Perda do bebê

Hoje estou triste porque uma amiga muito querida, que estava grávida, perdeu o bebê. Eu também já passei por isso, na minha primeira gravidez, e sei que é uma dor que não tem tamanho.

Estamos em uma cultura em que tudo é muito instantâneo. Quando ocorre uma perda desse quilate, somos impelidas ao “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Nas novelas, as cenas dramáticas logo dão lugar ao núcleo cômico. Nas propagandas, depois de um anúncio sobre vítimas no trânsito, vem um cheio de mulheres de biquíni tomando cerveja na praia. Nos telejornais, logo em seguida às notícias da tragédia das chuvas no Nordeste, o âncora já aparece todo sorridente, em outro ângulo da câmera, pra falar sobre os gols no futebol. E mesmo aqui no blog não tenho como evitar que este post conviva com outros textos mais alegrinhos.

Mas a vida não é assim, não é simplesmente desligar um botão, tomar uma pílula, arrumar uma saída rápida, tudo muito descartável. E nem deve ser assim. Temos que dar tempo ao luto, sofrê-lo, entendê-lo.

Quando perdi meu bebê, fingi que era forte, não me permiti viver o momento, enganei a mim mesma. As pessoas com quem eu falava, até por conta da cultura do “levanta”, não sabiam como lidar com isso. Queriam, legitimamente, que eu melhorasse. Diziam que engravidaria novamente e que “um amor cura outro.” Que “a natureza é sábia”. Que “Deus sabe o que faz”. Não que essas coisas não sejam verdade, mas isso fecha qualquer diálogo – que argumento sobra depois de um “Deus sabe o que faz?”

Existe um projeto, iniciado em Portugal, que visa a dar apoio a quem sofre uma perda gestacional, o Projeto Ártemis. Vale a visita:

http://projectoartemis.blogs.sapo.pt/

 Não viver o luto, não encará-lo, foi a pior coisa que eu fiz. Depois fui obrigada a vivê-lo em prestações e sofri por muito mais tempo. Uma pessoa que perde o bebê às vezes nem precisa ouvir nada, ela quer ser ouvida. Então, só consegui me libertar depois que comecei a me expressar. Mais precisamente, escrevendo poesia. A poesia cura, porque fala na linguagem da alma.

 Choro calado

 Porque é assim, como uma dor profunda

mas que está à flor da pele

Como uma vidraça que se quebra, se estilhaça

Como noite líquida

que escorre sem cessar, como uma lágrima negra

que nunca seca

mas que também não lava

mas que também não leva

e por isso nunca alivia

Não é vazio, é interrupção

É pedaço arrancado

mas não do que houve

e sim do que seria

Pedaço arrancado do sonho

Uma história que só começou

e não teve fim

e por isso se arrasta

e por isso arranha, arranca, arrebenta, encampa, preenche

paradoxalmente porque retira

Mas não é vazio

É quebra, é ruptura, fratura

Incerteza, imprevisibilidade

Medo, angústia, culpa pelo que não foi

E dessa vez, pelo que nunca será

Pelo que ficou no caminho

Pelo que insiste em existir

Em não continuar, ao mesmo tempo

em que permanece.  (…)

:: Leia a íntegra ::

 No fim das contas, suspirei aliviada depois de um dia ter ouvido, do meu próprio coração: “seu bebê, este ser pequenino, dentro da sua barriga, só precisou de dois meses de muito amor para cumprir sua missão na Terra”.

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17 pensamentos sobre “Perda do bebê

  1. Marusia,
    Muito obrigada pela partilha e, sobretud, pela divulgação de um tema tão dorido.
    Nós vamos estar em São Paulo na semana de 24 a 31 de Julho dando palestras.
    brigada por tudo
    Manuela

    • Manuela,
      a proposta do Projeto Artémis é valiosíssima. Parabéns pela iniciativa, continuem “gerando esperanças”.
      Um beijo,
      Marusia

    • Oi, Érika, você descreveu com exatidão: é uma dor que consome. Nem sempre as pessoas compreendem, ainda mais quando é o primeiro filho. Com o passar do tempo, o sentimento vai apaziguando, mas não desaparece… Como diz Clarissa Pinkola Estés, em “Mulheres que correm com os lobos”, fazemos parte do “clã das cicatrizes”. Uma coisa que me ajudou muito foi me expressar, pôr para fora, compartilhar a experiência, ainda que seja em um diário.

  2. Olá! Inicia em abril 2014 o grupo Maternidade Interrompida. Espaço de partilhar e apoio a situações de perdas e lutos gestacionais para mães, pais e familiares realizado em consultório de Psicanálise e Psicologia.
    No blog há textos, indicações de livros e notícias. blog : maternidadeinterrompida.blogspot.com.br
    Estou em Belo Horizonte -MG

    • Oi, Leila,
      esse espaço de partilha é fundamental para ressignificar a experiência.
      Parabéns pela iniciativa.
      Beijos,
      Marusia

  3. Eu estava com 35 semanas de gestação quando soube que o coração da minha menina tinha parado, foi a sustador, isso ocorreu no dia 04/08/2015 e ela nasceu morta e de parto normal no dia 05/08/2014 as 3:15 da madrugada. Lembro do meu sofrimento todos os dias, e tive que me acostumar com a dor de olhar para o quartinho dela todo arrumado.

    • Helena,
      é um sofrimento sem tamanho. Junto com o bebê, todo um sonho é gestado. No seu caso, já no fim da gravidez, a expectativa se tornou susto, seguido da dor do vazio. Continue observando seus pensamentos, sentimentos. Permita-se viver esse luto, escolha maneiras de expressá-lo. Dedique-se ao que você gosta, esteja perto de quem lhe faça sentir bem.
      Abraços carinhosos,
      Marusia

    • oi helena, estou passando por isso nesse momento, não tenho forças pra falar, mais sera quiser trocar experiencia me chama pelo face crisbatista.

  4. eu perdi meu bebe com 8 semanas de gestação. primeira gravidez aos 43 anos. Ouvir a frase Deus sabe o que faz..não conforta, só revolta. porque eu não entendo se sou saudavel o motivo que meu bebe naõ viveu. e vejo usuarias de drogas com barrigões imensos tendo seus filhos. vai entender…

    • Oi, Adriana,
      Quando sofremos um baque, parece que tudo a nosso redor “faz questão” de nos lembrar do que aconteceu. Quando perdi meu bebê, era impressionante o número de grávidas e de mães com recém-nascidos que eu via na rua, na TV, em todo lugar. Pode aparecer a revolta, bem como a torturante pergunta: o que eu fiz de errado? Por que isso aconteceu comigo? Minha sugestão é que você tente ver tudo da posição de observador, como se fosse alguém de fora. Preste atenção em tudo o que você sente e em tudo o que provoca cada uma dessas reações. Sem pressa. Espere a resposta do seu coração.
      Beijos e força!

    • Também foi minha primeira e última gravidez,com a mesma idade que a sua de 35 semanas …de parto normal…ouvi as mesmas coisas..faz um mês!!! Me pergunto se vou sorrir novamente!!!

      • Oi, Monica,
        É muita, MUITA dor, mesmo… Tudo e todos nos fazem lembrar desse grande sonho, interrompido tão pertinho de se tornar realidade… A impressão é de um vazio imenso, que parece que nunca vai ser preenchido. Permita-se sentir esse luto, agora. Descubra maneiras de expressar seus sentimentos, com alguém, com um diário, na arte ou outra coisa que seja especial para você. Aos poucos, a cura surge, e a gente consegue sorrir outra vez. Espero poder ajudar nesse momento difícil.
        Um abraço carinhoso,
        Marusia

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