Experimento da Prosperidade Amorosa

Marusia

Quando eu era pequena, minha mãe me ensinou uma antiga prática mística chamada “Experimento da Prosperidade”. Consistia em separar um momento do dia para me conectar com todos os pensamentos e sentimentos que eu considerava estarem relacionados à prosperidade – no caso, financeira. Podia ser, por exemplo, imaginar a sensação de receber o salário, usá-lo para comprar as coisas que eu queria ter, ou ainda sonhar com as experiências possíveis com esse dinheiro, etc. Ao mesmo tempo, deveria entrar confiantemente na vibração da abundância do Universo. Durante 40 dias (recomenda-se iniciar após a lua nova e antes da lua cheia), eu faria esse exercício e depositaria um valor fixo em uma caixinha. Ao final, deveria doar o montante de maneira livre.

Repeti esse experimento algumas vezes. Meu primeiro foi com moedinhas de 1 real. É possível, por exemplo, doar o primeiro salário, dividindo-o em 40 partes. Pode ser com o primeiro dinheirinho de estágio, e depois a cada emprego novo ou promoção. A doação pode ser em espécie, ou a compra de algum item como cesta básica, roupa de cama e outros para asilos e orfanatos. O que posso dizer, no mínimo, é que o experimento é efetivo e poderoso. E recebi o mesmo depoimento das pessoas para as quais ensinei.

Neste ano, eu me perguntei se era possível adaptar o Experimento da Prosperidade para o campo emocional, afetivo. E pensei no que poderia depositar na “caixinha” durante 40 dias. A inspiração foi escolher ou deixar chegar uma emoção por dia, em que eu me conectaria verdadeiramente com o Amor, e descobrir uma música que estivesse na mesma sintonia. Ao final, salvaria tudo em uma playlist e compartilharia com o mundo.

O que posso dizer agora, 40 dias depois, é que, no mínimo, foi transformador. Tem sido transformador. E convido você a fazer o mesmo! Se você se permitir fazer o Experimento da Prosperidade Amorosa, lembre-se de compartilhar sua playlist comigo! De preferência, coloque esse nome no título, para facilitar a busca.

Minha única observação é: esteja preparado. Você vai ter vivências intensas. Vai mergulhar bem fundo e também vai voar muito alto.

Aqui vai minha playlist de emoções e canções:

PLAYLIST NO SPOTIFY: bit.ly/prosperidadeamorosa

1. Leveza – Serenidade. Facilidade. Leve e suave (ao vivo) – Lenine

2. Paz – Confiança. Certeza. Fé.  Se fiquei esperando meu amor passar – Isabella Taviani

3. Luz – Intuição. Ir em frente. Seguir o coração.  Girassol – Kell Smith

4. Poder – Liberdade. Força. Conexão direta com a fonte.   O medo de amar é o medo de ser livre – Beto Guedes

5. Entrega – Deixar crescer. Deixar ir. Mind games – John Lennon

6. Amor a Deus – “Por Você, todas as entrelas cantam”. E, por você também, que é uma obra prima de Deus.  A million lights – Michael W. Smith

7. Abertura – Abrir o coração e mente para o novo. Juriti – Célia Porto

8. Serenidade – Calma. Sem ansiedade. Não apresse o rio, ele corre sozinho.  Planting seeds – Nimo e Daniel Nahmod

9. Sonho – Viagem. Esperança. Alegria. Fantasia.  Um tanto – Suricato

10. Sintonia – Alinhamento dos astros. Sincronia.  Encontro das águas – Jorge Vercilo

11. Escuta – Para. Ouve. Sente. “Somente atento à voz do tempo saberei”. Maior – Dani Black e Milton Nascimento

12. Fechamento – Resolução. Avaliação.  Preparação para o novo. Closing time – Semisonic

13. Sorte – Estar alegre com as surpresas da vida. A alegria faz com que as surpresas sejam boas. Get Lucky – Daft Punk

14. Iniciativa – Batei e abrir-se-vos-á. Seja você mesma sempre! Love comes to everyone – George Harrison

15. Amor ao corpo – Atitude. Reverência. Confiança. Tesão. Dança. Não olha assim pra mim – Outroeu

16. Força – Domínio. Expansão. Vigor. Certeza.  Reconvexo – Maria Betânia

17. Companhia – Estar entregue. Estar presente. Estar junto. Estar inteiro. When the stars go blue – The Coors e Bono

18. Fogo – Calor do corpo. Prazer. Libido. Kundalini. Sexo. Burn – Ellie Goulding

19. Partida – Amor ao que vai porque não nos serve. Paz. Birds – Imagine Dragons

20. Conexão interna – Cuide de você. Respire. Tranquilize-se. Traga seu centro para você. Just breathe – Pearl Jam

21. Levantar – Resiliência. Reerguer. Ter coragem e humildade. Never give up – Sia

22. Origem – Volta. Retorno ao EU. Casa. Paradise – Coldplay

23. Amor à Terra – Espírito. Clã. Base. Chão. Mãe. Natureza. Spirit bird – Xavier Rudd

24. Sentimento – Sinto esse desejo. Desejo esse sentimento.  I feel it coming – The weeknd feat Daft Punk

25. Energia – Brilho. Alegria. Estar junto. Resplandecer. Brighter than the sun – Colbie Caillat

26. Amor de Mãe –  Cantiga de ninar. Memória. Laço. Geração.  All is found – (trilha de Frozen 2)

27. Vida – Impulso. Força. Expansão. Crescimento. Vigor. Subida da montanha. Come Alive – The Greatest Showman cast

28. Transbordamento – Descontrole. Vazão. Impulso. Selvagem. Trator – Flávio Venturini

29. Delicadeza – Suavidade. Ternura. Simplicidade. Não precisa explicação. Quando a gente ama – Oswaldo Montenegro

30. Gratidão – Reconhecimento. Amor ao Passado. Thankful for (acoustic) – Adam Sanders

31. Paciência – Espera tranquila. Patience – Take that

32. Completude – Infinito interior. Voo. Mergulho. Vastidão. Autenticidade. Voo do Beija-flor – Elisa Cristal (clip)

33. Amor ao Mar – Fonte de vida. Incansável. Natureza. Todo azul do mar – 14 Bis

34. Espontaneidade – Riso. Brincadeira. Criança interior. Beija eu – Marisa Monte

35. Presente – Consciência do Agora. Transitoriedade. Impermanência. Dust in the Wind – Sarah Brightman

36. Saudade – Querer bem. Sonhar. Braços da paz. Saber que vai reencontrar.  Gostoso demais – Maria Bethânia

37. Calma – Confiança. “Mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo”. Camomila.  Serra ao luar ao vivo – Leila Pinheiro

38. Acolhimento – Abraço. Contenção. Gentileza. Reciprocidade.  Dentro de um abraço – Jota Quest

39. Amor à Música – Expressão. Ouvir a si mesma. Diversão. Projeção. Sing – Travis

40. Amor ao Futuro – Fé. Tempo perfeito. Expectativa leve. I have a dream – Westlife

FAIXA BÔNUS:

Amor Próprio – Sou eu. Estou aqui. Não preciso de licença para existir. This is me – the Greatest Showman Cast

 

Para Mamãe

Mãe, nunca foi exagero dizer que você era minha melhor amiga. As pessoas não entendiam como uma relação entre mãe e filha, que pressupõe alguma assimetria, responsabilidade e até autoridade, pudesse ser tão franca. A razão, Mãe, é que você afirmava que sempre saberia quando não estivéssemos falando a verdade; que isso ficaria impresso em nosso rosto, e que facilmente você descobriria. Paradoxalmente, essa fala também é uma “mentirinha do bem”. Resultado: eu nunca consegui ter segredos com você. Hoje essa transparência exercitada ao longo dos anos me faz passar apuros até para esconder uma festa surpresa de um colega. Você dizia: “não consigo colocar minha cara onde meu coração não está”. E foi essa confiança a matéria-prima para nossa amizade profunda.

Conversávamos muito. Sua experiência como professora e depois psicóloga lhe conferia muita técnica, mas tinha momentos em que eu pedia: deixa o jaleco do lado de fora e fala agora como minha amiga. Óbvio que não deve ter sido fácil ouvir de uma filha as incertezas e angústias. E você me dizia: “ai, que vontade de te colocar na minha barriga de novo!” Aquele refúgio sagrado, onde não havia sofrimento, somente as batidas do seu coração.

Mãe, do alto dos seus cinco filhos, você causava espanto nas pessoas. Uma das coisas mais admiráveis que guardo da infância foi sua postura, junto com Papai, de que nunca éramos um peso ou um sacrifício para vocês. Vocês diziam que éramos a sua maior condecoração, seu maior legado. Quando, entre outras coisas, todos reclamavam do preço do material e da mensalidade escolar, eu sentia seu prazer genuíno em comprar cada item, espalhar na mesa da cozinha à noite e identificar tudo com capricho e amor. Eu recordo até hoje o cheirinho do plástico novo com que você encapava os livros, a sua alegria em folhear as páginas intactas e mostrar todas as maravilhas que iríamos aprender naquele ano.

Eu também lembro o cheiro do esmalte que você usava. Você era sua própria manicure, e eu gostava de acompanhar seu ritual de fazer as unhas. Você tinha as mãos mais lindas do mundo. Você, como eu, era roedora de unhas e me ensinou a sempre deixá-las aparadas e cuidadas, para não ceder à tentação de colocá-las na boca.

Dessas mãos, saía a mais bela de todas as caligrafias. Parecia um bordado. Você dizia, por exemplo: “a letra T não é um L cortado. Junte os traços”, e assim havia legibilidade e precisão. Você fazia questão de creditar sua letra ao meu avô, que morreu quando eu era muito pequena. Você se esmerava para manter sua memória através dos inúmeros causos, profundos ou hilários, mas sempre repletos de sabedoria. “Espera a pessoa terminar de chegar, para então contar a ela o que quer que seja, de bom ou mau”. “O que é do outro é sagrado.” “É a educação que liberta o homem, por isso é a maior riqueza” são alguns dos ensinamentos que você perpetuou.

Com você, eu também aprendi a amar os livros. A tocá-los como quem toca um tesouro. Na sala, estavam as magníficas enciclopédias, muito antes de o Google existir. Você nos presenteou com muitos livros. Fazia questão de escrever, com seu traço singular e impecável, uma dedicatória carinhosa na página de rosto. Entre tantos títulos, um era especial para você e assim se tornou para nós: O Pequeno Príncipe. Um dos maiores tratados filosóficos já publicado, em linguagem para criança. Quando pequena, parecia tão natural, tão óbvio… e precisei trazer minha criança interior de volta para compreender toda essa vastidão novamente, depois de adulta.

Também é sua a dica de tomar banho logo de manhã cedinho. “Assim, você fica fresquinha e cheirosinha por todo o dia”. Ali, era possível garantir um bem-estar que começava cedo e perdurava ao longo das atividades, no amor ao próprio corpo e no encontro com as pessoas.

Você adorava cantar. Cantava arrumando as coisas da casa, cantava costurando, molhando as plantas. Cantava à noite para nós dormirmos. E ficava triste quando pegávamos logo no sono, pois você queria continuar cantando… Você inspirou seus irmãos, seus filhos, que hoje têm na música uma amiga inseparável. “Quem gosta de música nunca está sozinho”, dizia. A música, essa linguagem universal com a qual é possível se comunicar com toda a humanidade.

Uma das canções que você entoava era de sua própria autoria: “O anjinho azul já chegou aqui. Ele veio olhar o nenenzinho dormir”. De fato, você amava os anjos. Você ensinava que eles eram “formas-pensamento de Deus”. Quando tínhamos algum problema com alguém, você nos orientava a pedir ao nosso anjo da guarda que enviasse uma mensagem para o anjo da pessoa. Dito e feito. Mensageiros velozes e diligentes, os anjos se encarregavam de dirimir qualquer desavença.

Você também amava a Sagrada Família. Instruía-nos a sempre convidar Jesus, Maria e José para qualquer evento, qualquer viagem. Dentro do carro, mesmo que fosse uma distância mínima (como no trajeto para a escola), você rezava a Salve Rainha. Quanto poder, quanto amor nessa oração, realizada tantas vezes, mas sempre única.

Eu me lembro de suas frases: “Senhor, dá-me forças para passar servindo e servir passando”. “EU SOU a presença divina atuando nisso (preencher com a solução que se deseja)”. “O Poder que em mim se expande não me limita”.

Mãe, você foi sempre tão doce, tão gentil, tão generosa! Tanto que se despediu devagarzinho… Foi perdendo a memória aos poucos, aos poucos… Sua memória, tão prodigiosa, tão espantosa, que guardava todos os aniversários de todas as pessoas! Sua animação em registrar tudo como “fotógrafa oficial” da família. Para mim, o choque foi absoluto. Como assim? Eu confesso que, no meu desespero, cheguei a sentir impaciência quando você repetia e repetia e repetia uma determinada passagem. O fato é que eu não me conformava em ver desaparecerem, aos poucos, os relatos da principal testemunha da minha vida.

Aí eu me lembrei de quando você interagia com todos os bebezinhos que via na rua. De como eles sorriam para você. Você me contou seu segredo: “em seus olhinhos, eu consigo enxergar a alma imensa aprisionada num corpinho de bebê”. Então era uma conversa de alma para alma. Com você, foi o mesmo. Sua alma grandiosa estava lá, perfeita e radiante, dentro de um corpinho que não mais nos permitia o acesso. Esse corpinho ficou muito, muito pesado… Como no Pequeno Príncipe, ele não mais permitia continuar a viagem. Então agora você habita uma estrela, e à noite todas as estrelas riem.

Mãe, quando morávamos na mesma casa, nos arroubos de adolescente, eu às vezes chegava chateada e cansada (como na canção do Padre Zezinho). Ia direto para o quarto e fechava a porta. Eu tinha a certeza inabalável de que você abriria a porta. Você sempre abria a porta. Sentava a meu lado e conversava comigo. Minha melhor amiga.

Hoje eu sei que isso não é mais possível.

Sabe por quê?

Porque agora as portas não existem mais.

Prova disso é que, nos seus últimos dias no hospital, quando as incertezas e angústias me tomaram, me vi às voltas com perguntas: “O que vai ser, Mãe? Como vai ser?”. Eu senti sua voz dentro do meu coração: “Filha, só ama. Só ama. SÓ AMA.”

menina voando com os pássaros

Eu tive um sonho, sonhei que tinha uma fábrica. A fábrica do amor. Só produzia o bem. Entregava o bem a todos. As pessoas são essencialmente boas. Pratique o bem, faça o bem às pessoas, assim como você gostaria que os outros lhe fizessem o bem.”

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De mãe para filha

Para Vovó Tude

Bancando os próprios sonhos

Hoje vou falar de seis filmes e de uma lição escondida para aplicar com meus filhos.

Os filmes são:

  • “Magia além das palavras”, sobre a vida da escritora da saga Harry Potter, Joanne K. Rowling;
  • “Escritores da liberdade”, com as incríveis iniciativas da professora Erin Gruwell, que trabalha com estudantes em situação de risco numa escola dos Estados Unidos;
  • “Uma lição de vida” (“O aluno”), sobre Kimani N’gan’ga Maruge, que aos 84 anos entrou na escola para aprender a ler, no Quênia. Mas o destaque que quero dar é para a professora que o aceita na turma, Jane Obinchu;
  • “A teoria de tudo”, baseado na história do astrofísico Stephen Hawking, que faz descobertas científicas impressionantes, apesar da doença degenerativa que paralisa seu corpo;
  • “Lion”, sobre Saroo, um garotinho indiano de 5 anos que se perde da família e depois é adotado por um casal australiano. Já adulto, ele inicia a jornada em busca de suas origens;
  • “Mãos talentosas: a história de Ben Carson”, que mostra a trajetória do neurocirurgião pediátrico que supera os desafios da infância pobre em Detroit para estudar medicina e salvar vidas.

O que todos têm em comum? São filmes emocionantes, baseados em fatos reais. Contam a história de pessoas que correram atrás de seus sonhos. Os três primeiros falam de mulheres; os três últimos, de homens.

*** ATENÇÃO: os trechos a seguir contêm alguns spoilers (revelações de enredo), mas sem interferir de modo algum na história dos filmes. Aliás, acho que muita gente nem sequer vai se dar conta dos aspectos que vou pontuar aqui.  Ah! E não são filmes para crianças, ok? ***

filme magic beyond words, magia além das palavras

No primeiro filme, Joanne se vê às voltas com o marido que começa a beber e agir com violência após perder o emprego e saber que ela está grávida. Ele se revolta com o tempo que a escritora dedica a esse tal Harry Potter.

Filme Freedom Writers, os escritores da liberdade

Em “Escritores da liberdade”, o marido de Erin sai de casa porque se ressente da ausência da esposa, que, segundo ele, é devotada demais a estudantes que “nem são seus filhos”. E diz a ela: “Você fez um ideal de mim”.

Filme Uma lição de vida, o aluno, The first grader

Jane Obinchu, a professora de Maruge, enfrenta enormes resistências, desde o colega da escola, passando pelo diretor de educação da cidade até às autoridades de educação do Quênia, para continuar lecionando ao senhor de 84 anos. O que ela não contava é com a falta de apoio do próprio marido, que alega “estarem falando” de sua esposa.

Filme A teoria de tudo

O filme “A Teoria de tudo” dá ênfase, no enredo, ao relacionamento do gênio Stephen com Jane Wilde. Ela o apoia incondicionalmente durante todo o tempo, mas é sábia para manter a distância saudável quando ele se torna famoso e a situação se mostra insustentável. No entanto, ela está junto dele no final.

Filme Lion, uma jornada para casa

Em Lion, Saroo se envolve com uma jovem que o incentiva a ir atrás de suas origens. Ela insiste para que ele conte a empreitada à mãe adotiva, coisa que ele não está disposto a fazer. Diante das atitudes obcecadas do namorado, ela, como no filme anterior, se afasta. Mas está disponível (assim como a mãe adotiva) para acolhê-lo e comemorar com ele no final.

Filme Mãos talentosas, a história de Ben Carson

“Ben Carson”, para mim, é o mais emblemático. A presença e a importância da mãe na vida do médico é notável. Entretanto, me impressionaram mais os diálogos com a namorada e depois esposa:

(Ben) – Vou me tornar um neurocirurgião! Isso significa que vou passar dias e noites fora de casa, no hospital!

(a resposta dela, com um sorriso): – Isso é uma promessa?

(Ela, no hospital, após perder a gravidez de dois gêmeos) – O que você está fazendo aqui? Está atrasado! Seus pacientes precisam de você!

(Ben) – Você precisa de mim.

Eu tenho você. Vá cuidar de seus pacientes.

E aí? Tirou suas conclusões sobre o que está em jogo nessas descrições?

Será que, para viver um grande sonho e fazer a diferença no mundo, as mulheres sempre estarão sozinhas? Diferentemente dos homens?

Que lição tenho a tirar desses aspectos em comum nos filmes? Que “por trás de todo grande homem tem sempre uma grande mulher”, mas que, “por trás de toda mulher, tem sempre ela mesma”?

Olha, me recuso a encontrar essas “morais da história”. E qual moral, então, devo escolher para aplicar na educação dos meus filhos? Sim, porque existe algo muito esquisito na permanência do patriarcado quando são as mulheres, em estrondosa maioria, as responsáveis pela criação dos filhos.

Será suficiente dizer a meus filhos que respeitem e apoiem quem eles escolherem para compartilhar a vida? E, à minha filha em particular, que ela aprenda a bancar seus próprios sonhos?

Não sei, sinceramente, como essa história termina. A bem da verdade, não sei nem como ela começa.

Se alguém souber, me conte. Sem medo de dar spoiler.

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Barba Azul e a violência contra as mulheres

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

 

O teste do pai que morre

Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro. Alguém chama a ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital às pressas. Ao chegar ao hospital, a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: “Não posso operar esse menino! Ele é meu filho!”

Qual foi seu primeiro pensamento ao ler esse texto?

Recebi esse teste. E resolvi fazer com minha filha e meu filho, de 11 e 9 anos respectivamente.

As respostas foram ótimas. O menino deve ter sido adotado. Ou é filho de dois pais. A mais viajante: o cirurgião recebeu, como médium, o espírito do pai que morreu.

Achei interessante que nenhum dos meus filhos pensou nos típicos episódios de novela mexicana: “Eu não sou seu pai verdadeiro! Seu pai é….” (Darth Vader. Não resisti à piadinha infame).

E fiquei feliz de ninguém ter pensado que a mãe do menino traiu o marido.

Adorei ver que meus filhos naturalizaram a adoção. A união homoafetiva. E até aquelas coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia não comporta, do mundo espiritual.

Mas eles não naturalizaram o que o teste queria medir:

POR QUE NINGUÉM PENSOU QUE O CENTRO CIRÚRGICO ESTAVA SENDO COMANDADO POR UMA MULHER?

“A pessoa mais competente” é a mãe do menino!

Feliz Dia das Mulheres!

E a vida, o que é? – 6 anos de blog

papel higiênico triste e vaso sanitário

Ilustração: Vyacheslav Shilov

Conclusões

Hope Silver (www.hopesilver.ru)

– A vida é um presente, – disse o papel de embrulho.

– A vida é imaginação, – proferiu o papel de escrita, com confiança.

– A vida é um arco-íris! – exclamou o papel colorido.

– A vida são eventos atuais, – relatou o jornal.

– A vida é uma m[…], – concluiu o papel higiênico, melancólico.

(SILVER, Hope / Nadezhda Serebrennikova. Curious Things. Berkeley – CA-USA, 2015. Tradução livre: Marusia)

 

Diferentes pontos de vista, diferentes percepções, diferentes conclusões. Diferentes papéis na vida. A esperança prevalece, no entanto. Nada, por mais determinista que pareça, é definitivo.

Minha filha de dez anos deu um novo fim para a historinha e para o tristonho papel higiênico. Na falta de espuma de enchimento, usou pedacinhos de papel higiênico para os bichinhos de crochê que estava fazendo.

A lição se aplica ao papel de escrita e ao colorido, e serve para o papel de embrulho e para o jornal, após aberto o presente e lidas as notícias:

A vida – com arte – é preenchimento.

unicórnio e rosquinha feitos de crochê

Um unicórnio e um donut de crochê, feitos pela minha menina

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100º post, 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

This post in English: And what is life?

No seu lugar: pelo direito de parir em paz

Uma estudante de medicina acompanha os horrores da violência obstétrica e resolve divulgar na mídia:

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/estudante-de-medicina-escreve-desabafo-depois-de-assistir-a-parto-violento-feito-por-professora-chorei-de-raiva-e-frustracao-no-quarto-dos-internos/

 

Eu me coloquei no lugar da parturiente. Uma jovem de apenas 16 anos, tendo seu primeiro filho. Vi pelos seus olhos, atônitos e aterrorizados, a sequência crescente de arbitrariedades, abusos e violências, no dia do nascimento do seu filho e também do seu nascimento como mãe. Querida jovem, eu desejo que você não deixe nascer o ódio, a amargura e o desalento. Que suas lágrimas façam germinar em seu coração toda a força que também é gentileza, toda confiança que também é doçura e todo o poder que também é generosidade.

Eu me coloquei no lugar da mãe da jovem, que a estava acompanhando. Eu pude sentir o desespero no seu coração materno por ter negado o direito de proteger sua filha. Eu não sei se você também teve partos difíceis e tristemente constatou que nada mudou desde então; que ser mãe ainda é sinônimo de sofrimento. Eu senti sua vulnerabilidade diante de um sistema doente, do qual você depende. Eu vivi a angústia do seu silêncio resignado, compartilhado por tantas e tantas mulheres que passaram por semelhante tortura. Querida mãe e recém-vovó, eu desejo que seus braços aconchegantes abracem sua filha e o bebê; que sejam braços grandes o suficiente para incluir a você mesma nesse abraço de consolo e conforto.

Eu me coloquei no seu lugar, estudante de medicina. Você sabia os procedimentos médicos corretos. Você conhecia a lei. Muito além da teoria, você percebia em seu coração que aquilo não era humano. Eu chorei com você pela impotência diante da injustiça. Seu relatório médico foi adulterado. Mas você teve coragem para contar à imprensa o que permaneceria nos muros daquele hospital, ou simplesmente desapareceria sob o argumento abjeto de que era “frescura de grávida”. Querida estudante, você será uma médica formidável. Desejo que você possa amparar em suas mãos carinhosas muitas vidas.

Eu me coloquei no lugar de todos os estudantes dessa “professora”. Não sei se vocês testemunharam práticas similares; por favor, não assumam que elas devam ser assim. Queridos estudantes, desejo que a vida lhes dê outros mestres que honrem o compromisso de verdadeiramente promover seu aprendizado e crescimento.

Eu me coloquei no lugar da mulher que conduziu o parto. Não sei se o que você fez é parte da sua rotina ou foi um caso isolado. Não faço ideia do que você quis “ensinar”. Para a jovem mãe, “que criar filho não é brincadeira”? Você a julgou pela idade? A única coisa que você transmitiu foi o absurdo que, de sua posição, do “seu lugar”, você podia humilhar os outros, estraçalhar o corpo, “a hora”, os sonhos de alguém. Você esbravejou para que todos se pusessem “em seus lugares” – a paciente, o bebê, a equipe do hospital, as estudantes.

Durante milênios, o parto era um momento sagrado, com presença exclusiva de pessoas do sexo feminino. No Século XX, os homens decidiram que queriam participar desse mistério, e o medicalizaram. Afinal, era algo muito profundo para deixar na mão só das mulheres. Esta é a origem da violência obstétrica: a violação do protagonismo feminino. Mas você, que estava no plantão obstétrico naquele dia, é mulher! Você tinha na sua frente um corpo igual ao seu! Nada, absolutamente nada, pode justificar o que você fez!

Você não é médica. Não tem capacidade de lidar com a vida. Não é professora. Não tem o direito de disseminar o que pensa. Você não é humana. Não pode conviver com os outros. Mesmo que você fosse sozinha para o ártico quebrar gelo, as rochas chorariam. Até o momento em que você decidisse quebrar o gelo do seu coração, que é o que lhe desejo. Mas, enquanto esse dia não chegar, eu desejo que instâncias superiores a impeçam de exercer sua profissão e a façam arcar com as consequências, para que você não continue colocando em risco a integridade e a dignidade de mais ninguém.

Eu também me coloquei no lugar do bebê. Você estava em seu tempo perfeito, mas alguém não o respeitou e quis lhe arrancar de sua primeira morada à força, como quem arrebenta as pétalas de uma flor para abri-la. Querido bebê, eu desejo que você se torne uma pessoa brilhante, que dê muito orgulho e amor à sua mãe, à sua família e a todos que tiverem o privilégio de contar com sua presença. Que, no compasso do seu coração, você busque a defesa da paz e da justiça, ajudando a inaugurar um novo tempo.

E eu, o que posso fazer aqui do meu lugar, além dos desejos sinceros e de ajudar a ampliar a discussão sobre a violência obstétrica?

Escrever para a Câmara dos Deputados, manifestando apoio ao projeto de lei que combate a violência obstétrica e cria mecanismos para que as mulheres sejam amparadas e tenham “uma boa hora”.

:: Conheça o Projeto de Lei 7633/14::

Desejo, de coração, que você que está me lendo agora possa se engajar nesse movimento.

Clique no link abaixo ou ligue para o Disque Câmara – 0800 619619 (ligação gratuita de qualquer lugar do Brasil), pedindo que os deputados aprovem o Projeto de Lei 7633/14. Ajude a divulgar!

http://www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco?contexto=agencia

Se você sofreu violência obstétrica ou sabe de alguém que teve experiências nesse sentido, entre em contato com a Artemis, organização que luta pelos direitos das mulheres de parirem em harmonia e segurança:

http://artemis.org.br/como-a-artemis-pode-ajudar/

 

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Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

A dor do mundo

Em boa hora

Para Vovó Tude

Vovó, eu me lembro de passar as férias em seu apartamento em Salvador. Juntavam duas poltronas vermelhas e formavam um “bercinho” para eu dormir. Gostava de brincar no playground de azulejos amarelos. O mais interessante, Vovó, é que seu prédio tinha duas entradas: uma pelo térreo, no Vale do Canela, outra pelo sexto andar, na Rua Flórida. E eu achava tudo louquíssimo! Ora meus tios estacionavam em uma rua, ora na outra, e as duas iam parar na sua casa!

De fato, todos os caminhos levavam à sua casa, constantemente aberta. Você nos ensinava a sempre ter uma “merendinha”, porque nunca se sabe quando uma visita pode aparecer. E adorava oferecer comida para quem a visitasse. Eu me lembro do seu maravilhoso “doce de engorda”, feito com creme e abacaxi, para que eu ganhasse uns quilinhos, magrela que eu era. Nunca comi nada parecido…

Você sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, Vovó. Aliás, você não tinha nenhuma nostalgia do que sempre chamou de “ô tempo atrasado!” Junto com Vovô, fez questão de que todos os 7 filhos estudassem e se formassem. Quando os futriqueiros de plantão vinham com aquela ladainha: “oh, mas com esse número de filho, quanto trabalho!”, você respondia: “quem cria meus filhos é Deus. Sou só a babá. Todos serão pessoas de bem.” Não deu outra.

Naquela época você já costurava para fora. Ainda tenho a colcha de retalhos que você me deu em meu casamento, Vovó. Tão linda, forrada e arrematada com fita de cetim. Você costurou meu vestido de 15 anos. E até depois dos 80, continuou confeccionando shortinhos para doar às crianças pobres.

Vovó, você era pura energia. Adorava ir à praia, passear, viajar. Lembro quando você ficou conosco em Brasília, e me perguntava: “aonde você está indo?” Eu dizia: “vou fazer matrícula na universidade; vou trocar a água do radiador; vou à farmácia”. E você ia junto. Conversava com meus colegas, meus professores, a galera da secretaria; conversava com os mecânicos; conversava com os atendentes e farmacêuticos. Contava sua vida inteirinha para todo mundo, e todo mundo se encantava com sua simpatia.

Você ia à missa todos os dias, e sempre colocava o nome da gente na lista dos agradecimentos do padre, em nosso aniversário. Você gostava de novena e procissão, Vovó, mas era tão cabeça aberta que acompanhava minha outra Vovó, Carmó, às sessões no centro espírita (e vice-versa, ela ia contigo à missa).

Você era muito serelepe, também. Um dia, na fila do banco para pegar a aposentadoria, quis usufruir do seu direito de passar na frente de todos em função dos seus 70 anos. Olhava com a cara mais limpa e dizia: “sou idosa, tá?” Detalhe: o mais novinho da fila devia estar nos seus 90 anos, sem contar o povo de muleta, de cadeira de rodas… Ah, Vovó!

Você também não tinha papas na língua, Vovó. Dizia o que pensava na lata. Ao mesmo tempo, tinha um coração tão grande, mas tão grande, que, todas as vezes em que ouvia alguém falando mal de outra pessoa, pelos motivos mais bizarros ou verdadeiros, era a primeira a aconselhar: “ela não fez por mal… houve alguma razão que não conhecemos. Em vez de ficarmos perdendo tempo criticando, vamos rezar por ela…”

Em seu aniversário de 90 anos, Vovó, o apartamento da tia ficou pequeno para tanta gente querendo comememorar contigo. Foi muito lindo, porque seu bisneto mais velho, com 13 anos, fez uma linda compilação de tudo o que havia aprendido com você e com Vovô. Foi a deixa para que todos contassem também o que mais admiravam em você. Era maravilhoso ver tanta gente reunida por sua causa, fruto de todo amor que você sempre fez questão de emanar.

Com 98 anos, seu corpinho já não sustentava uma alma tão imensa, e te libertou para que você pudesse voar novos horizontes… Com certeza, você fez amizade com os anjos e todo mundo na fila do céu; vai fazer uma merendinha com São Pedro, São João e Santo Antônio; costurar uma colcha pra Nossa Senhora; reencontrar os amados que já partiram. Deus, Senhor do Bonfim, te guie e guarde para sempre!

 

Você sempre cantava essa canção para nos embalar.

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Em boa hora

Este post é dedicado a minhas primas e a todas as outras mulheres que estão pertinho de ganhar neném.

mulher grávida com céu estrelado

Imagem: Another Sunrise

É um costume antigo desejar “uma boa hora” para a grávida que está prestes a dar à luz. É uma expressão curiosa, porque não se relaciona nem ao ato, nem à pessoa, mas ao tempo. Em especial, ao momento, ao presente. Ao agora. Desejamos que tudo corra bem nesse instante.

As mamães de primeira viagem me perguntam muitas coisas sobre essa “hora”: é normal ter medo? É normal chorar? É normal sentir dor? Sentir tristeza? Insegurança? É normal não sentir nada?

Respondo com outras perguntas: o que significa “normal”? Aquilo que segue “a norma”? O mais comum? Ou “o que é passível de acontecer”?

Bom, é possível ter medo, ou ser invadida por uma coragem inexplicável. É possível chorar, sorrir ou ficar em silêncio. É possível sentir dor, tristeza, insegurança. É possível entrar em êxtase, amar de paixão. Pode ser uma experiência transformadora, iniciática ou mesmo revolucionária. Ou ser fluida, natural. E até as duas coisas simultaneamente.

É possível não sentir nada. É possível que nada do que a gente imaginou ou planejou aconteça. É possível ficar frustrada. Ou surpresa.

Relógio com palavra AGORA no lugar dos númerosPara mim, a energia focada no presente é a chave. Quase um treinamento para a chegada da criança. O tempo inteiro a criança chama a nossa consciência para o agora. Por isso, é tão desafiante para nós, adultos, que nos acostumamos a remoer o passado e a nos preocupar com o futuro.

O que quer que ocorra, do modo que for, viva o agora. Entregue-se. Não existe norma, não existe o que é normal, porque é uma experiência ímpar.

Não há conhecimento, curso, dica, conselho, vivência anterior que prepare você para esse momento. É um mistério absoluto até para uma médica obstetra que está tendo o primeiro filho. Aliás, até quem já passou por isso mais de uma vez (no meu caso, três!), é incomparável.

E aí está a coisa mais louca. Cada parto é um parto, é um ato único, como cada um de nós é único. Ao mesmo tempo, o parto nos une como humanidade. Olhe em volta. Olhe para você. As pessoas podem ser diferentes em tudo, exceto numa coisa: necessariamente elas passaram pela experiência do parto, na hora do nascimento. Desde que o mundo é mundo.

Viva a perplexidade de olhar para alguém que simplesmente não existia antes de você engravidar. Que seja uma pessoa que possa nos ajudar a tornar este mesmo mundo o lugar que queremos.

Em boa hora!

grávida com planeta Terra na barriga

Imagem: Wild+Wee

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O peso da escolha

Por muito tempo, uma amiga tentou engravidar, submetendo-se a vários tratamentos. Anos depois, quando finalmente conseguiu ter em seus braços o sonhado bebê, surpreendeu-se com os sentimentos que vieram. Nada se parecia com o que planejara. Tudo era penoso demais, demorado demais, difícil demais.

Ela percebeu que não tinha paciência suficiente, que brincar não era a coisa mais divertida do mundo, que o universo infantil de escola, parquinho, festa de aniversário em nada se comparava à vida anterior que tinha só com o marido. O sofrimento maior, no entanto, vinha do fato de ter escolhido – e perseguido muito – tudo o que estava acontecendo. “Mas eu quis tanto, por que não estou feliz?”

Em parte, sua angústia pode ser creditada à fantasia das propagandas de margarina, das celebridades com crianças sorridentes na Revista Caras, da atmosfera cor-de-rosa que insistem em associar à família e aos filhos. Sim, existem maravilhas nessa convivência, mas não é só isso. Aliás, essas maravilhas compõem algo que não está dado: precisa ser entendido e conquistado.

A outra parte do sofrimento, que julgo ser a de maior dimensão, está no peso da escolha. Uma coisa é ser pego de surpresa, engravidar sem planejar. Ou mesmo seguir no “vai da valsa”, encarar a família como um curso natural da vida, sem pensar muito, sem expectativas. Outra coisa BEM diferente é se voltar para isso com todas as forças, com dedicação exclusiva e absoluta, como “o” objetivo central de tudo, em que todo o resto perde importância. Porque aí você é o grande criador de sua realidade, responsável único por ela.

Isso se dá em qualquer esfera. Sabe aquele emprego que você acalentou dia após dia, lutou com coragem e afinco, ultrapassou cada barreira, para enfim ser digno de ocupar? De repente, não se encaixa em seus anseios. Não satisfaz. É o momento em que somos corroídos pela dúvida, se sonhamos errado demais ou se estamos acometidos do desencanto do término da prova: “é só isso?”

Pode vir também na mudança de cidade ou mesmo de país. Todos os preparativos de cada detalhe, sempre munidos de todos os cuidados para tudo correr nos conformes, e de repente não é nada do que se pensou. A comida é esquisita, o trânsito é confuso, todos os cursos de língua feitos anteriormente parecem insuficientes e não dá para entender nada que os outros falam. Falta a liberdade que vem daquilo que nos é familiar, de saber onde encontrar as coisas, os lugares, as pessoas, as respostas.

É praticamente impossível não compararmos com o que tínhamos antes. Nossa vida podia não ser perfeita. Nosso chefe podia ser um saco, nossa cidade tinha mil e um defeitos, mas pelo menos já sabíamos como lidar com eles. É quando temos saudade dos nossos antigos problemas, porque os novos, nós nem sabemos quais são, muito menos como solucioná-los. Ou seja, até nossos velhos problemas faziam parte da nossa zona de conforto.

Antes, podia existir um vazio, e tínhamos a ilusão de que a mudança poderia preenchê-lo. Se a mudança acontece por nossa livre e espontânea vontade, e o vazio permanece ou até aumenta, acende o alerta vermelho.

Quando as transformações ocorrem à nossa revelia, por acidente, por imposição do trabalho, por qualquer outro motivo que não é a nossa escolha, achamos que temos pelo menos a válvula de escape (injustificável, vale dizer) de culpar os outros. O chefe, a família, uma doença, a vida, o acaso. Quando a escolha é nossa, só podemos culpar a nós mesmos, e, cá para nós, isso nunca ajudou ninguém.

Nada pode amenizar a torturante e perene sensação da pergunta: “onde eu fui me meter?” Ou, como estou acostumada a dizer: “ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE????”

Para algumas decisões, o arrependimento pode significar desistência e volta aos padrões anteriores. Para outras, surge uma situação paradoxal: o retorno passa a não mais fazer parte do nosso poder de escolha. São as decisões irreversíveis.

Nem sempre é possível voltar atrás numa mudança de emprego ou de cidade. No caso de ter filhos, nem se fala.

Pelo menos quatro lições há a aprender, aqui. Primeira: fazer um “test-drive” do que pretendemos empreender, nem que seja na imaginação. É no mínimo estranha a ideia de se aventurar em algo que, nem de longe, não tem nada a ver com a gente. Em outras palavras, “se não sabe brincar, não desce pro play”.

Segunda: pensar na parte que nos cabe nesse latifúndio. Dar um grande passo somente para agradar aos outros é esquecer que a gente também vai arcar com as consequências. Definitivamente, não vale a pena.

Terceira: o impacto inicial de algo muito diferente costuma ser punk. Aos poucos, tudo começa a se acomodar. Há de se dar tempo ao tempo.

A quarta e mais importante é manter em mente que a decisão irreversível não nos dá escolha de voltar atrás, mas ainda nos permite fazer muitas outras escolhas.

Podemos ficar lamentando, nos martirizando, sofrendo por tudo o que tínhamos e perdemos, por tudo o que poderíamos ter. Podemos brigar com o mundo, cultivar a revolta e a amargura. Podemos nos paralisar, jogar a toalha, alimentar o sentimento de derrota, manter a vida no piloto automático e ver tudo em preto-e-branco.

Mas também podemos nos entregar à experiência, deixarmo-nos surpreender por coisas boas e interessantes que não tínhamos considerado antes, enfrentarmos nossos medos, desativarmos nossas expectativas para nos focarmos nas esperanças, aprender coisas novas.

Essa é uma escolha que podemos ter. SEMPRE.

tatuagens de pássaros que alçam voo

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Maioridade penal: a pergunta que ninguém fez

Quero tranquilizar quem está lendo. Não vou defender nenhuma posição. Não quero convencer você a nada – até porque, no “Fla-Flu” que se tornou a discussão sobre maioridade penal, ninguém convence ninguém. Aqui, quero fazer a pergunta que ainda não vi ninguém fazer.

Não vou falar, por exemplo, sobre a idade a partir da qual uma pessoa tem discernimento acerca do certo ou do errado. Se o novo mundo globalizado, os meios de comunicação e a internet fazem com que as crianças amadureçam mais cedo. Se o fato de reduzir para 16, 12, 10 ou 6 anos faz diferença. Se há países com idades variadas para responsabilizar ou punir. Se há locais em que a redução foi feita e a criminalidade aumentou, ou o contrário.

Não serão assuntos deste post questões como: “a criança que comete um crime deixa de ser criança e passa a ser um bandido?”, “bandido bom é bandido preso?” Nem “escola é para criança que quer estudar, cadeia é para quem cometer crime contra a vida”, “direitos humanos para humanos direitos”, “culpar a sociedade é fácil”, “cada um deve ser responsável pelos seus atos”. Não lidarei com esses aspectos.

Nem vou comentar se a propensão para cometer um crime está ligada ou não à desigualdade de renda e de recursos materiais. Se a chance de um adolescente ser preso é maior ou menor dependendo da sua classe social ou da cor de sua pele. Se o capitalismo de mercado e a publicidade são responsáveis ou não por incentivar o consumo para quem não pode consumir, e se hoje em dia a pessoa é medida pelo que tem e não pelo que é. Se a mídia está fazendo sensacionalismo ou não quando há adolescentes envolvidos em crimes bárbaros.

Não vou entrar no debate sobre a presença do Estado. Se o Estado só vai aparecer na hora de punir, em vez de garantir, desde o nascimento de uma pessoa, os direitos básicos de educação, saúde, segurança.

Da mesma forma, não pretendo avaliar se, desde 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA chegou alguma vez a ser cumprido de fato ou não. Se é necessário fazer mais leis, ou se essa é mais uma lei que não vai resolver o problema. Se o que está sendo tratado é a causa ou a consequência.

O número de adolescentes entre 16 e 18 anos, que comete crimes, corresponde a somente 0,01% da população do Brasil? Qual é a fonte desse dado? Mesmo que esse número esteja certo: uma única vida que seja salva não é motivo de reduzir a maioridade penal? Nenhuma dessas dúvidas será objeto do meu texto.

Não vou discorrer sobre o adulto que alicia criança para cometer crimes em seu lugar, “porque sabe que não vai dar em nada”, ou “porque fica três anos e depois é solto”. Nem sobre a sensação de impunidade, as diferenças entre vingança e justiça, a necessidade de o Congresso Nacional “dar uma resposta rápida à sociedade”. Nem mesmo se as pesquisas que apontam 87% da população brasileira como a favor da redução da maioridade penal são confiáveis ou não.

Outra coisa que não vou discutir é o sistema penitenciário brasileiro; se o fato de termos a 4ª população carcerária do mundo tem algum impacto sobre a criminalidade, se apenas uma pequena porcentagem dos homicídios tem resolução. Ou se os detentos continuam comandando o crime de dentro da prisão, sem se preocupar com a retaliação das gangues rivais que estão do lado de fora.

Nem mesmo se os centros de medidas socioeducativas (como Febem, Fundação Casa e outros nomes), assemelham-se a cadeias, ou são até piores. Nem se a internação recupera alguém ou não, se há reincidências. Tampouco se a redução da maioridade penal é válida, desde que os sistemas entre adolescentes e adultos sejam separados. Nem se será exclusivo para crimes hediondos, sem considerar roubo de galinha.

Também não vou perguntar: “e se a vítima fosse um parente seu?” nem “e se o acusado fosse um parente seu?” Muito menos indagar “vai esperar matar para depois prender?” nem “prender o adolescente vai ressuscitar a pessoa que morreu?”

Finalmente, a pergunta que ninguém fez é:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES ESTÃO MATANDO?

Vou ensaiar uma hipótese: crianças e adolescentes estão matando porque perderam o medo de morrer. E aí temos uma nova questão:

POR QUE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PERDERAM O MEDO DE MORRER?

Que sociedade é essa? A que grau de violência – psicológica, física, sexual, simbólica – nossa infância ficou exposta?

Um último arremate:

QUEM NÃO TEM MEDO DE MORRER VAI TER MEDO DE SER PRESO?

 

Depois que fui mãe…

Este é mais do que um texto; é um presente da minha amiga Claudia Brasil. Feliz Dia das Mães!

Depois que fui mãe…

Por Claudia Brasil*

1. Aprendi o que é, de fato, uma noite mal dormida. Ou não dormida e em condições adversas.

2. Aprendi o real valor de uma noite bem dormida.

3. Aprendi o que é medo. Desenvolvi medos estranhíssimos. “Será que ele está respirando? Faz horas que está dormindo sem emitir qualquer som audível…” – Que mãe nunca? Hoje temo, de verdade, a violência urbana, a violência sexual, a violência no trânsito, a psicopatia, doenças que nem conheço ou que inventei (durante meses, tive a convicção de que um dos meus filhos enxergava em preto e branco) ou doenças reais (durante meses temi que um deles tivesse algum comprometimento neurológico que o impedia de começar a andar logo; pedi ao pediatra um encaminhamento ao neuropediatra; dias depois, o menino estava correndo pela casa….). Medo, agora, é para o resto da vida.

4. Aprendi o que é coragem. Acho até que mataria um sapo que ousasse se aproximar de um deles. Tenho pavor de sapo, que fique bem claro. Coragem, agora, é para o resto da vida.

5. Entendi “mágoa de mãe”. Sabe aquele negócio de que seu filho diz a coisa mais besta do mundo pra você (você é muito chata!) e você passa dias ruminando aquilo? Agora eu entendo. Ah, sim, isso faz você chorar, tá? Imagine as coisas mais graves! Tudo “mágoa de mãe”. Nem vou falar dos casais separados e que o filho chega e comunica: quero morar com meu pai. A vida, até o momento, tem sido generosa comigo. Não sei até quando.

6. Aprendi o que é chorar em festinha da escola. Sim, a cantoria é desafinada, a coreografia sai toda errada, as fantasias são desengonçadas, rola esquecimento do texto na peça de teatro. Mas é ele quem está cantando, é ele quem está dançando, foi ele quem confeccionou a fantasia, é ele quem está representando. Logo, fechou a equação: ele faz, você chora. E não é de vergonha, não: é de emoção sincera e profunda. Vai vendo o que é a maternidade…

7. Aprendi a comer resto. Resto da comida do filho, da sobremesa do filho, da papinha do filho, do iogurte do filho, do bolo do filho, da sopa do filho, do biscoito do filho… virei uma usina de reaproveitamento de alimentos.

8. Aprendi o que é paciência. Minha mãe sempre me olhava no exercício pleno da maternidade e dizia “jamais poderia imaginar, nem nos meus melhores sonhos, que você seria paciente com criança como é com seus filhos”. Na boa? Nem eu.

9. Aprendi o que é simplicidade. Quer coisa mais simples do que ir para outra dimensão apenas porque, agora, seu filho não tem mais dor? Porque ele voltou a se alimentar depois de uma gripe incapacitante? Porque ele aprendeu a andar? Porque ele aprendeu a pronunciar “mãe”? Simplicidade em estado bruto.

10. Aprendi o que é dor. Ver um filho seu se contorcendo de dor e nada poder fazer para alterar esse estado de coisas é um aprendizado prático do que é a “dor das mães”. Ver um filho sofrendo por aquelas razões que você não consegue evitar, desculpe, te leva às lágrimas e te faz sofrer até mais do que ele. É assim que funciona.

11. Aprendi a pedir a Deus. E a agradecer também. Você pede a Ele que proteja seu rebento, que o livre de todo mal, que ele saiba dizer “não” para o que não presta, que só diga “sim” para as coisas do bem, que ele seja feliz, que seja estudioso, que respeito o próximo, que não fique doente mas, se adoecer, que fique bom logo. E agradece por qualquer coisinha que aconteça, afinal, é seu filho, né?

12. Aprendi a entender a minha mãe. Em quase tudo.

13. Aprendi a ser feliz. Qualquer coisa e lá estão os olhos marejados…

14. No final das contas, aprendi que a maternidade foi a minha maior e melhor escola. Aprendi que, nessa escola, a formação é infinita. A gente nunca termina de aprender. Cada dia, uma lição. Cada episódio, um aprendizado. Cada etapa, uma nova conquista. Diploma em papel não há. Mas olhar para o filho e perceber, ao longo da vida, os bons resultados, deve ser mais gratificante do que qualquer grau de doutor. Olhos marejados, alma lavada.

Sou mãe. Fim.

*Claudia Brasil é jornalista e mãe de dois meninos.

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O curso mais interessante do mundo

Decálogo dos meus desafios

Carta a meus filhos

Quantos filhos cabem?

Por Maria Amélia Elói*

Certeza é palavra quase inexistente enquanto sentimento de mãe. Este querido blog maternográfico está aqui pra confirmar: há virtude na dúvida!

Tenho visto cada vez menos mães absolutamente irrepreensíveis, convictas de estarem cumprindo seu papel com solidez e confiança, sem mácula nem arrependimento, sem mudanças de estratégia. Percebo, isto sim, mais e mais mulheres interessadas em se abrir a descobertas, questionar, mães aptas a vivenciar novos conhecimentos, experiências e interpretações e a mudar de atitude, em caso de necessidade. É que os filhotes surpreendem sempre e exigem malabarismos, desconstruções, rearranjos dia a dia.

Essa minha lenga-lenga toda é só uma introdução para confessar que não me sinto confortável em muitas questões relativas à maternidade, sobretudo estou (mais do que isso, sou) insegura quanto ao número ideal de filhos. Neste caso, a fala é particular! Não pretendo bater o martelo sobre a quantidade de filhos que toda brasileira católica, servidora pública e de casamento estável deve ter; mas tão somente preciso decidir o número de filhos que euzinha devo ter. É uma dúvida persistente desta mulher feliz e realizada em ser mãe de duas pretinhas lindas e ao mesmo tempo curiosa, encantada e assustada pela possibilidade de ter mais um rebento (ou rebenta, kkk).

Claro que o assunto faz parte das minhas DRs com o digníssimo marido e já foi conversado com minha médica, que acabou de avaliar positivamente minha saúde ginecológica. Mas é difícil demais resolver se ter duas filhas é suficiente! Uma dupla é pouco, uma dupla é bom, uma dupla é demais! 

Tive a primeira com 33 e a segunda com 37. Agora já estou com 41 anos, e é por isso que me sinto tão incomodada com o assunto. Minhas duas gestações foram tranquilas e saudáveis, culminando com dois partos naturais após quase 42 semanas completas de gestação nos dois casos; porém, minha idade fértil já não é das mais favoráveis, né? E eu já sou até vodrasta! 

O maior problema de uma terceira gravidez é o desafio do tempo. Se, com apenas duas crianças, o cotidiano já está tão corrido e milimetricamente tomado por atividades, se a renda familiar está justa e algumas vezes no vermelho, se já é difícil contratar babá e diarista que deem conta da lida, se já não sobra espaço pra mim, leituras, escritos, exercícios físicos, piano, namoro com o marido, entre outras coisas, imagina com três filhote(a)s! E ainda existem os muitos tantos outros pesos na balança: pressentimento do cansaço das tantas madrugadas insones com um bebê no colo, antevisão de choro, cólica, soluço, ordenha, vacinas, consultas… E dá-lhe multiplicação da paciência — já meio minguada — pra ensinar outra criaturinha a comer, caminhar, correr, usar o penico, fazer os deveres de casa… 

Também existe o medo das possíveis síndromes e doenças que tocam tantas crianças nascidas de mães com mais de 40, a preocupação com a escassez de recursos naturais do planeta e o aumento da população mundial, a violência crescente, o desemprego, as loucas esquisitices dos tempos atuais… E aqueles pontos não menos importantes: Minhas duas filhas seriam carinhosas com o irmãozinho ou irmãzinha caçula? Teriam ciúme? Entenderiam a nova divisão das atividades dos pais, que provavelmente as deixaria em desvantagem pelo menos no primeiro ano de vida do bebê? E se eu engravidasse de gêmeos? Haveria energia materna e paterna pra cuidar deles? Haveria espaço na casa para berços, caminhas, brinquedos? Na minha vida haveria espaço para mais uma vida dependente pra sempre da minha? 

Os pontos desfavoráveis a uma nova gestação parecem superar em larga vantagem os argumentos a favor do aumento da prole. Mas por que, mesmo assim, o coração ainda teima em desejar mais um filho ou filha que se pareça com as que eu já tenho? Por que aumentar o coral da alegria e da birra? Por que experimentar uma nova aventura-nascimento? Seria apenas capricho de mulher parideira? Satisfação em poder equilibrar mais um barrigão habitado por luz e, depois, tornado bebê? Instinto de continuação da espécie? Amor com potencial pra expandir? Desejo de pertença a uma família mais completa, mais cheia de confusão e de vida? Medo de possível arrependimento futuro? Vontade de provar ousadia e coragem? Saudade de um tempo intranquilo e louco? Desejo de rejuvenescimento? Necessidade de mais beijo, afago, afeto?

Não considero as mulheres sem filhos covardes nem egoístas. As que têm filhos únicos também são heroínas, a meu ver. As mães de dois, como eu, são abençoadas demais. Mas me parece ainda mais linda a família com um trio de bambinos! Fico até imaginando a cama e a mesa cheias de crianças, comungando do mesmo carinho, daquele amor que só pode ser santo, que só pode compensar qualquer sacrifício.

Será que vocês, mães de nenhum, de um, de dois, três, quatro… também sentem a mesma angústia? Ou se contentam, firmes e fortes, com o número de filhos que têm?

Quantas crianças cabem na minha vida e na vida da minha família? Às vezes nem eu mesma me caibo, meu Deus! Enquanto as dúvidas não cessam, vou curtindo minhas fofitas, que valem por uma dúzia! E que a resposta me apareça logo e leve, porque a vida tem pressa! 

* Maria Amélia Elói, 41 anos, é mãe da Luana Lis, quase 8, e da Mariana Flor, 4.

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El Bigodito

Mamífera!

Por que temos filhos?

Todas as morais da história

Este é o tipo de vídeo que deixa a gente feliz.

A moral da história mais comum para ele é: “A união faz a força”.

Podemos citar ainda Mark Twain: “Não sabia que era impossível, foi lá e fez.”

Mas há inúmeras outras lições nessa história, que servem como ótimas resoluções de fim de ano:

Banho de chuva alivia o stress.

Abraçar árvores deixa a gente mais alegre.

Dormir é fundamental, mas não deixe o sono te impedir de ver coisas sensacionais da vida.

O Natal existe, mesmo onde a maioria tem outra religião.

E a mais bacana:

Nada segura uma criança, quando ela está determinada a ir para a escola.

Se alguém disser que isso não acontece na vida real, diga que, para ser realidade, basta começar:

 

desenho e citação de Malala Yousafzai

“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”. (Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz 2014).
Desenho: Leif Bessa, Plenarinho

 

Um lindo Natal e um excelente Ano Novo!

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Caminhos

Quero ser criança quando eu crescer

Carta a meus filhos

 

O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Anjos

bebezinho anjo dormindo

Uma vez, perguntei a meus filhos sobre seus anjos da guarda. O mais velho me disse que seu anjo era adulto e tinha seis asas, como um pokémon.

anjo guerreiro com seis asas

Eu nunca tinha imaginado um anjo que tivesse mais de duas asas, então fui pesquisar no Google e descobri que ele existe, sim. Na verdade, é um serafim. Os serafins têm seis asas, são os anjos mais poderosos que existem e estão na primeira posição na hierarquia celeste, mais próximos de Deus. Surpreendente, não?

Já minha filha disse que sua “anja” tinha a mesma idade dela. Quando ela fez o desenho, o irmão perguntou: “Mas ela tem asa de borboleta? É anja ou é fada?”

desenho de criança com anja

Bem, se pararmos para pensar, as asas são os membros superiores dos animais, como aves ou até o morcego. Seguindo as regras da natureza, se os anjos têm asas, não teriam braços, portanto. Assim, o mais certo seria aproximá-los dos insetos, como a borboleta, que tem os membros separados das asas.

Capa do livro Menino de Asas, de Homero Homem

Asas no lugar de braços, como no livro de Homero Homem, que li quando tinha 13 anos

Divagações à parte, ainda prefiro a definição da minha filha: a anja é do jeito que é e pronto.

O anjo do caçula “é um ano mais velho” que ele. Sorridente e com asas bicolores, parece um super-herói.

anjo

Quando meus filhos estão assustados com alguma coisa, peço que eles se lembrem de seus anjos. É muito bom saber que nunca estamos sozinhos.

Anjos são universais. Independentemente do nome que se dê a eles – mentores, mestres, espíritos guardiões, intuição -, a referência a eles está presente, não importa a religião ou doutrina, ou mesmo o saber popular. É a experiência do sagrado em nós, e ainda que prefiramos outro nome para isso também, é o acesso à inteligência máxima, à consciência antiga do Universo.

anjo da guarda acompanhando criança

 

É reconfortante acreditar que existe um componente divino que é exclusivamente seu. Na verdade, é uma alegria um tiquinho egoísta ;), de ter uma força que está permanentemente a seu lado. Uma certeza de proteção, orientação, consolo e, ao mesmo tempo, de respeito ao seu livre-arbítrio. De compreensão do que você é, com todos os seus defeitos.

Amo os anjos.

E eles são fáceis de amar, mesmo, porque são pura expressão do amor sem condições.

anjo da guarda com cabelos compridos

O meu anjo cresceu junto comigo. Quando eu era pequena, ele tinha minha idade. Hoje, é um loirão de responsa, com asas poderosas, para que eu caiba dentro delas. Com ele, não tem moleza. Costumo dizer até que ele é meio brabo. Quando penso besteira, quase dá para ouvi-lo: “Ai ai ai, lá vai você de novo!”

anjo loiro com grandes asas

Para as crianças, a convivência com os anjos é natural. Aí, nós vamos crescendo e nos esquecendo de sua companhia.

Os anjos não necessariamente se apresentam com seus halos de luz e suas asas. Às vezes, não têm nem aparência. Podem ser apenas uma voz sábia, que parece vir de dentro. Outras vezes, nem mesmo isso: podem ser apenas uma sensação.

Noutros momentos, se estivermos em sintonia com eles, eles nos mandam recados de diferentes formas:

No verso de uma música que toca na rádio.

Na frase de um cartaz na rua.

No comentário de alguém que você nunca viu e nunca tornará a ver, mas que faz a diferença no seu dia – e por que não? -, na sua vida.

Acreditando nos anjos ou não, pensando neles ou não, o que importa de fato é saber que podemos ser anjos para os outros.

E você? Como é seu anjo? Você foi anjo para alguém hoje?

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Quem acompanha o blog já se deparou com posts que falam sobre anjos:

O anjo de origami

O anjo na areia

Onde está meu bebê?

Perda do bebê

A dor do mundo

 

“I believe in angels, something good in everything I see”. (Abba)

Eu acredito em anjos: algo bom em tudo o que vejo.

 

Descobrindo o espectro autista

O post de hoje foi escrito por minha amiga Sandra. É um relato sobre como descobriu que seu filho Enzo estava no espectro autista. São palavras de coragem e generosidade, para que mais e mais pessoas tenham acesso a mais e mais informações.

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A primeira vez que vi a palavra espectro tinha 14 anos, estava lendo Hamlet, fazia teatro amador na época e me aventurei a conhecer Shakespeare. E lá estava o príncipe Hamlet atormentado pelo “espectro” do pai, rei da Dinamarca. Achei a palavra diferente, e por um bom tempo não a esqueci, mal sabia eu que ela surgiria em minha vida de novo, anos mais tarde, em um diagnóstico.

Enzo já estava com 20 meses quando os primeiros sinais começaram a chamar minha atenção. O garotinho até então muito interativo e sorridente, que me aguardava ansioso em casa me chamando de mamãe, começou a isolar-se. A frase que mais ouvia da Inês, que nos ajuda até hoje, era: “Nossa, o Enzo é tão bonzinho, nem parece que tem criança em casa!” Por isso, fica meu alerta: silêncio em casa com uma criança pequena não é algo comum.

Comecei a reparar que seu contato visual regrediu a zero, assim como sua fala. Enzo fazia tudo em silêncio, corria pela casa em silêncio. Seu refúgio preferido era um pé de limão; lá ele sentava, e, se eu deixasse, ele ficava por horas.

Interesse por outras crianças também não existia mais. O único contato, e mesmo assim quase o perdi uma época, era comigo. Enzo me olhava muito, sentia que ele ficava feliz eu estando por perto. Por uma feliz coincidência do destino, deixei meu trabalho para me dedicar ao pequeno. E foi ao parar de trabalhar que pude perceber tudo isso que relatei.

Sabia que havia algo errado com Enzo, sua regressão era visível para qualquer um. Comecei minha peregrinação em médicos, médicos, exames, exames, exames. Fisiologicamente nada errado. Cérebro perfeito, audição perfeita, pares de cromossomos perfeitos. O que havia de errado? Eu me perguntava o tempo todo, somente o comportamento. Comportamento?!!! E a palavra esquecida lá atrás surgiu como um neon em minha mente: Espectro, Enzo estava na sombra ou fantasma do espectro autista.

Eu e meu marido passamos pelo luto já lutando. Fiquei triste, chorei, mas no choro eu já iniciei terapias. Para psicólogos (me perdoem se não é essa a ordem) eu pulei etapas, porque primeiro você vive o luto, depois a negação, aceitação e aí sim você procura os tratamentos. Eu no luto já estava levando Enzo em terapias. Não sabia se aquilo seria bom para mim, não viver o luto primeiro, mas na altura do campeonato eu já não queria pensar em mim, Enzo já estava em primeiro lugar em nossas vidas.

A sensação que tinha é que alguém estava levando a alma de meu filho embora, ele estava caindo em um precipício, e eu o estava segurando pela mãozinha, ele precisava de muita ajuda.

Passado mais de um ano, com terapias iniciadas, Enzo alcançou progressos significativos. Ainda é não verbal, ainda morde a mãozinha em situações de estresse ou muita felicidade, é sua válvula de escape. Seu contato visual melhorou muito, sua interação com adultos é boa, com crianças ainda um obstáculo, mas estamos trabalhando em conjunto com a escola. Enzo é uma criança querida pelos colegas, diria que um sedutor, Enzo tem seu charme.

Tratamento precoce é fundamental para quem está no espectro autista. Hoje, com diagnóstico sendo fechado mais cedo, teremos uma futura geração de autistas muito diferente da geração passada. Esteja atento a sinais.  Estava devendo esse relato a milhares de pessoas que não conheço me pedindo para contar a história, porque desconfiam de um filho, sobrinho, primo ou alguém conhecido.

Obrigada por ler até aqui, tentei ser breve mas sou geminiana! 😉

guarda-chuva colorido. Espectro autista

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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Veja também:

Mãe envelope – 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

 

A dor do mundo

Quando eu estava grávida, minha mãe recomendava que me protegesse, evitando ter contato com filmes, notícias ou mesmo comentários tristes ou violentos. Para ela, a gravidez era um momento sagrado, em que eu era “coautora”, junto com o Universo, na concepção de um novo ser.

Segui as orientações e foi bom. Tanto que, depois, continuei evitando esse tipo de conteúdo – que chamo “histórias que perturbam a alma”, mesmo não estando grávida. Evitei por vários motivos, entre eles a sensação de que toda a realidade era daquele jeito, e que não havia mais remédio; e, ao mesmo tempo, algo entre ficar acostumado ou endurecido quanto à situação. Impotência e banalização.

Nem sempre consegui. A todo tempo, sempre havia alguém para me contar todos os descalabros de que a humanidade é capaz de realizar. Me parece que, ao lado da denúncia, existe mesmo uma curiosidade ou atração pelo que é mórbido. Somadas à alimentação de vingança. A mídia e o Facebook não cansam de repercutir os casos – até que esgotem o potencial de chamar a atenção e sejam substituídos, na tragédia nossa de cada dia.

Quando me tornei mãe, pude entender quando diziam: “nunca mais você vai assistir ao telejornal do mesmo jeito”. É verdade. Principalmente quando os horrores envolvem crianças. É automática a correlação que faço com meus filhos. Imagino suas carinhas, me coloco imediatamente no lugar daqueles pais e mães que choram. Chamam isso de “compaixão”. Sentir a dor do outro.

Aos poucos, fui percebendo que, mesmo evitando o envenenamento cotidiano, eu podia experimentar a dor do mundo em momentos improváveis, como durante uma meditação. Foi num desses momentos, de angústia profunda, que me veio a resposta: não há como ficar alheio ao sofrimento do mundo. Contudo, ao entrar em sintonia com essa frequência, não permaneça nela. É preciso sair para poder ajudar quem nela está.

Isso foi importante para encarar uma situação nova, em que o acesso a “histórias que perturbam a alma” deixou de ser opção para ser imperativo do trabalho. Há pouco mais de um mês, faço parte da equipe do Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Certo dia, vi a jovem estagiária pesquisando notícias hard. Ao sugerir que não se expusesse a tal envenenamento, ela respondeu: “Preciso endurecer o couro, sabe? Vou ser jornalista… Hoje, o Plenarinho visitou uma escola, e os professores pediram que fizéssemos um trabalho sobre abuso sexual de crianças. Tive que me conter para não chorar.”

Para fazer esse trabalho, também tive que mergulhar nos relatórios que sempre fiz questão de me abster de ler. Deputados e senadores, servidores das CPIs de exploração e abuso sexual, operadores do Disque 100, todos testemunham a necessidade de se reestruturar depois de conhecer os casos. Tive que ir ao sanitário para lavar o rosto e segurar o vômito. É muita atrocidade.

Meu ímpeto é fazer o que Barack Obama descreveu, quando (mais) um atirador matou crianças em uma escola: voltar para casa e abraçar meus filhos. Encontrar o tênue equilíbrio entre apavorá-los e conscientizá-los: “se alguém pedir que vocês não contem nada a ninguém, com certeza isso é uma coisa errada.”

Sobrevêm o avassalamento, a impotência e mesmo a indignação. Então, me lembro da intuição. Dessa vez, ela traz um adendo: talvez o trabalho de formiguinha do Plenarinho não dê conta desses casos. No entanto, se apenas uma criança tiver acesso às informações e consiga ter confiança para contar seu problema a alguém; se apenas uma criança crescer com a consciência de que não deve maltratar outras crianças, o trabalho de vocês já terá valido a pena.

Escrevo, por fim, outras coisas que têm me ajudado a “sair da frequência para poder ajudar a quem nela está”:

Lembro Norman Vincent Peale, que diz: o otimista não é quem desconsidera a dor do mundo, mas quem procura enxergar além dela, em busca de soluções.

Ao deparar com “histórias que perturbam a alma”, procuro ler “histórias que inspiram a alma”. Isso contribui para dissipar o sentimento de que “não tem mais remédio”. Tem muita gente boa fazendo o bem.

Desfrute:

http://asboasnovas.com/

http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/

http://cacadoresdebonsexemplos.com.br/blog/

http://www.boanoticia.org.br/

Penso nas pessoas que estão vivenciando o ápice do sofrimento. É possível mentalizar e enviar um facho de luz para a vítima? E para os familiares que choram a ausência de alguém?

E para quem praticou a violência? É possível?

“Mas ainda é tempo de plantar, fazer dentro de si a flor do bem crescer para lhe entregar quando Ele aqui chegar.”

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Veja também:

Plenarinho contra a exploração sexual

Abuso sexual: não caia nessa

No blog:

Onde está meu bebê?

Olho de boi, olho d’água

Barba Azul e a violência contra a mulher

 

 

A boneca quebrada

boneca com as pernas quebradas

Deparei com uma boneca da minha filha, que havia quebrado. As pernas tinham se soltado, e não era uma questão de encaixe – as peças se partiram, mesmo. Disse a ela:

– Vamos jogar essa boneca no lixo. Não dá nem para fazer doação, porque ela não tem mais conserto.

A resposta:

– Mas eu brinco com ela. Ela é uma pessoa. Só não tem as pernas.

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Filha amada, espero que muito mais gente tenha o privilégio de aprender com você. Que todo mundo, ao encontrar alguém, possa compreender:

– Ela é uma pessoa. Só ____________ (é, pensa, age) diferente de mim.

Crianças são mesmo a prova de que o Universo não desistiu da humanidade.

(Filme “Cordas” – Prêmio Goya 2014, baseado em fatos reais).

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Veja também:

A doação de brinquedos ou síndrome de Toy Story

A brincadeira mais gostosa do mundo

O anjo de origami

Pequenas crônicas de carnaval

Quando eu era pequena, detestava carnaval. Muito. Di-cum-força, mesmo. Na época, era a única coisa que passava na televisão. Não tinha desenho, nem novela, nem sessão da tarde, nada. Era desfile de escola de samba o dia inteiro.

Eu me lembro de um tio que trabalhou na rádio de Jequié-BA. Ele me contou que, quando era Dia de Finados, a rádio era obrigada a tocar a Marcha Fúnebre de Chopin. Só, somente só, por todo o dia. Pois bem. No carnaval, era a mesma coisa. Era escola de samba o dia inteiro. Bom, pelo menos não era Marcha Fúnebre.

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Fui à minha primeira matinê com 9 anos. Na AABB de Brasília. Eu, meus pais e minha irmã de 4 anos. Nós precisávamos de uma fantasia, então minha mãe levou a gente nas Lojas Brasileiras do Conjunto Nacional. Se é para escancarar a idade, então vamos fazer bem-feito: saudosa Lobrás do CNB.

Compramos duas camisetas brancas da Hering, duas saias de havaiana também brancas, lantejoulas vermelhas e amarelas, e mais duas máscaras, vermelha e amarela (nossas cores favoritas). Fizemos franja na barra das camisas, colamos as lantejoulas. Produção caseira e artesanal. Ficaram uns tops engraçadinhos.

No grande dia, estávamos felizes com nossas fantasias. Mas foi só chegar à AABB, para ter início o vexame. Juntou um grupo de meninos atrás da gente, gritando: “olha a calcinha delas! Olha a calcinha delas!”

A gente era muito inocente, bem que podia ter posto uma calcinha de biquíni. Mas não. E, como a saia de havaiana era branca, óbvio que ficou transparente. Minha irmã não tava nem aí. Mas eu fiquei passada de vergonha, corri para sentar em nossa mesa e lá fiquei quase a festa inteira. Minha mãe, sempre a registradora oficial de momentos, tirou a foto. Coisa linda, um bico do tamanho do mundo.

Abre parênteses. Só não foi mais tétrico do que o dia em que eu fui para o ballet com uma bermuda branca. E a calcinha do dia da semana. Juntou um grupo similar de meninos (ora bolas, vão jogar bola, soltar pipa, em vez de seguir as garotas de roupas transparentes, pindaíba!) para ler. “Olha, tem uma coisa escrita. Ter-ça fei-ra. Terça-feira!!! Aaaaah, que fofo, uma para cada dia da semana!!!!” Fecha parênteses.

Voltando ao bailinho da AABB. Só havia uma coisa que poderia me tirar daquela mesa. E essa coisa aconteceu: tocar “O Balancê” com Gal Gosta. É, porque o Balancê era tudo de bom. Com calcinha aparecendo ou não, eu TINHA que dançar o Balancê, era uma questão de honra.

Fui para o meio do povo. Quando me dei conta, fui sugada por um trenzinho no salão. No início, me deu um pouco de pânico, tipo ser tragada por um furacão. Depois, achei aquilo o máximo e me senti a “grande”.

Não durou muito tempo. Um segurança tosco me puxou pelo braço, dizendo que aquilo não era pra criança.

Voltei à mesa, jurando que nunca mais iria participar de nada que chegasse perto de carnaval. No meio do Balancê. Muita injustiça. Minha mãe tirou outra foto.

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Minhas juras não duraram muito tempo. Minha avó resolveu levar a mim, meus três irmãos e minha prima para ver os Filhos de Gandhy em Salvador. Cinco crianças. Em pleno Campo Grande. Na pipoca. Os tempos eram outros. Mesmo.

Bloco Filhos de Gandhy em Salvador

Afoxé Filhos de Gandhy
Imagem: Irdeb

Aí eu vi um trio elétrico chamado “Traz a massa”. As pessoas saíam atrás dos trios com mortalhas. Não tinha essa conversa de abadá. Fiquei hipnotizada.

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No ano seguinte, vi o Chiclete com Banana pela primeira vez, na Avenida Sete. O hit era “Sementes”. O Chiclete era uma banda com repertório parecido com o da Cor do Som. Cada música linda. Apaixonei.

Cheguei em Brasília achando muito estranho que as pessoas ainda usassem fantasia. E que todos os anos tocassem as mesmas marchinhas, índio quer apito, alalaô, mamãe eu quero. Em Salvador, cada ano tinha uma safra nova de músicas. Mas nunca tocavam nas rádios das outras cidades, só na Bahia. As pessoas nunca tinham ouvido falar de nada daquilo. Chiclete? Cheiro de Amor? Dodô e Osmar? Quem?????

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Com 16 anos, depois de muitos pré-carnavais em janeiro e do carnaval propriamente dito em fevereiro, assisti (com meus irmãos) ao encontro de trios no Farol da Barra, na Terça Gorda. Muito antes de se cogitar o circuito Barra-Ondina. (Se é para entregar a idade, vamos fazer bem-feito). Era o Chiclete, Netinho com o trio Beijo, Ricardo Chaves com a banda Eva. E outros…

Muito difícil vivenciar outra coisa que se assemelhe àquela noite. Foi perfeito. Inesquecível. Qualquer outro carnaval pareceu sem-graça depois.

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Quando estava namorando o pai dos meus filhos, ainda tentei levá-lo a uma Lavagem do Bonfim. Ele achou muvucado demais. Ele nunca foi muito de carnaval, então acabei indo no embalo (ou melhor, não indo no embalo).

Mas achei que seria bacana que meus filhos conhecessem o carnaval. Não tenho coragem de levá-los para ver os Filhos de Gandhy, muito menos na pipoca. Então começamos por algo mais leve.

Ora, eu tinha que sublimar meus traumas de infância. Nada melhor que… a matinê da AABB!!!

Fantasiados de Super-Homem e Gatinha Bailarina (ou fosse lá o que fosse, comprei de última hora no armarinho), meus pimpolhos enfim teriam sua primeira experiência. Nada de adultos, nada de trenzinho. Muito índio quer apito e alalaô.

O problema é que também tinha muito spray de espuma. Eles (com 4 e 2 anos) ODIARAM aquilo. Ficaram com os olhos ardendo. Eu até segurava as mãozinhas deles, tentava fazer uma rodinha, alalaooooô, mas eles não se animaram nem um pouco. Os bicos estavam iguais aos meus.

Pois, na saída, o mais velho tomou um super-estabaco no chão por causa da bendita espuma. Fim de festa na floresta. E nem tocou o Balancê. Tragédia total.

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Claaaaro que eu me acomodei e nem me esforcei para dar a eles uma nova experiência. A escola se encarregou da tarefa, e eles curtiram de montão os bailinhos. Com os coleguinhas, olha que massa.

Este ano ficamos em Brasília. Vimos um pouquinho de Netflix, fomos patinar no Parque da Cidade, vimos a SENSACIONAL exposição da Yayoi Kusama no CCBB, e até fiz um “Shu” com bolinhas no teto (meu signo chinês). Amanhã é provável irmos ao cinema.

Exposição interativa Yayoi  Kusama

Exposição interativa Yayoi Kusama

Quem sabe um dia meus filhos poderão curtir um trio elétrico ao vivo e em cores. Quem sabe…

Sementes

(Chiclete com Banana)

Sementes de cores vivas que acendem novas recordações

E o vento solta faíscas bordando belas constelações

Que rondam o céu e o coração

Embalançando-se nas ondas de um baião

Licor de mel, doce canção

Animando o carrossel, no luar do meu sertão

Deixa que fogo semeie na escuridão

O amor

Somente se fores vivo verás as cores desses balões

que fingem-se de estrelas bailando livres com seus clarões

e se descer estende a mão

quem sabe o fogo te ilumina a escuridão

não vai doer, não diga não,

o fogo é pra derreter o gelo do coração

Deixa que o fogo semeie na escuridão

O amor.”

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Veja também:

Do travesseiro ao copinho de boneca: uma breve história da menstruação

Minha vida em 40 músicas

Quando eu era criança, achava que…

Cheiro de infância

A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários 😉 )

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Veja também:

Radicalismo: a que custo?

Três histórias de amamentação

O maior inimigo da mãe

“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

O que você vai ser quando crescer?

Quando eu tinha 8 anos, vi este anúncio na revista:

propaganda vinho marjolet

Logo que te vi, eu disse que gostava de você. Você disse que era fita. / Em francês, o mar é “a mar”. Por que não em português? / De que página, de que livro, de que história de amor saiu esta folha? / No fundo, no fundo, nós somos duas crianças. / Tu és divina e graciosa, estátua majestosa… / Te escrevi sem saber se era teu amor, mas lembrando que gostaria de sê-lo. / Você não deveria ter me tentado com um bombom durante o concerto. Isso é papel que se faça? / Acho que eu vou tomar algumas medidas. A primeira é a medida do Bonfim. / A segunda é sacar a rolha de mais um Marjolet e começar tudo de novo.

Fiquei tão encantada com as frases, a criatividade, o clima evocado, que naquele instante decidi o que eu queria ser quando crescesse: queria ser a pessoa que bola essas coisas.

Fiz campanhas (bem-sucedidas) para a chapa do grêmio na escola e para a torcida organizada do colégio. E só fui descobrir, aos 16 anos, que o nome do curso superior para “a pessoa que bola essas coisas” era Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda.

Trabalho na área, pesquiso muito sobre o tema e tenho paixão pela minha profissão. Um dos momentos mais gratificantes foi conduzir, junto com a equipe, a campanha de arrecadação do Comitê de Ação e Cidadania (o do Betinho) para minimizar os efeitos da seca prolongada no Nordeste em 2012:

propaganda de doação para comunidades no sertão nordestino

SOS Nordeste – quem tem sede, tem pressa.

propaganda. Mídia extensiva. Toalheiro de WC

Toalheiro de WC: “A quantidade de água que você usou para lavar as mãos é a mesma que uma família do sertão nordestino tem para passar o dia.”

Conseguimos em alguns dias o valor de 30 mil reais, o suficiente para construir cinco poços artesianos comunitários nas áreas mais críticas. (Pausa para abrir os parênteses: sempre tem aquele engraçadinho adora ver significados esdrúxulos naquilo que parece claro; nesse caso, foi a piadinha: “puxa, nunca mais lavo a mão quando usar o banheiro…”)

O trabalho do comitê é maravilhoso, caso você tenha interesse: (http://www.youtube.com/watch?v=NGkAolFkYZQ)

É incrível poder usar nosso conhecimento em prol de ações dessa natureza. Isso também me coloca numa posição privilegiada e me dá chancela para compreender que os meandros da publicidade são ponte de acesso escancarado ao comportamento humano. Em vez de buscar os artifícios que ela usa para encantar, cabe descobrir por que as pessoas se encantam. Essa é a chave.

Propaganda sozinha não faz nada. Sua força está no pacto simbólico que ela faz com o público, evidenciando emoções que ele já tem, fazendo-o “sentir na pele” um pouquinho e propondo ações imediatas que trazem satisfação (comprar um produto, fazer uma doação). Se frases de efeito e metáforas mirabolantes fossem suficientes, ninguém mais usaria drogas, nem transaria sem camisinha, muito menos se arriscaria no trânsito, porque o que não falta é campanha pregando isso.

A propósito, eu guardo o anúncio como uma relíquia, ainda que nunca tenha tomado o vinho Marjolet, nem qualquer outro vinho, simplesmente porque não gosto do sabor do álcool. Sou abstêmia. Também sei dos problemas que seu excesso causa. Então este é um exemplo de que é possível consumir apenas o simbolismo de um anúncio, sem necessariamente consumir o produto de fato.

Hoje acompanho de camarote a imaginação dos meus filhos acerca do que eles vão ser quando crescer. O mais velho já foi médico, agora quer ser cientista, ganhador do Prêmio Nobel e dono de uma grande empresa de tecnologia que vai inventar o remédio que cura todas as doenças e o teletransportador.

A do meio também já foi médica de olho de criança, mais tarde incrementada para oftalmologista infantil, e hoje se delicia com a perspectiva de ser a nova Mauricio de Sousa e desenhar o próprio gibi.

O caçula já foi chef de cozinha de pizza, carregador de mala e agora é chef de cozinha de pizza novamente. O curioso é que comer, para ele, nunca foi a coisa que mais adora no mundo. Com minha mania de explicação, deduzi que ele escolheu situações em que me vê feliz: quando ele raspa o prato e o momento em que finalmente resgatamos todas as malas na esteira do aeroporto.

Aqui, observo que o tempo todo falei de profissões. E me lembro de uma conversa com uma amiga do trabalho. Eu estava frustrada com um projeto, que havia me consumido três anos antes, tinha sido abandonado por conta das marés da política, e agora precisava ser ressuscitado. Comentei que essas coisas nos faziam questionar o sentido de tudo, de quem eu era como profissional. Ela me disse: “Marusia, isso é só trabalho.”

SÓ trabalho? Só trabalho. Ainda que pensemos que seja, não é o trabalho o que nos define. Ainda que as pessoas perguntem: “o que você faz?” para saberem quem eu sou, não é isso que sou.

E terminamos nossa conversa propondo uma nova forma de escrever currículos:

Eu, Marusia,

  • adoro música, viagem, doce de leite e pegar jacaré no mar.
  • Adoro o sol, sou uma criatura diurna e absolutamente tropical.
  • Sou toda planejadinha e fico louca quando o planejamento fura, mas também sei curtir quando o imprevisto é muito mais legal do que o script.
  • Socializo minhas descobertas e fico muito feliz quando minha experiência tem reflexo positivo na vida de outras pessoas.
  • Meu maior defeito é minha maior virtude: ser transparente.
  • Minha família é meu bem mais precioso. Meu talento é incentivar as pessoas para que elas descubram o que têm de melhor.

Esse, sim, é um curriculum vitae real. Currículo vital. Currículo da vida.

Quero que meus filhos sejam livres para escolherem seus caminhos. Esse é o tipo de currículo que eu espero que eles escrevam, com suas próprias qualidades.

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Veja também:

Publicidade, Propaganda e Design em ideias simples e bem-boladas:

http://www.tumblr.com/blog/add1ad

Aqui no blog:

Os segredos dos publicitários

Quero ser criança quando eu crescer

O Livro do Bebê

Merenda

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2013

Escrever a Retrospectiva já virou um ritual do Mãe Perfeita. É válido, porque integra a lista – agora com quatro posts – que conta toda a história do blog, mostrando a tônica de cada ano. O modelo é o mesmo, um texto que amarra todos os outros, com um link em cada palavra em maiúsculas:

Em 2013, pude me dedicar a várias análises e consequentes reflexões. Algumas bem fortes, que demandaram trabalho e suscitaram diferentes reações. Uma delas foi o questionamento acerca do RADICALISMO na relação entre as mães, que por vezes gera GUERRA entre elas, e não a PAZ tão necessária para o compartilhamento de experiências. Esse conflito também se observa entre os que querem ou não TER FILHOS.

Cada ato, cada gesto, cada movimento nosso é político, ainda que nós não percebamos. Em nome dessa consciência, participei da blogagem #protestomaterno, querendo MUITO MAIS. Um Brasil com cidades onde as crianças possam IR E VIR. Um país com respeito às pessoas, em que o HUMOR seja edificante, em que a VIOLÊNCIA não se justifique nem nos livros de ficção.

Esse despertar passa pela ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL – quem dera se a publicidade estivesse a serviço dela… E também a produção de BRINQUEDOS. Tudo para que nossas crianças possam se sentir confiantes acerca de suas individualidades, sem BULLYING, mesmo ostentando BIGODITOS em seus semblantes.

Porque o mundo é múltiplo, composto de muitas VERDADES, com seus lados ao mesmo tempo perversos e doces. De tudo podemos tirar ensinamentos. Mesmo uma PRINCESA a serviço do consumismo pode ser reciclada e inspirar atitudes nobres.

Os desafios se apresentam no cotidiano, no dever de casa, na SEMANA DE PROVAS, nas FÉRIAS. Desejamos o CURSO MAIS INTERESSANTE DO MUNDO. E aí vislumbramos novas formas de APRENDIZADO.

Quando a rotina parece nos engolir, é que devemos exercitar a PACIÊNCIA, parar para OUVIR NOSSOS FILHOS, inclusive as coisas MAIS ENGRAÇADAS, deixar florescer nosso lado MÃE JARDIM. Tudo é intenso, mas também fugaz… Hoje podemos estar às voltas com a AMAMENTAÇÃO, o DESMAME, o DESFRALDE e os DENTES DE LEITE, mas logo nossos filhos crescem…

Tentamos segurar suas infâncias nos brinquedos com os quais eles JÁ NÃO BRINCAM MAIS… E nossas próprias infâncias na partida dos nossos PAIS… E aí entendemos que O AMANHÃ NÃO EXISTE. Os desafios são inerentes a essa grande aventura que é conviver com nossos filhos – uma chance de experimentarmos a FELICIDADE REAL.

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Veja também:

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2012

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2011

Mãe Perfeita – Retrospectiva 2010

Três histórias de amamentação

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê exclusivamente por 5 meses. No começo, foi bem difícil – rachaduras, empedramento… depois, foi tranquilo. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que teve parto natural, sem analgesia, no melhor estilo indígena. A amamentação, contudo, não foi simples. O bebê “mordia” forte (com a gengiva), ficava impaciente e chorava muito. Com o apoio do marido, a mãe foi a um banco de leite, onde fizeram ordenha e ensinaram massagem. O leite não descia, e o mamilo ficou muito ferido com as investidas do bebê. E dá-lhe água na mãe, comida com “sustança”, homeopatia… E nada. Então chamaram a melhor doula da cidade, o anjo do aleitamento. Ela introduziu a técnica da relactação, para estimular a mama. Foi quando o bebê começou a vomitar sangue, que vinha dos mamilos da mãe. Chegou-se à conclusão de que deveria ser criado um clima de absoluta serenidade, porque a agitação do bebê e a consequente ansiedade da mãe estavam interferindo no processo. Então, ao final do primeiro mês, o leite desceu em plenitude, fazia gosto. Mas o bebê trancou a boquinha, virou o rosto e não quis mais mamar. Nem dormindo. Ninguém contou com a variável “comportamento do bebê”. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Era uma vez… uma mãe que amamentou seu bebê até os dois anos. O começo não foi simples, porque ele ficava o tempo todo no peito. Depois, foi muito bom, e teria ido para além dos dois anos se não tivesse aparecido a horrorosa virose “mão-pé-boca” (mas isso é assunto para outro post). De toda forma, uma experiência maravilhosa para mãe e bebê. O que você diria a essa mãe? O que ela teria a dizer?

Vou me ater à mãe da segunda história. Porque sua presença foi essencial para mim, quando meu primeiro filho nasceu. Eu, do alto da minha arrogância, cheia de cursos de puericultura, com centenas de livros lidos e teorias na cabeça, prostrei diante do desafio. E recebi dela palavras de puro aconchego e humildade, ao mesmo tempo em que traziam transbordante afeto e doação:

“Tá tudo certo.”

“No início, dói. Mas acredite, depois você vai achar uma delícia amamentar.”

“Segura as pontas só mais um pouquinho, confie em mim.”

“Não existe nada igual quando você vem com o peito cheio de leite e sente o bebê esvaziar tudinho.”

“No começo é punk, mas depois que eles crescem a gente morre de saudade de amamentar. Curta cada segundo.”

Eu confiei nela, como as antigas mães em seus círculos, e deu tudo certo.

Meu coração se estilhaça de indignação quando lembro o que ela ouvia dos outros:

“Você não está amamentando?”

“Olha, até o suorzinho do bebê cheira diferente, porque não é leite materno.”

“Essa criança vai viver no hospital.”

“Faltou força de vontade, caiu na esparrela da indústria do leite.”

O que essa mãe tem de diferente das outras duas? NADA.

Nada MESMO, porque essas três histórias são da MESMA MÃE.

Hoje, com três filhos lindos, amados, saudáveis e inteligentes, essa mãe é alvo de toda a minha admiração e gratidão. Pois foi com ela que eu aprendi:

A minha experiência é minha.

Cada experiência minha é única.

Se minha experiência for bem-sucedida, pode inspirar outra mãe.

Se não for, não deve desestimular ninguém. Contudo, minha experiência pode aliviar outra mãe, quando ela descobre que não está sozinha.

E o mais importante:

A minha experiência não é referência para medir outra mãe.

A MINHA experiência não é motivo para julgar – e muito menos condenar – outra mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=yEQ_qHcVv2g

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Veja também:

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

O maior inimigo da mãe

Perigo de ser mãe perfeita 5 – Vá pela sombra

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Cena 1: Com 2 litros diários enviados aos bancos de leite, Michele é considerada a maior doadora de leite materno do mundo

Cena 2: O comediante Danilo Gentili compara o leite doado à performance do ator pornô Kid Bengala

Cena 3: Michele é ridicularizada onde mora e tem a produção de leite comprometida

Cena 4: Michele entra na Justiça contra Gentili

Cena 5: O caso repercute na opinião pública. Michele recebe apoio de Neymar e do Governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

O objetivo deste post é fazer perguntas.

Por que Neymar e o governador de Pernambuco só se manifestaram depois da piada? Doar 2 litros diários não é motivo suficiente para angariar esse apoio?

Por que as pessoas riem desse tipo de piada? Porque “não é com elas”? Porque sempre se riu disso? Porque também já foram alvo? Ou riem de nervoso, para não serem as próximas?

Qual a diferença entre esse tipo de piada e o bullying que se pretende banir das escolas? O que caracteriza o bullying? A força física do buller? Ou a força do grupo – o apoio de colegas, ou mesmo dos pais, que o protegem? Isso não é covardia?

Quem são as vítimas? Como torná-las alvos permanentes, a chamada “piada pronta”? Usar pessoas cujas características não foram objeto de “escolha” delas? É possível mudar a cidade onde se nasceu? A cor da pele? A estatura, a orientação sexual ou outro aspecto genético – por exemplo, a produção de leite materno?

Que efeitos a piada tem sobre a vítima? Devastadores, até porque nem sempre a pessoa tem como mudar o que deu origem à piada, como dito acima? Do que depende a capacidade de superar a humilhação? Da estrutura individual, que é construída com o apoio de alguém? E se não houver esse apoio?

E se o bullying for a única chance para uma pessoa ter a atenção dos outros e sair da invisibilidade? Isso serve para o buller e para a vítima? Os dois são vítimas?

Há como prever os efeitos de uma piada sobre o público? De quem é a responsabilidade: do comediante ou de quem ri? Fazer esse tipo de piada é dar munição para ignorantes se acharem no direito de ofender os outros?

Tanto Gentili quanto as pessoas que humilharam Michele pensaram nos bebezinhos alimentados por ela?

E o que dizer de quem acusa Michele de estar se “promovendo”, com interesses “escusos”, visando à candidatura política? Qual o problema nisso? Como seria um país que contasse com uma Michele em cada prefeitura, em cada governo, nas câmaras de vereadores ou no Congresso Nacional, com pessoas que pensassem em ajudar os outros?

É “só” uma piada? Mobilizar sentidos não é coisa séria? Ou isso é desculpa para quando ocorre a reação – uma forma de desqualificar o sentimento de quem reage?

A reação é nova? Por que, antes, ninguém dizia nada? Era “normal” rir de quem já estava vulnerável? Ou faltava coragem para reagir?

Só o comediante tem “liberdade de expressão”? Por que, quando uma pessoa reage, é acusada de fazer “patrulha do politicamente correto”? Ela também não tem direito à liberdade de expressão?

O humor tem função social? É ofensa ou é crítica? Humor inteligente e transformador é quando o comediante ri de si mesmo, e quando ataca quem é forte? (Para saber mais, assista ao excelente documentário “O riso dos outros”, de Pedro Arantes, apresentado pela TV Câmara – use fone de ouvido, porque o conteúdo não é para crianças: https://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54).

Calar o comediante é a solução? E se o que ele estiver fazendo for evidenciar, jogar um holofote sobre o que está arraigado na sociedade, mas de forma subterrânea? Não funciona como um termômetro dos nossos tempos, tal qual a publicidade? O que isso diz sobre nós?

 Seria o humor um importante catalisador de reações, com poder agregador? Estaria dando munição também para as pessoas se unirem e protestarem? Precisamos disso?

Para fechar com síndrome de Poliana: o episódio todo pode ser ponto de partida para que as pessoas possam debater a importância do leite materno? Quantas pessoas passaram a saber que leite humano pode ser doado? O que representam esses 2 litros? Será que as pessoas sabem que apenas 10ml são uma “refeição completa” para um bebê prematuro?

Qual a sua opinião? E o que isso diz sobre você?

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Veja também:

Campanhas de Amamentação: uma análise séria e franca

Porque nós somos mamíferos

Quando não é possível amamentar: Marusia fala

Sobre Ballet e bullying

Meu filho vai usar óculos

Barba Azul e a violência contra a mulher

capa do livro Barba Azul, de Ruth Rocha

Meu filho de 10 anos chegou para mim indignado:

– Peguei na biblioteca esse livro da Ruth Rocha e detestei!

– Que livro?

– Barba Azul.

– É um conto de fadas muito antigo.

– Antigo e horroroso!

***

Barba Azul é bem menos conhecido que Branca de Neve e Cinderela (que também têm seus requintes de crueldade). Para quem não leu, é a história de um nobre que se casa muitas vezes, e ninguém sabe o paradeiro das esposas. Ao se casar com a oitava, dá a ela as chaves de todos os aposentos do palácio, alertando-a apenas de um, no qual não deveria entrar jamais. Ela (obviamente) entra e encontra os corpos das esposas assassinadas. Ao ver seu segredo revelado, Barba Azul diz que ela terá o mesmo destino das demais, por ter traído sua confiança. Entretanto, os irmãos da moça chegam e conseguem impedi-lo, matando-o.

Eu li Barba Azul quando tinha a idade do meu filho. O curioso é que não me impressionou tanto. Em parte, penso que o fato de ter escolhido um livro da Ruth Rocha criou nele a expectativa de algo mais leve e divertido; daí a sua indignação. Mas resolvi ir mais a fundo e provoquei:

– Ué, você joga esses videogames do Lego, e se impressionou com Barba Azul?

– Totalmente diferente, mãe! Aquilo é só um jogo.

– Quando o Batman derrota o inimigo, o boneco explode, e sai cabeça, perna, braço de Lego para todo lado!

– O Lego é de brinquedo.

– E aquele game de luta? Aquele também é horrível.

– Luta é um esporte, e os lutadores têm a mesma força. As mulheres do Barba Azul não tinham como se defender.

(continuando a provocação) – Mas elas não mereceram? Elas foram desobedientes, ele tinha pedido para elas não entrarem naquela sala.

– Mas isso não é motivo para matar ninguém, mãe!

– Os irmãos da moça também mataram o Barba Azul.

Aí minha filha, que estava prestando atenção à conversa toda, disse:

– Mas ele é do Mal, mãe.

Eu reli Barba Azul quando estava grávida dela, em um contexto bem diferente: na análise formidável de Clarissa Pinkola Estés, no livro “Mulheres que correm com os lobos”. A autora associa cada personagem da história, e detalhes como a chave, aos elementos da psique feminina, tomando por base a teoria dos arquétipos de Jung. E mostra a importância de aniquilarmos, dentro de nós, o monstro mental que nos impede de sermos curiosas, criativas e termos acesso às NOSSAS VERDADES.

De aniquilarmos essa força que “é do Mal”.

Talvez, quando eu era criança, vivesse em uma sociedade em que a agressão às mulheres era “cultural”. Em que ler Barba Azul não despertava indignação. Em que as pessoas estavam “acostumadas” a ver, sem questionar, anúncios publicitários como estes (traduções livres):

Anúncio do tecido Dacron. Homem pisa na cabeça de mulher

“É bom ter uma garota por perto”

Anúncio do café Chase and Samborn, com marido batendo na mulher

“Se o seu marido descobrir que você não está escolhendo o café mais fresco…”

Anúncio da cerveja Schlitz. Marido consola esposa, que chora porque queimou a comida

“Não chore, querida, você não queimou a cerveja!”

Anúncio dos suéteres Drummond. Homens no topo da montanha e mulher pendurada.

“Homens são melhores que as mulheres. Em casa, elas são úteis – e até agradáveis. Na montanha, contudo, elas são um estorvo.”

Anúncio das gravatas Van Heusen. Mulher ajoelha-se e serve o café para o marido, na cama.

“Mostre a ela que este é o mundo do homem.”

Anúncio da batedeira Kenwood. Mulher com chapéu de chefe de cozinha abraça o homem de terno.

“O chefe faz tudo, exceto cozinhar – é para isso que servem as esposas!”

Anúncio de Palmolive. Mulher à frente do espelho, com ombro à mostra, olha de forma sedutora para o expectador.

“A maioria dos homens pergunta: ‘Ela é bonita?’ e não ‘Ela é inteligente?’ “

Anúncio das vitaminas Kellog's PEP.  Homem de terno abraça a esposa com avental e espanador.

“Quanto mais duro uma esposa trabalha, mais bonita ela fica! Vitaminas para animar”

Anúncio da máquina de franquia postal Pitney Bowes. Homem tenta convencer mulher a usar máquina.

“É sempre ilegal matar uma mulher?”

Hoje me choca ler a notícia de que a Lei Maria da Penha não conseguiu reduzir o número de homicídios de mulheres. Barba Azul de carne e osso ainda está atual. Mas, ao contrário da história, não é a pena de morte a solução. Deve-se destruir o aspecto simbólico, para que então isso se reflita na realidade – é por isso que os contos de fadas são tão preciosos. A resposta está no conhecimento, na educação.

Por isso, é maravilhoso ver meus filhos adotando uma postura de debate, de contestação. De não achar “normal” que mulheres sejam agredidas. Nem na ficção.

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Veja também:

Os segredos dos publicitários

Verdades

El Bigodito

Mães de animações e seriados 3: por que a gente se identifica e se espelha nelas?

Maneiras idiotas de morrer

Sites visitados:

Blog do Eduardo Biavati

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“Não se acostume com o que não o faz feliz.” (Silvana Duboc – leia a íntegra)

Nesta semana, participei do 8º Congresso Brasileiro e 4º Internacional de Trânsito e Vida, em Salvador, que apresentou dados contundentes sobre essa realidade que insiste em se perpetuar no Brasil: pessoas morrendo ou sofrendo graves consequências devido à cultura insana de sobrepor interesses monetários aos interesses coletivos.

Uma das pessoas que conheci foi Eduardo Biavati. Ele observa o trânsito por um ângulo bem maior. Em sua palestra, acrescentou a última pesquisa Pense, que mapeia hábitos dos adolescentes. Mostrou, por exemplo, que nossas crianças não mais vão à escola a pé, de bicicleta ou de ônibus. A rua tornou-se “perigosa” demais, e os pais, visando à proteção, motorizou os trajetos dos filhos. Filhos que passaram a ver o mundo através da janela de um veículo, perdendo a noção do risco e – pior ainda – o senso do coletivo. Da cidadania.

Me identifiquei duplamente na palestra do Biavati. Com 8 anos, eu ia a pé sozinha para o ballet (ou de ônibus, quando chovia). Não sei se tenho a mesma coragem de deixar meus filhos fazerem o mesmo no dia-a-dia. Para eles, o ápice da aventura foi andar a pé e de metrô em São Paulo, mas sempre acompanhados por nós. Fico preocupada quando vão brincar com os amigos na quadra ao lado, e precisam atravessar as ruas. E não é só pelo trânsito, mas pelos usuários de crack, pelos pedófilos.

Ao final da palestra, Biavati apresentou um vídeo do Metrô de Melbourne, em Victoria, na Austrália, que integra a campanha pela segurança nas linhas de trem, chamada “Dumb ways to die” (“maneiras idiotas de morrer”). A propaganda alerta para diversos tipos de risco no cotidiano, tais como tomar remédio com validade vencida ou usar eletrodomésticos de forma inadequada, combinados a bizarrices como servir de isca para piranha ou se vestir de alce na temporada de caça, terminando com os perigos de não respeitar as regras de segurança nos trilhos de trem. O sucesso está na abordagem ampla, na metáfora, na dose certa de choque e na informação.

http://www.youtube.com/watch?v=jfEHAVH20hY

Quando assisti, lembrei instantaneamente da musiquinha chiclete que ouvia nos jogos eletrônicos dos meus filhos, dias antes de viajar. Eu tinha desconfiado do refrão e pensado: “quando chegar de viagem, vou investigar que jogo é esse.” Pois o jogo consiste justamente em “salvar” a vida dos monstrinhos nas diversas situações.

Incrível o poder dessa propaganda, associada a outras iniciativas como o game, que cruzou o planeta para ser conhecida pelas crianças aqui no Brasil.

Pesquisando no YouTube, encontrei duas paródias brasileiras, uma para o Rio de Janeiro, outra para Belo Horizonte. Fiquei, ao mesmo tempo, surpresa com a criatividade e estarrecida com a crítica.

http://www.youtube.com/watch?v=OVOQU041u6Q

http://www.youtube.com/watch?v=hCk3j0Q0gQE

No Brasil, andar na ciclovia, parar no sinal vermelho, seguir a sinalização de trânsito, usar o transporte público são maneiras idiotas de morrer.

Enquanto isso, assistimos, de forma impotente, nossos governos apostarem tudo na produção cavalar de veículos motorizados, reduzindo o IPI para incentivar o consumo, glorificando o petróleo. Mas não, o governo se exime na propaganda e põe a “culpa” no cidadão, é ele o responsável único pelo trânsito. Esse foi o tema da minha palestra no Congresso Trânsito e Vida: por que a propaganda de paz no trânsito não surte efeito?

campanha Parada Seja você a mudança no trânsito

Se a rua está perigosa, não quero me acostumar a isso (é fácil acostumar, quando estamos na nossa zona de conforto). E, se a mudança está nas mãos do cidadão, vamos ver nas próximas eleições quem são os candidatos que colocam o transporte público de qualidade como prioridade. Status não é sair de carrão, é poder ir e vir sem se preocupar com engarrafamento e vaga para estacionar. É cruzar com outras pessoas e restituir nosso senso de cidadania.

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde rico anda de transporte público

Se abrir fábricas monstruosas da indústria automobilística gera emprego, então vamos abrir fábricas de metrô, de trem. Diminuindo os desastres, o dinheiro que hoje é usado para pagar os tratamentos e pensões por invalidez das vítimas do trânsito poderia ser investido em mais ciclovias e linhas coletivas.

Chega de perdermos vidas por causas idiotas.

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“Eu acredito naquilo que não vejo. Como meu amor pelo avô.” (Fabrício Carpinejar)

Por Maria Amélia Elói*

Vai fazer dois anos que perdi o meu pai. Ele morreu cedo, com apenas sessenta e seis anos de idade, uma semana depois de passar por uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino. Da descoberta da doença até o adeus, foi pouco mais de um mês. Quem convivia com aquele homem ativo, empreendedor e de sorriso largo assegurava-lhe vida longa. A falta dele me dói ardido, é claro; mas parece se intensificar quando ouço a minha filha chorar de saudade do vovô. E isso acontece todo santo dia!

Como cristã, acatei com fé e serenidade a passagem antecipada do meu pai. Sofri bastante, mas me conformei com o acontecido. No entanto, quando a primogênita Luana Lis, hoje com seis anos, chega até mim com aquele soluço incontido e solta frases como “Não vou ver o vovô nunca mais”, “Queria abraçar o vovô de novo”, “Eu gostava muito dele”, “Não queria que ele tivesse morrido”, fico desestabilizada. Em tal situação, gostaria de ser uma mãe firme e apaziguadora, que aliviasse a dor da filha; mas geralmente quem vem à tona é a órfã fragilizada, que só consegue mesmo é acompanhar no desamparo, é compartilhar a mesma dificuldade da carência.

Há alguns dias, tive uma experiência desse tipo. Eu lia para Luana o livro Votupira – O Vento Doido da Esquina, de Fabrício Carpinejar. A história começou leve: uma criança de sete anos ia passar as férias com o avô de setenta. Eles eram muito amigos, brincavam e conversavam bastante. O avô falava de uma criatura terrível e amedrontadora chamada Votupira, que soprava como o vento e estava em toda parte, aprontando com as pessoas. Luana mostrou interesse e embarcou na fantasia do livro. Não esperávamos, no entanto, que o desfecho nos levaria às lágrimas: o protagonista já adulto visitando o avô no cemitério; o neto amoroso prestando homenagem àquele que inventara o Votupira e tantas outras lindas verdades.

Foi imediata a correlação que Luana fez da história do livro com a dela. Instantaneamente, ela me bombardeou com questões pra lá de complicadas: “Mamãe, o Vovô Mauro está no cemitério?”, “Posso visitar ele?”, “Ele está debaixo da terra?”, “Podemos tirar a terra pra encontrar ele?”, “Ele tá vestido com que roupa?”, “Ele não é uma estrelinha do céu?”, “Vamos levar flores pra ele?”.

O momento foi tenso. Luana precisava de respostas simples, eficientes e ao mesmo tempo lenitivas; e eu travei. De paixão? De dor? De ignorância? Por que brequei assim? A emoção certamente atrapalhou, e o assunto não foi feito pra criança… Será que adianta explicar o que a gente desconhece? Mesmo sem querer, o jeito é lidar com o tal assunto espinhoso, assustador e inevitável. Tentei me manter firme e juntei umas palavras sem sentido aqui e ali, engolindo o choro; mas só consegui mesmo foi abraçar a minha menina. Não fui sequer convincente. Luana foi deitar-se logo, tristinha e impressionada com o livro e com a presença nunca mais do avô.

Ela continua chorando todo dia — porque queria mostrar o dente mole para o Vovô, porque não brincou o suficiente com ele, porque ele não era tão velho assim para morrer… Vez ou outra, pergunta quando será a visita ao campo-santo. Acho que ainda não é hora, não estou pronta para levá-la.

Bicho mais terrivelmente fantástico que o Votupira é a morte. Mas é legal ter ao menos uma certeza: o Vovô Mauro fica cada vez mais vivo na memória da Luana e na minha.

 *Maria Amélia Elói é filha de Mauro Elói e Lenir Amaral e mãe de Luana Lis e Mariana Flor

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Entrevista com José Pacheco – Revista Fórum

Projeto Âncora

Dez razões para achar que a escola parece uma prisão (em inglês – Top 10 reasons School is like prison)

Um sonho de educação

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Imagine uma escola sem classes, horários, provas. Um currículo que é decidido pelas crianças, em consenso, e inclui matérias como circo e meditação. Não há lista de chamada nem ponto, mas estudantes e professores não faltam. Tudo de graça. Agora imagine que esses estudantes provêm de lugares violentos, e já foram expulsos de diversas escolas. Pode parecer utopia. Até o dia em que você conhece a proposta da Escola da Ponte.

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir a uma palestra com o idealizador da Escola da Ponte, o Professor José Pacheco, de Portugal. Ele está no Brasil supervisionando a implantação de iniciativas similares, como a escola do Projeto Âncora, em São Paulo. Abaixo, estão as ideias que mais me chamaram a atenção:

Hospital não tem férias. Transporte público, jornal, supermercado não têm férias. Por que, então, a escola tem férias? Por acaso o conhecimento precisa de pausa? O que acontece é todo mundo sair ao mesmo tempo em julho, dezembro e janeiro, enfrentar engarrafamentos quilométricos e pagar mais caro na chamada “alta temporada”.

Atualmente, a letra D de Ideb não é Desenvolvimento. É Decoreba. A criança decora o conteúdo e depois da prova esquece tudo.

Uma boa maneira de avaliar se a escola tem noções básicas de cidadania é visitar os banheiros. Quem é consciente de seu papel na coletividade não precisa de cartazinho “por favor dê descarga”.

Palavras constroem a realidade. É de se admirar, por exemplo, termos como “grade” curricular, “carga” horária, “trabalho” escolar, “prova”, aluno “evadido”. É uma escola ou uma penitenciária?

Escola são pessoas. Pessoas são valores. Valores são projetos. Só não consegue quem não quer. O Projeto Âncora está aí para provar que não é só uma teoria de livro. E nem é coisa que só funciona na Europa.

E você? O que acha da proposta?

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Dai-me paciência!

De uns tempos pra cá, comecei e a ficar meio encucada com meu limiar de paciência. A criançada andava me tirando do sério, principalmente quando me obrigava a repetir a mesma coisa um milhão de vezes. Na primeira, eu até pedia bonitinho. Na segunda, o tom não era tão amistoso; na terceira, pronto, ficava braba. Uma amiga, rindo, disse que ela já tinha passado do tempo de esperar a terceira vez. Economizava as energias e já chegava berrando na primeira rs!

Um dia, eu estava numa loja de departamentos, e um livro saltou aos meus olhos como se a capa estivesse escrita em neon: “O poder da paciência”. Pensei: “Puxa, preciso realmente disso!” Pela módica quantia de R$ 9,90, em nenhum momento perdi de vista o possível caráter de auto-ajuda “Tabajara” da obra (“Seus problemas acabaram!”) Mas, pela mesma módica quantia de R$9,90, valeria a pena: no mínimo seria um apanhado dessas dicas que a gente sabe mas nunca é demais lembrar.

Livro O poder da paciência

Para minha surpresa, encontrei um livro de linguagem agradabilíssima, bem fundamentado, recheado de citações pertinentes e exemplos de situações reais, em capítulos enxutos e bem alinhavados. Não tem aquele papo de transmissão de sapiência. A própria autora se assume como uma “aprendiz”. O mais interessante, contudo, são as dicas práticas, simples como têm de ser e – imprescindível – que funcionam.

Abaixo, transcrevo alguns trechos só para abrir o apetite deste livro que merece estar na Biblioteca da Mãe Desencucada.

Sobre pontos de vista:

“Existe algo mais encantador do que as crianças? Elas dizem coisas tão afetuosas, cobrem você de beijos e abraços, querem tanto agradar. Observar suas descobertas e avanços é sempre um prazer.

“Existe algo tão exasperador quanto as crianças? Elas derramam suco de uva em seu tapete branco novinho em folha, fazem as mesmas perguntas repetidamente e transformam ações corriqueiras, como escovar os dentes, em incessantes lutas pelo poder. Estar perto delas pode ser um tormento.” (RYAN, M.J. “O poder da paciência”. Rio de Janeiro: Sextante, 2006. p52)

Crianças são tudo isso ao mesmo tempo: adoráveis e punks. Como a vida. E muito do que essa relação pode revelar está em nosso modo de ver as coisas.

Sobre controle (esse capítulo é simplesmente sensacional):

“Tim Gallwey apresenta uma lista do que podemos ou não controlar em relação às outras pessoas. Você não pode controlar a atitude ou a receptividade da pessoa; o quanto ela ouve; suas motivações e prioridades; sua disponibilidade; o fato de ela gostar ou não de você; a capacidade de compreender o seu ponto de vista e aceitá-lo; a maneira como ela interpreta o que você diz.

“Você pode controlar as suas atitudes em relação a uma outra pessoa; sua própria atitude em relação ao aprendizado, sua maneira de ouvir; sua aceitação do ponto de vista de outra pessoa; seu respeito em relação ao tempo dela; sua expressão de entusiasmo pela ideia dela; a quantidade de tempo que você gasta ouvindo e falando; sua auto-imagem.” (vide acima, p96)

A autora também nos convida a descobrir o que nos tira a paciência. Descobri, por exemplo, que repetir a mesma coisa faz com que eu me sinta “invisível”, desimportante. Sob outro prisma, vale questionar a eficácia dessa insistência e ver se não é hora de mudar de estratégia…

Para coroar, um parágrafo que tem tudo a ver com o tema do blog (grifo meu):

“A impaciência é, na verdade, um sintoma de PERFECCIONISMO. Se esperarmos que nós e os outros sejamos perfeitos, que o metrô, os elevadores e os sistemas de mensagens eletrônicas sempre funcionem bem, perderemos a paciência todas as vezes que alguma imperfeição surgir: a bagagem extraviada, um esquema de horários arruinado, garçons mal-educados, familiares intrometidos, crianças malcriadas. Por outro lado, quanto mais admitirmos que a vida é desorganizada e imprevisível, e que as pessoas se viram da melhor maneira possível, mais paciência teremos em relação às circunstâncias e às pessoas que nos cercam.” (vide acima, pp-181-182).

Tão eu!

E você? Como está seu limiar de paciência?

Bebê rezando

E não é que agora até está dando sinal de vida?

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O Meio Termo de Ouro para pais e mães

El bigodito

Por Maria Amélia Elói*

pintura de Frida Kahlo com flores

“Cores de Frida Kahlo, cores” (Autorretrato)

Tanto a minha família quanto a família do meu marido têm mulheres de bigode. Eu mesma, na minha forma original — isto é, antes do advento da depilação com cera — sou uma dessas fêmeas com quem, como diz o ditado, nem o diabo pode. Muito natural, então, que minhas filhas nascessem com a tal penugem debaixo do nariz, acima da boca. E no caso delas, que são bem morenas, o pelo é preto, muito preto.

Minhas bigodudinhas têm ainda sobrancelhas fartas, praticamente umbrancelhas, e uns pelos visíveis no papo. Mas, na real, elas não são tão cabeludas quanto as mulheres barbadas que trabalham nos circos. Também não chegam a Frida Kahlo. São meninas cabeludas que esbanjam feminilidade!

Como eu já disse, fui bigoduda durante a infância inteira e até mesmo durante a adolescência. Nas minhas fotos de debutante, aos 15 anos, lá estava o buço! E, pelo menos que me lembre, eu não me preocupava muito com ele. Nem minha mãe, nem minhas amigas, nem minha depiladora me incentivavam a retirada dos pelos. Eles estavam lá, até os 17, sujando meu rosto; mas só resolvi encarar a dor da depilação no rosto quando o meu espelho sugeriu que eu poderia ficar com o semblante mais leve se tirasse a sobrancelha e o moustache. De lá pra cá, tiro o buço e a sobrancelha todo santo mês.

E não é que a minha filha mais velha, de apenas 6 anos, já está preocupada com seu bigodito? Outro dia, enquanto eu contava histórias para ela à noite, na cama, ela me surpreendeu com um choro sofrido e a confissão: “Eu não gosto de ter bigode, mamãe. Meus colegas ficam me perguntando por que eu tenho”.

Fiquei realmente assustada com essa precocidade, já que, lá em casa, ninguém incentiva vaidades estéticas. Com muito jeito, expliquei à angustiada menina que a nossa família tem várias mulheres de bigode e que isso não nos faz menos femininas. “Você é linda desse jeito, filha, com esse bigodinho. Quando você crescer um pouco mais, se você quiser, podemos tirar esses pelos do seu rosto. Só que dói, viu? Não vou mentir”.

Luana se acalmou, sorriu e não falou mais sobre o assunto. Mas eu sei que, logo em seguida, daqui a alguns dias ou anos, ela vai demonstrar preocupação com a sobrancelha, a barba, os pelos nos braços, nas costas, nas pernas… Vai também implicar com sua cor escurinha e com o próprio cabelo, que é anelado. E provavelmente vai querer clarear e alisar os cachos. Esticar o cabelo, eu confesso, também era o meu sonho desde a adolescência, quando meu cabelo começou a encrespar. Eu rodava toca de meia ou de grampo no cabelo e adorava fazer escova para vê-lo lisinho. Mas faz uns 15 anos que assumi com fervor a “crespitude”, atitude encaracolada, e agora quero defender, pelo menos até quando for possível, o cacheado do cabelo das minhas filhas.

Mas será que algum conselho meu poderá demover minha filha da ideia de que a Barbie e a Cinderela — que não têm nenhuma penugem no corpo — são as verdadeiras lindezas do planeta? O que fazer para que nossas crianças amem os próprios cabelos e os próprios pelos e os próprios corpos, mesmo que os colegas e a mídia e o mundo teimem em apontá-las como imperfeitas? Como elas podem adquirir autoestima suficiente para amar e valorizar a própria beleza natural? Como não escravizá-las a tantos procedimentos estéticos artificializadores?

Só agora, enquanto mãe de duas meninas, entendo como é forte a imposição da beleza sobre as mulheres e ilimitada a exigência da vaidade. É tão difícil dissuadir as pequenas do desejo de usar esmalte, batom, blush, perfume… É tão difícil que não queiram ser mulheres enfeitadinhas desde cedo!

Sinceramente, eu torço para que as lanugens da Luana resistam intactas pelo menos até os 12 anos. Para mim, aquele bigodito sapeca é sinal de que a primogênita continua e continuará sendo a minha menina!

* Maria Amélia Elói, 39 anos, é mãe de Luana Lis, 6, e Mariana Flor, 2.

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Mãe Horta, Mãe Jardim

Observo em mim duas funções maternas: a Mãe Horta e a Mãe Jardim. Essas analogias vieram da seguinte história:

Uma menina fica órfã de pai e mãe e vai morar com o primo em uma mansão. Ele é doente e também não tem mãe. As duas crianças iniciam uma amizade. Um dia, descobrem um jardim secreto (e abandonado) na mansão. Com a ajuda de uma aia, os primos voltam a cultivá-lo e desabrocham como as flores, em plena saúde e alegria de viver.

Esse é o enredo de “O Jardim Secreto”, sucesso de literatura escrito em 1911 por Frances Burnett. Diana e Mario Corso fazem uma linda análise deste livro. Na falta da presença materna física, os autores localizam duas pessoas que fazem as vezes de mãe na história: a rígida governanta, que cuidava do bem-estar básico; e a aia, que supria de fantasia os dias do menino doente e da prima.

Os Corsos ainda fornecem a metáfora-chave para a compreensão do clássico: o jardim evoca o símbolo materno, cuja função não pertence à ordem das necessidades básicas, mas à da beleza. Flores são cultivadas não como alimento, mas pelo deleite (“A Psicanálise na Terra do Nunca”, p 219). Aí reside o desabrochar da vida.

Eu sou Mãe Horta quando me preocupo com as necessidades básicas, com cada detalhe. Unha cortada, dente escovado, dever de casa feito. A Mãe Horta é racional. É o meu lado que pede para levar o casaco. Que programa cada segundo da viagem de férias, faz as malas. E também matricula na natação, leva ao médico e ao posto de vacinação. Participa das reuniões na escola. Elabora o cardápio diário. Impõe limites. Devora milhões de livros e lê os sites sobre maternidade.

Sou Mãe Jardim quando brinco, dou risada, fico espontânea. Conto história, canto, danço. Quando deixo a lógica de lado e abraço, mesmo quando meus filhos mereciam uma bronca.

O problema é que a Mãe Horta não deixa muito espaço para a Mãe Jardim. São tantas tarefas, num cotidiano cronometrado, mediante tanta pressão, que quando tudo é cumprido muitas vezes só resta o cansaço. Sobram ali as florezinhas murchas e mixurucas.

É como se meu lado Mãe Jardim, o arquétipo materno em sua essência e totalidade, estivesse sufocado. Sendo ele o componente fundamental para a constituição de uma criança, como afirmam os Corsos, essa constatação me fez parar diversos momentos para refletir.

A dificuldade existe porque a Mãe Horta também é fundamental. Tudo bem que essa função pode ser dividida com outras pessoas, mas nem sempre. Além disso, há um perigo: a Mãe Horta exagerada se enrijece, é repressora e tende a projetar nas outras mães tudo o que ela não concorda.

Então estou em busca de um outro símbolo: quero ser Mãe Pomar. No pomar, às flores sucede o alimento. Ser Mãe Pomar é tentar colocar afeto e criatividade nas tarefas, mesmo as mais comezinhas, fazendo com que elas percam o caráter de obrigação. Uma conversa legal durante o almoço, uma brincadeira na hora do banho, uma piada para cortar a unha. O simples ato de estar junto é uma oportunidade de conhecer melhor as crianças.

Confesso que estou mais para uma plantação de morango. Nutritiva, mas azedinha… 😉

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Um dia, meu filho de dois anos, de uniforme e mochilinha, aproximou-se da irmã de sete meses e disse, com o maior carinho:

– Maninha, agora eu vou para a escola, mas tá tudo bem, porque de noite eu volto, tá?

Ooooownn, do jeitinho que a gente dizia para ele quando precisava sair…

Nesse embalo, vamos experimentar mais “frases de mãe” na boca dos filhos:

frases de mãe na boca dos filhos

frases de mãe na boca dos filhos

frases de mãe na boca dos filhos

frases de mãe na boca dos filhos

frases de mãe na boca dos filhos

 

mafalda discorda da mãe

Criação: Quino

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“Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” – análise

Este post faz a análise do texto “Culpa zero, menos mãe e outras asneiras” de Lia Miranda e dos comentários, publicados no Portal Minha Mãe que Disse!

Até o dia 14/02/2013, foram publicados 110 comentários. A autora do post não comentou.

Muitas pessoas manifestaram opinião em relação a outros comentários, e não necessariamente ao post. Assim, não há como estabelecer a divisão numérica e precisa de quem concordou e quem discordou do texto em si.

Optou-se, assim, por organizar a análise por tópico, iniciando com o argumento de Lia e prosseguindo com os comentários.

1.       Julgamentos

Argumento de Lia:

“A teoria de que cada um faz o que acha melhor para o próprio filho traz o discurso ingênuo de que não podemos julgar os outros, e que qualquer maneira de maternar é válida. Quem defende essa teoria, embora não o admita, tem suas próprias convicções do que acha melhor e, mesmo que internamente, condena quem faz diferente. […]

“Essa teoria não traz nenhum benefício para as nossas crianças e abre espaço para que os meios de comunicação de massa (pessoas querendo lucrar) entupam a cabeça das mães mais “abertas” com teorias maliciosas como a da culpa zero.”

Concordam com o texto

  • “Essa coisa de tentar o melhor é um discurso vazio, que não leva ninguém a lugar nenhum, só serve mesmo pra passar a mão na cabeça.”
  • Sou muito grata à minha culpa e ao meu não-conformismo, que me fizeram não virar mais uma ‘mãezinha’ que tudo aceita, que acha que está muito certa e, é claro, julga (mal) as que criam com muito amor, muito peito e muito apego.”
  • “As mães que clamam pelo equilíbrio, as que se dizem coluna do meio, muitas vezes torcem o nariz para as lutas pelos direitos das mulheres (que falam mal da Marcha pelo Parto em Casa, Marcha das Vadias, Mamaços, amamentação prolongada, amamentação em público etc.) Mas estas dizem que não, não julgam ninguém.”

Discordam do texto

  • “Você rejeita a teoria de que cada um faz o que acha melhor. Mas não é exatamente isso o que você tá fazendo? Me incomoda o fato de que este argumento é amplamente utilizado na defesa de causas e teorias que eu acho muito corretas, o que acaba reforçando o rótulo de ‘radical’ de quem o faz.”
  • ” ‘Rejeito a teoria de que cada um faz o que acha melhor’ – só aceito a teoria de que todos tem que fazer o que EU acho que seja melhor.
  • Em geral, julgo, sim, no entanto, julgo atitudes abusivas e incoerentes demais – que não dariam para não serem julgadas por qualquer pessoa de bom senso.
  • Muitas vezes mães que seguem um determinado caminho tendem a querer reforçar a validade deste caminho colocando que todos devem segui-lo e quem não vai por aí é pior. Não acho que seja apenas uma questão de tempo que se dedica aos filhos (não é tão simples esta matemática).”
  • “Tento de verdade não julgar, para ensinar a não julgar, ter bom senso e explicar que na maioria das casas a educação dos coleguinhas será diferente, e que ser diferente nem sempre é melhor ou pior.”
  • “O que não concordo é julgar sem saber, falar que se fez cesárea é pior, se não amamentou é pior, se deixa chorando é pior, se pega no colo toda hora é pior, criação com apego é melhor do que criação sem muito apego.”

2.       Preocupação com o futuro

Argumento de Lia:

“O que eu tenho a ver com o que fazem os outros pais e mães? Muito. Porque essas crianças com as quais minhas filhas estão convivendo na escola, na igreja e no parquinho serão seus futuros amigos, namorados, colegas de trabalho, vizinhos, patrões, governantes.”

 Concordam com o texto

  • “Os pais são sim responsáveis pelo que os seus filhos se tornarão.”
  • “Infelizmente minha filha vai ser amiguinha do filho da idiota que coloca ele do lado de fora do apartamento para ficar gritando porque dá eco. O que para essa mãe [idiota aos meus olhos] é uma coisa bonitinha, para mim é um caos.”

 Discordam do texto

  • “Nossos filhos terão que conviver com o diferente, assim como nós convivemos com pessoas que tiveram criações totalmente diferentes das nossas (e certamente absurdas aos olhos dos nossos pais!). E não acho isso um problema, é um fato imutável.”
  • “Ficar preocupada com que tipo de colega de trabalho e patrão suas filhas irão se relacionar é protecionismo besta! Meus filhos não são prioridade, minha família é! Não por isso serão péssimos colegas de trabalho, vizinhos e quem sabe até governantes. Uma família feliz tem filhos felizes. Simples assim.”

3.       Culpa

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero se traveste de um herói que vem nos resgatar de um sentimento negativo e opressor. Mas não é a culpa que essa teoria tenta aniquilar: é a nossa consciência. As consequências são desastrosas.”

Concordam com o texto

  • “Mães e pais que se colocam como prioridade frente ao bebê colocarão a culpa na criança, no adolescente e no adulto futuro. Se não conseguem dar a educação que gostariam por alguma impossibilidade real, que ao menos sintam culpa e tenham consciência de que a culpa não é dos seus filhos.”
  • “Como uma revista pode me dizer que eu não tenho culpa de nada!? Eu é que tenho que correr atrás, e fazer direito o ‘dever de casa’ para parar de sentir culpa. Se fazemos o melhor que podemos, não tem como a culpa aparecer.”
  • “Eu senti muita culpa por não ter conseguido levar a amamentação da minha primeira filha adiante e, se não fosse por esta culpa, que se transformou em sede de conhecimento, em busca por informação de qualidade, por pessoas e profissionais que me apoiassem, teria ficado satisfeita, pensado que ‘tomou LA e não morreu’ e repetido com a segunda.”
  • “Eu convivo bem com as culpas que carrego e a campanha deveria ser sobre a importância da culpa e não negar a sua existência.”
  • “Acredito que a culpa seja realmente importante, pois ela traz a reflexão, traz a conscientização do que é melhor. E imunizá-la seria cancelar essa consciência do certo e errado.”

Discordam do texto

  • O meu ‘culpa não’ se refere a ausência de culpa por tirar os meus filhos do pedestal e botar a família inteira junto.
  • ” ‘Culpa’ tão somente não nos coloca de frente à responsabilidade das consequências. Culpa e responsabilidade não são a mesma coisa!
  • A culpa é um sentimento que paralisa, que enfraquece, que tira o eixo. O caminho para mudar aquilo que não está legal é autoconhecimento, reflexão, questionamento e na minha visão compaixão. A sociedade é muito cruel com homens e mulheres.”
  • “O meu ‘culpa não’ é o que me dá é leveza no exercício da maternidade, e não um passe-livre para ser uma mãe de merda. De um para outro existe uma enorme diferença.”

4.       A “menos mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero está aí para dizer que ninguém é menos mãe porque – complete com qualquer coisa: não pariu, não amamentou, deu papinha industrializada, não passou tempo suficiente com a criança.

“Minha amiga Cíntia não é ‘menos mãe’ – sejamos francos: mãe pior – porque não amamentou. Mas a Galisteu, que desmamou o filho porque precisava viajar com o marido pra Ibiza quando o bebê tinha dois meses, talvez seja.

“ ‘Menos pais’ e ‘menos mães’ relegam seus filhos a um abandono emocional em nome das suas próprias rotinas. Crianças perdidas, sem educação, sem carinho, sem disciplina, jogadas na frente de uma televisão enquanto a babá fala ao celular.

“Seja porque têm menos disponibilidade para exercerem esses papéis, seja porque os exercem com total irresponsabilidade, pais e mães piores são aqueles que se colocam como prioridade diante de seus filhos, são os que querem a todo custo desvencilhar-se deles com medo se se encontrarem consigo mesmos e preferem viver anestesiados pelo consumo, pelo lazer, pelo ócio.

“É verdade que não se pode jugar a qualidade da prática de uma mãe por um aspecto isolado, especialmente se desconsiderarmos todo o contexto cultural e social no qual ela está inserida.”

Outros conceitos de “menos mãe”, segundo os comentários

  • “Mãe que sai para o bar e deixar o filho dentro do carro esperando é pior do que a que se dedica e busca programas para os quais possa incluir seus filhos.”
  • “Mãe que deixa chorando é pior do que a que acalenta. Faz isso pensado em si própria, em seu sono, não no bebê.”
  • “Mãe que não tem saco de acordar à noite para acolher o filho choroso é uma péssima mãe.”
  • “Eu sinto pena da Adriane Galisteu, porque ela poderia viajar em qualquer outro momento de sua vida. Mas ser mãe daquele recém-nascido e amamentá-lo com esplendor seria um momento único, e na minha opinião, sagrado.”
  • “Mãe que abandona os filhos para ir para Ibiza e substitui tempo com os filhos para ir para uma festa à noite toda semana.”
  • “A Galisteu foi uma ‘menas’ mãe quando desmamou um recém nascido pra sair em lua de mel.”
  • “É menos mãe/pai quem negligencia seus filhos, quem não educa, não passa valores, não dá carinho, tempo, atenção.”
  • “Colocar uma criança no mundo, dar todos os brinquedos tecnológicos, deixá-la sentada a frente da televisão porque a galinha pintadinha canta músicas de criança e se dizer boa mãe.”
  • “Mãezinhas que escolheram a maternidade que tinha salão de beleza para receberem as visitas pós-parto na beca.”
  • “Mulher que prefere assistir seus filhos brincarem no tanquinho de areia do que interagir com eles para não estragar as unhas. Mas não entro no mérito do texto em dizer que isso é ser menos mãe. Até porque sei lá o conceito de mãe que uma pessoa assim tem.”
  • “Mãe que vive na ‘umbigolândia ‘”.
  • “Mães que choram ao quarto ao lado, com o coração apertado por deixar o filho chorando, mas não têm coragem de se desvencilhar dos cordões de marionete que a prendem.”
  • “Mães e pais que terceirizam a criança por causa da ideia cada vez mais popularizada (e levada ao extremo) de que ‘mãe feliz, filho feliz’.”
  • “Mães e pais que acham que devem mais à sociedade que ao seu próprio filho e são capazes de cometer a barbárie de dar uma festa de ‘boas vindas’ ao bebê ainda na maternidade.”
  • “MENOS mãe é aquela que tem todas as informações e ainda assim, age pensando em si mesma apenas.”
  • “Pais que acham que os filhos é que têm que se adaptar a vida deles, e dá-lhe horas em salão de beleza, redes sociais, com celular em punho sem sequer olhar o sorriso da criança, viagem do casal, que precisa muito desse tempo.”

Questionamentos ao conceito de “menos mãe”:

  • “Conheço quem adotou o método horrendo do Nana, neném com a convicção de que isso ajudaria o bebê a dormir melhor, e que estava fazendo o melhor por seus filhos. Não fez para melhorar seu próprio sono porque, mesmo com seus bebês dormindo que nem ‘anjo’ depois do método funcionar, passava a noite acordando para ver se estava tudo em ordem com as crias.”
  • “Não gostei do texto! Achei uma volta ao passado sem tamanho! Cada um com a sua realidade e seus problemas! Julgar é fácil demais, fazer o que a maioria das mães brasileiras faz para sustentar, dar amor e carinho tudo ao mesmo tempo não é tarefa para qualquer um! Isso não é abandono emocional, isso é responsabilidade!”
  • “Ser mãe não é receita de bolo!”
  • “Babá, suco de caixinha, e televisão não é liberalismo ‘demoníaco’, é realidade!!!”

5.       A “mais mãe”

Argumento de Lia:

“A teoria da maternidade ativa e consciente vê mãe e pai como responsáveis pelos filhos, buscando as melhores escolhas, mesmo com sacrifícios pessoais.

“A ‘mais mãe’ exerce a maternidade em maior quantidade (de tempo, por exemplo), ou uma maternidade de melhor qualidade.

“Filhos são uma dádiva. Não caiamos na armadilha de achar que qualquer coisa vale mais do que eles. Nossos filhos são nossos parceiros, representam oportunidade única de nos redescobrirmos.”

Questionamentos ao conceito de “mais mãe”

Se a “menos mãe” foi duramente criticada, o conceito de “mais mãe”, por oposição, também foi alvo de muitos questionamentos:

  • “Uma mãe culpada ou que age por culpa não é uma boa mãe. Mas isto não significa se isentar de suas responsabilidades.”
  • “O que dizer da mãe que expõe as questões, imagens e intimidades dos filhos em um blog na internet, podendo causar a eles desconforto no futuro?”
  • “Acho que sei como essa mãe, tão comprometida com o maternar, age. Mas sei muito pouco sobre como ela sente. Se essa mãe está verdadeiramente feliz e completa, maravilha. Maternidade ativa é o melhor caminho para o filho e também para ela. E se ela não está assim tão feliz?”
  • “Uma mãe infeliz não seria uma ‘mãe menos’ “?
  • “Não vejo como seria possível uma mulher se negligenciar e, ainda assim, ser boa mãe. Se não cuidarmos de nós mesmas, como poderemos cuidar dos nossos filhos?”
  • “O que é melhor, brincar com o filho quando ele chega em casa da creche ou deixar o filho pra lá brincando sozinho pra fazer uma papinha caseira?”
  • “Não vou comentar mais nada, porque é perigoso eu ficar com sentimento de culpa por estar lendo textos na Net ao invés de brincar com a minha filha neste momento.”
  • “Alguém já inventou a tabela de medição, tipo INMETRO para mãe? Em que tempo/espaço medimos a eficiência da mãe? Na qualidade da infância? Nos confrontos da adolescência? Ou no ser que deixamos para o mundo na idade adulta? Porque eles mudam, e mudam muito. E o meio muda, e a atitude da mãe muda…”
  • “Talvez as pessoas estejam errando a dose: supervalorização da criança em detrimento do coletivo. Quem garante que esse desvio não se deve a pais grudentos demais, anulados como pessoas e dispostos a viver em função do filho 28h por dia? Não dá para dizer isso, nem o contrário.”
  • “Conforme a criança cresce as coisas mudam, pq cada fase é uma fase, e se os filhos são criados para o mundo, então uma hora eles se tornam independentes. Conforme essa independência é construída a mãe precisa saber ir igualando as prioridades.”
  • “Não ha coisa pior, nem pra mãe e nem pro filho, do que depois q a cria cresce e sai do ninho, a mãe fica sem chão e se descobre um ser sem vida própria. Daí podem nascer diversos problemas, uma sogra chata que quer a todo custo continuar vivendo a vida da cria, uma pessoa depressiva/rabugenta/lamurienta que acha q o filho é um ingrato e se revolta contra tudo/todos, e um filho que vai sentir culpa.
  • Se minha mãe me perguntasse se eu gostaria que ela abrisse mão de TODA sua vida e seus sonhos por mim, eu diria que não, acho que se anular -completamente- em prol de outro alguém, mesmo que esse alguém seja seu filho, é um fardo muito, muito pesado de se carregar.”
  • “Mamãe projetou a felicidade dela em nós, mas, como é natural, ao crescermos, cada um tomou o seu caminho. Eu continuo muito próxima dela, mas o afastamento natural de meu irmão para ela é uma mágoa profunda, uma ferida sem cura. Se, por algum motivo, eu não puder me fazer tão presente na vida dela, ela será infeliz. E como eu vivo com isso? Se ela tivesse deixado de passar algumas horas por dia comigo, não teria sido menos mãe por isso. Parte de minha felicidade como filha é a felicidade de minha mãe, e é muito melhor se a felicidade dela não depender apenas do ‘ser mãe’ “.

6.       Ter filhos

Argumento de Lia:

O Dr. José Martins, em A Criança Tercerizada, teve a coragem de dizer que quem não está disposto a mudar suas rotinas para cuidar de seus filhos não os deveria ter.

Concordam com o texto

  • “Não dá pra simplesmente ‘encaixar’ a maternidade e levar a mesma vida de antes de ter um filho – se é pra ser assim, por que tê-lo então?”
  • “Os motivos apontados por TODOS para ter filhos são egocêntricos. Garantir descendência, por costume social ou por que é ‘um sonho’ não são motivos centrados não na criança.”

7.       A influência da Mídia

Argumento de Lia:

“A teoria da culpa zero é a preferida das grandes mídias e agências de publicidade. O princípio demoníaco da identidade própria, auto-suficiente, é um engodo para nos desumanizar e nos tornar vítimas perfeitas do consumismo e do capitalismo industrial. Segundo a grande mídia e a indústria publicitária, ser você mesmo é ser igual a um padrão de sucesso e beleza estabelecido por outras pessoas, ser uma marionete.

“A mídia coloca o adulto em primeiro lugar e pinta a maternidade como uma tarefa de mártir e a criança como um estorvo. O conflito entre mães e filhos é um mito criado para vender.”

Concordam com o texto

  • “Minha avó (84 anos) queria dar ruffles para minha filha e eu disse que não, que fazia mal… ela olhou o rótulo, indignada, e disse ‘Meniiiinaaaa, é só batata’. Minha avó é analfabeta, foi da roça, é megasaudável e ACREDITA que ali só tem batata e que alguma espécie de milagre faz aquela batata não se decompor. Ela achava que era o melhor para a bisneta.”
  • “Isso me lembrou a sugestão da revista Crescer sobre decoração de quartos de bebês e havia lá um berço e uma cama, a cama da babá.”
  • “Queremos mães que entendam os problemas de saúde pública da sociedade brasileira (desmame precoce, epidemia de desnecesáreas, excesso de sódio na alimentação infantil) que se repercutem na saúde de seus filhos e que entendam que somos enganadas e manipuladas cotidianamente em nome do lucro.”
  • “Não é martirizar ninguém pelo passado nem condenar por um evento isolado na vida materna. Estamos aqui como mulheres que defendem mulheres. A maternidade é aprendizado. E é muito interessante ao mercado ter mães não pensantes.”

Discordam do texto

  • “Eu não sei que revistas você anda lendo, mas destoam completamente das que eu leio. Em geral, pregam que a mulher deve ser uma heroína, cuidando integralmente dos filhos, sem abrir mão de todo o resto, como se a mulher tivesse de seguir padrões inviáveis de perfeição.”
  • “Se tem pai e mãe que larga, não são as revistas e as propagandas que ensinam, estimulam ou incentivam esse comportamento.”

8.       Comentário: Adendos ao texto

  • “Há uma teoria de maternidade que não foi contemplada e que é a mais importante: a que considera que a educação e cuidado das crianças não é somente de responsabilidade dos pais, a que considera que a maternidade mais comum será praticada também de acordo com as condições sociais na qual se perpetua. Ter um Estado e uma sociedade que valorizam a infância é fundamental para que sejamos bons pais sem sofrer mais do que necessário.”

9.       O Caminho do meio

Propostas de caminho do meio, segundo os comentários

  • “Não consigo abraçar um estilo de maternidade que considera as necessidades do filho mas não as da mãe.”
  • “O objetivo final é de felicidade, para pais e filhos. Com RESPEITO aos limites e às necessidades pessoais.”
  • “Vislumbro o tal caminho do meio, no qual as pessoas têm direito a fazer suas escolhas.”
  • “O caminho do meio não mata, não fere, só fortalece, porque ser mãe é um dos meus muitos papéis nessa vida.”
  • “O sentir me diz que eu quero ser ‘mais mãe’, sem deixar de ser ‘mais eu’. Dedicar, estender, absorver, me sentir feliz pra fazer feliz, à vezes com muita abdicação, às vezes nem tanto. Observar constantemente para saber onde posso e devo ‘ser mais’ e onde devo ‘ser menos’.
  • Eu sou da maternidade ativa às vezes e sou uma “menas main” outras vezes – depende da hora do dia que você encontrar comigo. Exerço os dois papéis com relativa tranquilidade.”
  • “Não é questão de ficar em cima do muro, e muito menos de falta de envolvimento. Quero o danado do equilíbrio, não consigo me enquadrar em nenhuma categoria, quero fazer do jeito que funcione pra mim e para os meus, quero poder experimentar e mudar de opinião, fazer valer se é que me entendem. Quero valores (morais) sim e amores, quero a honestidade e a capacidade de realizar, quero a frustação para poder crescer, quero a conquista para a determinação e disciplina, quero a reflexão sempre em qualquer atitude, quero bem estar, quero estar bem.”

Críticas ao Caminho do meio, segundo os comentários

  • “O Brasil não precisa de MAIS GENTE passando a mão na cabeça das mães que abdicam do filho para ter uma ‘vida’. Até porque isso é viver em função do mercado, não do filho. Condenam tanto quem vive em função do filho e não se tocam que vivem em função do mercado, do status, da aparência, do carro novo e das unhas e cabelos impecáveis.”
  • “O discurso contemporizador busca minimizar uma responsabilidade que é nossa, faz com que vibre ainda a mais a nossa natureza, que já é egoísta.”
  • “Espero um dia chegar a esse equilíbrio. Mas temo que palavras assim ditas num portal formador de opinião do porte do MMqQ pode fazer mais mal que bem.”
  • “No Canadá esse discurso faz completo sentido, já que a maternidade e a paternidade se completam. Mas não acho que o Brasil está precisando de mais passada de mão na cabeça agora, de mais uma referência pra se apoiarem e se eximirem da responsabilidade.”
  • “Se continuarmos falando, teclando, denunciando, gravando!, engrossando o coro e o caldo… mais e mais pessoas vão se tocar, vão ouvir o barulho e dar atenção a ele.”
  • “Meio termo, mediano, estar na média são sinônimos para medíocre.”

Tréplicas do Caminho do meio, segundo os comentários:

  • “Quando encontrei esse mundo de informações me senti mais desesperada e deprimida, do que acalentada. Isso pq a quantidade de mães que acham que só há um jeito certo de maternar é infinita, e desculpem, mas isso não é legal.”
  • “Essa postura do ‘não precisamos disso agora’ desrespeita as mães que leem o texto. Primeiro porque não é honesta – omite propositalmente um lado da questão para convencê-la de que o outro é certo. Segundo, porque as subestima: diz que a mãe brasileira não está pronta para um discurso que não a trate como uma cretina e que ela precisa ouvir o lado mais duro, ‘que não passa a mão na cabeça’, pra entender direitinho. Terceiro, porque é arrogante: vende uma única verdade possível (mesmo que, no fundo, admita que existem sim outras leituras).”
  • “Com quem o texto está falando? Nunca vi na blogosfera nenhuma mãe assim, tão extrema, tão descomprometida, tão ‘menas’. Nem na vida real eu já vi essa mãe. Essa mãe tão errada – pois foi erroneamente construída pelo sistema – existe e tá aí, condenando o seu filho ao abandono emocional completo. Pergunta: ela tá lendo blog de maternidade? E, na remota possibilidade de estar: ela foi adiante no texto ou parou logo no ‘asneiras’ do título, prevendo as pauladas que viriam? E, se foi adiante: ela está aberta ao texto ou vestiu uma armadura que vai comprometer a sua leitura?”
  • “Mães se sentem agredidas o tempo todo. Mães agredidas levantam as armas. Mães armadas não estão dispostas a ouvir. Distorções de discurso acontecem muito por causa da disposição (ou falta de) de uma mãe ouvir a outra. O que cria essa disposição? Empatia. Como se cria empatia? Pela identificação, pelo respeito, pela tentativa de compreender o outro.”
  • “O problema é que eu vejo a blogosfera mais militante tentando atingir pela dureza justamente quem precisa de acolhimento.”

Marusia fala

Após ler o post, os comentários, as réplicas e as tréplicas, me parece que todos estão de acordo com uma coisa: é necessário investir em uma sociedade melhor, e o cuidado com a infância é imprescindível. O que não tem consenso é a forma de alcançar esse objetivo.

Cada forma é defendida com unhas e dentes, quando não há nada que comprove sua eficácia. Só o futuro poderá dizer como serão os filhos de “mais mães” e “menos mães”. Além disso, essas crianças terão recebido influências múltiplas, o que nos impedirá de afirmar se foi a forma de maternagem que definiu seu modo de ser.

Sem garantia nenhuma, as mães se prendem a convicções. O pensamento diferente é tomado automaticamente como crítica: “se não está comigo, então é meu inimigo”. Não sobra espaço para o meio termo, nem para a tentativa de apaziguamento.

Assim, presas à forma e em eterna guerra pela sociedade de amanhã, nós mães nos desviamos do objetivo de ter uma sociedade melhor HOJE.

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Radicalismo: a que custo?

Dentes de leite

dente sendo preenchido por leite

Minha filha ficou encafifada quando o dentinho de baixo começou a bambear.

– Mãe, meu dente vai cair?

– Vai, pra nascer o dente permanente. Esse que vai cair é um dente de leite.

– Dente de LEITE?????…

Pausa para ela tocar o dente com a mão.

– Mãe, mas é um leite bem duro, né???

***

capa de livro Charlie e Lola dentes de leite– Mãe, por que o dente cai e vem outro?

– Porque sua boca era pequenininha, agora ela cresceu e vai precisar de mais dentes, e de tamanho maior.

– Minha boca era pequena e cresceu?

– Cresceu.

– Minha cabeça era pequena e cresceu?

– Isso mesmo.

– Então por que os dentes não cresceram junto, ora bolas????

***

Boa pergunta. Osso cresce, cabelo cresce, até unha cresce. Por que os dentes não?

escova de dentes para banguela

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Princesa da Sucata

Já tinha falado antes sobre as feiras científicas e culturais da escola, ávidas por criações mirabolantes de sucata, feitas pelos… pais. Tem pai e mãe superprendados, levam coisas lindas e sofisticadas, ao passo que eu continuo sem levar jeito pro negócio. Não sei costurar, não sei fazer papel machê e procuro algo mais simples pra incluir as crianças no processo.

“Escolha um personagem de conto maravilhoso e represente-o usando sucata.”

Aí vem minha filha: “Quero a Cinderela”.

Não tem um mais fácil, não? O Sr. Ovo? O Homem de Lata do Mágico de Oz, ó que massa, já é de sucata! Que tal a Lagarta de Alice no País das Maravilhas feita de meia?

“Não, quero a Cinderela.”

Então vamos lá, dar uma de fada-madrinha e preparar Cinderela para o baile. Você vai precisar de:

  • Uma garrafa pet;
  • Uma bola de isopor;
  • Papel amarelo;
  • 3 folhas A4 de papel azul ou 3 folhas A4 de papel branco + tinta guache azul;
  • Papel branco;
  • Papel cartão branco;
  • Palito de dente;
  • Fita crepe;
  • Hidrocor;
  • Fita de cetim azul;
  • Miçangas;
  • Cola de artesanato.

Eu podia ter feito o vestido com o papel azul, mas preferi que minha filha pintasse o papel branco com guache azul. A textura fica mais interessante, o papel mais rígido, e ela adorou fazer.

Meça a bola de isopor. A metade do diâmetro é a largura do papel amarelo. Corte uma franja curta e estreita em cima e outra maior embaixo. A franja maior vai se superpondo para a parte de trás da cabeça. Outro retângulo pequeno de papel amarelo, outra franja para o coque. O arremate é com papel azul, para a tiara.

cinderela de sucata

Cinderela de Sucata

Forre o colo com papel branco.

Faça o babado grande em 2 folhas de papel azul ou pintado. Cole a primeira saia. Cole a segunda saia alternando o babado e fazendo o arremate atrás.

cinderela de sucata

O terceiro papel, corte ao meio. Faça babados menores. Cole o primeiro para cima e o segundo alternando e fazendo o arremate. Curve todos os babados para fora.

Faça o acabamento com a fita azul na cintura.

Faça os braços de papel cartão, coloridos com hidrocor. Faça o rostinho com hidrocor.

Cinderela de sucata

Coloque um palito de cada lado da bola e fixe na boca da garrafa com a fita crepe.

Cole miçangas na tiara (essa é a parte em que as crianças mais curtem). Duas para os brincos. E um colar como acabamento no pescoço.

Cinderela com garrafa pet

Dica: escolha uma bola de isopor maior do que a que eu escolhi, para a boneca ficar mais proporcional.

Minha pimpolha foi uma das primeiras a entregar na escola. No dia da feira, fiquei contente com mais outra Cinderela, uma Aurora e uma Bela usando a mesma “técnica” kkkkk!!

Mas o mais engraçado foi a plaquinha em cada personagem, com o que cada criança aprendeu com ele. Na Cinderela da minha filha, ela escreveu: “Aprendi com Cinderela que devemos amar as irmãs.”

#AMO

irmãs de Cinderela sorrindo

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Verdades

Uns peixes, um coelho e uma mula

O que aprendi sobre… semana de prova

O curso mais interessante do mundo

#protestomaterno: eu quero mais

protesto materno

:: BLOGAGEM COLETIVA – Mães unidas por um Brasil melhor ::

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Chorei quando vi as manifestações.  Repudiei o vandalismo. Ri da irreverência. Mas eu quero mais.
cartaz manifestação brasil

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Disseram que estamos vivendo, a exemplo da Primavera Árabe, a Primavera Brasileira (ou Outono Brasileiro, para ser mais correta).

Eu discordo.

Os países árabes vinham de décadas de ditaduras pesadas. No Brasil, TODOS os governantes e representantes foram ELEITOS.

Nos países árabes, o Orçamento não é votado e publicado no site Transparência Brasil.

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Disseram que nunca tantos brasileiros saíram às ruas para mudar o País.

Também discordo.

A cada quatro anos, mais de 140 milhões de pessoas saem de suas casas para votar.

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Acorda, Brasil! O grande evento de 2014 não é a Copa. São as Eleições. Em outubro: verdadeira Primavera Brasileira.

É o nosso voto que vai determinar se vai haver publicidade infantil, bolsa-estupro, PEC 37 ou gastos milionários de marketing.

É isso que vai determinar se vamos continuar chorando o spray de pimenta derramado.

cartaz manifestação Brasil

cartaz manifestação Brasil

beijos

cartaz manifestação Brasil

torcida imagina nas eleições

Fan page #protestomaterno:

https://www.facebook.com/protestomaterno

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O dia em que falamos da Constituição para meu filho

Olho de boi, olho d’água

O que aprendi sobre… semana de prova

criança fazendo o dever de casa

Foto: hvaldez Stock Xchng

Então aqueles bebezinhos que mamavam e dormiam de repente começam a andar, a trazer dever de casa e a ter semana de prova. Então você tenta se lembrar de como era quando você estava na escola, tenta reproduzir o que na época dava certo (e evitar o que dava errado) nesse novo empreendimento. Então descobre que algumas coisas funcionam – e outras, não.

Semana de prova começa com dever de casa. Este post também poderia se chamar “O que aprendi sobre… dever de casa”. E é por aí que vamos começar.

O que aprendi com meus pais

Somos cinco irmãos. Todos nós fazíamos o dever de casa e estudávamos sozinhos. E isso se devia a algumas “técnicas” aplicadas pelos meus pais.

Não havia “ajuda”. Quando eu tinha dúvidas, meus pais diziam: “Ah, eu estudei isso há muito tempo, não lembro mais”. Tinha hora que ficávamos estupefatos. Minha mãe tinha sido professora primária por anos, dessas que ganhavam medalha. Meu pai era diretor de um banco. Uma duvidinha besta, uma conta de divisão, eles não conseguiam lembrar? Uma vez, a gente até se confidenciou: “Não é por nada, não, mas nossos pais são bem burrinhos, né?” De “burrinhos” não tinham nada. Qual o efeito disso? Eu sabia que não teria suporte em casa, então me esforçava para prestar MUITA atenção na aula e tirar as dúvidas com o professor. Lição número 1 de autonomia.

Não havia “correção”. Se o dever fosse corrigido em casa, como o professor iria saber se a criança estava tendo dificuldades, e quais eram? Como ele iria direcionar a matéria, dedicar melhor a alguns pontos? Para ele, com o dever sempre certo, seria sinal de um aluno prodígio.

mafalda e manolito na escola

Criação: Quino

O professor é a autoridade. Se os pais não confiam nele, devem alertar a escola. Se não confiam na escola, o melhor é… mudar de escola. O que não dá é criar um cabo de guerra entre os pais e quem está ensinando. No mínimo, isso cria um nó na cabeça da criança.

Botar para “pensar” no cantinho? Tá por fora. O negócio é aprender no cantinho. Quando tinha que deixar a gente “de castigo”, meu pai dava uma tarefa pra cumprir. Tipo copiar verbete de enciclopédia (à mão, óbvio, não existia Google – aliás, não existia PC), ou escrever de 1 a 100 em algarismos romanos. Cantinho educativo.

Tira do Calvin
O que aprendi hoje

A técnica número 1, a de sonegar ajuda, não é totalmente aplicável, hoje. No meu tempo, não tinha exercício cujo enunciado era: “com a ajuda da família”, “com a ajuda de um adulto”, acompanhado de missões que a criança nunca faria sozinha. Por exemplo: “Com a ajuda da família, faça uma maquete.” Um elasmossauro de sucata, um monumento de Brasília. Ou, como já postei, um aquário, um coelho, uma mula.

pai observando o filho fazer o dever de casa

Foto: Halton Parents

Eu procuro discernir. Aqueles deveres de procurar imagens ou palavras em revistas para formar frases, ou ainda “rótulos de embalagem com a letra do seu nome” são cruéis. Se a gente não ajudar, a criança fica até meia-noite procurando. Eu localizo uma página que tenha a figura ou a palavra e pergunto: onde está? Daí por diante, eles acham, recortam, colam e fazem as frases. E o objetivo do exercício é alcançado.

Pesquisa na internet: como uma criança de 4 anos vai fazer isso? Dependendo do tema, é impossível. Uma vez, veio: “pesquisar como eram os currículos escolares na década de 1910”. Sério. Experimente você, que é rato de Google, achar isso. Depois de horas, eu achei em um arquivo de “memória oral” de idosos que estudaram em uma escola no interior de São Paulo.

Importante: em hipótese nenhuma, a gente deve fazer o dever pela criança. A gente orienta, inicia o estímulo, mas o dever é dela.

A técnica número 2, a de não corrigir, é a mais árdua. Para mim, que trabalhei anos e anos com revisão de texto, encontrar uma redação cheia de erros de ortografia dói no coração. Quando eu não aguento, circulo a palavra errada e pergunto: onde está o erro? O drama reside em três pontos:

  1. Diferentemente do professor, eu não tive aula de didática, não tenho formação pedagógica, não domino a técnica de ensinar da melhor forma, não sou profissional de ensino. Menos ainda quando entram as teorias de que “a criança tem que construir o próprio conhecimento.”
  2. Ensinar é se lembrar de como era antes de aprendermos, já disse Richard Saul Wurman (no livro “Ansiedade de Informação” – SENSACIONAL). Não é fácil. O pior é quando nós aprendemos de um jeito fácil e simplesmente não sabemos onde está a dificuldade. Fui alfabetizada do jeito tradicional, e não por “escrita espontânea”, e até hoje não vi muita lógica nisso de aprender a escrever antes de aprender a ler. Mas eu tenho que confiar no professor…
  3. Sou mãe. Tem coisa que meus filhos vão fazer comigo (por exemplo testar minha paciência, ou fazer chantagem emocional) que não fazem com os professores. É um relacionamento diferente.

E aí eu me deparo com “pérolas” como estas (diálogos reais):

– P com A é…

– …

– Se P com E é pe, P com I é pi, P com O é po, P com U é pu, P com A é…

– TE!!!!

***

– O que é um pinguim?

– Um mamífero!!!

***

– Por que surgiram os conflitos entre os colonizadores e os nativos?

– Porque os índios já tinham muitos espelhos.

***
keep calm and do your homework
Acho o ó:

Pirações, como recortar milhares de notinhas e moedinhas de papel.

Pedir coisas esdrúxulas de um dia para outro, que você precisa achar um tempo na agenda e ir a uma loja específica para comprar, como sementes de árvores típicas.

Pedir garrafa pet de refrigerante pra fazer reciclagem. Aqui em casa a gente não toma refrigerante, oras bolas.

Enviar trocentas tarefas em feriadão ou nas férias. Momento de família, puxa, muitas vezes a gente escapole da cidade e viaja. Meus filhos já tiveram que fazer dever no hotel.

Às dicas dos meus pais, acrescento estas:

Ensinar é a melhor forma de aprender. De vez em quando, peço aos meus filhos mais velhos que ajudem o caçula. Antes que digam que sou exploradora de inocentes, saliento que eles adoram. Se sentem sábios, se sentem prestigiados. Por incrível que pareça, são pacientes. E reproduzem o que ensinamos para eles: “olha, presta atenção aqui…” (muito fófis!!)

Prestar atenção na aula é 60% do sucesso na prova. Somam-se 30% de exercício em casa e 10% de estado de espírito na hora de resolver as questões.

Ensinar a estudar – esse é o melhor investimento que podemos fazer. Para isso, as crianças precisam de espaço e tempo adequado. Mais dicas:

  • Comece “tomando prova” – fazendo perguntas para a criança, para ver se houve fixação do conteúdo lido. Crie historinhas, correlacione os assuntos: fica divertido e o que é aprendido não é esquecido nunca mais.
  • Na segunda vez, peça para que a criança faça as perguntas.
  • Da terceira vez, ela já estará estudando sozinha – e até fazendo “testes” para si mesma. Em matemática, exercício é primordial. Hoje, meus filhos criam as próprias contas, resolvem e testam o resultado fazendo operação inversa.

Ensinar a fazer prova – tem que ter malícia. Dicas:

  • Ler a prova inteira antes de começar. Muitas vezes, a própria prova já fornece algumas respostas.
  • Depois da leitura da prova, o passo seguinte é a redação e a parte subjetiva (se houver). A cabeça está mais fresca.
  • Ler cada comando no mínimo duas vezes.
  • Começar sempre pelas questões mais fáceis.
  • Revisar tudo ao final.

O que realmente importa

No meu tempo, existiam países como Iugoslávia e URSS, que hoje não existem mais. Havia um conflito chamado Guerra Fria. O Tocantins ainda não havia sido criado. As grandes revoluções da comunicação, como a internet, nem sequer eram cogitadas.

“Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas”.

(frase recolhida de um muro de Quito-Equador por Eduardo Galeano)

Respostas têm prazo de validade. Na atual velocidade da informação, já surgem obsoletas.

O que realmente importa não é saber as respostas. É saber fazer as perguntas. Essa é a grande lição que devemos deixar para nossas crianças.

mafalda perguntando o que é filosofia

Criação: Quino

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Somos tão jovens

Renato Russo quando era criança

Renato Manfredini Junior – Renato Russo

Ontem assisti ao filme “Somos tão jovens”, que conta a história de Renato Russo e o nascimento da banda Legião Urbana. Fiquei mexida, logo de início, nos créditos de apresentação do filme, com as fotos de quando Renato era criança.

Podia ser porque moro em Brasília. A sensação de familiaridade é intensa: é muito louco se ver retratado nas reconstituições das décadas de 70 e 80. Podia ser porque as músicas da Legião Urbana marcaram profundamente minha adolescência. Mas nada se comparou às fotos reais do cantor, somadas à cena em que ele cai da bicicleta (com o uniforme do Marista) e ao diálogo com os pais.

Renato estudou no Marista, tradicionalíssimo colégio católico da capital. Seu pai trabalhava no Banco do Brasil, como o meu. Em um momento do filme, seus pais dizem: “onde está aquele menino que se destacava por bom comportamento?” Será que, durante a infância de Renato, eles poderiam imaginar tudo o que viria em seguida? Essa é a razão pela qual o filme mexeu tanto comigo: pelo fato de ver alguém, que poderia tranquilamente ter sido meu vizinho de quadra ou meu colega de turma, construir uma trajetória tão ímpar (por vezes sofrida) e cheia de significados como fez o criador da Legião Urbana.

O fato de morar na capital fez com que eu ouvisse as músicas em primeira mão, desde a origem. Era aquele som que preenchia tudo, tanto o espaço quanto a alma. Um som rebelde mas também meio pueril, inocente, e com um traço de angústia que é muito típico da juventude. No filme, enquanto se recupera de uma cirurgia, Renato devora livros, principalmente de filosofia. Vêm daí suas letras diferentes? Ou é o oposto: sua personalidade já questionadora e seu permanente sentimento de inadequação encontraram eco nas palavras dos filósofos? Efeito Tostines, impossível responder.

Cena do filme Somos tão jovens

Cena do filme “Somos tão jovens”

Ninguém aqui está falando de exemplo, nem de mártir. Acredito que o melhor do filme foi mostrar o lado humano do artista, suas perigosas incursões pelo álcool e pelas drogas. Estou falando de legado. De alguém que compôs letras que até hoje são atuais. De quem vendeu mais de 20 milhões de discos. E explicitou sua transformação pessoal, mais tarde até por conta da Aids, em canções como Monte Castelo, Giz e Pais e Filhos.

Renato Russo com ramalhete de rosas

Pais e Filhos é um hino. Retrata o crescimento das crianças em uma sequência magistral de versos:

Bebês “Quero colo!”
3 anos “Vou fugir de casa!”“Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo, tive um pesadelo…”
Adolescentes “Só vou voltar depois das três.”

Já a estrofe a seguir parece resultado do que nos invade quando deixamos de ser somente filhos, para sermos também pais:

“Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo

São crianças como você

O que você vai ser, quando você crescer?”

Me vi menina no filme, brincando “embaixo do bloco”, passeando no Opala do meu pai pelas tesourinhas de Brasília. Concordo com Renato, sou mãe mas ainda sou criança. Ao mesmo tempo, sou a mesma e sou outra. É aquela metáfora do rio, gasta, mas verdadeira: é o mesmo rio, mas as águas são outras.

Para arrematar, hoje conversava com uma amiga sobre filhos. Ela me contou da felicidade incomensurável que sentia com seu filho, mas que às vezes vinha acompanhada pelo medo de perdê-lo. O medo de perder é um modo eficaz de nos chacoalhar para vivermos o momento presente. Mas não pode ser constante, porque também paralisa, envenena.

Por mais que queiramos racionalizar a morte, nunca estaremos suficientemente preparados para ela. E, se pararmos para pensar, convivemos diariamente com “desaparecimentos”. Olho para minhas crianças e já não vejo mais os bebês que foram. Olho para minhas crianças e, como os pais de Renato Russo, não consigo vislumbrar sequer um segundo do que será seu futuro, todas as histórias incríveis que terão pela frente, que legado deixarão para o mundo.

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há.”

Mamífera!

No post de hoje, a escritora Maria Amélia conta um pouco sobre o desmame e o que envolve esse processo. Quando a decisão cabe à mãe, sobrevêm sentimentos diversos relacionados a vontade, sono, prazo, reconfiguração do encontro e, ainda, nossa postura diante do “Lá Fora” – que parece insistir em transformá-la numa decisão que é “de todo mundo”.

“Não mama?” “Ainda mama?” “Isso?” “Aquilo?” Já que não estamos imunes às “interferências”, então vamos usá-las a nosso favor, com um relato sincero que pode inspirar quem está atravessando a mesma fase.

“Mamífera!

Por Maria Amélia Elói

Tenho duas filhotas queridas: Luana Lis, de 6 anos e 1 mês; e Mariana Flor, de 2 anos e 5 meses. Amamentei a primogênita até os 2 anos e 5 meses e estava planejando desmamar a caçula quando ela completasse essa mesma idade. Ai, ai, ai, o prazo está caducando… Mas sou mamífera de carteirinha! Não nasci para tirar o doce (leite) da boca da criança! Adoro os meus grudinhos como penduricalhos.

Ainda não estou muito certa se chegou a hora da Mariana, ou melhor, se chegou a minha hora. Quando imagino o fim dos nossos lácteos encontros, sinto um treco esquisito, pressinto uma saudade ardida, daquelas que umedecem os olhos.

Não foi difícil desleitar a Luana. Certo dia, mostrei-lhe uma faixa enrolada aos seios e disse que eles estavam dodóis; por isso, eu não poderia lhe dar o mamazinho. Quando eu chegava do trabalho, ela vinha correndo me encontrar, com a mesma pergunta: “Sarou, mamãe? Deixe eu ver”. Isso durou uns três dias. Ela demonstrava dó de mim, e eu também ficava com pena dela (na verdade, mais de mim que dela). Eu chorava no quarto, enquanto meu marido colocava a Luana para dormir. O coitado não sabia se acudia a mulher plangente ou a filha. Mas a adaptação foi superpositiva, e o consolo veio logo. Não mais podendo se utilizar do meu peito como chupeta, Luana passou a dormir a noite toda já no primeiro dia de desmame! Parecia milagre para uma criança que acordava no mínimo quatro vezes por noite.

Desleitei a Luana porque eu precisava dormir! O motivo do meu cansaço (em razão do acorda e levanta toda hora para amamentar a Luana) era forte. E agora? Qual é a “desculpa” para eu tirar a Mariana do peito? O anjinho tem dormido bem melhor, chamando-me apenas uma ou duas vezes por madrugada. A bezerrinha merece “condenação”? Vocês precisam ver o sorriso dela, pedindo, em volume aumentativo: “Mamãe, quero mamar, mamar, mamar!”. E quando ela termina um lado: “Quero mais. O outro, o outro, o outro”. É o trem mais fofo do planeta!

Há quem diga que o bebê precisa ser desmamado logo — para se tornar mais independente e para não interferir na alimentação. E no caso da mãe completamente presa a seu pingentinho sugador? Como incentivá-la a tirar o peito do filho?

Muitos reprovam quem amamente até a criança ficar grandinha. “Ela ainda mama? Não acredito! Isso vai até quando? Até o baile de debutantes? Até o casamento?”. É um povo que teima em se intrometer na relação e na refeição dos outros, hein?

Estou lendo um livro fascinante, chamado “Quarto”, da escritora irlandesa Emma Donoghue, que enfoca a relação de carinho e confiança construída entre uma mãe e seu filho, de cinco anos. Eles vivem confinados num quarto, sem nenhum contato com o Lá Fora. O narrador é o próprio menino, Jack, que sempre pede à mãe para “tomar” um pouco. Trata-se de um garoto muito esperto e cativante, que não dispensa o leitinho da mãe. No caso, além de fortalecer o amor entre eles, a amamentação é até uma fonte nutritiva para Jack, que se alimenta mal naquele cárcere. É bem provável que, se eles vivessem em comunidade, a mãe já teria desmamado o filho; mas, sem a interferência do Lá Fora, eles podem manter esses momentos de graça.

Não, não vou aleitar a minha Flor até os 5 anos. Pelo menos acho que não. Mas talvez eu não tire a pequena do peito neste mês, só porque ela chegou à data limite. Quem sabe quando ela completar 2 anos e 6 meses, ou 2 anos e 11 meses? Não me considero uma pessoa descontrolada ou neurótica. Às vezes até acho que sou uma mãe sensata e equilibrada. Em breve, a questão do desmame estará resolvida, sem grandes traumas! Prometo contar o desfecho.”

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Veja também:

Amélia é que era mulher (e mãe) de verdade…

Campanhas de amamentação: uma análise séria e franca

Quando não é possível amamentar – Marusia fala

O curso mais interessante do mundo

Desde 2003, estou matriculada em um curso de longa duração que queria fazer desde pequena. Sonho de infância. Todo mundo diz que é o melhor, que não existe nada parecido, alcance internacional.

estudantes fazendo prova

Tentei a primeira admissão em 2002, mas infelizmente não obtive êxito. Estava tão obstinada que em 2003 finalmente consegui ingressar. O sistema é mesmo muito diferente. Não raro, tudo o que eu tinha aprendido vai por água abaixo durante as aulas.

Os professores não avisam quando vai ter prova. Por vezes, aliás, acontece de eu nem ter compreendido direito uma matéria e ela já ser cobrada em um teste surpresa. Para ser mais exata, até hoje não vi um único dia que não tivesse prova.

mulher lendo livro

O currículo é puxadíssimo. Tenho que compatibilizar com o trabalho, renunciar a várias coisas. Passar a noite estudando ou fazendo um projeto. Ainda assim, não é garantia para passar. Mais comum é ter de fazer, refazer e refazer. Muitas vezes, para dar conta, faço inscrição nos trabalhos em grupo. Flui melhor.

Em alguns momentos, ocorre bullying. Tem gente que diz que estou fazendo errado, que deveria fazer de outro jeito. Entretanto, se os professores, as disciplinas, os horários e as salas de aula são diferentes para cada aluno, como é que eles querem comparar? Não existe parâmetro.

As aulas são todo dia, inclusive fim-de-semana e feriado. Há aqueles que preferem o módulo à distância, mas eu acho que, nem de longe, tem a mesma graça do curso presencial. Esse é imbatível.

É a experiência mais transformadora de todas e fica mais rica e profunda quanto maior for a dedicação. E digo para vocês: vale a pena cada segundo.

O curso mais louco e lindo do mundo chama-se “Criar Filhos”. Tenho o privilégio de ter três professores exigentes e maravilhosos.

Há três anos, publico minhas anotações de aula na internet. Três anos de aniversário do blog Mãe Perfeita.

Feliz Dia das Mães para todas as minhas colegas de curso!

criança vestida de professor

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A brincadeira mais gostosa do mundo

Quero ser criança quando eu crescer

Por que temos filhos?

O pequeno estrategista

Felicidade real

This post in English: The World’s most interesting course

Felicidade real

Hoje estou no Blog Mãe Bacana, em postagem especial para o Mês das Mães:

Felicidade real

De todas as definições para “filhos”, esta é a que adoro:
“Crianças: adoráveis seres com objetivo de nos fazer sempre revisitar nossas certezas.” (Nanci)
Trata-se de uma permanente reconfiguração do que parecia estabelecido para sempre, acompanhada da inevitável comparação entre “antes” e “agora”.

[continue lendo]

Blog Mãe Bacana de Gisa Hangai

Sobre ballet e bullying

Ballet Lago dos Cisnes

Cisne negro

Há alguns anos, minha cunhada, bailarina de alto naipe, me perguntou se eu matricularia minha filha no Ballet. Respondi que só se fosse a razão da vida dela, que fosse algo que ela quisesse mais do que tudo no mundo, porque minha experiência não tinha sido legal. Que, ao contrário da minha cunhada, eu não tinha muito talento pro negócio, e enfrentei situações muito humilhantes.

Entrei no Ballet aos 8 anos. A primeira professora era fofa. Nos quatro anos seguintes, entretanto, passei a ter aula com outra professora, mais rígida, que estava obcecada para formar um corpo de baile.

Eu nunca tive pretensão de ser solista. Conforme disse, nunca fui habilidosa. Era esforçada, obediente e tímida. E vibrava com os festivais de fim de ano.

Certa vez, fizemos “A Bela Adormecida”. Minha turma era de “aldeãs”. Foi quando eu comecei a sentir a pressão. Ensaiava de domingo a domingo, mas não foi suficiente. Faltando poucos dias para o espetáculo, a professora me tirou de duas coreografias. Durante elas, eu faria figuração, sentada imóvel em um banco no fundo do palco. Na única coreografia de que participei, eu, que tinha mais de 5 graus de miopia, fui obrigada a dançar sem óculos, porque “aldeãs não usavam óculos”.

No ano seguinte, fui cortada de outra coreografia. A alegação foi que eu era muito “baixinha”. Uma colega, que tinha estatura menor que a minha (mas era um esplendor dançando), levantou-se e perguntou: “Se fosse assim, eu também não estaria.” A professora limitou-se a ficar vermelha e não dizer nada. Mas eu entendi tudo.

No último dos quatro anos, minha turma finalmente foi promovida a “corpo de baile”. Menos eu, que teria que voltar para o nível anterior.

Apesar de ser magra como um palito, eu sempre tive o tronco largo, além de uma “pochetinha”. Então, ouvia sempre: “Encolhe essa barriga! Bailarina não tem barriga! Uma linguiça seca como você não pode ter barriga!”

Eu tinha 13 anos. Escrevi uma carta para a professora e saí do Ballet. Hoje, essa abordagem seria considerada bullying. Interessante que a rivalidade não existia entre as colegas (vide minha “defensora”, acima). O bullying que eu havia sofrido partiu de um adulto, do professor, da autoridade.

Minha mãe fica doidinha com essas histórias. “Por que vocês não contaram pra gente?” A resposta é unânime: “A gente não queria incomodar vocês com essas coisas de criança.”

Hoje eu e meus irmãos nos reunimos e lembramos morrendo de rir. Dizemos que é uma espécie de catarse coletiva, e rimos (e nos emocionamos) porque afinal não era privilégio individual de nenhum de nós: todos passamos por isso. Já meu marido não tem a mínima paciência para o que considera uma “autocomiseração”. Ele não concorda, diz que desde pequeno sempre procurou se dedicar ao que sabia fazer, e não o oposto.

Aconteceu com meu filho mais velho. Ele AMA futebol. Resolveu entrar na escolinha. Pensei que podia ser uma maneira de ele aprender a jogar melhor. O professor sempre foi muito respeitoso, mas no terceiro campeonato, meu filho me disse: “Quero sair. Passo a maior parte do tempo no banco. Não acho errado, porque não quero prejudicar a equipe. Então vou procurar algo em que eu seja bom.” Oito anos de idade.

Hoje ele faz Karatê. A academia foi pesquisadíssima, com o medo de ele ir parar na Academia Cobra Kai (de “Karatê Kid A hora da verdade”, lembra?). Todo cuidado é pouco. Pois encontramos o que considero o Sr. Miyagi brasileiro. Vou me permitir ser a coruja das corujas: em menos de um ano, ele já tinha sido aprovado em quatro exames de faixa (branca, azul, amarela e vermelha). Está na laranja. Parece que nasceu pra isso. Fico fofa de orgulho.

Professor da academia Cobra Kai encarando Sr. Miyagi

Karatê Kid – A hora da verdade

Voltando ao Ballet. Eis que, com 4 anos, minha filha entra na aula. Fazia parte da recreação, não era uma academia de Ballet. Pensei que, com isso, o clima seria mais leve. Não quis contaminar a situação com meus preconceitos. Comprei o uniforme e as sapatilhas na maior alegria. Meses depois, ela me pede para sair: “É chato.”

Alunas de ballet na barra e uma delas pendurada de cabeça para baixo

A professora me contou que ela “não tinha a disciplina necessária para o Ballet”. Que, durante a aula, havia uma espécie de “circuito” com objetos de isopor para marcar as estações, e que bastou virar as costas para minha filha misturar todos eles. Na surdina. Com a cara mais angelical do mundo.

Pensei:

Gente!!! Minha filha não tem NADA a ver comigo!!!

QUE MARAVILHA!!!

Quatro anos de idade.

Moral da história 1:

Existem academias e academias. Como pais, devemos ficar atentos. Nem sempre as crianças falam o que acontece nas aulas.

Moral 2: Numa dessas “sessões de autocomiseração” em família, minha cunhada se sentiu à vontade para contar os absurdos que ouvira da professora de Ballet. E olha que ela era solista. Hoje, ela está na turma para adultos e experimenta pela primeira vez “Ballet com amor” (quando criança, ela teve “Ballet com dor”).

Moral 3: Evitemos projetar nos nossos filhos nossas frustrações. Ou nossos sonhos.

Moral 4: Jamais percamos de vista que eles são crianças. Hoje minha filha faz Karatê, também. Se diverte pra caramba com o Miyagi brasileiro.

Menina de quimono lutando karatê

Quem foi mesmo que disse que ela não tinha disciplina?

menino e menina em pose de karatê __________________

Veja também:

Meu filho vai usar óculos

O anjo na areia

Caminhos

This post in English: On Ballet and bullying

Os segredos dos publicitários

Dia desses eu li no Facebook uma definição para alimentos saudáveis: todos os que não têm propaganda.

Os intervalos comerciais trazem realmente uma sucessão de produtos industrializados, cujos apelos se apoiam em:

  • Personalidade de Marca;
  • Design chamativo;
  • Predominância de enredos de conteúdo emocional, com associação a situações prazerosas, até mesmo fantásticas;
  • Praticidade no consumo. Exemplo: “pronto para beber”;
  • Algum elemento racional. Exemplo: “enriquecido de vitaminas”;
  • Presença constante na mídia; repetição.

A propaganda é o que garante visibilidade a esses produtos. E vai se estender em cuidadosas estratégias até ao ponto de venda, seja o supermercado ou a lanchonete.

Propaganda não é mera informação; é informação “embalada para presente”. Para encantar, convencer, persuadir. E superar a concorrência.

Os alimentos saudáveis têm todas as características para superar essa concorrência. Podemos aplicar as táticas da propaganda para dar a eles mais visibilidade.

Então, seguem alguns anúncios que gostaríamos de ver:

propaganda de banana. publicidade de alimento saudável.

Clique na imagem para ampliar

propaganda de água de coco. publicidade de alimento saudável

Clique na imagem para ampliar

anúncio publicitário de palitos de cenoura

Clique na imagem para ampliar

Nos Estados Unidos, a simples reorganização dos refeitórios gerou resultados impressionantes. O que foi feito?

  • Cartazes e banners com fotos maravilhosas de alimentos saudáveis logo na entrada;
  • Mesas com buffet permanente de frutas cortadinhas;
  • Frutas e legumes em bandejas separadas por cor, apresentados bem suculentos;
  • Refrigerantes, frituras, guloseimas fora do alcance dos olhos e da mão – todos escondidos atrás do balcão. Se a criança quiser, vai ter que pedir.
refeitório escolar

Foto: Larry Fisher

Podemos tomar emprestadas essas ideias e testar em casa. Os “garotos-propaganda” não poderiam ser melhores: nós, os pais. Saborear essas delícias em família é o melhor exemplo…

A propaganda é inteiramente fundamentada na marca. Todos os outros apelos são para enaltecer a assinatura, a marca. Podemos convidar as crianças a pensar em nomes, slogans e enredos divertidos para os alimentos.

Os mestres de redação publicitária são taxativos para que os trocadilhos sejam banidos para todo o sempre; mas estes são tão engraçados que a gente abre uma exceção…

Para a criançada que curte super-heróis:

(Campanha completa)

anúncio publicitário de uvas Hortifruti

anúncio publicitário laranja verde Hortifruti

anúncio publicitário He manga Hortifruti

Anúncio publicitário Mulher Marervilha Hortifruti

Para quem gosta de cinema:

(Campanha completa)

anúncio publicitário A incrível Rúcula Hortifruti

anúncio publicitário Hortaliça rebelde. Hortifruti

anúncio publicitário dois milhos de francisco. Hortifruti

batatas do caribe

anúncio publicitário Pepino Maluquinho Hortifruti

anúncio publicitário chuchurek hortifruti

anúncio publicitário e o coentro levou... hortifrutiPara quem adora música:

(Campanha completa)

anúncio publicitário couve garota de ipanema Hortifruti

anúncio publicitário eu uso brócolis Hortifruti

anúncio publicitário like a vagem hortifruti

Para exercitar a imaginação e encontrar formas semelhantes (como nas nuvens!):

(Campanha completa)

anúncio de gengibre Hortifruti

anúncio publicitário beterraba hortifruti

anúncio de tangerina Hortifruti

Para quem lê revista de fofoca:

(Campanha completa)

Revista Cascas Hortifruti

anúncio publicitário Revista Cascas alho hortifruti

Para os antenados em moda:

(Campanha completa)

Publicidade. A moda é usar roxo Hortifruti

A moda é usar verde anúncio da Hortifruti

Esta é importada (Diana Ross):

Na pesquisa, ainda encontrei perdido um anúncio de frutas brasileiras. Mas só foi veiculado no exterior. Apex, vamos divulgar no Brasil também…

campanha para promoção de frutas brasileiras no exterior

Um tiquinho de contrapropaganda:

Pense fora da caixinha. Salada de frutas Hortifruti

A diferença entre a publicidade e a realidade (rs!)

(post completo)

diferença entre foto da embalagem e a realidade

Nossa, agora vou ali na cozinha comer uns palitos de cenoura com água de coco… De sobremesa, uma banana amassadinha, hmmmmmmm! ^^,

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Veja também:

Brinquedos que gostaríamos de ver

Verdades

O que aprendi sobre… desfralde

Bebê usando fralda com gráfico

Por ocasião do desfralde dos pimpolhos, recebi várias dicas da família (mamãe, irmã, cunhada), que funcionaram para mim. A lista foi originalmente publicada no grupo “Desfralde” da Rede Mulher e Mãe.

Qual o melhor momento para o desfralde?

  • Não existe regra. Cada criança tem seu ritmo. Dois anos e meio é uma idade boa para começar, se a criança demonstrar vontade de desfraldar;
  • No inverno, como as crianças suam menos, tendem a fazer mais xixi. A época bacana pra desfraldar é o verão (no calor);
  • Crianças aprendem muito por imitação, e nem sempre os pais ficam à vontade para fazer da ida ao banheiro um evento público. Se ela tiver irmãos mais velhos ou estiver na escolinha, assistir a outras crianças fazerem o mesmo ajuda muito. Outra opção é usar brinquedos – ursinho, boneca, soldadinho…
  • Envolva ao máximo a criança no processo. Explique tudo, convide-a para ir à loja escolher as cuequinhas e calcinhas;
  • Não subestime a quantidade de calcinhas / cuequinhas que eles sujam no início. Compre mais de 1 dúzia;
  • O aspecto emocional é importantíssimo no desfralde. Evite iniciar o processo quando a criança está enfrentando outros desafios, como nascimento do irmão, volta da mamãe ao trabalho, adaptação na escola, alguma doença ou desarmonia em casa;

bye bye fraldas com Piggy muppets

Os apetrechos

  • No início, até comprei peniquinho colorido, desses que toca música. Mas não achei muito prático. Tinha que esvaziar no vaso sanitário e depois proceder à limpeza completa para não deixar mau cheiro. Preferi um assento adaptador, que usaram por muito tempo, até ficarem mais seguros;
  • Se optar por um adaptador, observe se ele está bem preso ao vaso. Se ele ficar frouxo, pode causar acidentes;
redutor para vaso sanitário

Gosto desse, que acopla no assento

  • Até hoje eu acho o Ó do Borogodó levar meus filhos aos banheiros públicos. Uma ótima sugestão é comprar protetores descartáveis de plástico para forrar o assento (aprendi com as Motherns);
  • Aproveito para fazer o apelo de órgãos públicos e empresas incluírem, em seus projetos arquitetônicos, o WC de família. Pai passeando com a filha: em que WC ele entra, oras bolas?
protetor de assento de vaso sanitário descartável

Protetor de assento

As “escapadas”

  • Xixi e cocô escapam, mesmo. Isso é natural;
  • Lembre-se de que a criança NUNCA teve necessidade de avisar ou de segurar para fazer no banheiro, uma vez que até agora ela usava fraldas. Tudo é novo para ela, e é necessário ter paciência;
  • Compre dois plásticos (desses de forrar livro), mais ou menos com 80x80cm. Quando eles estiverem no sofá / tapete / na cadeirinha do carro, forre com um dos plásticos e ponha por cima uma fralda de pano (para não escorrer). Ajuda muito na hora de limpar quando o xixi ou cocô “escapole” e evita molhar o sofá / tapete / o carro etc…;
  • Em casa, não é necessária superprodução, dá para nos primeiros dias a criança ficar só de calcinha ou cuequinha (menos roupa para lavar);
  • Criança que se entretém na brincadeira se esquece de ir ao banheiro. Ou fica segurando. Cuidado com isso, pode causar problemas sérios como prisão de ventre ou infecção urinária, e o desfralde pode ficar mais complicado;

criança usando o vaso sanitário

O desfralde noturno

  • Tire primeiro a fralda do dia; somente depois de totalmente controlado, comece a tirar a fralda da noite. Um bom indício é a fralda amanhecer sequinha;
  • Para tirar a fralda da noite, lembre-se de no início oferecer o último líquido para a criança 1 hora antes de dormir; leve ao banheiro antes de deitar; se for o caso, acorde de madrugada para levá-la, mesmo que esteja dormindo;
  • Eu também usava um plástico em tamanho maior para forrar a cama, por baixo do lençol. É fácil para limpar: apenas tirar o excesso, passar Veja e depois Álcool para evaporar. O protetor de colchão é mais um item para lavar, demora para secar e, mesmo que vc tenha mais de um, pode acontecer de a criança fazer xixi mais de uma vez na mesma noite;

bebê lendo livro sentado no vaso sanitário

As Dicas de Ouro

  • Uma vez iniciado o desfralde, RESISTA À TENTAÇÃO DE VOLTAR ATRÁS. Interromper toda hora faz com que a criança não aprenda e se sinta insegura;
  • Não compare. Um dos meus filhos levou 15 dias; o outro, apenas 3; e a outra… 3 meses.

Boa sorte!

=)

mãe vem me limpar

Esse “ritual” vai até os seis anos…Criação: Laerte

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Veja também:

A cidade dos cocôs

Do travesseiro ao copinho de boneca: breve história da menstruação

O que aprendi sobre… sono

O que aprendi sobre… gravidez

Conselhos que amei

Verdades

Sites visitados:

Nemo e a construção da paternidade

Utilização de Nemo no setting terapêutico

Violência na Turma da Mônica

Em defesa da Turma da Mônica

Princesas Disney

As princesas Disney e o feminismo

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Abaixo, estão versões diferentes de três produções infantis:

Marlin, Nemo, Dory no fundo do mar

Procurando Nemo – Disney Pixar

Órfão de mãe, portador de necessidades especiais, enfrenta o pai dominador. O enredo apresenta, sem cortes, cenas de canibalismo, sequestro de crianças, trabalho infantil, vício, mentira, violência e perseguição. Emocionante aventura de um pai em busca do filho, repleta de lindas lições, como a superação, a confiança, a amizade, o estabelecimento de metas e o autoconhecimento. Além disso, oferece novas perspectivas acerca da paternidade: os desafios, o conflito entre ser pai ou amigo do filho e o imprescindível amor paterno no desenvolvimento da criança.
Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali

Turma da Mônica – Mauricio de Sousa

Histórias de um grupo de crianças, em situações estereotipadas e sistemáticas de pancadaria, bullying, compulsão alimentar, inconsequência e falta de higiene. Uma produção que extrapola o mundo dos quadrinhos (atualmente um monopólio nacional, na falta de outras opções de gibis para crianças no Brasil) para compor uma poderosa indústria de bens de consumo. Histórias de uma turma de crianças que trazem lições como amizade, autoestima, criatividade, respeito à diversidade, em um ambiente bem brasileiro. Os quadrinhos mostram como pode ser divertido brincar na rua e a importância de se cuidar do meio ambiente. A personagem principal é do sexo feminino, que sabe se defender e exercer sua liderança sobre o grupo. Ela e as outras crianças foram inspiradas nas filhas e nos amigos de infância do autor, o que explica a sensação de identificação e a familiaridade por parte do leitor.
Aurora, Ariel, Branca de Neve, Jasmine, Cinderela e Bela

Princesas Disney

Universo sexista, em que as mulheres só têm valor se forem bonitas, e cuja realização pessoal só é possível no casamento. Para alcançar esse ideal, elas abandonam suas famílias e seus amigos, abrem mão de seus talentos e são capazes até mesmo de mudar o próprio corpo. Uma delas, na verdade, nem precisou estar acordada para conseguir a atenção do futuro marido. Adendo: Os homens também precisam ser lindos e ricos. Um convite ao sonho e à fantasia, com protagonismo feminino. No reino encantado dos contos de fadas, mulheres corajosas demonstram doçura, bondade, solidariedade e sacrifício pelo outro, e provam que a força poderosa do amor sempre vence o mal.

E aí? Qual é a versão “verdadeira”?

Nenhuma delas.

Porque nada é totalmente bom, nem totalmente mau. Nada tem apenas um lado.

Apegar-se a uma versão é fazer como os cegos que apalparam um elefante. Quem tocou na tromba, achou que era um bambu. Quem tocou no dorso, uma parede. O rabo virou uma corda; a pata, um pilar. Ora, um elefante não é uma soma de bambu, parede, corda ou pilar. É um todo, um conjunto maior que a soma dessas partes isoladas.

Os cegos apalpando o elefante

E quando o elefante nem existe? É uma ilusão, como essa gravura de cinco patas?

ilusão de ótica desenho de elefante

É o mesmo caso dessas produções infantis: não existem. São pura ficção, de entretenimento.

Nemo realmente é órfão, Marlin realmente é dominador. Há cenas de canibalismo (a barracuda que devora a mãe de Nemo), sequestro (o mergulhador que o leva para o aquário), exploração infantil (quando Gil o convence a travar o filtro). Mas também é uma história de superação e oferece uma rica gama de visões sobre o amor paterno.

Mônica realmente bate nos amigos, porque é vítima de bullying. Maurício de Sousa realmente tem muitos licenciamentos de produtos da Turma da Mônica, mas isso é reflexo do sucesso dos personagens. Magali é compulsiva, Cascão é avesso à higiene. Contudo, até esses estereótipos são úteis para ensinar. Existem vários exemplos de respeito às diferenças e exercício da cidadania. Fora que as histórias, tão brasileiras, são garantia de diversão.

Sobre as princesas Disney, elas são mais que o somatório das duas versões, a misógina e a cor de rosa.

A pergunta que surge é: por que essas e outras produções midiáticas fazem tanto sucesso entre as crianças, geração após geração? Muito, muito além de questões como consumismo e alienação, elas fazem sucesso porque contêm uma fortíssima carga simbólica. Porque trazem arquétipos e outros aspectos universais. Não necessariamente são exemplos a ser imitados.

Todos esses personagens e suas histórias estão abertos a infinitas interpretações. E continuarão a produzir sentidos no futuro.

Como diz Eni Orlandi, em Análise do Discurso, “sujeito e sentido se constituem ao mesmo tempo” (Discurso em Análise. Editora Pontes, 2012). Isso significa que, ao ter contato com determinado discurso, a pessoa que interpreta e a interpretação são indissociáveis. Além disso, autora afirma que “o sentido não se fecha, assim como o sujeito também é itinerante”. O mesmo discurso, portanto, é passível de inúmeras análises, até pelo mesmo sujeito.

E assim dão margem a muitas releituras:

princesas Disney vestidas como as vilãs

Como vilãs

Princesas Disney fazendo careta

Fazendo careta

Princesas Disney acima do peso

Inspiradas nos quadros de Fernando Botero

Ariel, Branca de Neve, Bela e Cinderela de óculos

Mulheres de óculos

Princesas Disney sem cabelo

Apoio na luta contra o câncer

Branca de Neve com bebês e marido descansando

Quem sabe o príncipe virou um sapo…

Quadrinho com princesas Disney falando dos maridos

Princesas na versão Desperate Housewives

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Brancas de Neve guerreiras: Once upon a time, Espelho espelho meu e Branca de Neve e o caçador

Princesa Merida com arco e flecha

Merida, uma princesa Disney que não se casa no final

O que fazer diante de Nemo, Mônica, princesas e todos os outros produtos infantis de entretenimento? São muitas as opções:

  1. Evitar que a criança tenha acesso a eles, para protegê-la;
  2. Esperar que a criança tenha maturidade antes de ter acesso a esses produtos;
  3. Deixar a criança escolher o que quer ver e confiar que ela saberá a diferença entre ficção e realidade;
  4. Mostrar os produtos à criança, até para que ela conheça o “lado sombrio da Força” e saiba se defender;
  5. Explicar à criança os prós e os contras;
  6. Deixar que a criança apresente sua própria interpretação sobre os produtos;
  7. Outras.

E aí? Qual é a opção correta?

Ora, essa também não é uma questão de certo ou errado. Cada família deve optar por aquilo que faz SENTIDO para ela, em razão de suas possibilidades e suas crenças. E nem sempre o que é verdade para uma, o é para outra.

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Veja também:

Mães de animações e seriados 2: o que elas têm em comum?

Mães de animações e seriados 3: por que nos identificamos e espelhamos nelas?

A doação de brinquedos ou Síndrome de Toy Story

Toy Story é um fenômeno. A história é cativante, inteligente, a animação é primorosa. Mas penso que há outro aspecto que explique seu sucesso: a identificação do público com os personagens. Quem nunca imaginou que seus brinquedos tivessem realmente vida própria?

andy and woody
brinquedos de toy story na caixa

Eu, por exemplo, tinha 16 bonecas. Aos 9 anos, me apaixonei por uma que ganhei de Natal, a Dindin. Ao mesmo tempo, olhava para as outras 15, na prateleira… Tadinhas! Em brincadeira pode tudo, mas ser mãe de 16 definitivamente não estava em meus planos. Então resolvi abrir um “orfanato”. Era ótimo, porque eram horas e horas brincando, pra dar conta de lavar tantos pratinhos e roupinhas, dar banho em todas e colocar para dormir.

boneca Dindin, da estrela

Dindin

O problema é que até hoje eu tenho síndrome de Toy Story. Não posso dizer que os brinquedos têm vida (ninguém me provou o contrário rsrs!), mas com certeza eles têm história. Estão impregnados dos significados que damos a eles.

Todos os anos, fazemos uma triagem enorme aqui em casa. Separamos o que não serve mais, o que segue para doação e o que é para o lixo. Com roupa não há problema. O problema são os brinquedos. O “estado” dos ditos cujos não é o critério, afinal os mais velhinhos tendem a ser os mais “brincados”. Idem os brinquedos de sucata, afinal, qual merece ficar: um brinquedo lindo industrializado ou um todo amarfanhado mas feito por eles?

pesadelo do Woody

Meus filhos estão acostumados e ajudam em tudo, separam os que não querem mais. Mas aí eu começo: “Ooooooh, o cachorrinho que foi presente da sua vó… tem certeza?….”

Pois no fim do ano passado, com a Campanha Natal sem Fome do Comitê de Ação e Cidadania (o do Betinho), lá vai Marusia e sua sacola com vários bichinhos de pano. Meu caçula chegando aos 5, ninguém mais brincava com os bichinhos. Entre eles, estava uma tartaruga de plush que eu havia comprado para meu filho mais velho, quando estava grávida de 2 meses. Foi o primeiro brinquedo que eu comprei pra ele. Bastou eu olhar para a tartaruga e pronto. Disfarcei pra ninguém me ver chorando ao depositá-la na caixa de coleta.

woody dando tchau

Mais tarde, entendi que meu choro não foi apego ao bichinho, mas saudade de quando meu filho era bebê, saudade de quando ele estava na minha barriga… E, no final, a mesma síndrome de Toy Story que me fez chorar foi o que me salvou, ao pensar na criancinha que ia receber a tartaruga de Natal…

Bonnie abraçando Woody

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Veja também:

A brincadeira mais gostosa do mundo

Lembranças de infância

Quando eu era criança, achava que…

Onde está meu bebê?