O peso da escolha

Uma amiga tentou engravidar por muito tempo, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

_______

Veja também:

As coisas não acontecem como a gente quer

Carta a meus filhos

A arte de criar vazios

Maioridade penal: a pergunta que ninguém fez

Quero tranquilizar quem está lendo. Não vou defender nenhuma posição. Não quero convencer você a nada – até porque, no “Fla-Flu” que se tornou a discussão sobre maioridade penal, ninguém convence ninguém. Aqui, quero fazer a pergunta que ainda não vi ninguém fazer.

Não vou falar, por exemplo, sobre a idade a partir da qual uma pessoa tem discernimento acerca do certo ou do errado. Se o novo mundo globalizado, os meios de comunicação e a internet fazem com que as crianças amadureçam mais cedo. Se o fato de reduzir para 16, 12, 10 ou 6 anos faz diferença. Se há países com idades variadas para responsabilizar ou punir. Se há locais em que a redução foi feita e a criminalidade aumentou, ou o contrário.

Não serão assuntos deste post questões como: “a criança que comete um crime deixa de ser criança e passa a ser um bandido?”, “bandido bom é bandido preso?” Nem “escola é para criança que quer estudar, cadeia é para quem cometer crime contra a vida”, “direitos humanos para humanos direitos”, “culpar a sociedade é fácil”, “cada um deve ser responsável pelos seus atos”. Não lidarei com esses aspectos.

Nem vou comentar se a propensão para cometer um crime está ligada ou não à desigualdade de renda e de recursos materiais. Se a chance de um adolescente ser preso é maior ou menor dependendo da sua classe social ou da cor de sua pele. Se o capitalismo de mercado e a publicidade são responsáveis ou não por incentivar o consumo para quem não pode consumir, e se hoje em dia a pessoa é medida pelo que tem e não pelo que é. Se a mídia está fazendo sensacionalismo ou não quando há adolescentes envolvidos em crimes bárbaros.

Não vou entrar no debate sobre a presença do Estado. Se o Estado só vai aparecer na hora de punir, em vez de garantir, desde o nascimento de uma pessoa, os direitos básicos de educação, saúde, segurança.

Da mesma forma, não pretendo avaliar se, desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA chegou alguma vez a ser cumprido de fato ou não. Se é necessário fazer mais leis, ou se essa é mais uma lei que não vai resolver o problema. Se o que está sendo tratado é a causa ou a consequência.

O número de adolescentes entre 16 e 18 anos, que comete crimes, corresponde a somente 0,01% da população do Brasil? Qual é a fonte desse dado? Mesmo que esse número esteja certo: uma única vida que seja salva não é motivo de reduzir a maioridade penal? Nenhuma dessas dúvidas será objeto do meu texto.

Não vou discorrer sobre o adulto que alicia criança para cometer crimes em seu lugar, “porque sabe que não vai dar em nada”, ou “porque fica três anos e depois é solto”. Nem sobre a sensação de impunidade, as diferenças entre vingança e justiça, a necessidade de o Congresso Nacional “dar uma resposta rápida à sociedade”. Nem mesmo se as pesquisas que apontam 87% da população brasileira como a favor da redução da maioridade penal são confiáveis ou não.

Outra coisa que não vou discutir é o sistema penitenciário brasileiro; se o fato de termos a 4ª população carcerária do mundo tem algum impacto sobre a criminalidade, se apenas uma pequena porcentagem dos homicídios tem resolução. Ou se os detentos continuam comandando o crime de dentro da prisão, sem se preocupar com a retaliação das gangues rivais que estão do lado de fora.

Nem mesmo se os centros de medidas socioeducativas (como Febem, Fundação Casa e outros nomes), assemelham-se a cadeias, ou são até piores. Nem se a internação recupera alguém ou não, se há reincidências. Tampouco se a redução da maioridade penal é válida, desde que os sistemas entre adolescentes e adultos sejam separados. Nem se será exclusivo para crimes hediondos, sem considerar roubo de galinha.

Também não vou perguntar: “e se a vítima fosse um parente seu?” nem “e se o acusado fosse um parente seu?” Muito menos indagar “vai esperar matar para depois prender?” nem “prender o adolescente vai ressuscitar a pessoa que morreu?”

Finalmente, a pergunta que ninguém fez é:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ESTÃO MATANDO?

Vou ensaiar uma hipótese: crianças e adolescentes estão matando porque perderam o medo de morrer. E aí temos uma nova questão:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PERDERAM O MEDO DE MORRER?

Que sociedade é essa? A que grau de violência – psicológica, física, sexual, simbólica – nossa infância ficou exposta?

Um último arremate:

QUEM NÃO TEM MEDO DE MORRER VAI TER MEDO DE SER PRESO?

 

Depois que fui mãe…

Este é mais do que um texto; é um presente da minha amiga Claudia Brasil. Feliz Dia das Mães!

Depois que fui mãe…

Por Claudia Brasil*

1. Aprendi o que é, de fato, uma noite mal dormida. Ou não dormida e em condições adversas.

2. Aprendi o real valor de uma noite bem dormida.

3. Aprendi o que é medo. Desenvolvi medos estranhíssimos. “Será que ele está respirando? Faz horas que está dormindo sem emitir qualquer som audível…” – Que mãe nunca? Hoje temo, de verdade, a violência urbana, a violência sexual, a violência no trânsito, a psicopatia, doenças que nem conheço ou que inventei (durante meses, tive a convicção de que um dos meus filhos enxergava em preto e branco) ou doenças reais (durante meses temi que um deles tivesse algum comprometimento neurológico que o impedia de começar a andar logo; pedi ao pediatra um encaminhamento ao neuropediatra; dias depois, o menino estava correndo pela casa….). Medo, agora, é para o resto da vida.

4. Aprendi o que é coragem. Acho até que mataria um sapo que ousasse se aproximar de um deles. Tenho pavor de sapo, que fique bem claro. Coragem, agora, é para o resto da vida.

5. Entendi “mágoa de mãe”. Sabe aquele negócio de que seu filho diz a coisa mais besta do mundo pra você (você é muito chata!) e você passa dias ruminando aquilo? Agora eu entendo. Ah, sim, isso faz você chorar, tá? Imagine as coisas mais graves! Tudo “mágoa de mãe”. Nem vou falar dos casais separados e que o filho chega e comunica: quero morar com meu pai. A vida, até o momento, tem sido generosa comigo. Não sei até quando.

6. Aprendi o que é chorar em festinha da escola. Sim, a cantoria é desafinada, a coreografia sai toda errada, as fantasias são desengonçadas, rola esquecimento do texto na peça de teatro. Mas é ele quem está cantando, é ele quem está dançando, foi ele quem confeccionou a fantasia, é ele quem está representando. Logo, fechou a equação: ele faz, você chora. E não é de vergonha, não: é de emoção sincera e profunda. Vai vendo o que é a maternidade…

7. Aprendi a comer resto. Resto da comida do filho, da sobremesa do filho, da papinha do filho, do iogurte do filho, do bolo do filho, da sopa do filho, do biscoito do filho… virei uma usina de reaproveitamento de alimentos.

8. Aprendi o que é paciência. Minha mãe sempre me olhava no exercício pleno da maternidade e dizia “jamais poderia imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que você seria paciente com criança como é com seus filhos”. Na boa? Nem eu.

9. Aprendi o que é simplicidade. Quer coisa mais simples do que ir para outra dimensão apenas porque, agora, seu filho não tem mais dor? Porque ele voltou a se alimentar depois de uma gripe incapacitante? Porque ele aprendeu a andar? Porque ele aprendeu a pronunciar “mãe”? Simplicidade em estado bruto.

10. Aprendi o que é dor. Ver um filho seu se contorcendo de dor e nada poder fazer para alterar esse estado de coisas é um aprendizado prático do que é a “dor das mães”. Ver um filho sofrendo por aquelas razões que você não consegue evitar, desculpe, te leva às lágrimas e te faz sofrer até mais do que ele. É assim que funciona.

11. Aprendi a pedir a Deus. E a agradecer também. Você pede a Ele que proteja seu rebento, que o livre de todo mal, que ele saiba dizer “não” para o que não presta, que só diga “sim” para as coisas do bem, que ele seja feliz, que seja estudioso, que respeito o próximo, que não fique doente mas, se adoecer, que fique bom logo. E agradece por qualquer coisinha que aconteça, afinal, é seu filho, né?

12. Aprendi a entender a minha mãe. Em quase tudo.

13. Aprendi a ser feliz. Qualquer coisa e lá estão os olhos marejados…

14. No final das contas, aprendi que a maternidade foi a minha maior e melhor escola. Aprendi que, nessa escola, a formação é infinita. A gente nunca termina de aprender. Cada dia, uma lição. Cada episódio, um aprendizado. Cada etapa, uma nova conquista. Diploma em papel não há. Mas olhar para o filho e perceber, ao longo da vida, os bons resultados, deve ser mais gratificante do que qualquer grau de doutor. Olhos marejados, alma lavada.

Sou mãe. Fim.

*Claudia Brasil é jornalista e mãe de dois meninos.

____________

Veja também:

O curso mais interessante do mundo

Decálogo dos meus desafios

Carta a meus filhos

Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

________________________

Veja também:

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

El Bigodito

Mamífera!

Por que temos filhos?

Todas as morais da história

Este é o tipo de vídeo que deixa a gente feliz.

A moral da história mais comum para ele é: “A união faz a força”.

Podemos citar ainda Mark Twain: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”

Mas há inúmeras outras lições nessa história, que servem como ótimas resoluções de fim de ano:

Banho de chuva alivia o stress.

Abraçar árvores deixa a gente mais alegre.

Dormir é fundamental, mas não deixe o sono te impedir de ver coisas sensacionais da vida.

O Natal existe, mesmo onde a maioria tem outra religião.

E a mais bacana:

Nada segura uma criança, quando ela está determinada a ir para a escola.

Se alguém disser que isso não acontece na vida real, diga que, para ser realidade, basta começar:

 

desenho e citação de Malala Yousafzai

“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”. (Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz 2014).
Desenho: Leif Bessa, Plenarinho

 

Um lindo Natal e um excelente Ano Novo!

________________________

Veja também:

Caminhos

Quero ser criança quando eu crescer

Carta a meus filhos

 

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

_____________

Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Anjos

bebezinho anjo dormindo

Uma vez, perguntei a meus filhos sobre seus anjos da guarda. O mais velho me disse que seu anjo era adulto e tinha seis asas, como um pokémon.

anjo guerreiro com seis asas

Eu nunca tinha imaginado um anjo que tivesse mais de duas asas, então fui pesquisar no Google e descobri que ele existe, sim. Na verdade, é um serafim. Os serafins têm seis asas, são os anjos mais poderosos que existem e estão na primeira posição na hierarquia celeste, mais próximos de Deus. Surpreendente, não?

Já minha filha disse que sua “anja” tinha a mesma idade dela. Quando ela fez o desenho, o irmão perguntou: “Mas ela tem asa de borboleta? É anja ou é fada?”

desenho de criança com anja

Bem, se pararmos para pensar, as asas são os membros superiores dos animais, como aves ou até o morcego. Seguindo as regras da natureza, se os anjos têm asas, não teriam braços, portanto. Assim, o mais certo seria aproximá-los dos insetos, como a borboleta, que tem os membros separados das asas.

Capa do livro Menino de Asas, de Homero Homem

Asas no lugar de braços, como no livro de Homero Homem, que li quando tinha 13 anos

Divagações à parte, ainda prefiro a definição da minha filha: a anja é do jeito que é e pronto.

O anjo do caçula “é um ano mais velho” que ele. Sorridente e com asas bicolores, parece um super-herói.

anjo

Quando meus filhos estão assustados com alguma coisa, peço que eles se lembrem de seus anjos. É muito bom saber que nunca estamos sozinhos.

Anjos são universais. Independentemente do nome que se dê a eles – mentores, mestres, espíritos guardiões, intuição -, a referência a eles está presente, não importa a religião ou doutrina, ou mesmo o saber popular. É a experiência do sagrado em nós, e ainda que prefiramos outro nome para isso também, é o acesso à inteligência máxima, à consciência antiga do Universo.

anjo da guarda acompanhando criança

 

É reconfortante acreditar que existe um componente divino que é exclusivamente seu. Na verdade, é uma alegria um tiquinho egoísta ;), de ter uma força que está permanentemente a seu lado. Uma certeza de proteção, orientação, consolo e, ao mesmo tempo, de respeito ao seu livre-arbítrio. De compreensão do que você é, com todos os seus defeitos.

Amo os anjos.

E eles são fáceis de amar, mesmo, porque são pura expressão do amor sem condições.

anjo da guarda com cabelos compridos

O meu anjo cresceu junto comigo. Quando eu era pequena, ele tinha minha idade. Hoje, é um loirão de responsa, com asas poderosas, para que eu caiba dentro delas. Com ele, não tem moleza. Costumo dizer até que ele é meio brabo. Quando penso besteira, quase dá para ouvi-lo: “Ai ai ai, lá vai você de novo!”

anjo loiro com grandes asas

Para as crianças, a convivência com os anjos é natural. Aí, nós vamos crescendo e nos esquecendo de sua companhia.

Os anjos não necessariamente se apresentam com seus halos de luz e suas asas. Às vezes, não têm nem aparência. Podem ser apenas uma voz sábia, que parece vir de dentro. Outras vezes, nem mesmo isso: podem ser apenas uma sensação.

Noutros momentos, se estivermos em sintonia com eles, eles nos mandam recados de diferentes formas:

No verso de uma música que toca na rádio.

Na frase de um cartaz na rua.

No comentário de alguém que você nunca viu e nunca tornará a ver, mas que faz a diferença no seu dia – e por que não? -, na sua vida.

Acreditando nos anjos ou não, pensando neles ou não, o que importa de fato é saber que podemos ser anjos para os outros.

E você? Como é seu anjo? Você foi anjo para alguém hoje?

___________

Quem acompanha o blog já se deparou com posts que falam sobre anjos:

O anjo de origami

O anjo na areia

Onde está meu bebê?

Perda do bebê

A dor do mundo

 

“I believe in angels, something good in everything I see”. (Abba)

Eu acredito em anjos: algo bom em tudo o que vejo.