O que aprendi sobre… semana de prova

criança fazendo o dever de casa

Foto: hvaldez Stock Xchng

Então aqueles bebezinhos que mamavam e dormiam de repente começam a andar, a trazer dever de casa e a ter semana de prova. Então você tenta se lembrar de como era quando você estava na escola, tenta reproduzir o que na época dava certo (e evitar o que dava errado) nesse novo empreendimento. Então descobre que algumas coisas funcionam – e outras, não.

Semana de prova começa com dever de casa. Este post também poderia se chamar “O que aprendi sobre… dever de casa”. E é por aí que vamos começar.

O que aprendi com meus pais

Somos cinco irmãos. Todos nós fazíamos o dever de casa e estudávamos sozinhos. E isso se devia a algumas “técnicas” aplicadas pelos meus pais.

Não havia “ajuda”. Quando eu tinha dúvidas, meus pais diziam: “Ah, eu estudei isso há muito tempo, não lembro mais”. Tinha hora que ficávamos estupefatos. Minha mãe tinha sido professora primária por anos, dessas que ganhavam medalha. Meu pai era diretor de um banco. Uma duvidinha besta, uma conta de divisão, eles não conseguiam lembrar? Uma vez, a gente até se confidenciou: “Não é por nada, não, mas nossos pais são bem burrinhos, né?” De “burrinhos” não tinham nada. Qual o efeito disso? Eu sabia que não teria suporte em casa, então me esforçava para prestar MUITA atenção na aula e tirar as dúvidas com o professor. Lição número 1 de autonomia.

Não havia “correção”. Se o dever fosse corrigido em casa, como o professor iria saber se a criança estava tendo dificuldades, e quais eram? Como ele iria direcionar a matéria, dedicar melhor a alguns pontos? Para ele, com o dever sempre certo, seria sinal de um aluno prodígio.

mafalda e manolito na escola

Criação: Quino

O professor é a autoridade. Se os pais não confiam nele, devem alertar a escola. Se não confiam na escola, o melhor é… mudar de escola. O que não dá é criar um cabo de guerra entre os pais e quem está ensinando. No mínimo, isso cria um nó na cabeça da criança.

Botar para “pensar” no cantinho? Tá por fora. O negócio é aprender no cantinho. Quando tinha que deixar a gente “de castigo”, meu pai dava uma tarefa pra cumprir. Tipo copiar verbete de enciclopédia (à mão, óbvio, não existia Google – aliás, não existia PC), ou escrever de 1 a 100 em algarismos romanos. Cantinho educativo.

Tira do Calvin
O que aprendi hoje

A técnica número 1, a de sonegar ajuda, não é totalmente aplicável, hoje. No meu tempo, não tinha exercício cujo enunciado era: “com a ajuda da família”, “com a ajuda de um adulto”, acompanhado de missões que a criança nunca faria sozinha. Por exemplo: “Com a ajuda da família, faça uma maquete.” Um elasmossauro de sucata, um monumento de Brasília. Ou, como já postei, um aquário, um coelho, uma mula.

pai observando o filho fazer o dever de casa

Foto: Halton Parents

Eu procuro discernir. Aqueles deveres de procurar imagens ou palavras em revistas para formar frases, ou ainda “rótulos de embalagem com a letra do seu nome” são cruéis. Se a gente não ajudar, a criança fica até meia-noite procurando. Eu localizo uma página que tenha a figura ou a palavra e pergunto: onde está? Daí por diante, eles acham, recortam, colam e fazem as frases. E o objetivo do exercício é alcançado.

Pesquisa na internet: como uma criança de 4 anos vai fazer isso? Dependendo do tema, é impossível. Uma vez, veio: “pesquisar como eram os currículos escolares na década de 1910”. Sério. Experimente você, que é rato de Google, achar isso. Depois de horas, eu achei em um arquivo de “memória oral” de idosos que estudaram em uma escola no interior de São Paulo.

Importante: em hipótese nenhuma, a gente deve fazer o dever pela criança. A gente orienta, inicia o estímulo, mas o dever é dela.

A técnica número 2, a de não corrigir, é a mais árdua. Para mim, que trabalhei anos e anos com revisão de texto, encontrar uma redação cheia de erros de ortografia dói no coração. Quando eu não aguento, circulo a palavra errada e pergunto: onde está o erro? O drama reside em três pontos:

  1. Diferentemente do professor, eu não tive aula de didática, não tenho formação pedagógica, não domino a técnica de ensinar da melhor forma, não sou profissional de ensino. Menos ainda quando entram as teorias de que “a criança tem que construir o próprio conhecimento.”
  2. Ensinar é se lembrar de como era antes de aprendermos, já disse Richard Saul Wurman (no livro “Ansiedade de Informação” – SENSACIONAL). Não é fácil. O pior é quando nós aprendemos de um jeito fácil e simplesmente não sabemos onde está a dificuldade. Fui alfabetizada do jeito tradicional, e não por “escrita espontânea”, e até hoje não vi muita lógica nisso de aprender a escrever antes de aprender a ler. Mas eu tenho que confiar no professor…
  3. Sou mãe. Tem coisa que meus filhos vão fazer comigo (por exemplo testar minha paciência, ou fazer chantagem emocional) que não fazem com os professores. É um relacionamento diferente.

E aí eu me deparo com “pérolas” como estas (diálogos reais):

– P com A é…

– …

– Se P com E é pe, P com I é pi, P com O é po, P com U é pu, P com A é…

– TE!!!!

***

– O que é um pinguim?

– Um mamífero!!!

***

– Por que surgiram os conflitos entre os colonizadores e os nativos?

– Porque os índios já tinham muitos espelhos.

***
keep calm and do your homework
Acho o ó:

Pirações, como recortar milhares de notinhas e moedinhas de papel.

Pedir coisas esdrúxulas de um dia para outro, que você precisa achar um tempo na agenda e ir a uma loja específica para comprar, como sementes de árvores típicas.

Pedir garrafa pet de refrigerante pra fazer reciclagem. Aqui em casa a gente não toma refrigerante, oras bolas.

Enviar trocentas tarefas em feriadão ou nas férias. Momento de família, puxa, muitas vezes a gente escapole da cidade e viaja. Meus filhos já tiveram que fazer dever no hotel.

Às dicas dos meus pais, acrescento estas:

Ensinar é a melhor forma de aprender. De vez em quando, peço aos meus filhos mais velhos que ajudem o caçula. Antes que digam que sou exploradora de inocentes, saliento que eles adoram. Se sentem sábios, se sentem prestigiados. Por incrível que pareça, são pacientes. E reproduzem o que ensinamos para eles: “olha, presta atenção aqui…” (muito fófis!!)

Prestar atenção na aula é 60% do sucesso na prova. Somam-se 30% de exercício em casa e 10% de estado de espírito na hora de resolver as questões.

Ensinar a estudar – esse é o melhor investimento que podemos fazer. Para isso, as crianças precisam de espaço e tempo adequado. Mais dicas:

  • Comece “tomando prova” – fazendo perguntas para a criança, para ver se houve fixação do conteúdo lido. Crie historinhas, correlacione os assuntos: fica divertido e o que é aprendido não é esquecido nunca mais.
  • Na segunda vez, peça para que a criança faça as perguntas.
  • Da terceira vez, ela já estará estudando sozinha – e até fazendo “testes” para si mesma. Em matemática, exercício é primordial. Hoje, meus filhos criam as próprias contas, resolvem e testam o resultado fazendo operação inversa.

Ensinar a fazer prova – tem que ter malícia. Dicas:

  • Ler a prova inteira antes de começar. Muitas vezes, a própria prova já fornece algumas respostas.
  • Depois da leitura da prova, o passo seguinte é a redação e a parte subjetiva (se houver). A cabeça está mais fresca.
  • Ler cada comando no mínimo duas vezes.
  • Começar sempre pelas questões mais fáceis.
  • Revisar tudo ao final.

O que realmente importa

No meu tempo, existiam países como Iugoslávia e URSS, que hoje não existem mais. Havia um conflito chamado Guerra Fria. O Tocantins ainda não havia sido criado. As grandes revoluções da comunicação, como a internet, nem sequer eram cogitadas.

“Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas”.

(frase recolhida de um muro de Quito-Equador por Eduardo Galeano)

Respostas têm prazo de validade. Na atual velocidade da informação, já surgem obsoletas.

O que realmente importa não é saber as respostas. É saber fazer as perguntas. Essa é a grande lição que devemos deixar para nossas crianças.

mafalda perguntando o que é filosofia

Criação: Quino

______________

Veja também:

Uns peixes, um coelho e uma mula

O curso mais interessante do mundo

O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Da série O que aprendi sobre…

… sono

… desfralde

… gravidez

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7 pensamentos sobre “O que aprendi sobre… semana de prova

  1. Oi Marusia! Passamos pela alfabetização e agora pelas provas. A alfabetização é magica. Ficamos tensos querendo que a criança aprenda a ler e a escrever e esquecemos de aproveitar. Tivemos muitas tarefas de casa, caligrafia e exercícios de coordenação motora, mas só este ano vieram as provas. E vamos combinar que são de “lascar”! Os tempos são outros e as exigências também, mas as crianças são crianças. Meu marido diz não se recordar dos pais o ajudando nas tarefas, mas não ajudavam mesmo. Não éramos exigidos para desenvolver o pensamento como é hoje, e quando precisávamos de ajuda era da forma que você descreveu. Se hoje preciso fazer diferente, faço. Apoio, auxilio, mostro os caminhos para encontrar as respostas e os errinhos de ortografia. Não tenho formação em pedagogia e estou em formação como mãe. Não é? Procuro ler muito sobre lição de casa e converso muito com as professoras. Peço orientação mesmo. Elas orientam e eu tento. Não é nada fácil. Tem dias que eles estão cansados e nós também. Ainda vamos aprender muito. Ótima reflexão! Beijos, Gisa Hangai

    • Oi, Gisa,
      concordo contigo: hoje o nível de exigência é bem maior, tanto para as crianças, quanto para os pais. Também procuro acompanhar tudo na escola, ao mesmo tempo em que vou incentivando a autonomia deles. É realmente um desafio!
      Um beijo!

  2. Marusia as meninas ainda não vão na escola, ano que vem elas entraram na escola, mas acho que vou ser daquela mãe que fazer as tarefas junto, lembro de minha mãe me ajudou enquanto pode na escola, ai um dia ela virou e disse agora você vai ter que se virar sozinha. A minha mãe também me colocar para fazer cópias ou estudar a tabuada quando fazia alguma coisa de errada.

    Tri-beijos Desirée
    http://astrigemeasdemanaus.blogspot.com.br/

    • Oi, Desirée,
      e, no seu caso, vai ser uma ajuda tripla! Três deveres, três maquetes, três provas, três boletins… 😉
      Beijos!

  3. marusia posso te fazer uma pergunta? acha certo alguns pais de hoje quererem que a escola das crianças principalmente quando elas estão com 8 anos passem bastante deveres de casa e eles acham ruim as que passam poucas? o que você acha desses tipos de pais?

    não sei se você tem filhos? mas a partir de que idade você acha que a criança jpa deve ter dever de casa? e no caso de a partir de 8 anos em diante, você acha que deve ter dever de casa todo dia? ou não? em caso afirmativo quantas questões de cada matéria a cada dia ?ou se não souber dizer a quantidade de questrões, pelo menos o tempo que cada criança debve levarw ou acha melhor aquela escola que os filhos tem que fazer o dever na escola e tirar duvidas lá mesmo com o professor e em casa só ler algumas coisas ou revisarw ou então no caso das menores as que estão em pré escolar que não se tenha dever, digo dever de escola mesmo e sim da maneira que é a de meus filhos, que é assim, eles fazem o dever lá, no entanto existem alguns projetos existe um dia em que as crianças farão uma receita culinária( os outros pais é que dão os ingredientes)escolhida pelos pais juntos com eles os ingredientes chegam dois dias antes da data marcada para cada aluno.
    na sexta eles escolhem um livro e aí temos que ler´para eles, mas eles não precisam contar na segunda fica a nossa escola se eles contarçao a estória do que entenderam do que contamos do livro na terla feira ou na quarta feira. no entanto para desenvolver a linguagem deles, existe uma coisa chamada os objetos do final de semana, tudo que fizermos com eles ou para onde fomos devemos pegar alguns objetos para que na segunda feira as crianças contem como foi seu final de semana ao ver os objetos levados para a escola.

    • Oi, Guto,
      o dever de casa faz parte de um contexto bem maior, de dinâmica de cada escola. Não existe um modelo “certo”, mas o que cada família considera adequado para suas crianças. Há pais que preferem muitas atividades; outros, que acham melhor que seus filhos (principalmente os pequenos) tenham uma rotina de estudo mais leve. Assim, o ideal é que você observe a quantidade de deveres que a escola envia para sua filha em relação à proposta pedagógica como um todo. Se você achar excessiva, vale a pena conversar com os coordenadores – ou até mesmo ver outra escola.
      Abraços!!

  4. eu acho bom os dos meus filhos mas eles tem menos de 4 anos ainda, com 4 anos, e o que voc~e acha dessa proposta da escola deles?

    e eles dizem que depois a partir do primeiro ano(6 anos de idade) eles proíbem as crianças entre 6 e 8 anos de terem lições todo final de semana e sim uma vez ao mês, no entanto os de 6 anos como é período de alfabetização, aí nas férias de meio do ano eles acabam passando algumas lições , mas disse que não é nada cansativo. agora a partir dos 9 anos, aí eles tem lições de casa nos finais de semana, mas não em todos e sim em três, ou seja só um que não, a escola só vai até quinto ano, a escola deles.

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