O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

Tive complicações nas gravidezes. Pós-partos difíceis. Mas isso não faz de mim uma mãe melhor.

Tive o imenso desafio e privilégio de amamentar meus filhos até quando quiseram. Mas não é isso o que realmente importa.

Bem como o número de mamadas, de litros de leite doados. De horas insones na madrugada.

Número de fraldas trocadas, de limpar xixi, cocô, vômito, de assoar narizes, cortar unhas, escovar dentes. Fazer curativos.

Número de horas nas filas das papelarias, de preencher etiquetas, identificar material escolar. De fazer dezenas de bainhas de calças e bermudas. E, no ano seguinte, mandar tudo pra costureira.

Nem o número de horas negociadas e compensadas no trabalho para participar de reuniões na escola. Número de vezes que deixei de fazer algo para mim, de cancelamentos, de adiamentos.

De guloseimas proibidas, de guloseimas liberadas. De escolher pessoalmente cada fruta e verdura na feira. E também de dar mamadeira, papinha Nestlé.

De leva pra lá, leva pra cá, médico, dentista, vacina, fono, academia, piano, escola.

De programas milimetricamente planejados para ser divertidos e que foram um fiasco.

De argumentações infinitas, de broncas, de mandar para o cantinho.

Febres, doenças ou síndromes mais sérias, sensação de impotência.

De cansaço, desânimo, destempero, dúvida, culpa, medo.

Nada disso faz de mim uma mãe melhor.

Nenhuma dessas coisas importa em si. O que realmente importa é como as encaramos e o que transmitimos em cada gesto.

Quanto maior o sacrifício, maior é a expectativa. O que leva a riscos:

  1. esperar retorno ou querer cobrar a conta depois, quase inevitável;
  2. criar álibis: amamentei, cuidei, dei tudo de mim, cumpri minha cota e agora chega;
  3. não se conformar quando alguém faz de forma diferente, pior ainda se for de um jeito mais fácil. É quase como se a pessoa estivesse cometendo um delito.

 Fala-se muito de “escolha”: “devia ter pensado nisso antes de ter filhos”, “há tanto anticoncepcional no mercado”. Acontece que a ideia de maternidade em voga é muito diferente da realidade. Quase oposta. Lindas mães perfeitas sempre sorridentes, com filhos fofuchos e saudáveis, eternizados nas capas de revista, em outdoors, na TV, no cinema e na internet, falando em como tudo é mágico e doce. Pode observar: NENHUMA delas mostra mastites, birras, adaptações na escola, doenças. Fora o discurso de que a mulher SÓ se realiza quando é mãe.

E de repente a gente vê que as coisas não estão acontecendo como o esperado; que, na teoria, tudo é muito mais simples; que por vezes acabamos lançando mão do que antes criticávamos. E aí vem a pergunta que cai como uma bomba:

“Eu estou me esforçando tanto, mas nunca é suficiente. O que estou fazendo de errado?”

Pois a resposta já está implícita: o que você está fazendo de errado é justamente achar que está SE ESFORÇANDO TANTO. Quem disse que tudo tem que ser assim, que só é legítimo se for penoso?

Assim como a maternidade idealizada é falsa, a maternidade de sujeição suprema também é. Uma coisa é a lida diária com os filhos, que exige bastante mesmo, é básico, necessário. Outra coisa é pautar a maternidade somente nisso. É fardo demais. Sem contar que é reducionista, míope.

Quero ressaltar que entendo e respeito quem se sente melhor no sacrifício. Existe algo em nossa cultura que endossa isso. O que não deixa de ser paradoxal, porque convive com o consumismo, o hedonismo, as promessas de soluções fáceis e prontas. Enfim, o fato é que a superação de um sacrifício traz a sensação de vitória.

Acho simplesmente fantástico quem consegue transformar tragédia em atitudes concretas, quem abre espaços e funda entidades para ajudar os outros. O problema é quando a superação traz um sentimento arrogante, de status, de poder, se superioridade. E a tentação irresistível de comparar, rotular e condenar o comportamento dos outros. Uma coisa é se sentir melhor como mãe. Outra coisa é se julgar uma mãe melhor que as demais.

A preocupação é até genuína: preocupação com os filhos das outras, crianças indefesas ou potenciais adultos problemáticos que dividirão o mundo com os NOSSOS filhos. (Óbvio que não estou falando dos casos de polícia.) Mas aí caímos em outra ilusão perigosíssima: acreditar que a mãe é a exclusiva responsável (e, por conseguinte, culpada) por tudo o que os filhos virão a ser.

Volto à questão inicial:

O sacrifício faz de mim uma mãe melhor?

No MEU CASO, não, nunca. Acho que até é o contrário: faz de mim uma mãe pior, focada na cobrança, primeiro comigo, depois com meus filhos.

Os melhores momentos da maternidade aconteceram quando fui espontânea. Isso é verdadeiro para mim e para meus filhos. Sem pensar se era por direito ou por obrigação. Sem pensar se estava certa ou errada. Esses momentos surgem quando você se entrega, deixa a situação te ensinar, deixa de ver como sacrifício e sente fluir, sente prazer, sente amor. Confesso – são muito menos frequentes do que gostaria; é muito difícil a gente se permitir tê-los no cotidiano que por vezes lembra a rotina militar. Mas são eternos, inesquecíveis. É quando conhecemos nossos filhos e nos deixamos conhecer.

O que faz de mim uma mãe melhor é ter a certeza de que conheço meus filhos. E o que mais espero é que eles não me vejam pelo tipo de parto, de horas de amamentação, de noites em claro, de dinheiro investido ou qualquer outro sacrifício que possa ter empreendido. O que mais espero é que eles saibam que podem CONFIAR EM MIM.

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9 pensamentos sobre “O sacrifício faz de você uma mãe melhor?

  1. Este post veio a reboque de uma discussão no Blog Mamíferas: http://www.blogmamiferas.com.br/2010/11/amamentar-direito-ou-dever.html#comment-2509.
    Vou reproduzir aqui o comentário que fiz no blog:
    A associação de maternidade com sofrimento (tendo a amamentação como pano de fundo) não é minha. Ela está presente no debate: “sofrido”, “trauma”, “dor, dor e dor”, “tensão, tristeza, angústia, diria até desespero”, “sessões torturantes”, “fardo pesado”. “sacrifício”, “atormentava”, “o bebê chorando de um lado e eu do outro”, “na marra”, todos são termos pinçados da própria discussão.
    Em alguns momentos, essa associação é considerada medida de maternagem: “egoísmo”, “tenha um cachorro”, “rejeição ao filho e ao fato de ser mãe”, “forçar a barra, negar a natureza e atrapalhar o desenvolvimento de alguém”, “absurdo”.
    É essa a análise a que me proponho. E aposto tudo em informação, apoio e acolhimento para proporcionar a “mamiferice” ao maior número de mães. Para que elas experimentem algo “intensamente PRAZEROSO”, “maravilhoso”, “um momento de prazer real, intenso, prolongado”, realização “inclusive sexualmente”, “a melhor parte do dia”, amar “ser a vaca-louca da cria”, “ver ele com aqueles olhos arregalados fixando dentro dos meus olhos rompendo minha alma em forma de agradecimento”. E, para quem não pôde amamentar por qualquer razão mas esteja “conectada”, possa desfrutar desse prazer em muitas, muitas outras situações.

  2. Prazer incansável é ser mãe.
    Ser mãe cansa fisicamente.
    Mas a alma fica tão preenchida, tão restabelecida, que descansa.
    Pequenos prazeres compõem o verbo ser mãe.
    O prazer da entrega… Bruninho, segundo a pediatra, é um menino com oralidade acentuada, ou seja, gostava (muito!) de sugar e, conseqüentemente, de ficar pendurado no peito. Por isso, a tarefa de fazê-lo dormir era quase sempre minha: no peito, chupetando. Aquela boquinha sugando o leitinho, lindo demais!!!
    Ser mãe, é algo divino sem explicação. E amamentar é realmente um ato de amor.
    Maruzia, parabéns por suas sábias palavras.

    • Oi, Palloma!
      Você disse tudo: “o prazer da entrega”. Está aí o verdadeiro segredo na arte de SER MÃE. E é o que permite que você e Bruninho estejam dividindo tantas experiências ricas e lindas. Parabéns e obrigada pelo incentivo!
      Um grande beijo,
      Marusia

  3. Oi Marúsia,
    Vim agradecer a sua visita lá no blog. Tenho um sentimento ambíguo em relação ao mamíferas, acho extremamente necessário, mas me irrito muito com alguns comentários, só leio e comento quando estou inspirada – quando não consigo “segurar meus dedinhos” – qual foi o comentário que te levou lá no blog? O do dever?.
    Só li este post e não sei como vc pensa sobre tudo, mas me atraiu o nome do blog e ainda mais o título deste post. Não acredito que existam muitas mulheres que se sacrificam agora e não cobrem a fatura depois, por isso não me agrada o sacrifício.

    Mãe boa é aquela que equilibra os papéis e dá espaço para o filho crescer e se descobrir…

    Voltarei sempre aqui e espero te ver sempre por lá…

    • Oi, Mariana!
      Obrigada pela recíproca. Cheguei a seu blog pelo post do dever.
      Gosto demais disso que vc mencionou: EQUILÍBRIO!
      Serei frequentadora contumaz, até criei um link!
      Beijo!

  4. Que reflexão profunda, querida!
    Lembrei-me de algo que aprendi com Jorge Ponciano. A origem da palavra sacrifício é de um sacro-ofício, tornar o que se faz sagrado. Concordo contigo: nenhuma prática masoquista precisa estar presente. Certamente, não há nada mais sagrado do que o verdadeiro amor e confiança entre mães/pais e filhos. A arte é aprender a deixar fluir… acho que vamos estar aprendendo para sempre, né?
    Obrigada por me arrepiar!
    Grande beijo,
    Dri

    • Oi, Dri,
      gosto muito dessa nova perspectiva que vc apresenta. Sagrado, mas não masoquista: perfeito!
      Beijo!

  5. Marusia,
    obrigada pela visita e pelo comentário lá no blog. Adorei conhecer seu blog e esse post está incrível. Não acompanhei a discussão que vc mencionou no mamíferas, mas vou lá dar uma olhada,fiquei curiosa.
    Realmente, se parar pra pensar, os momentos mais deliciosamente curtidos da maternidade são aqueles em que não paramos pra pensar, agimos conforme nossos sentimentos (que, de todo modo, estão sempre permeados por nossas ideias e valores…)
    Assim que puder vou dar mais uma passeada por aqui. E já te linkei lá no bloguito.
    beijos!

    • Oi, Thais,
      Recíproca verdadeiríssima! E, parafraseando você, os momentos deliciosos acontecem quando reconhecemos em nós a condição de aprendizes, junto com nossos filhos. BOM DEMAIS!
      Um beijo,
      Marusia

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