Criar filhos não é competição

Não existe nada que motive mais a competição do que ser mãe. Basta receber o “positivo” para começarem as comparações, que vão das dimensões da barriga da grávida ao fêmur do bebê, passando pela escolha do enxoval.

Quando a criança nasce, tem início a corrida contra o tempo:

  • Nasceu pesando quanto? Qual a altura?
  • Mama no peito?
  • Dorme a noite toda?
  • Sustenta a cabeça?
  • Senta?
  • Bate palminha?
  • Já nasceu o primeiro dentinho?
  • Já engatinha?
  • Fala?
  • Come?
  • Come sozinho?
  • Anda?
  • Dorme na cama?
  • Já tirou a fralda?
  • Já entrou na escola?
  • Já sabe ler e escrever?

Vou parar a lista aqui, porque é infinita.

Criar filho, hoje em dia, nunca foi tão complexo. São tantas as “teorias” e tantos “não pode” que fica todo mundo perdido, e a forma de medir o “desempenho” como mães é comparar com as outras mães. Pior ainda: é estar “na frente” das outras mães.

Lembro que fiquei tensa com a curva e os marcos de crescimento do meu primogênito. O pediatra achava um horror esses protocolos e tentava me convencer de que o mais importante era ver a criança em sua totalidade e especificidade, em sua evolução individual.

Ainda bem que a ficha caiu quando a segunda nasceu. Pra que tanta pressa de sentar, de andar, se a fase de “bebê cestinho” é tão fofa?

Pra que tanta pressa de falar, de ler? Vai ter a vida inteira para fazer isso (e muito). Já vi gente usando todo tipo de método para acelerar a aquisição de linguagem da criança e depois não ter a menor paciência de ouvir o que o filho tinha a dizer, depois de crescido.

Se me perguntarem qual é a principal mudança que acontece quando a gente vira mãe, eu digo: agora, tudo na sua vida será vigiado. Cada escolha. Cada decisão.

O livro “Eu era uma ótima mãe até ter filhos”, de, Trisha Ashorth e Amy Nobile, traz um interessante depoimento de uma mãe de duas crianças: “As mães criticam umas às outras. Podem até não recriminar em voz alta, mas fazem isso em pensamento. Toda mãe acredita que está agindo certo e, se outra pessoa fizer aquilo de modo diferente, está errado.” As autoras complementam que as mães criticam o que é diferente para validar as próprias escolhas.

Some-se a isso a ideia (falsa) de que os filhos são resultado exato de tudo o que fazemos por eles. Como se o fato de a criança ser alta, comer, dormir a noite toda e todo o resto dependesse exclusivamente de como a mãe age. Susan Maushart, no livro “A máscara da maternidade”, vai ainda mais além. É como se nossos filhos refletissem para o mundo nossa competência, nossa “excelência” e nosso “êxito” como pessoas: “O sentimento de valor pessoal de uma mulher enquanto mãe bem sucedida pode ser intensificado pelo fracasso que percebe nas outras.” Ora, isso não leva ninguém a lugar algum.

Para Susan, a ansiedade das mães em fazer a coisa certa nunca foi maior. Ironicamente, é possível que as chances de acertarem nunca tenham sido menores.

Por quê?

Porque a competição entre as mães leva a inúmeras outras:

  • Comparação entre os filhos;
  • Comparação entre marido e mulher – pai e mãe: quem é responsável por isso ou aquilo, quem está sobrecarregado ou não;
  • Comparação entre a mãe e a mãe da mãe: “na sua época era diferente, vc não me criou assim, vc é ultrapassada e não sabe de nada”;
  • Comparação entre nossos filhos e a criança que fomos;
  • Comparação entre a vida antes de ter filhos e agora;
  • Comparação entre o tempo para os filhos e o tempo para si mesma.

E por aí vai.

Em resumo: não vale a pena. Enquanto perdemos tempo em competições, um milagre silencioso está acontecendo. Nossos filhos estão crescendo, e, a cada dia, novas oportunidades de aprendizado ocorrem. Não digo o aprendizado deles, mas o nosso. Vejo meus filhos como máxima expressão deles mesmos, não de mim. Suas conquistas me enchem de orgulho, mas o mérito é deles.

Ser sua companheira nessa viagem é desafiador, mas é lindo. E incomparável.

Se você encontrar outra mãe doidinha pra competir com você, leve no bom-humor. Quando me perguntavam “ele ainda não fala?” eu dizia, rindo:

“Ah, ele faz parte da geração de crianças do futuro, que se comunica por telepatia.”

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2 pensamentos sobre “Criar filhos não é competição

  1. Vivo falando disso no meu blog, até criei um marcador “corrida maluca” que á cada vez que meu filho aprende a fazer algo ao contar coloco esse marcador para justamente fazer piadinha com as mães que insistem em ficar perguntando qual é o novo aprendizado do meu pimpolho…. sempre falo, se essas conquistas de nossos pequenos fossem tão decisivas na hora de fazermos uma entrevista de emprego perguntariam quando começamos a andar =)

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