Viajando com crianças. Parte III – O clubinho

Cena 3 – O casal acaba de chegar ao hotel e, ainda com a roupa do aeroporto, vai direto ao kids club para cadastrar o filho de 4 anos e contratar uma baby-sitter para o bebê

Estávamos eu e meus três pimpolhos jogando boliche com garrafas de plástico no kids club do hotel, quando presenciei a cena acima. Até então, nunca tinha cogitado fazer o mesmo, até porque o máximo que meus filhos desfrutam das recreações dos hotéis é a caça ao tesouro. Em todo o tempo (pro bem e pro mal rsrsrs), preferem ficar grudados na gente. Fiquei meio de cara, mas compreendi e respeitei (e tive uma invejinha).

O fato é que nem sempre as coisas saem do jeito que a gente imagina, principalmente em se tratando de férias. Antes de ser mãe, eu nunca entendia quando diziam: “Quando você viaja com as crianças, depois precisa de novas férias.”

Claro que os resorts descobriram isso:

Trecho do Guia de Resorts do Brasil, pp10-11

7 motivos para ir a um resort

  1. Lazer para a família

Dez entre dez famílias com filhos pequenos preferem passar suas férias em resorts. O motivo é simples: no ambiente confortável e seguro de um resort, a garotada ganha uma independência inimaginável na rotina do seu dia-a-dia. Outra razão é que não faltam atividades para elas se esbaldarem o dia inteiro. […] O kids club nasceu da percepção de que as atividades prazerosas aos adultos – tomar sol na beira da piscina, ou passar a tarde inteira lendo um livro – são uma verdadeira tortura para as crianças. A presença constante de monitores […] e a infra-estrutura de lazer gigantesca voltada para os pequenos dá uma sensação de segurança até para as mães mais ansiosas.”

Trechos do texto de abertura de um especial da Revista Viagem e Turismo (Especial Férias com as crianças n68 jun 2001, p5. Ed. Abril) (grifos meus):

“Quantos casais você conhece que já deixaram de viajar porque não tinham com quem deixar os filos? Gente que olha para os pequenos e vê apenas malinhas-sem-alça atrapalhando seus planos de férias? De acordo com esse pessoal, não vale a pena levá-los porque: 1) Não aproveitam nada, mesmo; 2) atrapalham os passeios dos pais, porque exigem atenção o tempo todo; 3) dobram as despesas.

Bobagem. O passeio fica mais trabalhoso, é verdade, mas nós dividimos com as crianças experiências de que elas se lembrarão pelo resto da vida. […] Se a coisa for bem planejada, até os bebês vão adorar o contato full time com o pai e a mãe. E não vai custar muito mais. Geralmente a criançada ganha descontos. […]

Como você verá, só existem contraindicações quando você não planeja direito. […]

Aproveite bem a companhia dos seus filhos. Eles vão tornar sua viagem muito mais bacana. Vocês merecem esse presente.”

Bem, segundo o texto acima, antes de sair de férias com as crianças, você deve considerar o seguinte: Dá trabalho, mesmo, mas isso é contornável quando existe planejamento. Assim, seria possível desfrutar da viagem com a garotada.

A mesma revista apresenta a lista dos hotéis ideais para crianças no decorrer de todas as páginas seguintes. Adivinha por que eles foram recomendados? Por causa de atividades, clubinhos, monitores e baby-sitters. Os trechos abaixo foram pinçados dessa lista (cada trecho se refere a um hotel diferente):

  • Crianças de 4 a 12 anos têm um clube só para elas, onde monitores organizam brincadeiras. […] Para os menorzinhos, há serviço de baby-sitter pago à parte.
  • A garotada de 5 a 12 anos tem uma imensa programação de lazer, coordenada por monitores, enquanto os bebês podem ficar aos cuidados de baby-sitters.
  • A programação de jogos e brincadeiras para a turma de 4 a 12 anos vai até as 10h da noite, enquanto os mais novinhos podem ficar aos cuidados de babás.
  • Os bebês ficam aos cuidados de babás, enquanto os pais pescam no lago ou curtem a piscina.
  • Nos períodos de férias e feriados prolongados, há monitores para entreter a garotada.
  • O hotel também se encarrega de contratar babás, desde que o pedido seja feito com antecedência.
  • É possível passar o dia lagarteando na praia, enquanto a garotada se esbalda nos brinquedos.
  • Oferece intensa programação para crianças a partir dos 3 anos. Enquanto elas brincam com os monitores, os pais podem curtir os voos de asa-delta e paraglider que saem da Pedra Grande.
  • Para os pequenos, tem um espaço exclusivo, a Cidade da Criança, com parquinho, castelo e teleférico. Há também um berçário e brincadeiras para os maiores de 2 anos.
  • Há recreação para os maiores de 3 anos e baby-sitter para os bebês. Saunas, duchas escocesas e massagens garantem o relax dos pais.

(Trechos do Especial Férias com as crianças n68 jun 2001, p5. Ed. Abril)

Mas, gente, onde fica o “contato full time com o pai e a mãe” pregado no começo da revista? Um hotel só é indicado para crianças se tiver essa megaestrutura de cuidadores?

Isso fica ainda mais enfatizado nas fotos que ilustram as matérias. Em TODAS as imagens, as crianças não estão com os pais.

Crianças com os bichinhos, pais na praia

Para ninguém dizer que a publicação é um exemplo isolado, abaixo transcrevo trechos da lista de hotéis recomendados de outra edição da revista (grifos meus):

Viagem e Turismo n14 ano12 dez 2008. Ed. Abril

  • […] Basta pisar no hotel para acabar com o estresse – principalmente o infantil. Meninos e meninas podem passar o dia longe dos pais, inclusive fazendo as próprias refeições, no kids club.
  • […] Com quem ir: Com filhos de qualquer idade. Há até baby club para bebês.
  • Sucos, refrigerantes e petisquinhos à beira da piscina ainda estão liberados e, o mais importante, a diária no kids club também. […] Com quem ir: Com os filhos. Os monitores dão conta da algazarra.
  • As crianças se sentem em casa – ou melhor, na casa que elas sempre pediram aos pais. Ficam em companhia dos monitores o dia todo, até as 22h. […] Na piscina, os pais relaxam […].
  • […] Com quem ir: Com a galerinha. Aulas de surfe, patinação, caça ao tesouro, arvorismo, paintball, cavalgada, discoteca. Será que já dá para cansar as crianças?
  • […] Com quem ir: Com a família toda. Há monitores e kids club.
  • […] Com quem ir: Com os diabinhos. Os recreadores dão conta.

Como na cena 3, no início do post, nem sempre as crianças têm opção de ficar no clubinho ou não. Mas isso não impede que elas adorem e se divirtam muito mais do que se tivessem ficado com os pais (principalmente se os pais estão de saco cheio).

Não estou aqui fazendo crítica aos recreadores e aos clubinhos, por favor. Antes que os primeiros resorts fossem inaugurados no Brasil e universalizassem a cultura de monitores, existia uma coisa muito similar nas viagens de antigamente: a instituição “casa de parente com primos”. Gente, o que eram os primos senão uma versão prévia dos clubinhos? Ninguém perguntava se nós queríamos ficar lá (essa alternativa jamais foi aventada), mas curtíamos demais, ERA BOM DEMAIS! (Família grande, milhares de primos, pena que hoje em dia isso é cada vez mais raro).

Assim sendo, que sejam bem-vindos os clubinhos e sejam aproveitados. Se a criança estiver contente, perfeito. Se você se permitir o “contato full time” (de que vou falar em outro post), também vai descobrir coisas maravilhosas. Acredite.

No entanto, não dá para repetir o que vi em um resort:

Cena 4 – Frio de uns 9 graus. Jantar no restaurante, 21h45. Todas as pessoas muito encasacadas. Uma monitora toda de moletom (uniforme do hotel) faz companhia a um garotinho de regata, short e chinelinha… aguardando as 22h protocolares para os pais pegarem o filho.

E você? O que acha?

Veja também:

Viajando com crianças. Parte I – A mala

Viajando com crianças. Parte II – As contradições

Viajando com crianças. Parte IV – Os senões

Viajando com crianças. Parte V – A alegria

Toda a série Viajando com crianças

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6 pensamentos sobre “Viajando com crianças. Parte III – O clubinho

  1. OI Marussia

    Em primeiro lugar quero dizer que adorei o seu blog. Achei ele por acaso.
    Quanto a questao dos clubinhos, tive duas experiencias diferentes, depois que o Zeze nasceu. O Zeze hoje tem (quase 3 anos).
    A primeira foi num hotel bem conhecido aqui do RS. As crianças (apartir de 5 anos) ficavam no clubinho separadas dos pais e tinham atividades proprias. Mas eu achei essas atividades muito paradas. Pinturas, videos, joguinhos. Isso que o hotel tinha um parque em que se podia fazer atividades ao ar livre. (nem que fossem passeios)
    No segundo hotel, tambem havia recreação. Mas eram atividades conjuntas com os pais. Ginastica na praia, gincanas na piscina, shows de musica e magicas que as crianças podiam assistir junto com os pais. Sim, porque nem sempre os pais tem imaginação para inventar atividades.
    A unica hora que as crianças ficavam separadas era na hora da “sesta” (das 14 as 16horas) em que as crianças ficavam no clubinho e os pais podiam descançar ou fazer outras coisas que não se podia fazer com as crianças no quarto (rsrsrs)
    REalmente, concordo que cada familia tem uma realidade diferente, e é dificil julgar…

    • Oi, Ana Isabel!
      Muito legal receber seu comentário!
      Na verdade, o ideal é que todos se divirtam, por isso os clubinhos são superválidos. Mas também é TÃO BOM quando a gente aproveita as férias para voltar a ser criança junto com os filhos, que eu não poderia deixar de compartilhar! Está no post de hoje: Viajando com crianças Parte V – A alegria.
      Um beijo!
      Marusia

  2. Oi Marusia
    Legal ter um blog ara compatilhar experiências. Trabalho fora encaro as férias como oportunidade de estar próxima a meu filho.
    Não gosto muito de resorts (são caros, geralmente os clubinhos eparam os filhos dos pais – e não é isso que procuro…) Prefiro lugares menores e mais personalizados, como as pousadas. No entanto, tenho encontrado grande dificuldade em encontrar lugar no Brasil. As melhores pousadas são “criança-fóbicas”. Resolvi escrever porque ando muito chateada com o que anda acontecendo no Brasil e acho que já está na hora dos pias que tem filhos (e gostam de viajara com eles) começar a fazer alguma coisa. Tenho encontrado no Brasil uma resistencia muito grande, principalmente no Nordeste a aceitarem crianças. Tenho um menino de 3 anos e já viajamos para vários países da europa com eles. Nunca tivemos o menor problemas. Já paramos em hotel, albergue e pousadas e as crianças são sempre bem vindas. Não gostamos de grandes hoteis. Preferimos pousadas, que acreditamos ser mais charmosas, e que tenham área verde para podermos andar com ele. No entando, tenho tido cada vez mais recusas, com as mais diferentes deslculpas. Hoje me falaram que é por falta de segurança!! Estou até agora sem entender como um pousada pode ser insegura para uma criança…
    Acho que não sou a única que tem enfrentado esta situação e gostaria de compartilhar com vocês.
    Abço,
    Eliana

    • Oi, Eliana!
      É verdade, eu mesma fui “barrada no baile” em uma pousada. Na época tínhamos reservado e até feito o pagamento de metade do valor. Mas descobri que estava grávida e não quis viajar, então resolvemos postergar. Quando o caçula nasceu, qual não foi a minha surpresa ao saber que eles aceitavam no máximo 2 crianças! Agora, com 3, preferiram estornar com juros, no mesmo dia, tudo o que havíamos pago nove meses antes.
      Concordo com vc: tenho impressão que há uma cisão no mercado hoteleiro, sem meio-termo, entre o “tamanho família” e o “charme”. Esse último tem foco nos casais, nos adultos que não estão com muita paciência para conviver com a criançada. E não é só com as pousadas, não! Soube de uma mãe que não pôde levar o filho de 2 anos (com fralda impermeável de natação) para a piscina de um cruzeiro, imagina!!! Ficou a viagem inteira dentro da cabine!
      Se a rede hoteleira brasileira soubesse que filão de turismo estão perdendo…
      Vou dar uma pesquisada para garimpar alguma “child-friendly” perdida por aí. De repente, a gente até divulga como sugestão.
      Beijos,
      Obrigada por partilhar!

  3. Marusia estou lendo está série e estou amando, não sei se por minhas filhas serem muito pequenas, mas não tenho coragem de deixá-las com os cuidados de estranho (entenda-se monitores) nos passeios, adoro ver o rostinho delas descobrindo o mundo, tenho que concorda que é cansativo isso é verdade, mas muito prazeroso também.

    Outra coisa realmente hoje entendo perfeitamente a frase que você comenta no seu post “Quando você viaja com as crianças, depois precisa de novas férias.”. Realmente depois de uma viagem com as meninas, tenho vontade de viajar só eu e maridinho 🙂

    Eu tenho problema extra quando tento me hospedar pois normalmente os quartos liberam 2 crianças até 10 anos para ficar no quarto com os pais, mas como vc sabe tenho trigêmeas, mesmo elas ocupado a mesmo espaço de duas crianças, tenho sempre que pagar por dois quartos, ou pagar por quarto triplo, será que realmente não é questão de bom senso, será que realmente preciso pagar extra para acomodar minhas meninas no mesmo quarto que o meu.

    • OI, Desirée,
      a gente também precisa de 2 quartos e fica torcendo para que, pelo menos, sejam conjugados… uma vez ficamos em 2 andares diferentes, imagina, malhamos as canelas de tanto subir e descer escada rsrs!
      Acho uma maravilha quando o hotel tem suíte família, e nós 5 podemos ficar juntos. Outra opção, que ainda não testamos, é alugar uma casa de temporada – já em estudos.
      Um beijão!

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