Mamífera!

No post de hoje, a escritora Maria Amélia conta um pouco sobre o desmame e o que envolve esse processo. Quando a decisão cabe à mãe, sobrevêm sentimentos diversos relacionados a vontade, sono, prazo, reconfiguração do encontro e, ainda, nossa postura diante do “Lá Fora” – que parece insistir em transformá-la numa decisão que é “de todo mundo”.

“Não mama?” “Ainda mama?” “Isso?” “Aquilo?” Já que não estamos imunes às “interferências”, então vamos usá-las a nosso favor, com um relato sincero que pode inspirar quem está atravessando a mesma fase.

“Mamífera!

Por Maria Amélia Elói

Tenho duas filhotas queridas: Luana Lis, de 6 anos e 1 mês; e Mariana Flor, de 2 anos e 5 meses. Amamentei a primogênita até os 2 anos e 5 meses e estava planejando desmamar a caçula quando ela completasse essa mesma idade. Ai, ai, ai, o prazo está caducando… Mas sou mamífera de carteirinha! Não nasci para tirar o doce (leite) da boca da criança! Adoro os meus grudinhos como penduricalhos.

Ainda não estou muito certa se chegou a hora da Mariana, ou melhor, se chegou a minha hora. Quando imagino o fim dos nossos lácteos encontros, sinto um treco esquisito, pressinto uma saudade ardida, daquelas que umedecem os olhos.

Não foi difícil desleitar a Luana. Certo dia, mostrei-lhe uma faixa enrolada aos seios e disse que eles estavam dodóis; por isso, eu não poderia lhe dar o mamazinho. Quando eu chegava do trabalho, ela vinha correndo me encontrar, com a mesma pergunta: “Sarou, mamãe? Deixe eu ver”. Isso durou uns três dias. Ela demonstrava dó de mim, e eu também ficava com pena dela (na verdade, mais de mim que dela). Eu chorava no quarto, enquanto meu marido colocava a Luana para dormir. O coitado não sabia se acudia a mulher plangente ou a filha. Mas a adaptação foi superpositiva, e o consolo veio logo. Não mais podendo se utilizar do meu peito como chupeta, Luana passou a dormir a noite toda já no primeiro dia de desmame! Parecia milagre para uma criança que acordava no mínimo quatro vezes por noite.

Desleitei a Luana porque eu precisava dormir! O motivo do meu cansaço (em razão do acorda e levanta toda hora para amamentar a Luana) era forte. E agora? Qual é a “desculpa” para eu tirar a Mariana do peito? O anjinho tem dormido bem melhor, chamando-me apenas uma ou duas vezes por madrugada. A bezerrinha merece “condenação”? Vocês precisam ver o sorriso dela, pedindo, em volume aumentativo: “Mamãe, quero mamar, mamar, mamar!”. E quando ela termina um lado: “Quero mais. O outro, o outro, o outro”. É o trem mais fofo do planeta!

Há quem diga que o bebê precisa ser desmamado logo — para se tornar mais independente e para não interferir na alimentação. E no caso da mãe completamente presa a seu pingentinho sugador? Como incentivá-la a tirar o peito do filho?

Muitos reprovam quem amamente até a criança ficar grandinha. “Ela ainda mama? Não acredito! Isso vai até quando? Até o baile de debutantes? Até o casamento?”. É um povo que teima em se intrometer na relação e na refeição dos outros, hein?

Estou lendo um livro fascinante, chamado “Quarto”, da escritora irlandesa Emma Donoghue, que enfoca a relação de carinho e confiança construída entre uma mãe e seu filho, de cinco anos. Eles vivem confinados num quarto, sem nenhum contato com o Lá Fora. O narrador é o próprio menino, Jack, que sempre pede à mãe para “tomar” um pouco. Trata-se de um garoto muito esperto e cativante, que não dispensa o leitinho da mãe. No caso, além de fortalecer o amor entre eles, a amamentação é até uma fonte nutritiva para Jack, que se alimenta mal naquele cárcere. É bem provável que, se eles vivessem em comunidade, a mãe já teria desmamado o filho; mas, sem a interferência do Lá Fora, eles podem manter esses momentos de graça.

Não, não vou aleitar a minha Flor até os 5 anos. Pelo menos acho que não. Mas talvez eu não tire a pequena do peito neste mês, só porque ela chegou à data limite. Quem sabe quando ela completar 2 anos e 6 meses, ou 2 anos e 11 meses? Não me considero uma pessoa descontrolada ou neurótica. Às vezes até acho que sou uma mãe sensata e equilibrada. Em breve, a questão do desmame estará resolvida, sem grandes traumas! Prometo contar o desfecho.”

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Veja também:

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

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Um pensamento sobre “Mamífera!

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