Como educar crianças para a paz

Como educar crianças para a paz

Laura Perls

[…] A exigência por paz está em oposição direta a um dos instintos mais vitais de todo ser vivo, notoriamente o instinto da agressividade.

Por agressividade, a maioria das pessoas entende o desejo de atacar, destruir e matar. Por essa razão, condenam esse ato com toda a força do coração, e a tendência geral da nossa civilização, há muitos séculos, é a de suprimir de maneira quase ou totalmente completa esse instinto, aparentemente o mais perigoso de todos.

[…] Usualmente, a família mediana rege da seguinte maneira: cada sinal manifesto de agressividade por parte da criança (chorar, chutar, morder, quebrar coisas etc) é tratado pelos adultos com desaprovação. A mesma desaprovação ocorre diante da impaciência infantil e de seus maus humores. Suas explosões temperamentais frequentemente levam a severas punições. Pais conscientes tentam realizar o seu ideal de bom cidadão – ideal que nem eles mesmos conseguem realizar – nos seus filhos. É dito para a criança que ela deve ser de boa natureza, obediente e respeitosa. Esse objetivo é normalmente alcançado apelando ou para o medo que a criança tem de causar algum problema ou de sofrer punição, ou pelo desejo que ela tem de ser amada.

Pode-se ter a expectativa de que pessoas que foram treinadas desde o início de suas vidas para ter consideração para com os seus vizinhos, para respeitar a propriedade, para obedecer a autoridades, teriam tido a melhor educação possível para a paz. Mas, se olharmos hoje para os países, onde centenas de gerações de pessoas foram criadas dessa maneira, devemos admitir que os resultados são bastante decepcionantes.

[…] Primeiro, a fim de entender, temos que examinar a concepção geral de comum de agressividade. Essa concepção é principalmente derivada dos efeitos que a agressividade tem sobre as pessoas que a ela são expostas. A agressividade de crianças pequenas causa muita inconveniência e aborrecimento aos adultos. Por esta razão, muitas pessoas a veem como indesejável e tentam suprimir os desejos da criança. Mas eles correm o risco de não apenas suprimir a inconveniência da criança, seus gritos e berros, mordidas, chutes e arranhões, lágrimas e destruição de coisas, mas também suprimir sua curiosidade e ânsia por saber. É claro que a ânsia de saber da criança e sua agressividade física são muito penosas para os adultos. Sua satisfação demanda muito tempo e paciência e podem ser muito inoportunos e desagradáveis. Eles até mesmo podem chamar a atenção para a própria ignorância dos adultos, o que muitos pais veem como um sério risco à sua autoridade. Mas, por outro lado, a curiosidade e o desejo de saber são condições indispensáveis ao desenvolvimento intelectual da criança, à sua capacidade de aprender e de estudar, de entender as pessoas e as circunstâncias. E a completa supressão da agressividade causa – se não estupidez ou então, certamente, séria inibição intelectual – levando à impossibilidade do pensamento crítico.

[…] É claro que a imaturidade intelectual não é causada apenas pela supressão da agressividade infantil prematura. De igual importância para o desenvolvimento do fascismo  [e mais tarde do nazismo], está no fato de que a repressão à agressividade no indivíduo geralmente traz um aumento da agressividade universal. Em todos os países altamente civilizados, podemos ver onde o indivíduo mediano não desenvolveu suas capacidades agressivas de modo considerável, mas ao contrário, ficou restrita, bem comportada, até mesmo com medo de complicações, dado que a comunidade desenvolveu seus meios de agressão a um ponto extremo, terrível, assustador. O aperfeiçoamento do maquinário de guerra (armas, tanques, aviões, bombas, gás venenoso, treinamento militar e eficiências estratégicas) parece estar na proporção direta da supressão da agressividade individual, como se a agressividade reprimida de todos os indivíduos tivesse se acumulado em algo além da individualidade e simplesmente tivesse que forçar essa saída.

[…] É um falso questionamento se reprimimos ou não reprimimos a agressividade. Já que a agressividade é um ingrediente indispensável para compor o humano, temos que usá-la, para desenvolvê-la com um instrumento valioso para administrar nossas vidas. Isso significa, particularmente, que não devemos obstruir os primeiros sinais de agressividade na criança pequena;  antes, devemos encorajá-la e apoiá-la adequadamente para tal.”

 “Como educar crianças para a paz” foi escrito em alemão e publicado em Joannesburgo, África do Sul, em 1939. Foi editado para publicação por Joe Wysog. Sua primeira publicação em inglês foi no The Gestalt Journal Press, pp 37-44, em 1992, sob o título “Living at the boundary”. (Tradução de Helena Raíra Magaldi e Elayne Magaldi Daemon).

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