei até o Orlando Vilas-Bôas como padrinho com o Raoni e o Sting com sua redação). Se cada mulher é única, quer dirá de um filho, que é metade de cada um e trilhará por outra via láctea existencia… Parabéns! Como sempre!
    beijinhos

    • Inspirador, Jorge! Que a via láctea, seja qual for possível, sempre possa iluminar nossas existências de amor!
      Beijos!!!

  2. OI Marusia

    Este post me lembrou uma situação que passei quando o Zezé tinha uns 10 meses. E estava amamentando ele e tinha uma senhora que queria me “ensinar a amamamentar”, ora eu já estava amamentando a 10 meses, se eu estivesse “fazendo errado” já teria desistido… Acredito que se “a coisa” (seja na amamentação seja em outros assuntos) está funcionando não é preciso intervir. Mas ás vezes é preciso ter humildade para pedir ajuda.

    Um abraço

    Ana Isabel

    • Oi, Ana,
      exercer a maternidade atrai o interesse de muitas pessoas. Às vezes, como interferência, outras como julgamento. A melhor parte é quando aparece a acolhida.
      Um beijo!

  3. Que relatos fortes e impactantes…adorei quando li a palavra humildade…é bem isso…tá faltando humildade e é uma pena que existam tantas mulheres que ao invés de se unir, preferem julgar. Cada historia é única, por isso exigir um só final é demasiado desumano.

    • Oi, Myriam,
      Mais humildade, mais humanidade no lidar com o outro: porque “cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz… e ser feliz!”
      Beijos!

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