Decálogo dos meus desafios

Imersa em um turbilhão de pensamentos e sentimentos e tendo que administrar expectativas e cobranças, estou, aos poucos, em busca de equilíbrio. Escrever me faz bem, e o registro é importante para internalizar, compreender e só então deixar fluir. Diria que estou em processo. Resolvi organizar tudo em dez propósitos.

O que quer que eu faça com meus filhos:

1.  vou fazer sem esperar algo em troca.

Penso em minha infância. Nossa, para mim seria um fardo muito grande se meus pais contabilizassem cada gesto para cobrar a conta depois. Além disso, vou procurar observar que dar e receber são dois lados da mesmíssima moeda.

Montagem sobre charge de Piero Tonin

2. vou fazer sem esperar gratidão.

Permito-me voltar novamente e lembrar quando eu era pequena. Eu não enxergava o que meus pais faziam por mim como algo que eu devesse expressar continuamente minha gratidão. Não porque eu era ingrata ou incapaz de dar o reconhecimento que eles mereciam. É apenas um traço típico da infância. Crianças têm um mecanismo interno de proteção psíquica que as torna propícias a receber cuidados sem se sentirem em eterno débito. Em outras palavras, tudo o que os pais fazem, na cabecinha delas, é absolutamente natural.

“Suportar a dependência é uma capacidade própria da infância.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011 P250)

Gratidão, portanto, é uma coisa que devemos adquirir à medida que crescemos e ficamos autônomos. Para que as crianças aprendam, é importante os pais darem o exemplo: nem sempre nos lembramos de agradecer nossos filhos.

3. vou fazer sem pensar no que os outros vão achar.

O dia-a-dia da maternidade já é bastante complexo para ficarmos tentando “agradar à plateia”.

“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém.” (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Renato Rocha)

4. não vou fazer só porque os outros estão fazendo.

Cada criança é um indivíduo, cada família tem sua realidade. Não é porque todo mundo está fazendo que é a atitude mais adequada para meu caso. E, para alcançar esse discernimento, devemos observar e ficar sensíveis ao que se passa em nossa casa.

Cada vez que almejamos o lugar do outro, deixamos nosso lugar vazio.

5. não vou fazer somente por obrigação.

Se não houver prazer, a maternidade pode se tornar um peso insuportável. Estou atrás de mais espontaneidade.

Montagem sobre charge de Amâncio

6. não vou fazer por medo.

O medo é uma emoção perigosa. Não é a mesma coisa de ter prudência ou precaução. É um sentimento que paralisa. Está na raiz de toda emoção negativa: ciúme é medo de perder; inveja é medo de fracassar; e assim por diante.

“Ei, Medo! Eu não te escuto mais! Você não me leva a nada. E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol: é pra lá que eu vou.” (Antônio Júlio Nastácia)

7. não vou fazer por culpa.

Esse propósito está no mesmo rol dos dois primeiros, tem a ver com algo que ficamos “computando”, “calculando” para compensar uma suposta ausência, uma omissão. Às vezes fazemos isso até por antecipação, prevendo uma falta futura e já amealhando “créditos”. Culpa é um sentimento torturante, melhor substituir por uma responsabilidade sadia, sem “cálculos”.

8. vou fazer sem raiva.

É muito fácil perder a paciência às vezes. Mas fazer uma coisa com raiva é certeza de arrependimento depois. Não significa “ter sangue de barata” e ficar serena e linda o tempo todo. Faço questão de assinalar para meus filhos algo que tenha me irritado: é uma questão de transparência didática, tenho esse direito. Mas meu desafio agora é procurar me acalmar antes de tomar qualquer atitude.

9. vou fazer por eles, com consciência de que também vou fazer algo pelo casamento – e algo por mim.

Um grande equívoco é cuidar das crianças achando que isso está colaborando para o casamento. Todo relacionamento merece seu próprio cuidado. Não que a criação dos filhos e a relação do casal sejam coisas concorrentes ou excludentes. Diria que são coexistentes e devem estar em harmonia, até para incluir o pai no processo. Crianças tomam um tempão da nossa atenção, mas também devemos abrir espaço para estarmos enamoradas. Ah! E um momento para cuidar de nós mesmas, claro.

"A preguiça é a mãe de todos os vícios, mas uma mãe é uma mãe e é preciso respeitá-la, pronto!" Charge de Quino

10. Pensando bem, nove propósitos é muita coisa. Vou substituir tudo por um só: Vou fazer por e com amor.

“Meu amor, minha prenda encantada

Minha eterna morada

Meu espaço sem fim

Meu amor não aceita fronteira

Como a primavera

Não escolhe jardim”

(Silvio Rodriguez)

Veja também:

Os perigos de ser uma mãe perfeita

O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Lei da Palmada

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5 pensamentos sobre “Decálogo dos meus desafios

  1. OI Marusia

    Gostei muito do seu decálogo. Quando faço alguma coisa pelo Zeze, sempre penso “Será que vou cobrar a fatura depois?” Se sim, penso se realmente é necessário. Se não for, deixo para depois. Por exemplo, eu amamentei exclusivamente, não porque não fosse necessário, o melhor, etc.. Mas simplesmente porque para mim, era mais fácil que lavar esterilizar mil e uma mamadeiras.

    • Oi, Ana Isabel!
      Eis aí um exemplo em que todo mundo sai ganhando: uma coisa bacana para o Zezé, prática para você, e sem sacrifício. Quando a gente consegue isso é o máximo!
      Beijo!
      Marusia

  2. Excelente! E muito legal estar escrito na primeira pessoa, corajosa Marusia pós-moderna! 🙂 Assim, tanto a autora, quanto quem lê, realmente se apropria dos desafios. É pra por a mão na massa e praticar sempre… aliás não só com os filhos, mas em todos os nossos relacionamentos. Achei uma síntese fantástica!

    • Ei, menininha bruxinha que lê pensamento! Você tem realmente esse dom de acessar o âmago das coisas! Sabe, este post tem sido um verdadeiro divisor de águas na minha experiência como mãe, como um chamado permanente.
      Um beijo grande!
      Marusia

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