Sobre ballet e bullying

Ballet Lago dos Cisnes

Cisne negro

Há alguns anos, minha cunhada, bailarina de alto naipe, me perguntou se eu matricularia minha filha no Ballet. Respondi que só se fosse a razão da vida dela, que fosse algo que ela quisesse mais do que tudo no mundo, porque minha experiência não tinha sido legal. Que, ao contrário da minha cunhada, eu não tinha muito talento pro negócio, e enfrentei situações muito humilhantes.

Entrei no Ballet aos 8 anos. A primeira professora era fofa. Nos quatro anos seguintes, entretanto, passei a ter aula com outra professora, mais rígida, que estava obcecada para formar um corpo de baile.

Eu nunca tive pretensão de ser solista. Conforme disse, nunca fui habilidosa. Era esforçada, obediente e tímida. E vibrava com os festivais de fim de ano.

Certa vez, fizemos “A Bela Adormecida”. Minha turma era de “aldeãs”. Foi quando eu comecei a sentir a pressão. Ensaiava de domingo a domingo, mas não foi suficiente. Faltando poucos dias para o espetáculo, a professora me tirou de duas coreografias. Durante elas, eu faria figuração, sentada imóvel em um banco no fundo do palco. Na única coreografia de que participei, eu, que tinha mais de 5 graus de miopia, fui obrigada a dançar sem óculos, porque “aldeãs não usavam óculos”.

No ano seguinte, fui cortada de outra coreografia. A alegação foi que eu era muito “baixinha”. Uma colega, que tinha estatura menor que a minha (mas era um esplendor dançando), levantou-se e perguntou: “Se fosse assim, eu também não estaria.” A professora limitou-se a ficar vermelha e não dizer nada. Mas eu entendi tudo.

No último dos quatro anos, minha turma finalmente foi promovida a “corpo de baile”. Menos eu, que teria que voltar para o nível anterior.

Apesar de ser magra como um palito, eu sempre tive o tronco largo, além de uma “pochetinha”. Então, ouvia sempre: “Encolhe essa barriga! Bailarina não tem barriga! Uma linguiça seca como você não pode ter barriga!”

Eu tinha 13 anos. Escrevi uma carta para a professora e saí do Ballet. Hoje, essa abordagem seria considerada bullying. Interessante que a rivalidade não existia entre as colegas (vide minha “defensora”, acima). O bullying que eu havia sofrido partiu de um adulto, do professor, da autoridade.

Minha mãe fica doidinha com essas histórias. “Por que vocês não contaram pra gente?” A resposta é unânime: “A gente não queria incomodar vocês com essas coisas de criança.”

Hoje eu e meus irmãos nos reunimos e lembramos morrendo de rir. Dizemos que é uma espécie de catarse coletiva, e rimos (e nos emocionamos) porque afinal não era privilégio individual de nenhum de nós: todos passamos por isso. Já meu marido não tem a mínima paciência para o que considera uma “autocomiseração”. Ele não concorda, diz que desde pequeno sempre procurou se dedicar ao que sabia fazer, e não o oposto.

Aconteceu com meu filho mais velho. Ele AMA futebol. Resolveu entrar na escolinha. Pensei que podia ser uma maneira de ele aprender a jogar melhor. O professor sempre foi muito respeitoso, mas no terceiro campeonato, meu filho me disse: “Quero sair. Passo a maior parte do tempo no banco. Não acho errado, porque não quero prejudicar a equipe. Então vou procurar algo em que eu seja bom.” Oito anos de idade.

Hoje ele faz Karatê. A academia foi pesquisadíssima, com o medo de ele ir parar na Academia Cobra Kai (de “Karatê Kid A hora da verdade”, lembra?). Todo cuidado é pouco. Pois encontramos o que considero o Sr. Miyagi brasileiro. Vou me permitir ser a coruja das corujas: em menos de um ano, ele já tinha sido aprovado em quatro exames de faixa (branca, azul, amarela e vermelha). Está na laranja. Parece que nasceu pra isso. Fico fofa de orgulho.

Professor da academia Cobra Kai encarando Sr. Miyagi

Karatê Kid – A hora da verdade

Voltando ao Ballet. Eis que, com 4 anos, minha filha entra na aula. Fazia parte da recreação, não era uma academia de Ballet. Pensei que, com isso, o clima seria mais leve. Não quis contaminar a situação com meus preconceitos. Comprei o uniforme e as sapatilhas na maior alegria. Meses depois, ela me pede para sair: “É chato.”

Alunas de ballet na barra e uma delas pendurada de cabeça para baixo

A professora me contou que ela “não tinha a disciplina necessária para o Ballet”. Que, durante a aula, havia uma espécie de “circuito” com objetos de isopor para marcar as estações, e que bastou virar as costas para minha filha misturar todos eles. Na surdina. Com a cara mais angelical do mundo.

Pensei:

Gente!!! Minha filha não tem NADA a ver comigo!!!

QUE MARAVILHA!!!

Quatro anos de idade.

Moral da história 1:

Existem academias e academias. Como pais, devemos ficar atentos. Nem sempre as crianças falam o que acontece nas aulas.

Moral 2: Numa dessas “sessões de autocomiseração” em família, minha cunhada se sentiu à vontade para contar os absurdos que ouvira da professora de Ballet. E olha que ela era solista. Hoje, ela está na turma para adultos e experimenta pela primeira vez “Ballet com amor” (quando criança, ela teve “Ballet com dor”).

Moral 3: Evitemos projetar nos nossos filhos nossas frustrações. Ou nossos sonhos.

Moral 4: Jamais percamos de vista que eles são crianças. Hoje minha filha faz Karatê, também. Se diverte pra caramba com o Miyagi brasileiro.

Menina de quimono lutando karatê

Quem foi mesmo que disse que ela não tinha disciplina?

menino e menina em pose de karatê __________________

Veja também:

Meu filho vai usar óculos

O anjo na areia

Caminhos

This post in English: On Ballet and bullying

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24 pensamentos sobre “Sobre ballet e bullying

  1. Minha filha faz Ballet desde os 3 anos e meio (hoje ela tem 4 anos e 8 meses), no começo ela não ligava muito, ia para ter amiguinhas para brincar, ficava se olhando no espelho e nada de fazer os exercícios. Hoje ela gosta e sente falta quando não vai. Apesar de ser uma academia muito simples ela tem vantagens enormes sobre as grandes academias de nome aqui da minha cidade:
    – há uma janelinha espelhada que permite que os pais olhem dentro da sala e vejam o quê acontece;
    – é pedido para os pais não entrem na sala para não atrapalhar o andamento, mas não é proibido;
    – eles sempre tratam todas as crianças com muita delicadeza e carinho (dá pra ver pela janelinha).
    Deve ter mais itens, mas são esses os principais.

    • Oi, Patrícia,
      que bom que vocês encontraram uma academia carinhosa. Seu acompanhamento é muito importante para que sua filha continue gostando e se realizando.
      Um beijo, obrigada por comentar!

  2. Meu primeiro bullying sofrido na vida também foi no ballet. Trago boas recordações, fotos lindas, mas não gosto nem de ouvir falar em ballet. Comecei com três anos, por conta de um desejo não realizado de minha mãe na sua infância, e só aos onze anos eu consegui dizer que não queria mais fazer. É difícil pra uma criança entender a pressão toda. Aliás, é uma criança, não acho que deva ter pressão. Meu filho também será incentivado a fazer atividades, mas quero deixá-lo livre para escolher a que gostar mais. E acho fundamental também o acompanhamento, assim como tu fez. Adorei o post! Beijos, Mariáh.

    • Oi, Mariáh,
      concordo! A infância é uma fase de construção, em que tudo deve ser envolvido por afeto, e não por pressão.
      Obrigada por compartilhar!
      Beijos!

  3. Na pré-adolescência, fiz jazz. Eu era simplesmente a pior da turma e sempre sofri humilhações por parte da professora e de algumas colegas. Fui descartada de várias coreografias. Por que eu não pedi pra sair logo??? Foram mais de 5 anos de sofrimento!
    A Luana fez balé no ano passado. Dançou bem bonitinho na apresentação de fim de ano. Neste ano, não quis voltar. “Filha, por quê?” — perguntei. “Porque eu faço alto, e a tia Jane fica pedindo pra eu fazer mais alto, mais alto…” Não é que a menina já conhece os próprios limites?

    • Oi, Amélia,
      é por isso que eu sou fã de carteirinha dessa nova geração de crianças maravilhosas, poderosas e cheias de atitude. 😀
      Um beijo!

  4. Minha filha tem quase 3 anos e adora dar piruetas dizendo que esta dancando ballet. Pensei em coloca-la, mas acho que vou procurar grupos menos rigidos e com tom mais de brincadeira e exercicios. Nao quero que a pequena sofra bullying desnecessario tao cedo – ela provavelmente vai passar por isso quando crescer, pelo menos que seja quando ela souber se defender ou contar pra gente o que realmente esta acontecendo.

    • As meninas ficam encantadas, porque o Ballet tem essa aura de magia. Nem sempre é o que ocorre nos bastidores, por isso a escolha da academia é tão importante. Ainda bem que hoje já temos mais opções, abordagens mais lúdicas e mais amorosas. 🙂

  5. Eu tenho uma neta de 9 anos que faz GR. Tem 2 meninas que perseguem ela nas aulas de treino ,e sempre falando coisas que não tem nada a ver, deixando ela triste. Isso vem acontecendo longos desses meses, eu já falei com a professora , a professora fez reunião mas nada mudou.
    Fala até do lanche que a minha neta leva.
    Teve competição, eu percebia que no aquecimento essas duas aproximavam e falavam alguma coisa.
    Depois do campeonato perguntei o que elas falavam de tão importante tirando a sua atenção. Ela me contou que uma falava …Sua vó te bate? Te bateu hoje? Chega a companheira falando, quero o seu bem, não quero o seu mal.
    Não sei o que fazer.

    • Matiko,
      É muito triste quando abandonamos algo que amamos por causa do bullying.
      O bullying é cruel porque é covarde. Parte de alguém com autoridade (o professor, por exemplo), de um grupo (como as meninas da GR) ou de quem tem o apoio do grupo (e até pais que defendem seus bullers, sem se darem conta). No caso das crianças, mesmo que os adultos interfiram, elas continuam agindo na surdina (às vezes até de forma pior depois da intervenção).
      Cheguei a pensar em alguma estratégia que desarmasse as duas meninas, como um bombom acompanhado de cartão, mas elas poderiam usar isso como precedente para fazer ainda mais exigências à sua neta.
      Nós até podemos orientar, sugerir algumas frases de bate-pronto, mas se ela for tímida não conseguirá prosseguir com o “diálogo”.
      O bullying funciona como uma ponte: agressor / vítima. Se eliminarmos o pé “vítima”, a ponte cai. Isso acontece quando a vítima se ergue e, emocionalmente, não mais se deixa atingir pela agressão.
      Outro ponto importante é entender que as duas meninas também têm problemas, do contrário não fariam isso. Essa compreensão neutraliza nossa raiva e o desejo de fazer o mesmo.
      O ideal é que a reação parta da sua neta. Percebi que ela confia em você, porque lhe conta o que está acontecendo. Esse passo é importantíssimo, porque nem sempre as crianças conseguem falar sobre esse tipo de problema. Em segundo lugar, vejo que você a apoia. Continue conversando com ela, crie cumplicidade, para que ela se sinta segura não somente na GR, mas para a vida.
      Boa sorte!
      Beijos,
      Marusia

  6. Excelente, Marusia! Obrigada por sintetizar com tanta clareza reflexões tão pertinentes! Aproveito para acrescentar mais uma: se a criança amar o que está fazendo, mesmo que o ambiente seja hostil, podemos incentivá-la a se expressar e a aprender a cuidar de si e não “superprotegê-la”, mas realmente protegê-la. Apesar das minhas experiências dolorosas, sou muito grata por todo o crescimento pessoal que experienciei. Não desejaria, de forma alguma, ser “poupada” delas, no sentido de ser privada de enfrentar as dificuldades e me fortalecer com elas. Entretanto, tenho certeza: isso seria impossível sem a escuta amorosa e atenta dos meus pais. Sozinha, o prejuízo poderia ter sido maior do que o aprendizado.
    Obrigada pelos elogios, querida! Que venham as novas danças!

    • A própria natureza da dança é assim: expressão, encontro, celebração e – também – desafio. Este último, no entanto, não pode suplantar os primeiros, mas revesti-los de significado ainda maior.
      Beijos no coração!

  7. outro dia fui tentar colocar minha filha no ballet pois desde o ano passado que ela pede, só que ela tinha 2 anos e meio, agora está comn 3 anos e meio, levei ela para ver uma aula de ballet em que se ela gotasse, ela seria aluna, ela ficou só olhando, até gostou e tudo da musicas da ludicidade, vi a professora sendo boazinha, mas teve uma hora que fiquei com pena das crianças antigas que só tem 3 anos, ela perguntou a elas, nós viemos aqui para brincar ou para dancçar? as crianças responderam dançar, aí quando alguém ´não dançava direito, ela achava que era brincadeira e dizia que quem brincasse iria para o cantinho do pensamendo em outro andar. minha filha me falou que não queria mais fazer ballet.

    ao invés de traumatizar minha filha, me traumatizou

    • Oi, Guto,
      e olha que você estava lá, e pôde presenciar a atitude da professora. Eu já soube de academias que não permitiam a presença dos pais. Fico só imaginando o que ocorria durante as aulas. As crianças, principalmente as mais novinhas, nem têm como se expressar.
      Abraços e obrigada por compartilhar!

  8. essa na verdade me deixou, só porque era a primeira aula, mas teve uma hora que a professora, perguntou se se eu saísse se ela aceitaria. mas não deixei, pois é eu estava lá marusia, desculpe a demora pela resposta é que só hoje que vi.

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