Verdades

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Utilização de Nemo no setting terapêutico

Violência na Turma da Mônica

Em defesa da Turma da Mônica

Princesas Disney

As princesas Disney e o feminismo

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Abaixo, estão versões diferentes de três produções infantis:

Marlin, Nemo, Dory no fundo do mar

Procurando Nemo – Disney Pixar

Órfão de mãe, portador de necessidades especiais, enfrenta o pai dominador. O enredo apresenta, sem cortes, cenas de canibalismo, sequestro de crianças, trabalho infantil, vício, mentira, violência e perseguição. Emocionante aventura de um pai em busca do filho, repleta de lindas lições, como a superação, a confiança, a amizade, o estabelecimento de metas e o autoconhecimento. Além disso, oferece novas perspectivas acerca da paternidade: os desafios, o conflito entre ser pai ou amigo do filho e o imprescindível amor paterno no desenvolvimento da criança.
Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali

Turma da Mônica – Mauricio de Sousa

Histórias de um grupo de crianças, em situações estereotipadas e sistemáticas de pancadaria, bullying, compulsão alimentar, inconsequência e falta de higiene. Uma produção que extrapola o mundo dos quadrinhos (atualmente um monopólio nacional, na falta de outras opções de gibis para crianças no Brasil) para compor uma poderosa indústria de bens de consumo. Histórias de uma turma de crianças que trazem lições como amizade, autoestima, criatividade, respeito à diversidade, em um ambiente bem brasileiro. Os quadrinhos mostram como pode ser divertido brincar na rua e a importância de se cuidar do meio ambiente. A personagem principal é do sexo feminino, que sabe se defender e exercer sua liderança sobre o grupo. Ela e as outras crianças foram inspiradas nas filhas e nos amigos de infância do autor, o que explica a sensação de identificação e a familiaridade por parte do leitor.
Aurora, Ariel, Branca de Neve, Jasmine, Cinderela e Bela

Princesas Disney

Universo sexista, em que as mulheres só têm valor se forem bonitas, e cuja realização pessoal só é possível no casamento. Para alcançar esse ideal, elas abandonam suas famílias e seus amigos, abrem mão de seus talentos e são capazes até mesmo de mudar o próprio corpo. Uma delas, na verdade, nem precisou estar acordada para conseguir a atenção do futuro marido. Adendo: Os homens também precisam ser lindos e ricos. Um convite ao sonho e à fantasia, com protagonismo feminino. No reino encantado dos contos de fadas, mulheres corajosas demonstram doçura, bondade, solidariedade e sacrifício pelo outro, e provam que a força poderosa do amor sempre vence o mal.

E aí? Qual é a versão “verdadeira”?

Nenhuma delas.

Porque nada é totalmente bom, nem totalmente mau. Nada tem apenas um lado.

Apegar-se a uma versão é fazer como os cegos que apalparam um elefante. Quem tocou na tromba, achou que era um bambu. Quem tocou no dorso, uma parede. O rabo virou uma corda; a pata, um pilar. Ora, um elefante não é uma soma de bambu, parede, corda ou pilar. É um todo, um conjunto maior que a soma dessas partes isoladas.

Os cegos apalpando o elefante

E quando o elefante nem existe? É uma ilusão, como essa gravura de cinco patas?

ilusão de ótica desenho de elefante

É o mesmo caso dessas produções infantis: não existem. São pura ficção, de entretenimento.

Nemo realmente é órfão, Marlin realmente é dominador. Há cenas de canibalismo (a barracuda que devora a mãe de Nemo), sequestro (o mergulhador que o leva para o aquário), exploração infantil (quando Gil o convence a travar o filtro). Mas também é uma história de superação e oferece uma rica gama de visões sobre o amor paterno.

Mônica realmente bate nos amigos, porque é vítima de bullying. Maurício de Sousa realmente tem muitos licenciamentos de produtos da Turma da Mônica, mas isso é reflexo do sucesso dos personagens. Magali é compulsiva, Cascão é avesso à higiene. Contudo, até esses estereótipos são úteis para ensinar. Existem vários exemplos de respeito às diferenças e exercício da cidadania. Fora que as histórias, tão brasileiras, são garantia de diversão.

Sobre as princesas Disney, elas são mais que o somatório das duas versões, a misógina e a cor de rosa.

A pergunta que surge é: por que essas e outras produções midiáticas fazem tanto sucesso entre as crianças, geração após geração? Muito, muito além de questões como consumismo e alienação, elas fazem sucesso porque contêm uma fortíssima carga simbólica. Porque trazem arquétipos e outros aspectos universais. Não necessariamente são exemplos a ser imitados.

Todos esses personagens e suas histórias estão abertos a infinitas interpretações. E continuarão a produzir sentidos no futuro.

Como diz Eni Orlandi, em Análise do Discurso, “sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo” (Discurso em Análise. Editora Pontes, 2012). Isso significa que, ao ter contato com determinado discurso, a pessoa que interpreta e a interpretação são indissociáveis. Além disso, autora afirma que “o sentido não se fecha, assim como o sujeito também é itinerante”. O mesmo discurso, portanto, é passível de inúmeras análises, até pelo mesmo sujeito.

E assim dão margem a muitas releituras:

princesas Disney vestidas como as vilãs

Como vilãs

Princesas Disney fazendo careta

Fazendo careta

Princesas Disney acima do peso

Inspiradas nos quadros de Fernando Botero

Ariel, Branca de Neve, Bela e Cinderela de óculos

Mulheres de óculos

Princesas Disney sem cabelo

Apoio na luta contra o câncer

Branca de Neve com bebês e marido descansando

Quem sabe o príncipe virou um sapo…

Quadrinho com princesas Disney falando dos maridos

Princesas na versão Desperate Housewives

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Princesa Merida com arco e flecha

Merida, uma princesa Disney que não se casa no final

O que fazer diante de Nemo, Mônica, princesas e todos os outros produtos infantis de entretenimento? São muitas as opções:

  1. Evitar que a criança tenha acesso a eles, para protegê-la;
  2. Esperar que a criança tenha maturidade antes de ter acesso a esses produtos;
  3. Deixar a criança escolher o que quer ver e confiar que ela saberá a diferença entre ficção e realidade;
  4. Mostrar os produtos à criança, até para que ela conheça o “lado sombrio da Força” e saiba se defender;
  5. Explicar à criança os prós e os contras;
  6. Deixar que a criança apresente sua própria interpretação sobre os produtos;
  7. Outras.

E aí? Qual é a opção correta?

Ora, essa também não é uma questão de certo ou errado. Cada família deve optar por aquilo que faz SENTIDO para ela, em razão de suas possibilidades e suas crenças. E nem sempre o que é verdade para uma, o é para outra.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 2: o que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: por que nos identificamos e espelhamos nelas?

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6 pensamentos sobre “Verdades

  1. Eu acho que todas as histórias são válidas e têm algo a ensinar. Privar as crianças de ter acesso a elas é o mesmo que privá-la de ler Monteiro Lobato por causa do conteúdo racista das histórias (conteúdo esse inserido no contexto histórico da época). O mundo não é cor de rosa e a criança tem que interagir com diversos tipos de história para entender as nuances do mundo em que vive e também para adquirir senso crítico.

    • Sim, Cris! “Senso crítico” é a chave para nossa compreensão do mundo. Conhecer as diversas facetas do que nos cerca também traz mais segurança às nossas decisões.
      Um beijo!
      Marusia

  2. Oi, Marusia. Confesso que me incomodo um bocado com as meninas princesas sempre à espera de seu príncipe salvador. Acho que isso apresenta uma única forma de ser mulher e ser feliz, e é tão poderoso como mensagem que a gente passa muito tempo acreditando. Hollywood está toda aí para comprovar. Além disso, acho que existem desenhos e desenhos e cabe à nós, ao menos naquilo que apresentamos aos nossos filhos, apresentar o que julgamos o melhor. Eticamente falando. É uma tomada de posição. Além do mais, a criança tem contato com muito mais gente do que pai e mãe, o que significa que ela será exposta a outras coisas, a outros valores, obrigatoriamente. Ela não será privada de nada, apenas terá uma idéia de que pessoas diferentes escolhem coisas diferentes baseadas em valores diferentes. E isso é bom, é bom que ela saiba qual é a dos pais, até para se rebelar.

    • Oi, Alessandra!
      A decisão de apresentar determinados conteúdos infantis, de estabelecer filtros ou não, compete a cada família. Esse discernimento torna-se mais amplo quando assumimos que os significados não são fixos. Quando, para nós, um significado sobressai, entender como isso funciona é um exercício maravilhoso de autoconhecimento.
      Vou dar um exemplo. Uma vez, as crianças escolheram o filme “Tarzan” na videolocadora (que coisa mais antiga kkkk!). Desenho, classificação livre, etc. Para minha surpresa, meu filho mais velho ficou MUITO impressionado. Mexido, mesmo, com a cena em que o Tarzan encontra o porta-retrato dos pais. Diante do enredo inteiro, de aventura, para ele o significado que sobressaiu foi a orfandade do Tarzan. Para mim, o que fez sentido foi Jane abandonar tudo para ficar na selva. Pode ser submissão? Sim. Pode ser o oposto – coragem, liberdade? Sim… 😉
      Um beijo, obrigada por comentar!
      Marusia

  3. Antes de tudo: adoro análise do discurso!
    Bem, agora vou comentar: tudo depende mesmo do nosso olhar e as histórias, infantins ou não, estão aí para nos fazer refletir sobre elas. Porque a pior opção mesmo é deixar de narrá-las pelo medo do efeito de sentido que ela possa provocar.
    Eu, por exemplo, mesmo sendo uma agnóstica, não vejo a hora de contar as histórias bíblicas para a minha filha, que acho fantásticas! Assim como a mitologia grega, egípcia, indígena, etc. Acho que a variedade de narrações a ajudará a formar o seu pensamento e só vejo vantagens nisso.

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