O anjo na areia

Hoje vou contar uma história repleta de lindas lições.

Durante um ano, planejamos a viagem de férias para julho de 2011. Dez dias antes, malas já arrumadas, era só a expectativa. Iríamos em um domingo para voltar no sábado seguinte. Na quarta-feira anterior, as crianças teriam aula de natação. Essa época faz um pouco de frio em Brasília. Achei por bem não levá-los, vai que gripam? Aí, poderiam ter infecção de ouvido, febre, e a viagem estaria arruinada. Foram, então, para o parque de areia em frente ao nosso prédio.

Eu estava preocupada com uma gripe? Pois não é que minha filha despenca da casinha de madeira do parque e quebra a clavícula? Imagina quanta coisa não me passou pela cabeça? Como já ando bastante treinada, senti de tudo, menos culpa. O que fiz foi agradecer MUITO ao anjo da guarda dela. Podia ter caído de cabeça, podia ter sido mais grave. Se fosse na onda dos parques modernos, com essa insanidade de botar espuma em vez de areia, podia ter sido muito mais grave. Também pensei que o acidente pudesse ser providencial para evitar um outro pior durante a viagem.

No começo, resolvi ficar com ela em Brasília, enquanto meu marido viajaria com os outros dois. Quando ela chegou do pronto-socorro com um colete feito de gesso, para ficar por 30 dias, lembrei que hoje eles vendem imobilizadores de plástico, que podem ser removidos e colocados novamente. Nem que fosse só na hora do banho.

Liguei para nosso ortopedista da família. Ele disse que não vendiam desse modelo para criança. Mas achou 30 dias um tempo muito longo, que a cicatrização das crianças é muito rápida. Em 7 dias já poderíamos tirar o gesso, e ela ficaria só com a tipoia. Recomendou até que eu não desistisse da viagem, que ela poderia ir também.

– Não, o senhor não está entendendo – eu disse. A gente está planejando (e economizando) há um ano ir para Fortaleza… mais precisamente, para o Beach Park. Ela não vai poder ir para a praia, para a piscina, para nenhum toboágua… Vou ficar em Brasília.

– Acredite em mim, ela vai lucrar mais se for.

Eu já tinha desfeito a nossa mala, mas arrumei de novo. Nenhuma roupa dela servia, com o colete. O braço direito estava engessado junto ao peito. Então experimentamos várias camisetas minhas e do meu filho mais velho para montar o “enxoval” dela. Levamos várias fraldas de pano para servirem de tipoia.

Seriam, então, 3 dias de gesso e 4 sem gesso. No primeiro dia, meu marido e o mais velho foram para o parque aquático, e eu fiquei no clubinho com ela e o caçula, por causa do ar condicionado. Brincaram muitíssimo, nem se importaram.

No segundo dia, levamos para a areia da praia, longe do mar, de manhã bem cedinho e à tardinha, com o sol fraco. Não é mentira: das três crianças, ela era a que mais se divertia. Por várias vezes, meus olhos se encheram d’água ao ver sua felicidade. Fizemos o mesmo no terceiro dia, mas já a deixamos molhar os pés nas ondas. Simplesmente era como se nada tivesse acontecido, e o gesso não fosse nada.

No quarto dia, tiramos o gesso. Como a pele estava sensível por ter ficado fechada por uma semana, não quis colocar filtro solar nessa área. Decidimos mantê-la com o bracinho e a tipoia do lado de dentro da camiseta.

Ainda que ela não pudesse ir a nenhum brinquedo do parque aquático, ela adorou ficar no rasinho da piscina. Ficamos eu e o pai revezando com os outros filhos.

Durante todo o período, ela ficou de camiseta larga. Não havia como as outras pessoas saberem o que tinha acontecido. Como uma das mangas da camisa ficava sempre vazia, as outras crianças no hotel comentavam entre si sobre “a menininha sem braço”. Mas agiram com naturalidade e brincaram com ela sem problemas.

No último dia, quando estava deixando a piscina para voltar ao quarto e arrumar tudo para ir embora, cheia de havaianas, baldes, boias, bonés e sacolas nas mãos, ouvi uma mulher dizer a outra, alto o suficiente para que eu pudesse ouvir, se é que não era essa a intenção: “Ai, meu Deus, passei a viagem toda com dó dessa menina.”

Por um relance, pensei em deixar havaianas, baldes, boias, bonés e sacolas no chão, me virar para ela e responder:

– Nós somos pais responsáveis e nos cercamos de todas as precauções possíveis e imagináveis para garantir que tudo estivesse sob controle. Durante todo o tempo, ela não reclamou de nada, pelo contrário. Nos brindou com seu sorriso, sua alegria. Não permitiu que o fato de não poder mexer o braço interferisse nisso e exerceu com plenitude seu direito absoluto de ser criança. Dó eu tenho da senhora, cujo preconceito não deixou ver nenhuma dessas coisas.

Mas ao olhar para o lado e ver aquele rostinho corado e satisfeito dentro de sua camiseta enorme, saí sem dizer nada. Só agradeci mais uma vez ao anjo da guarda dela:

“Obrigada, anjo, por ter protegido minha menina e por ter feito dela um ser verdadeiramente igual a você.

Até na túnica comprida.”

carinha de sorriso na areia da praia

__________________

Veja também:

O anjo de origami

De mãe para filha

Olho de boi, olho d’água

 

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7 pensamentos sobre “O anjo na areia

  1. Amiga do céu! que anjo é esse? Ainda bem que não foi nada mais sério mesmo.
    Pensa numa pessoa que riu com as frases:
    “Então experimentamos várias camisetas minhas e do meu filho mais velho para montar o “enxoval” dela. Levamos várias fraldas de pano para servirem de tipoia.”
    Imagina a situação?! kkkk, só vc mesmo!
    Bjs e saudades

  2. Olha, muitas lições mesmo!
    A gente cria tantas expectativas e qualquer mudança no script pode nos frustrar… e são as crianças que nos ajudam a ver que estarmos juntos é o que importa ne?
    Só quem tem amor de verdade percebe isso!

    beijão
    Lele – http://hsordili.blogspot.com
    #amigacomenta

  3. Lembrei da minha filha qndo machucou o pé na véspera de viajarmos de carro de SC para AL, imagina?! Mas eles mostram pra gente uma força, né? Que bom que vcs não desistiram da viagem e ela se divertiu!

    Beijos
    #amigacomenta

  4. Pois é, a maior lição que a maternidade me trouxe é que, com filhos, nada é exatamente como a gente planeja – mas nem por isso deixa de ser maravilhoso.
    Que bom que vocês tiveram a delicadeza de perceber isso e proporcionaram essa diversão para sua filha!
    beijos
    Carol
    #amigacomenta

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