O anjo de origami

Sabe aqueles dias em que parece que a vida tá de pá virada com você? Eu não estava legal de saúde, as coisas andavam meio chatas no trabalho e, pra piorar, sentia uma cólica dessas de vergar. Nesses momentos a gente não fica muito tolerante. A única coisa que eu queria na verdade era que o dia terminasse bem depressa.

Na hora do almoço, todos se sentaram para comer. Então minha filha, na época com quatro anos, procurou minha mão. Na hora, senti um pouquinho de impaciência: putz, não tô com muito gás pra nada, nem pra essas carências de criança… a impressão é que tudo e todos estavam exigindo muito de mim em um instante em que eu não podia dar nada… mas tirei o restinho de ânimo lá do fundo do âmago e retribuí, segurando sua mãozinha. E pude observar que ela, o tempo todo, não tirou os olhos do prato e continuou comendo normalmente; apenas estava de mãos dadas comigo.

Respirei fundo, fechei os olhos e senti, aos poucos, uma energia especial invadindo meu corpo. Tal qual um pneu de bicicleta vazio que estivesse sendo preenchido de ar por uma bomba, fui revigorando, me plenificando. Senti que aquele contato com aquela mãozinha pequenina, gorduchinha e quente me trazia imenso bem-estar físico e mental. Pouco depois, ela soltou minha mão e continuou o almoço, como se nada tivesse acontecido.

Além do alívio imediato para meu stress, senti um pouco de vergonha de ter achado, no início, que ela estava demandando atenção de mim, desnecessariamente. O fato é que ela não estava me pedindo nada, pelo contrário: ela compartilhou sua energia comigo. Há quem atribua o gesto a uma das características típicas de crianças “índigo”, sobre as quais não sei muito. Elas podem ajudar as outras pessoas sem nem ao menos saber como ou entender direito, apenas fazem, institivamente. Exatamente como ela fez, sem nem se dar conta.

Recentemente, minha filha me brindou com outro presente espontâneo e maravilhoso. Ela estava arrumando seus desenhos em uma pasta, quando encontrou um anjo de origami, que ela fez na escola no ano anterior. Do nada, ela deixou o anjo em cima do meu criado-mudo. Quando vi, perguntei por que ela havia tirado o anjinho da pasta. Disse-lhe que ela deveria guardá-lo, porque, se o deixasse exposto ali, ele poderia amassar ou pegar pó.

Mais tarde, vi que o anjo continuava no criado-mudo, mas agora dentro de uma pastinha azul transparente. Ou seja, ela procurou alguma forma de protegê-lo, mas fez questão de deixá-lo ao lado da minha cama. Fiquei tão intrigada, e ainda bem que consegui decifrar a linguagem sutil que estava por trás daquilo tudo.

Há um ano estava sofrendo com pesadelos desconcertantes. O problema é que eu nunca conseguia me lembrar dos detalhes, apenas que eram muito reais e tensos. Como eu sou muito ligada em sonhos, já tendo inclusive empreendido várias pesquisas sobre o tema, essa indefinição estava me deixando muito angustiada. Pois aquele anjo de papel me fez recordar da importância de me apegar a uma Verdade superior, a uma certeza de amparo permanente, desde que estejamos conectadas a ela.

Tenho me concentrado nesses pensamentos antes de dormir, e meu sono está se tornando mais tranquilo aos poucos. É óbvio ululante que minha filha não sabia de nada disso e nem tinha consciência do que fez. Ela apenas fez. Agradeço imensamente a Deus por ter me confiado uma “anjinha” de carne e osso, ao lado dos meus outros dois anjos e de todas as presenças igualmente angélicas que Ele tem posto no meu caminho.

Veja também:

De mãe para filha

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

This post in English: The origami angel

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6 pensamentos sobre “O anjo de origami

  1. Amei a experiencia que vc compartilhou com a gente. Que bom que vc pode estar atenta e captar esses momentos especiais e inspiradores. Isso é que dá um sentido maior pra nossa existencia.

    Léo está insistindo todo o tempo que adorou o anjinho de origami, rsrs
    Bjos, saudades

    • Oi, Prima,
      esse é o tipo de história que pertence ao mundo… não tem como a gente não compartilhar!!! Saudades, dê um cheiro nas crianças lindas!
      Marusia

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