El bigodito

Por Maria Amélia Elói*

pintura de Frida Kahlo com flores

“Cores de Frida Kahlo, cores” (Autorretrato)

Tanto a minha família quanto a família do meu marido têm mulheres de bigode. Eu mesma, na minha forma original — isto é, antes do advento da depilação com cera — sou uma dessas fêmeas com quem, como diz o ditado, nem o diabo pode. Muito natural, então, que minhas filhas nascessem com a tal penugem debaixo do nariz, acima da boca. E no caso delas, que são bem morenas, o pelo é preto, muito preto.

Minhas bigodudinhas têm ainda sobrancelhas fartas, praticamente umbrancelhas, e uns pelos visíveis no papo. Mas, na real, elas não são tão cabeludas quanto as mulheres barbadas que trabalham nos circos. Também não chegam a Frida Kahlo. São meninas cabeludas que esbanjam feminilidade!

Como eu já disse, fui bigoduda durante a infância inteira e até mesmo durante a adolescência. Nas minhas fotos de debutante, aos 15 anos, lá estava o buço! E, pelo menos que me lembre, eu não me preocupava muito com ele. Nem minha mãe, nem minhas amigas, nem minha depiladora me incentivavam a retirada dos pelos. Eles estavam lá, até os 17, sujando meu rosto; mas só resolvi encarar a dor da depilação no rosto quando o meu espelho sugeriu que eu poderia ficar com o semblante mais leve se tirasse a sobrancelha e o moustache. De lá pra cá, tiro o buço e a sobrancelha todo santo mês.

E não é que a minha filha mais velha, de apenas 6 anos, já está preocupada com seu bigodito? Outro dia, enquanto eu contava histórias para ela à noite, na cama, ela me surpreendeu com um choro sofrido e a confissão: “Eu não gosto de ter bigode, mamãe. Meus colegas ficam me perguntando por que eu tenho”.

Fiquei realmente assustada com essa precocidade, já que, lá em casa, ninguém incentiva vaidades estéticas. Com muito jeito, expliquei à angustiada menina que a nossa família tem várias mulheres de bigode e que isso não nos faz menos femininas. “Você é linda desse jeito, filha, com esse bigodinho. Quando você crescer um pouco mais, se você quiser, podemos tirar esses pelos do seu rosto. Só que dói, viu? Não vou mentir”.

Luana se acalmou, sorriu e não falou mais sobre o assunto. Mas eu sei que, logo em seguida, daqui a alguns dias ou anos, ela vai demonstrar preocupação com a sobrancelha, a barba, os pelos nos braços, nas costas, nas pernas… Vai também implicar com sua cor escurinha e com o próprio cabelo, que é anelado. E provavelmente vai querer clarear e alisar os cachos. Esticar o cabelo, eu confesso, também era o meu sonho desde a adolescência, quando meu cabelo começou a encrespar. Eu rodava toca de meia ou de grampo no cabelo e adorava fazer escova para vê-lo lisinho. Mas faz uns 15 anos que assumi com fervor a “crespitude”, atitude encaracolada, e agora quero defender, pelo menos até quando for possível, o cacheado do cabelo das minhas filhas.

Mas será que algum conselho meu poderá demover minha filha da ideia de que a Barbie e a Cinderela — que não têm nenhuma penugem no corpo — são as verdadeiras lindezas do planeta? O que fazer para que nossas crianças amem os próprios cabelos e os próprios pelos e os próprios corpos, mesmo que os colegas e a mídia e o mundo teimem em apontá-las como imperfeitas? Como elas podem adquirir autoestima suficiente para amar e valorizar a própria beleza natural? Como não escravizá-las a tantos procedimentos estéticos artificializadores?

Só agora, enquanto mãe de duas meninas, entendo como é forte a imposição da beleza sobre as mulheres e ilimitada a exigência da vaidade. É tão difícil dissuadir as pequenas do desejo de usar esmalte, batom, blush, perfume… É tão difícil que não queiram ser mulheres enfeitadinhas desde cedo!

Sinceramente, eu torço para que as lanugens da Luana resistam intactas pelo menos até os 12 anos. Para mim, aquele bigodito sapeca é sinal de que a primogênita continua e continuará sendo a minha menina!

* Maria Amélia Elói, 39 anos, é mãe de Luana Lis, 6, e Mariana Flor, 2.

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12 pensamentos sobre “El bigodito

  1. Dizem que o corpo é o templo da alma. Como expressão externa de nossa essência, é importante cuidar dele. Mais do que isso: honrá-lo. É legítimo querermos tirar partido do que temos de bonito, termos orgulho do que nos é peculiar, aperfeiçoar aquilo que nos incomoda para que nos sintamos bem. Mas viver em função disso, em uma busca desenfreada por modelos de beleza irreais, pode se transformar em escravidão… em vez de templo, o corpo se torna a prisão da alma! Podemos ensinar às nossas crianças que o melhor investimento são as sessões de beleza da alma… o corpo reflete!

  2. Que texto bonito e triste. Bonito de ver o quanto essa situação traz de questões… triste de constatar o quando estamos aprisionadas em padrões que não apenas não nos convém, mas também são irreais. Que dor no coração ao constatar que todos os nossos anos de tentativas de adaptação às aparências vigentes recaem sobre nossas filhas, ainda tão pequenas e aprisionam elas também.

  3. Compartilho dos pelos, da herança que passei pra minha filha, também macaquinha e dos conflitos derivados desse tema. Quanto mais pudermos adiar a depilação e reforçar a autoestima oriunda da beleza natural acho muito importante, sempre e quando el bigodito não se torne foco de bulling no colégio ou entre amigos. As consequências emocionais podem ser piores do que a dor da depilação. Essa dor passageira pode ser libertadora da beleza da alma.

  4. Eu bem me lembro de também ser cabeluda mas isso só foi me incomodar aos 14 anos…aos 15 pude então fazer depilação e para mim foi uma festa! Na verdade, eu nunca havia me incomodado com pelos…isso só se tornou um “problema” quando as coleguinhas diziam que eu tinha pelos demais nas pernas e sobrancelhas…e foi aí que eu “despertei” para a estética e vaidade…a realidade hoje está bem mais cruel…meninas de 4 e 5 anos já fazem as unhas, alisam cabelos, clareiam e talvez até se depilem, não sei…criaram um padrão a ser seguido de pura escravidão como bem colocou a Marusia…uma pena!! A infância está ficando cada vez mais curta e com ela estão indo embora a espontaneidade, a leveza, o ser de verdade! Texto para se refletir!!

  5. Como mãe, realmente, não tem como não se colocar no lugar dela e imaginar que ela não se sente confortável com a situação. De qualquer forma, quanto mais for adiada essa precocidade da retirada dos pelos, melhor, afinal, dói mesmo! rsrsrs
    Enquanto isso, faria como vc fez, conversar com ela e valorizá-la em tudo que tem, afinal todos nós, sempre temos algo que pode não nos agradar. Muito bom o texto!

    Beijos,
    Larissa Andrade.

    http://maternidadeecotidiano.blogspot.com.br/

  6. Amei o texto, realmente estamos em uma via que leva ao consumismo exagerado onde ser aceita implica em ser linda e perfeita. Mas o que é perfeito? O que é ser linda? Quero continuar a acreditar e passar isso as minhas filhas que o mais importante está em nós mesmos, em sermos pessoas boas e ajudar o nosso próximo. Sei que dificuldades virão mas não posso e não quero acreditar que devo reder-me aos exageros do mundo moderno onde crianças de 3 anos são mini-mulheres!!!
    Enfim ser criança é TUDO!!!

  7. Muito boa a percepção a respeito de como a sociedade impõe e influencia as crianças ainda tão novas a supervalorizarem questões tão banais. Isso me fez lembrar um outdoor de um tal Clube do Livro Municipal em que havia uma foto de três crianças totalmente fora do padrão de beleza lendo livrinhos da Disney (Bela Adormecida, Cinderela e afins) exibindo na capa as belas princesas loiras, esbeltas, com belos vestidos. E isso era uma campanha de divulgação feita por uma prefeitura… Somos incentivados a seguir tais padrões impostos desde os contos de fadas contados na nossa infância.

  8. Minha filha tem 5 anos, é peludinha e as colegas de escola começaram a perguntar por que. Primeiro respondi a ela, maior interessada em saber os porquês sobre o próprio corpo, que a família pelo lado paterno tem bastantes pelos e escuros; falei também dos cílios, lindos, compridos e pretinhos que ela tem. Depois levei a questão para a escola. A coordenadora prometeu ficar atenta e a professora, na roda de conversa, destacou as diferenças de cada criança, mostrando que é natural sermos diferentes uns dos outros. O preparo das profissionais da educação foi fundamental para que a situação se resolvesse de uma forma satisfatória. Eu, que era radicalmente contra maquiagem para crianças, flexibilizei e comecei, (a contragosto, é verdade) a atender aos apelos dela por batom e esmalte. Muitos aprendizados a serem levados pra vida.

  9. Pingback: Clipping FemMaterna – 02 a 08/09/2013

  10. Minha filha de apenas 4 anos já tem bigode, como eu tb tinha nesta idade. Eu não gostava do meu e não gosto até hoje. Sofri na minha escola até os meus 14 anos até descobrir a depilação. Ela ainda não liga, mas o bigode já aparece bastante nas fotos e já me incomoda. Marquei consulta com uma dermatologista pra saber o que fazer para eliminar esse problema antes q os amiguinhos da escola comecem a tirar sarro. Sinceramente bigode não é nada bonito, e não quero que ela passe pelo que passei.

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