O maior inimigo da mãe

 “A culpa é a principal inimiga da mulher que trabalha?” – Análise

Sam publicou em seu blog um post intitulado “A culpa é a principal inimiga da mulher que trabalha?” Uma pergunta forte assim sempre provoca respostas igualmente tensas. Mas creio que o grande problema desse tipo de discussão é a polarização, com acusação mútua entre os extremos, e a ausência de soluções.

Vamos começar do começo: “o maior inimigo da mulher que trabalha fora”. Isso já parte do princípio que a mulher que trabalha fora tem inimigos. Vários, a ponto de se questionar qual o maior deles. Isso é verdadeiro. De modo geral, a mulher tem que enfrentar vários inimigos – tanto a que fica em casa quanto a que sai para trabalhar. Entretanto, a virulência mais intensa tem um alvo preferencial: a mãe que trabalha fora.

Acredito que o maior inimigo da mãe não é a culpa, mas a CULPABILIZAÇÃO. Como é cômodo ter alguém fixo na sociedade para apontarmos o dedo, não? E fica muito mais simples quando generalizamos, focando somente um lado. Para colocar os pingos nos ii, vamos evidenciar algumas falácias:

Falácia 1. A mulher deve ficar integralmente com os filhos para cumprir sua função de mãe.

Ora, ficar com os filhos pode ser uma escolha para uma parcela da sociedade. Para outra parcela, não é opção. Trabalhar fora é a única alternativa.

E se não houver a figura do “provedor”? E se ele foi embora / ficou doente / está desempregado / morreu? E se o que essa pessoa recebe não é suficiente para a família? E se a mãe aspira melhores dias para os filhos, em um país cujos sistemas públicos de saúde e de ensino estão falidos?

Falácia 2. A mulher que trabalha fora “terceiriza” a criação dos filhos.

Toda mulher descobre que, depois que tem filhos, OBRIGATORIAMENTE vai ter que “terceirizar” (detesto essa palavra) alguma coisa:

  • Se ela ficar em casa, vai depender de alguém (o marido, os pais, o governo, a vizinha) que seja o provedor; ou seja, vai “terceirizar” o sustento da família;
  • Se ela trabalhar fora (ou mesmo dentro de casa, vale dizer), vai depender de alguém para ficar com as crianças nesse período (a babá, a creche, a escola, os pais, a vizinha).

Isso demostra cabalmente que a criação dos filhos é uma empreitada coletiva. Diz respeito à família, à sociedade, ao Estado.

Falácia 3. A mulher que fica 8 horas distante de seus filhos não cumpre seu papel.

Segundo essa afirmação, cada segundo que a mãe passa longe do filho causa um prejuízo irreparável. Sendo assim, há de se computar o período das aulas. São no mínimo 4 horas por dia. Computando o tempo para chegar e sair, digamos 30 minutos, dá mais uma hora. Isso porque não estou falando das escolas de tempo integral.

Também devem entrar na conta os momentos em que a criança se dedica a outros interesses: a brincadeira, só ou com os irmãos ou amiguinhos, a leitura, o esporte, a atividade religiosa e outros.

Outras coisas devem entrar nesse cálculo. E quando a mulher tem mais filhos, por exemplo, gêmeos? E se um deles for especial ou ficar doente, demandando mais cuidados? E se esse cuidado for para um familiar, tal qual pai e mãe idosos? E se a própria mãe ficar doente?

MUITO prejuízo, não? Ou será que nesses casos a regra não vale?

Mais uma questão: isso só acontece com a mãe? Se o provedor da casa for o pai, por que as crianças podem prescindir de sua companhia? A distância do pai não causa problema?

Falácia 4. A mulher que trabalha fora não faz nada direito: nem trabalha, nem cuida dos filhos.

Conforme já havia dito, nem sempre é uma questão de escolha. Quando a mulher pode optar, também pode se deparar com suas próprias capacidades. O que dá certo para uma pode não dar para outra. Tem gente que sente sobrecarga; tem gente que não. Tem gente que se sente em plenitude, tem gente que não. Tem quem tenha vocação, tem o oposto. Nesse caso, há que se perguntar se uma vivência baseada em frustração (para ambos os lados) também não pode ser nociva.

Os economistas Levitt e Dubner escreveram “Freakonomics – o lado oculto e inesperado de tudo o que nos afeta” (Editora Campus). O maior mérito do livro é pesquisar e colocar em números aqueles mitos que passam de geração em geração e que ninguém nunca questionou. O capítulo “O que faz um pai ser perfeito” (“What makes a perfect parent”) é impagável. Traz revelações que rendem ainda muitos posts. Em inglês faz mais sentido (“parent” é uma palavra que se usa tanto para “pai” quanto para “mãe”).

Aqui vou trazer só um resultado do Freakonomics: o fato de uma mãe trabalhar fora ou ficar em casa NÃO tem impacto no desempenho dos filhos. Ou seja, filhos com mães que trabalham fora podem ter bom ou mau desempenho, assim como filhos de mães que ficam em casa também. O que vai fazer a diferença são outros fatores, e não esse, que é considerado pelos pesquisadores como IRRELEVANTE.

O debate é inflamado porque sempre se olha para a realidade do outro com nossos olhos, nossa experiência. Em vez de perder tempo culpabilizando o outro, o que só cria um abismo entre as mães, vamos nos abrir para o diálogo, criar oportunidades de escutar. Hoje o que existe é um exército de mulheres sozinhas que enfrentam dilemas parecidos e que poderiam se ajudar, se apoiar, trocar soluções.

Existem vantagens e desvantagens (como em tudo na vida) tanto para quem trabalha fora, quanto para quem fica em casa. O problema é criticar o outro lado enumerando somente as desvantagens.

Vantagens para a mãe que trabalha fora, segundo a Revista Época

Vantagens para a mãe que fica em casa, segundo a Revista Época

A pressão é maior para quem trabalha fora – Análise

O que fazer para tirar partido das vantagens e minimizar as desvantagens de cada lado? Adoro quando as mães se unem em redes criativas:

Para as que podem trabalhar fora:

http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/mae-trabalha-fora-469046.shtml

http://mamaegenis.blogspot.com.br/2011/09/dicas-para-mamaes-que-querem-e-que.html

Para as que podem ficar em casa:

http://filhosecia.uol.com.br/2011/09/dicas-para-maes-que-nao-trabalham-fora-de-casa/

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI208849-10513,00.html

Para todas as mães:

Dicas fofas para tornar qualquer momento com as crianças um momento especial (em inglês):

http://www.abundantmama.com/

Imagem: Freepik

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2 pensamentos sobre “O maior inimigo da mãe

  1. Excelente artigo
    Eu e a minha mulher resolvemos bem o assunto de ela trabalhar ou ficar em casa.
    Como somos os 2 freelancers, resolvemos ir alternado os dias. Temos um espaço alugado na Regus, na zona central de Lisboa e em dias alternados iamos trabalhar. quem ganhou com isso foi o David que assim tem o pai e mãe sempre com ele. A nossa relação também melhorou assim como as finanças.
    Tenho amigos que depois da gravidez, a esposa ficou em casa e acabou por entrar em depressão.

    Continuação de bons artigos

    • Oi, Filipe,
      obrigada por compartilhar!
      Este é o caminho: quando a decisão é tomada no seio da família, com equilíbrio, compreensão e sabedoria. Só há ganhos.
      Um grande abraço para vocês e para o David!

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