Perigo de ser mãe perfeita 6 – Cresça e apareça

“O mito da maternidade é o mito da ‘Mãe Perfeita’. Ela deve ser completamente devotada não só aos filhos, mas a seu papel de mãe. Deve ser a mãe que compreende os filhos, que dá amor total e, o mais importante, que se entrega totalmente. Deve ser capaz de enormes sacrifícios.”

(FORNA, Aminatta. “Mãe de todos os mitos: como a sociedade modela e reprime as mães”. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999)

Com essa entrega total, que inevitavelmente corresponde a uma auto-anulação, a mãe perfeita procura cercar o filho para que nada lhe falte, nada lhe incomode. O filho não tem sequer a oportunidade de sentir necessidade: a mãe lhe antecipa tudo. Lógico que essa proteção é fundamental para o bebê. O problema é quando ela se prolonga para sempre.

Isso cria um laço de eterna dependência e dificulta a construção da individualidade por parte da criança. O filho também fica sem “lastro” para a frustração, porque nunca a experimentou.

“Uma mãe, mais do que aquela que se faz imprescindível, seria a que permite que o filho construa nela, através dela e mesmo longe dela, um espaço para si.”

(CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. “A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”. Porto Alegre: Penso, 2011, p219)

Acho que a mãe perfeita nunca se deu conta de que sua perfeição pode prejudicar os filhos – justamente seu maior medo.

A banda Ultraje a Rigor fez uma brincadeira que ilustra isso muito bem:

“Meus dois pais me tratam muito bem

(O que é que você tem que não fala com ninguém?)

Meus dois pais me dão muito carinho

(Então porque você se sente sempre tão sozinho?)

Meus dois pais me compreendem totalmente

(Como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)

Meus dois pais me dão apoio moral

(Não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)

[…] Meus pais não querem que eu fique legal

Meus pais não querem que eu seja um cara normal

Não vai dar, assim não vai dar

Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar?

Não vai dar, assim não vai dar

Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar?”

(“Rebelde sem causa” – Ultraje a rigor. Composição: Roger Moreira)

Veja também:

Os perigos de ser mãe perfeita – Toda a série

Viajando com crianças. Parte V: A alegria

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