Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

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Veja também:

Coisas que só quem tem três filhos (ou mais) sabe o que são

El Bigodito

Mamífera!

Por que temos filhos?

Todas as morais da história

Este é o tipo de vídeo que deixa a gente feliz.

A moral da história mais comum para ele é: “A união faz a força”.

Podemos citar ainda Mark Twain: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”

Mas há inúmeras outras lições nessa história, que servem como ótimas resoluções de fim de ano:

Banho de chuva alivia o stress.

Abraçar árvores deixa a gente mais alegre.

Dormir é fundamental, mas não deixe o sono te impedir de ver coisas sensacionais da vida.

O Natal existe, mesmo onde a maioria tem outra religião.

E a mais bacana:

Nada segura uma criança, quando ela está determinada a ir para a escola.

Se alguém disser que isso não acontece na vida real, diga que, para ser realidade, basta começar:

 

desenho e citação de Malala Yousafzai

“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”. (Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz 2014).
Desenho: Leif Bessa, Plenarinho

 

Um lindo Natal e um excelente Ano Novo!

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Veja também:

Caminhos

Quero ser criança quando eu crescer

Carta a meus filhos

 

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Anjos

bebezinho anjo dormindo

Uma vez, perguntei a meus filhos sobre seus anjos da guarda. O mais velho me disse que seu anjo era adulto e tinha seis asas, como um pokémon.

anjo guerreiro com seis asas

Eu nunca tinha imaginado um anjo que tivesse mais de duas asas, então fui pesquisar no Google e descobri que ele existe, sim. Na verdade, é um serafim. Os serafins têm seis asas, são os anjos mais poderosos que existem e estão na primeira posição na hierarquia celeste, mais próximos de Deus. Surpreendente, não?

Já minha filha disse que sua “anja” tinha a mesma idade dela. Quando ela fez o desenho, o irmão perguntou: “Mas ela tem asa de borboleta? É anja ou é fada?”

desenho de criança com anja

Bem, se pararmos para pensar, as asas são os membros superiores dos animais, como aves ou até o morcego. Seguindo as regras da natureza, se os anjos têm asas, não teriam braços, portanto. Assim, o mais certo seria aproximá-los dos insetos, como a borboleta, que tem os membros separados das asas.

Capa do livro Menino de Asas, de Homero Homem

Asas no lugar de braços, como no livro de Homero Homem, que li quando tinha 13 anos

Divagações à parte, ainda prefiro a definição da minha filha: a anja é do jeito que é e pronto.

O anjo do caçula “é um ano mais velho” que ele. Sorridente e com asas bicolores, parece um super-herói.

anjo

Quando meus filhos estão assustados com alguma coisa, peço que eles se lembrem de seus anjos. É muito bom saber que nunca estamos sozinhos.

Anjos são universais. Independentemente do nome que se dê a eles – mentores, mestres, espíritos guardiões, intuição -, a referência a eles está presente, não importa a religião ou doutrina, ou mesmo o saber popular. É a experiência do sagrado em nós, e ainda que prefiramos outro nome para isso também, é o acesso à inteligência máxima, à consciência antiga do Universo.

anjo da guarda acompanhando criança

 

É reconfortante acreditar que existe um componente divino que é exclusivamente seu. Na verdade, é uma alegria um tiquinho egoísta ;), de ter uma força que está permanentemente a seu lado. Uma certeza de proteção, orientação, consolo e, ao mesmo tempo, de respeito ao seu livre-arbítrio. De compreensão do que você é, com todos os seus defeitos.

Amo os anjos.

E eles são fáceis de amar, mesmo, porque são pura expressão do amor sem condições.

anjo da guarda com cabelos compridos

O meu anjo cresceu junto comigo. Quando eu era pequena, ele tinha minha idade. Hoje, é um loirão de responsa, com asas poderosas, para que eu caiba dentro delas. Com ele, não tem moleza. Costumo dizer até que ele é meio brabo. Quando penso besteira, quase dá para ouvi-lo: “Ai ai ai, lá vai você de novo!”

anjo loiro com grandes asas

Para as crianças, a convivência com os anjos é natural. Aí, nós vamos crescendo e nos esquecendo de sua companhia.

Os anjos não necessariamente se apresentam com seus halos de luz e suas asas. Às vezes, não têm nem aparência. Podem ser apenas uma voz sábia, que parece vir de dentro. Outras vezes, nem mesmo isso: podem ser apenas uma sensação.

Noutros momentos, se estivermos em sintonia com eles, eles nos mandam recados de diferentes formas:

No verso de uma música que toca na rádio.

Na frase de um cartaz na rua.

No comentário de alguém que você nunca viu e nunca tornará a ver, mas que faz a diferença no seu dia – e por que não? -, na sua vida.

Acreditando nos anjos ou não, pensando neles ou não, o que importa de fato é saber que podemos ser anjos para os outros.

E você? Como é seu anjo? Você foi anjo para alguém hoje?

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Quem acompanha o blog já se deparou com posts que falam sobre anjos:

O anjo de origami

O anjo na areia

Onde está meu bebê?

Perda do bebê

A dor do mundo

 

“I believe in angels, something good in everything I see”. (Abba)

Eu acredito em anjos: algo bom em tudo o que vejo.

 

Descobrindo o espectro autista

O post de hoje foi escrito por minha amiga Sandra. É um relato sobre como descobriu que seu filho Enzo estava no espectro autista. São palavras de coragem e generosidade, para que mais e mais pessoas tenham acesso a mais e mais informações.

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A primeira vez que vi a palavra espectro tinha 14 anos, estava lendo Hamlet, fazia teatro amador na época e me aventurei a conhecer Shakespeare. E lá estava o príncipe Hamlet atormentado pelo “espectro” do pai, rei da Dinamarca. Achei a palavra diferente, e por um bom tempo não a esqueci, mal sabia eu que ela surgiria em minha vida de novo, anos mais tarde, em um diagnóstico.

Enzo já estava com 20 meses quando os primeiros sinais começaram a chamar minha atenção. O garotinho até então muito interativo e sorridente, que me aguardava ansioso em casa me chamando de mamãe, começou a isolar-se. A frase que mais ouvia da Inês, que nos ajuda até hoje, era: “Nossa, o Enzo é tão bonzinho, nem parece que tem criança em casa!” Por isso, fica meu alerta: silêncio em casa com uma criança pequena não é algo comum.

Comecei a reparar que seu contato visual regrediu a zero, assim como sua fala. Enzo fazia tudo em silêncio, corria pela casa em silêncio. Seu refúgio preferido era um pé de limão; lá ele sentava, e, se eu deixasse, ele ficava por horas.

Interesse por outras crianças também não existia mais. O único contato, e mesmo assim quase o perdi uma época, era comigo. Enzo me olhava muito, sentia que ele ficava feliz eu estando por perto. Por uma feliz coincidência do destino, deixei meu trabalho para me dedicar ao pequeno. E foi ao parar de trabalhar que pude perceber tudo isso que relatei.

Sabia que havia algo errado com Enzo, sua regressão era visível para qualquer um. Comecei minha peregrinação em médicos, médicos, exames, exames, exames. Fisiologicamente nada errado. Cérebro perfeito, audição perfeita, pares de cromossomos perfeitos. O que havia de errado? Eu me perguntava o tempo todo, somente o comportamento. Comportamento?!!! E a palavra esquecida lá atrás surgiu como um neon em minha mente: Espectro, Enzo estava na sombra ou fantasma do espectro autista.

Eu e meu marido passamos pelo luto já lutando. Fiquei triste, chorei, mas no choro eu já iniciei terapias. Para psicólogos (me perdoem se não é essa a ordem) eu pulei etapas, porque primeiro você vive o luto, depois a negação, aceitação e aí sim você procura os tratamentos. Eu no luto já estava levando Enzo em terapias. Não sabia se aquilo seria bom para mim, não viver o luto primeiro, mas na altura do campeonato eu já não queria pensar em mim, Enzo já estava em primeiro lugar em nossas vidas.

A sensação que tinha é que alguém estava levando a alma de meu filho embora, ele estava caindo em um precipício, e eu o estava segurando pela mãozinha, ele precisava de muita ajuda.

Passado mais de um ano, com terapias iniciadas, Enzo alcançou progressos significativos. Ainda é não verbal, ainda morde a mãozinha em situações de estresse ou muita felicidade, é sua válvula de escape. Seu contato visual melhorou muito, sua interação com adultos é boa, com crianças ainda um obstáculo, mas estamos trabalhando em conjunto com a escola. Enzo é uma criança querida pelos colegas, diria que um sedutor, Enzo tem seu charme.

Tratamento precoce é fundamental para quem está no espectro autista. Hoje, com diagnóstico sendo fechado mais cedo, teremos uma futura geração de autistas muito diferente da geração passada. Esteja atento a sinais.  Estava devendo esse relato a milhares de pessoas que não conheço me pedindo para contar a história, porque desconfiam de um filho, sobrinho, primo ou alguém conhecido.

Obrigada por ler até aqui, tentei ser breve mas sou geminiana! ;)

guarda-chuva colorido. Espectro autista

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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