A arte de criar vazios

Escrevi este texto há, pelo menos, 7 anos. Resolvi postá-lo hoje por estar em consonância absoluta com meu momento atual.

A arte de criar vazios

Ana Marusia Pinheiro Lima Meneguin

Uma das coisas mais valiosas que podemos aprender sobre as leis que regem a vida e o Cósmico é que tudo segue um ritmo.  Um ritmo feito de movimentos e pausas, de plenitudes e vazios. Presente no minúsculo átomo e nas estruturas, organismos e processos mais complexos do Universo. Atividade, descanso; maré alta e baixa; dia, noite; tempo de semear, tempo de colher. Em nosso próprio corpo podemos observar facilmente os ritmos cardíacos e respiratórios.

O mais importante é compreender que a pausa é parte integrante do ritmo, tanto quanto a atividade. Ela é indispensável, porque cumpre duas funções: recuperação da atividade anterior e preparação para a atividade posterior.

Apesar de estarmos envolvidos em ritmo, muitas vezes não nos damos conta dele, nem da necessidade de vazios. Tudo desejamos, ao mesmo tempo e para já, sem abrir mão de nada. Esquecemos lições básicas que a natureza nos dá a todo instante e ainda nos perguntamos por que nossa vida parece ter estagnado.

Um dia, ganhei de presente um bonsai, uma daquelas arvorezinhas japonesas. Com o passar dos dias, ele foi perdendo o vigor. Levei a um jardineiro e, para meu espanto, ele cortou todos os galhos. Fui para casa indignada, mas, uma semana depois, a árvore havia voltado a crescer, florir e até dar frutos. A poda do jardineiro foi a criação de um vazio temporário, a eliminação de pontas fracas que só minavam a energia da planta. Livre do peso morto, o bonsai teve tempo e força para produzir novos galhos, folhas, flores e frutos.

A explicação desse fenômeno está na tendência natural que a energia tem de fluir quando existe diferença de nível. Do cheio para o vazio, do positivo para o negativo. Sem diferença, a energia fica estagnada. Em outras palavras, não se pode encher um vaso que já está repleto, sem que haja perdas.

Como aplicar essa lição em nosso cotidiano? Vamos começar pelo armário. Vivemos reclamando, dizendo que precisamos de uma roupa nova ou um sapato novo, e não temos tempo nem dinheiro para comprar. Então vamos criar vazios em nosso armário. Sabe aquela roupa que você nunca usa? Dê. Mesmo que esteja novinha. A mesma coisa com sapatos, bolsas, cintos. Quanto você menos esperar, terá preenchida essa lacuna. Surge um dinheiro com o qual você não contava e até um presente, lá está sua roupa nova e seu sapato novo.

Você pode repetir essa experiência sempre  e estender a outras áreas. Quer fazer um curso? Crie vazios. Você vai precisar de espaço para os livros e apostilas. Doe ou jogue fora papéis, documentos, cadernos e outros objetos dos quais você só se lembra quando vai arrumar o armário. Crie vazios na sua agenda, também. Você vai precisar de tempo para as aulas e os estudos.

Isso também funciona para o aprendizado. Encare todas as situações como fontes de informações. Esvazie-se. Aquele que se diz saber de tudo se fecha para as novidades e dificilmente é criativo. Dizer para si mesmo “eu não sei” é o primeiro passo para se deixar preencher de conhecimento.

Não espere as coisas acontecerem para criar vazios. A lógica é exatamente o contrário: crie vazios para que as coisas comecem a acontecer. Não confunda, entretanto, criar vazios com ser inconseqüente. Criar vazios não é se desfazer de objetos de recordação que contam a nossa história. Não é tornar descartável o que merece ser mantido. Não significa doar todos os bens, pedir demissão e romper todos os relacionamentos e esperar que a Providência Divina preencha esse grande vazio. Atente: a mesma Providência Divina foi quem confiou, em suas mãos, tudo o que você tem. Se isso foi posto sob seu cuidado, saiba discernir o que é essencial. Podar os galhos fracos não é cortar o tronco nem a raiz. Valorize o que você tem, inclusive aquilo que decidiu abrir mão, para se mostrar digno de receber novas responsabilidades.

Por último, lembre-se sempre de que a pausa é necessária e até obrigatória no ritmo da vida. Se não criarmos vazios de forma intencional, cedo ou tarde eles vão ocorrer. Se você não se permitir períodos de descanso ou mesmo puro ócio, seu corpo um dia vai lhe obrigar a uma pausa forçada, até uma doença. É claro que não dá para ter controle absoluto sobre tudo em nossa vida. Ainda que criemos vazios, às vezes temos que lidar com perdas. Pois nesses momentos de perda, crie também um vazio. Quando passamos por atribulações, enchemos a mente de pensamentos angustiantes. Coloque-se na posição de observador, de fora. Então faça silêncio. Ouça o que o Universo tem a lhe instruir. Verifique que lição você pode tirar dessa perda. E entregue. Confie. Pense que todo vazio é provisório, uma parada estratégica para a grande oportunidade que há de vir em seguida. 

Foto: Atelier do Bonsai

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6 pensamentos sobre “A arte de criar vazios

  1. Eu vivia reclamando de falta de tempo na minha vida. O que tem sido uma realidade constante e vem se acirrando conforme os anos passam. Em completa situação de estresse, trabalhando de 8 as 23, sem horário de almoço e jantar e pensando em como encaixar na minha rotina a aula de dança que tanto queria fazer uma amiga me disse: Enquanto você estiver procurando tempo para fazer mais coisas você nunca terá tempo! Naõ larguei tudo sem olhar para trás, mas comecei a enxaixar na minha rotina horários para fazer nada, como se fosse um compromisso inadiável, muitas vezes fui derrotada e acabei ocupando a minha tarde de folga com um ensaio, ou um trato na casa, ou ajudar alguém com alguma coisa, atitudes que “mereciam” aquele tempo. Sim, mereciam mesmo, mas eu também merecia. Na semana seguinte olhei de novo minha agenda e separei minha tarde de folga, que fosse para ler um livro, ir à água mineral ou para tomar um chá com uma grande amiga que não via há muito tempo. E sabe de uma coisa, essas minhas tardes “vazias” tem se revelado as mais produtivas.
    Somos viciados em fazer, talvez seja o grande vício moderno, numa constante vigília se todos estão fazendo alguma coisa o tempo todo. Se separamos dois minutos para apenas contemplar o nosso redor, logo olhamos para os lados para ver se alguém percebeu, e se alguém realmente notou faz aquele olhar de “O que você está fazendo?” ou “O que você está pensando?”, a menos que se esteja fumando um cigarro ou tomando um café, afinal na nossa sociedade um vício só pode ser substituído por outro.
    Voce imaginaria ver o seguinte diálogo?
    “Filho, o que vc está fazendo parado aí na janela?”
    “Nada mãe, só olhando…”
    “Que lindo filho, parabéns! Continue assim…”

    • Oi, Hanna!
      Lindo, lindo depoimento! Sim, a vida merece momentos de pura contemplação… são eles que dão sentido a todos os outros! E isso é um valor maravilhoso que devemos deixar de herança para os nossos filhos!
      Bem-vinda!
      Um grande beijo!
      Marusia

  2. sensacional, marusia, estou no momento do vazio…. que difícil. Obrigada por partilhar este texto tão significativo. bjs claudia

  3. Eu estava pra tomar uma decisão importante em minha vida, voltar a lecionar e deixar o cargo de coordenadora em uma pequena escola, onde já estava a 6 anos… foi muito dificil, passei uns dois anos, mas a 2 semanas resolvi…
    Vou parar e ficar meio periodo com minhas lindas filhas, Isabela 7 e Lara 5, sei que seria preciso parar, assim qdo a Lara nasceu foi bom, e sei que terei um momento pra mim pra família, isto é imprescindível neste momento, estou aliviada por encontrar o seu blog…
    Obrigada Beijos

    • Olá, Fátima,
      fiquei muito feliz com seu comentário. Decisões difíceis ganham novo significado quando sentimos que estamos no caminho certo. O Universo é uma fonte inesgotável e o tempo todo nos brinda com novas oportunidades, basta estamos em sintonia! Aproveite e curta muito as meninas!
      Beijos!

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