Biblioteca da Mãe Desencucada

Mafalda, que que você deu para tua mãe no Dia das Mães? Um livro. Fala sério, que que você deu? Mas é sério, dei um livro. Um livro, sei, agora você está me achando com cara de bobo! Você acha que eu não sei que tua mãe já tinha um?

Ao longo dos anos desde que me tornei mãe, enfrentei várias fases. No início, com o primeiro filho, via um amor incomensurável mas também SOBRECARGA. Pensava que era “normal”, então me calei em um silêncio resignado e envergonhado. Senti SOLIDÃO. Em seguida, veio o sentimento de INADEQUAÇÃO, a PERPLEXIDADE. Que não me empurrariam para nenhum outro lugar diferente de uma posição de CONFRONTO. Essa fase foi a mais cruel.

Daí, comecei a descobrir nos livros gente que não apenas passou pelo que passei e sentiu o que senti. Era gente que já estava até teorizando a respeito do assunto.

Nesse Dia das Mães, quero “socializar” a informação. Dividir o percurso, atualmente em fase de TOMADA DE CONSCIÊNCIA, APAZIGUAMENTO. Melhor dizendo: DESENCUCAMENTO.

Já aviso de antemão: muitas vezes a inocência protege a gente. Ter acesso a determinados conteúdos internos é como tomar a pílula de Matrix.

Fase 1: É só comigo?

“Só depois de ter seu próprio bebê você descobre ‘A Verdade’ universal e irrefutável: criança chora mesmo!

“Mesmo a criança mais amada, cuidada, bem-tratada, saudável e feliz… chora. Mesmo as mais calminhas.

“[…] É claro, existem choros que indicam problemas: cólicas, fome, alguma dor, doença, maus tratos. Mas, excluídas essas possibilidades (e outras que eu possa ter esquecido) ainda assim ‘A Verdade’ é válida: criança chora mesmo.

“[…] Na verdade, as crianças não têm ainda maturidade emocional para falar para você: ‘Olha, mãe, não se preocupe, tá tudo bem, mas dá licença que agora me deu uma vontade de dar uma chorada boa, assim, só para relaxar, tá? Por favor, não me leve a mal’.”

CORRÊA, Laura Guimarães & OLIVEIRA, Juliana Sampaio. “Mothern: manual da mãe moderna”. São Paulo: Matrix, 2005 Pp50-51

“[…] a gravidez é uma péssima preparação para a maternidade. Quando ficamos grávidas, compramos roupas novas, cuidamos da alimentação, evitamos fazer esforço, colocamos os pés para cima e prestamos atenção permanente a qualquer mudança em nosso precioso corpo. […] Quando o bebê chega, o que acontece? Nunca mais colocamos os pés para cima, usamos camisetas velhas cobertas de banana amassada seca e carregamos uma carga de chumbo o dia inteiro. […]

“A gravidez só prepara você, realmente para o parto – que, embora duro, é, no fundo, um evento em que você é o centro das atenções. […] Você nunca pensa em se preparar para todos os anos depois dessas poucas horas de emoção, quando você será apenas o pano de fundo para o crescimento do bebê e quando longe de elogiar seu desempenho – o mundo inteiro a culpa explicitamente por todo machucado, birra e mau comportamento de seu filho.”

PURVES, Libby. “Como NÃO ser uma mãe perfeita”. São Paulo: Publifolha, 2003 P15

Fase 2: Quero colocar a mão na massa

“Não é preciso dizer que, se você tem filhos, provavelmente possui o bom senso de saber que não conseguirá controlar tão cedo sua vida como mãe. Nem adianta tentar: isso também não a tornará mais feliz.”

ASHORTH, Trisha & NOBILE, Amy. “Eu era uma ótima mãe até ter filhos”. Rio de Janeiro: Sextante, 2008 P67

“Muitos papais e mamães ficam em sérias dificuldades ao tentarem colocar em prática aquelas ideias tão lindas que tinham em mente ao iniciarem o longo e delicado caminho da formação das novas gerações: ‘comigo vai ser diferente; não vou ser igual aos meus pais em nada…’, afirmam, convictos. Cheios de boas intenções lá vão eles e… de repente, as coisas deixam de ser tão simples e fáceis. Pelo contrário. O dia-a-dia parece se tornar muito, mas muito complicado mesmo.

“[…] Onde foi que eu errei? Perguntam-se, desesperados, os pais. Afinal, conversam, explicam, não agridem, não impõem, não batem, não castigam… e, no fim, a vida está virando um verdadeiro inferno, quanto mais fazem, mais os filhos querem que se faça.”

ZAGURY, Tania. “Limites sem trauma”. 43 ed.- Rio de Janeiro: Record, 2002. P15

Fase 3: Quero conhecer minha essência feminina

“Como alimentar a intuição para ela seja bem-nutrida e responda aos nossos pedidos de que esquadrinhe as cercanias? Nós a alimentamos de vida – ela se alimenta de vida quando nós prestamos atenção a ela. De que vale uma voz sem um ouvido que a receba?”

ESTÉS, Clarissa Pinkola. “Mulheres que correm com os lobos.” Rio de Janeiro: Rocco, 1994. P118

“A gravidez é um processo que afeta a identidade da mulher, altera seu senso físico e convida-a a reconsiderar vários aspectos dessa identidade: na relação com seu corpo, com o pai da criança, com seus próprios familiares, com os outros planos e esperanças para sua vida e com a imagem social da mulher grávida.”

GALLBACH, Marion Dauscher. “Sonhos e gravidez: Iniciação à criatividade feminina.” Ed. Paulus, 1995. P11

Passadas as fases iniciais, a coisa vai ficando mais punk. A fase seguintes são recomendadas SOMENTE PARA QUEM TEM ESTÔMAGO:

Fase 4: Quero conhecer as raízes históricas do mito da mãe perfeita (condições de produção do discurso)

“Enclausurada em seu papel de mãe, a mulher não mais poderá evitá-lo sob pena de condenação moral.

“[…] Ao mesmo tempo em que se exaltavam a grandeza e a nobreza dessas tarefas, condenavam-se todas as que não sabiam ou não podiam realizá-las  à perfeição.

[…] Tomara-se o cuidado de definir a ‘natureza feminina’ de tal modo que ela implicasse todas as características da boa mãe. Assim fazem Rousseau e Freud […]: sublinham o senso da dedicação e do sacrifício que caracteriza, segundo eles, a mulher ‘normal’. Fechadas nesse esquema por vozes tão autorizadas, como podiam as mulheres escapar ao que se convencionara chamar de sua ‘natureza’?”

BADINTER, Elisabeth. “Um amor conquistado: o mito do amor materno”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. P238

“Nos anos 1990, o resultado acumulado da chuva de conselhos e ameaças é uma hiperconscientização em relação à maternidade, principalmente entre mulheres da classe média, muitas das quais trabalham e têm filhos depois dos trinta anos. As pressões atuais sobre as mães significam que essas mulheres embarcam na maternidade com uma culpa antecipada e assumem seu papel com um enorme grau de ansiedade, decididas a fazer tudo certo, decididas a não serem criticadas. A falta de apoio da sociedade em geral as deixa como trapezistas de circo voando sem rede de segurança, sem poder se dar ao luxo de um único erro. Tudo é sublimado em função das necessidades e desejos do filho.

“[…] Como a responsabilidade a culpa são de cunho pessoal e intransferível, a mãe se considera absolutamente indispensável e ninguém mais […] para cuidar da criança. Para as não mães parece ridículo, mas ela, movida a culpa e medo, não consegue ver os excessos em suas ações. Aí estão os ingredientes da tragédia.”

FORNA, Aminatta. “Mãe de todos os mitos: como a sociedade modela e reprime as mães”. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999 Pp22-23

Fase 5: Quero a verdade, não me esconda nada

“É um caso clássico de que a literatura psicológica chama do paradoxo de ‘ser espontâneo’. ‘Confie em seus instintos’, recomendam os especialistas – e depois passam a ditar e controlar todo e qualquer ato das mães. A própria existência desses textos solapa […] a confiança da nova mãe não só em seu próprio discernimento, como também na sabedoria acumulada das outras mulheres da mesma idade e das mais velhas.”

MAUSHART, Susan. “A máscara da maternidade: por que fingimos que ser mãe não muda nada?” São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006. P181

“Toda gestação, mesmo tratando-se de uma gravidez desejada, é potencialmente assustadora. Uma vez deflagrada, mostrará um poder maior que a vontade da mulher em cujo interior se desenvolve. Tudo o que nos coloca em uma posição indefesa, passiva, poderá ser sentida como uma evocação do nosso desamparo infantil e da insuficiência que sentíamos quando éramos incapazes de sobreviver sem ser alimentados, abrigados e carregados.”

CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011 P32

Por último…

Fase 6: Já sei disso tudo, agora quero canja de galinha

Descubra por que uma plantinha murcha pode ser o melhor presente do Dia das Mães:

Flores para o Dia das Mães

 
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2 pensamentos sobre “Biblioteca da Mãe Desencucada

  1. Esse post está tão rico que demorei dias para lê-lo com calma! Fiquei com vontade de tantos livros que não sei por qual começar… mas acho que vou direto ao soco no estômago. É o que tem me intrigado no momento. Onde começou e como nos livrarmos desse carma da perfeição materno-feminina?
    Parabéns! Seu blog é inspirador!!
    Beijos

    Fabiana
    http://2-ao-quadrado.blogspot.com

    • Oi, Fabiana,
      é muuuuito bom receber retornos como o seu! Minhas próximas incursões literárias serão “A relação mãe e filha” e “A alma imoral”.
      Beijos!
      Marusia

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