De mãe para filha

Hoje, 22 de outubro, é meu aniversário. Todos os anos, minha mãe relembra o dia em que eu nasci, a ida à maternidade… Ela até guardou o vestido que usou na data. Na época, nos coloridos e hippies anos 70, a moda das grávidas era usar um vestido trapézio bem curtinho, do mesmo tecido da calcinha – a ideia era mostrá-la!!!

Aniversário é dia de lembrar muitas coisas mesmo. Até de coisas que não aconteceram necessariamente nesse dia. E, do jeito que minha mãe se lembra do meu parto, lembro também do parto dos meus três filhos e das coisas que temos vivido desde que me tornei mãe.

Mas hoje vou falar especificamente dos vínculos mãe-filha.

Há um mês, acordei de madrugada. Tinha a nítida impressão de ouvir minha filha de 5 anos chorando. Fui até sua caminha, mas ela dormia tranquilamente. No dia seguinte, acordei de novo. Dessa vez, ela estava sentadinha no sofá da televisão, no escuro. Quando aproximei, ela estava chorando baixinho, com dor de ouvido. O sonho da noite anterior havia sido um presságio. Disse a ela, surpresa: “Você pode chamar a mamãe SEMPRE, sempre”. Ela não queria me acordar. E automaticamente lembrei que fazia igualzinho quando tinha a idade dela. Tinha dor de ouvido de madrugada e ficava chorando de modo inaudível no escuro do corredor, ao lado da porta do quarto dos meus pais. TODAS as vezes, minha mãe abria a porta. Ela escutava meu choro com os ouvidos do coração.

Aí lembrei outro episódio da madrugada. Minha filha tinha 7 meses. Meu marido estava viajando. Levantei da cama sobressaltada. Nenhum ruído. Mas, quando me aproximei do berço, minha filha estava tendo uma crise respiratória. Era 1h30. Peguei, enrolei-a com um cueiro e fui correndo para o pronto-socorro. Lá, a plantonista me disse que ela estava com laringite estridulosa, uma doença que costuma assustar os pais por conta da falta de ar que a criança tem. Passou nebulização com Berotec. Não tive coragem de nebulizar com um bebê tão novinho. Liguei para o pediatra, que é homeopata, às 3h da manhã. Ele perguntou se eu poderia ficar acordada o restante da madrugada para ministrar homeopatias de 30 em 30 minutos. Foi o que fiz. De manhã, ela já não sofria mais de falta de ar.

E então é criada nova ponte. No dia 22 de outubro de 1972, o obstetra demorou e nasci com 3 horas de atraso. Precisei ir para a incubadora. De madrugada, minha mãe não conseguia dormir. Ela chamou a enfermeira e disse que havia alguma coisa errada. A enfermeira não deu muita pelota, mas na verdade a incubadora tinha interrompido o fluxo de oxigênio. A enfermeira restabeleceu o fluxo e disse que minha mãe precisava descansar. E quem descansa, assim? Mais tarde, ela chamou a enfermeira novamente, que respondeu dizendo já ter corrigido o problema e que minha mãe estava se preocupando à toa. Pois, pela segunda vez, a incubadora tinha parado de enviar oxigênio.

 O que explica esses fatos? O que significa esse vínculo? Não sei dizer, só sei sentir. E, quanto mais a gente se entrega a essa sensibilidade, mais ela fica apurada. É uma certeza que vem de dentro. De Deus. De mãe e filho, de pai e filho, de irmão, de amigo, de gente que está muito unida por laços tão sutis quanto poderosos.

 De filha para mãe

Quando meus filhos nasceram, queria muito um colo igualzinho ao que eu dava a eles. Igualzinho ao que minha mãe me dava. Queria voltar a ser pequena, morar de novo com ela, que ela fosse mais que visita. Queria fazer perdurar aquela imagem de perfeição que nutro até hoje de sua presença em minha infância. Mas, se hoje busco me desvencilhar dessa pressão por ser mãe perfeita, descobri que também preciso libertá-la dessa cobrança. Um grande exercício de compreensão, de auto-perdão. Como ela mesma diz: “me perdoem se em alguma vez faltei, porque não sabia, porque não podia. Porque uma metade é amor… e a outra, também”.

Hoje, dia do meu aniversário, vou reforçar todos esses vínculos e repetir o que ouvi em uma linda cerimônia de pré-parto:

“Quero honrar o ventre de onde vim. O ventre onde estou. E o ventre que há em mim.”

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4 pensamentos sobre “De mãe para filha

  1. Ui! Demorei para chegar neste post, foram muitos nesta blogagem coletiva, mas me emocionei muito. Também tenho essa ligação extra-sensorial com meus filhos, mas nada tão forte quanto o que você relata. Lindo. Também gostei do que vc diz sobre se desvencilhar da cobrança de ser uma mãe perfeita e de libertar sua mãe disso. Minha mãe sofre muito pelos erros que cometeu, mesmo a gente afirmando pra ela que foram erros cometidos por amor, tentando acertar. Só erra quem faz, quem tenta. Porque metade da mãe é amor… e a outra metade também!
    Amei!

    • Oi, Tuka,
      retornos como o seu são muito significativos pra mim. Reforçam o sentimento de partilha que sempre desejei, desde que comecei a escrever o blog.
      Obrigada!
      Um beijo,
      Marusia

  2. Marusinha,
    seu blog é uma jóia mesmo. Fiquei toda emocionada… tomara que eu seja uma mamãe bem igualzinha à você (dedicada, paciente, amorosa… etc…).
    Te adoro amiga! Saudades!

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