Radicalismo: a que custo?

Não raro, vejo na internet textos bem intencionados que, pela forma com que são escritos, acabam atraindo resultados opostos ao que almejavam.

Acho fantástico quando se divulga a “maternidade real”, aquela que não está nas capas cor-de-rosa das revistas. Quando se mostram os desafios, quando se fala da necessidade de preparo e responsabilidade para ser pai e mãe. Mas não posso concordar com o que li em um blog: “Se a criação de filhos está fácil, a pessoa não está fazendo direito.” http://paperthoughts.wordpress.com/2013/02/10/bigger-the-better/

Os momentos mais maravilhosos que tenho com meus filhos são fluidos. Fáceis. E sem culpa.

Prosseguindo no post, dá-se como exemplo a mãe “O”, que não teria capacidade emocional para criar os filhos – “pessoas assim não deveriam tê-los”. No final, o texto diz que não adianta falar nada a “O”, porque ela simplesmente não entenderia. Silencia na presença dela, mas divulga seu comportamento para toda a web para impor seu ponto de vista. Isso não a ajuda, nem a seus filhos. (Quis deixar um comentário, mas esse recurso não foi habilitado no blog).

Acho ótimo quando as mães se reúnem na Câmara dos Deputados para propor novas leis. Organizam marchas para fazerem valer seus direitos. Boicotam uma grande marca. Acionam o Conar e suspendem um anúncio publicitário abusivo. Mas me preocupa quando ninguém se pergunta qual o verdadeiro poder da publicidade: por que ela é poderosa para vender hambúrguer, mas não convence ninguém a usar camisinha no carnaval? Por que Fernanda Lima consegue vender carros para a Chevrolet, mas não consegue reduzir o número de cesáreas com a campanha pelo parto normal?

Fernanda Lima faz propaganda para a Chevrolet

Fernanda Lima defende o parto normal em anúncio do ministério da saúde

Acho importante quando se alerta para crianças entregues 24h às babás. Mas sinto falta de quem defenda as crianças entregues ao tráfico de drogas. É legítimo questionar se o bebê deve ou não chorar no berço. Mas acho ainda mais valioso quem protege os bebês que choram sem berço, sem cama, sem casa.

Esses problemas são só do Governo, do Estado? O que então estaria sob “nossa” alçada? A bola da vez são as outras mães, mães como “O”. Acusá-las indistintamente na praça pública da internet e esperar que cada vez mais carapuças sirvam – essa é a melhor solução? O que de prático isso está resolvendo? Qual o valor da crítica, se não há nada a oferecer no lugar? Se culpar os outros fosse solução, já viveríamos no paraíso. Desde a Idade Média.

Lembro os livros de psicologia infantil, que recomendam julgar a atitude, não a criança. Se desejo que meus filhos sejam tratados assim, assim devo tratar o mundo. Existem atitudes mais adequadas, menos adequadas, totalmente inadequadas. Atitudes que SEMPRE estão atreladas a condições históricas, econômicas, sociais e psicológicas. Julguemos as condições e as atitudes, não as pessoas. Ofereçamos a elas oportunidades de rever e melhorar.

Para mães que maltratam deliberadamente as crianças, que espancam, torturam, exploram, um texto na internet é inócuo. São casos de polícia, Disque 100.

Não há determinismo na criação dos filhos, como se a mãe “radical” garantisse um futuro melhor. Eu até acreditei e gostaria que existisse esse controle (para o bem), mas é apenas ilusão. Ilusão perigosa se formos a fundo, pois significa acreditar que:

  • A mãe “radical” que age da mesma forma com cada um dos filhos terá, quando eles crescerem, réplicas idênticas a ela e entre si – isso é irreal;
  • A sociedade de hoje, tão individualista, é fruto de uma legião de mães “não radicais” – as nossas. – isso é infundado e leviano;
  • O filho de uma mãe “não radical” ou alguém sem a presença materna (um órfão, por exemplo) irremediavelmente não terá um futuro melhor, nem contribuirá para uma sociedade melhor – isso é absurdamente falso.

Fala-se tanto: “Quem não quer responsabilidades, não tenha filhos”. Ora, qual a tendência, não só brasileira, mas mundial? Queda constante na taxa de fecundidade. O discurso está funcionando. O curioso é que quem opta por não ter filhos é chamado de egoísta.

Em meio ao consumismo inveterado, é imprescindível valorizar a infância. Mas, até que ponto, sob o argumento de colocar a criança indefesa acima de todas as coisas, está meu discurso que prega a “minha” verdade acima de todas as coisas?

A radicalização indubitavelmente chama a atenção. A reflexão é importante, mas a que custo? Ao contrário do que se pensa, o extremismo não abre o debate. Fecha as portas. Em vez de informar, sensibilizar, criar um movimento sadio em prol de algo comum a todos, o que pode ocorrer?

  1. Chover no molhado. Encontrar eco somente em quem já pensa do mesmo jeito;
  2. Cair no vazio. Deixar de ser levado em consideração – “apelou, perdeu”;
  3. Cair no risível, ser motivo de piada, de ironia;
  4. Como se existissem apenas duas classes de mães: as boas e as más;
  5. Culpabilizar e afastar quem quer acertar – que é quem lê blog de maternidade;
  6. A mais grave de todas: provocar reações ainda mais extremadas.

Os próprios termos citados: “militância”, “patrulha”, “xiita”, fazem referência à guerra e evidenciam o campo de batalha que isso se tornou. Mas que inimigo é esse? O sistema, o capitalismo, os publicitários, a mídia, os médicos irresponsáveis, os pedófilos, os traficantes não precisam se preocupar: as mães já estão ocupadas demais brigando umas com as outras.

Considero essencial apostar numa sociedade melhor, resgatando o empoderamento feminino, a humanização dos atos, a dedicação, o toque, o afeto. Observemos, contudo, se estamos oferecendo todo o amor aos nossos filhos e reservando todo o ódio a quem pensa diferente.

Muitas mães blogueiras têm filhos ainda pequenos. Eles crescerão, lerão o que foi escrito. Que lição está sendo passada? A de tolerância?

Admiro demais os blogs de mães que têm crianças com síndromes, doenças ou deficiências, que se unem em busca da cura, da informação, de uma resposta do Estado. Questões sobre mães “radicais” ou “não radicais” nem entram na pauta.

Eu acredito na revolução silenciosa da Pastoral da Criança. No trabalho amoroso do Child Fund, das orquestras de meninos. No trabalho carinhoso dos bancos de leite – sim: o Brasil das cesáreas também é o país com o maior programa de doação de leite materno no mundo. Essa é a sociedade amorosa que queremos, esse é o trabalho de formiguinha que reverte estatísticas, que constrói realidades.

“O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente, que há no mundo. Se uma única pessoa chega à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões.” (Mahatma Gandhi).

_____________

Veja também:

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Perigo de ser mãe perfeita 5: Vá pela sombra

Decálogo dos meus desafios

Você está esperando seu filho há muito mais de 9 meses – Marusia fala

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s