De Wilma Flintstone à Mulher Elástica

De Wilma Flintstone à Mulher Elástica: formações imaginárias da mãe em animações e seriados [1]

Ana Marusia Pinheiro Lima MENEGUIN [2]

Resumo

 Este artigo faz uma análise das personagens mães de animações e seriados do cinema e da TV. Inicialmente, são descritos comportamento, inserção e papel nas respectivas famílias, no contexto de cada produção. Em seguida, são levantadas as regularidades que guardam umas em relação às outras. Por último, são identificados os paralelos com as mães reais, e o que tornam as personagens da ficção de entretenimento modelos ou referências, ao mesmo tempo em que são reflexos e mais ainda: sínteses de uma sociedade em busca de respostas. O suporte teórico e metodológico é a Análise do Discurso francesa – AD, que procura observar como se dá a produção do sentido que pode justificar o consumo reiterado dessas obras de ficção – e das formações imaginárias que delas emergem.

Palavras-chave

Seriado; Animação; Mãe; Família; Análise do Discurso.

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Há seriados e animações da TV e do cinema que se tornam verdadeiros ícones culturais. Amealham sucesso em diversos países ao redor do mundo, encantando diferentes gerações por décadas, desde que foram lançados. São histórias que continuam fazendo rir e, o mais importante: continuam mobilizando sentidos.

Aqui, foram escolhidas diversas produções que têm em comum as características acima e o fato de apresentarem, como fio condutor do enredo, o cotidiano em uma família dita “nuclear”. São famílias que se tornam íntimas de famílias reais, seja pela constância com que os episódios são vistos, seja por retratarem ou subverterem padrões com os quais todos se identificam, a saber: “Família Dinossauro”, “Os Flintstones”, “Shrek”, “A Família Addams”, “A Feiticeira”, “Os Simpsons”, “A Grande Família”, “Os Incríveis” e “Os Jetsons”.

A fim de introduzir o assunto e traçar um breve panorama de cada família – com ênfase nas mães – foi feito um levantamento aleatório do que se diz sobre cada uma delas em diversos sites na internet. Ressalte-se que essa transcrição é valiosa para a análise, porque revela como se processa a visão e a apropriação das personagens por parte do público destinatário – e os motivos pelos quais elas são consideradas “boas mães”.

“Família Dinossauro”. Mãe: Fran da Silva Sauro

O enredo se passa na Era Mesozóica. Fran é casada com Dino e tem três filhos: Bob, Charlene e Baby. Segundo informações colhidas na web, é a “simpática matriarca da família e perfeita dona de casa. Muito dedicada, Fran vive apenas para cuidar do marido e dos filhos” (Infantv), filhos esses “muito barulhentos e revoltados” (Diarinho – Diário de Pernambuco), para os quais é necessária “uma paciência incomparável” (Edukbr). Fran “muitas vezes se sente caçoada e deseja conversar mais tempo com a família. Sua melhor amiga, Mônica Desvertebrada, influencia Fran a lutar pelos seus direitos.” (Wikipedia).

“Os Flintstones”. Mãe: Wilma Flintstone

O enredo se passa no ano 1.040.000 A.C. Wilma é casada com Fred e é mãe de Pedrita. É “exímia dona-de-casa. [...] já pensou em trabalhar fora várias vezes, mas seu marido Fred é contra” (Wikipedia). “Uma mãe muito vaidosa, gentil, paciente e talentosa. A filha dela, Pedrita, diz que ela é o tipo de mãe perfeita, e faz de tudo para proteger toda a família.” (Diarinho – Diário de Pernambuco). Para a UOL JC Kids, “apesar de viver no tempo dos dinossauros, é muito moderna.”

“Os Flintstones”. Mãe: Betty Rubble

Esposa de Barney, Betty é mãe adotiva de Bambam. Segundo a web, “está sempre de bom humor. [...] as famosas risadinhas encantam toda a família. Bambam, seu filho, adora o jeito atencioso e engraçado da mãe.” (Diarinho – Diário de Pernambuco). É “o modelo de esposa perfeita, devotada e muito paciente e talentosa, para livrar seu marido das encrencas que ele se mete.” (Edukbr)

“Shrek”. Mãe: Fiona

O enredo se passa no mundo dos contos de fadas, na Idade Média. A princesa Fiona é esposa do ogro Shrek e tem trigêmeos. “É o tipo de mãe que acompanha todos os passos do filho e não perde nenhum movimento dele. Sempre participativa, ela adora fazer comidinhas para a família.” (Diarinho – Diário de Pernambuco)

“A Família Addams”. Mãe: Mortícia Addams

Morticia é casada com Gomez e tem dois filhos: Wandinha e Feioso. A web lhe atribui os seguintes adjetivos: “é o coração e a alma da família Addams” (Wikipedia). “É uma mãe não-convencional. Ela deixa os filhos brincarem com cobras, veneno e poções perigosas. Mas também, pudera. Ela é a matriarca da Família Addams, a família mais esquisita dos cinemas.” (UOL JC Kids). Morticia também faz questão de organizar o lar, ainda que “com um ar bem tétrico.” (tvsinopse)

“A Feiticeira”. Mãe: Samantha/A Feiticeira

Samantha é casada com James e tem dois filhos: Tabatha e Adam. Ela é uma feiticeira, e pode fazer mágica com um simples movimento do nariz. “Está sempre tentada a usar todos os seus poderes, para facilitar a vida do casal. Mas o amor fala mais alto e para não desagradar ao marido, vive driblando sua natureza de bruxa.” (Wikipedia)

“Os Simpsons”. Mãe: Marjorie/Marge Simpson

Marge é casada com Homer e é mãe de Lisa, Bart e Maggie. Tem “personalidade muito paciente. Mesmo Homer aprontando inúmeras confusões, ela continua sendo uma esposa fiel e dedicada, assim como é para com os filhos. Com poucas exceções, Marge gasta a maior parte de seu tempo como dona de casa. [...] É na verdade um estereótipo de dona de casa suburbana dos anos 1950.” (Wikipedia). Mais adjetivos: “compreensiva, paciente e tranquila” (pt.simpsons.wikia.com), “superbrincalhona, mas ao mesmo tempo, educada e preocupada com as trapalhadas do marido e do filho, Bart” (Diarinho – Diário de Pernambuco). Marge “é do tipo que dá a vida por sua família.” (Edukbr)

 “A Grande Família”. Mãe: Irene / Dona Nenê

Irene, conhecida como Dona Nenê, é casada com Lineu e tem dois filhos: Tuco e Bebel. A web a descreve como “a matriarca de todos os telespectadores brasileiros. Dona de casa primorosa, companheira e mãe zelosa [...], um porto seguro para aqueles que vivem a sua volta. [...] Compartilha dívidas, discussões e uma disposição agregadora incrível. Nunca diz não para a família. Se a sua mãe não é igual a Nenê, provavelmente você adoraria que ela fosse como a personagem.” (Colunistas Yahoo). Ter uma mãe assim “significaria poder contar com ela mesmo quando fizéssemos algo bem errado. [...] se não fosse por ela, a harmonia da família Silva já teria ido por água abaixo há muito tempo.” (Batalha do Ibope)

“Série brasileira há mais tempo no ar, ‘A Grande Família’ oferece um pouco de nostalgia, mostrando um modelo familiar que parece ter ficado no passado. Casamentos duradouros nem sempre são uma realidade. Além disso, muitas mulheres se desdobram em jornadas duplas ou triplas, tentando equilibrar trabalho, família e anseios pessoais.

“Porém, independentemente da realidade feminina nem sempre ser parecida com o cotidiano de Nenê, a identificação com a personagem é quase uma constante. Grande responsável pela harmonia entre personalidades tão dissonantes, ela é a síntese do que muitas mulheres são no lar.” (Colunistas Yahoo)

“Os Incríveis”. Mãe: Mulher Elástica/Helena Pera

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, é esposa de Roberto Pêra, o Sr. Incrível. Têm três filhos, todos superpoderosos: Violeta, Flecha e Zezé. Assim a web descreve sua personalidade: “Helena parece ser a única no casal a se preocupar com os filhos. Ela parece bastante estressada em sua tentativa de preencher o vazio deixado por Beto em sua ausência como pai de verdade.” (Wikipedia). “Mãe aventureira, radical e superprotetora. Ela possui superpoderes incríveis e consegue esticar o corpo todo para enfrentar as aventuras que passa junto aos filhos e marido” (Diarinho – Diário de Pernambuco). “Qual mamãe não gostaria de ser elástica para poder dar conta de todos os serviços e ainda brincar com os filhos?” (UOL JC Kids)

“Os Jetsons”. Mãe: Jane Jetson

O enredo se passa no futuro, com a tecnologia presente em cada detalhe do dia-a-dia das personagens. Jane é esposa de George e mãe de Elroy e Judy. “É o tipo de mãe exemplar e ao mesmo tempo moderninha.” (Diarinho – Diário de Pernambuco). “A mamãe do futuro cuida dos filhos [...] e ainda tem que fazer de tudo para manter o apartamento da família (o Sky Pad) impecável.” (UOL JC Kids)

O que as mães de animações e seriados têm em comum? São ponderadas, sensatas. Centralizam e organizam a família em torno de si, são responsáveis por manter o equilíbrio da casa. São amorosas e dedicadas e suportam tudo.

Nenê da Grande Família é exceção: não encarna o lado racional da família. Puro sentimento, às vezes se atrapalha. Lineu assume a posição de sensato da casa, papel normalmente confiado às mulheres nessas produções.

Nenhuma das personagens trabalha fora de casa. As que experimentam acabam voltando. O dilema trabalho versus casa, portanto, é extirpado, bem como o babá versus creche.

O trabalho da casa é realizado integralmente pelas mães, exceto Jane Jetson, que tem a ajuda da robô Rose, e Mortícia Addams, que conta com o mordomo Frank e a mãozinha Coisa. Wilma Flintstone também tem a ajuda de seus eletrodomésticos com animais.

Todas as mães têm que esconder seus “superpoderes”, mas sempre “salvam” a família de enrascadas. Esses poderes podem ser mágicos, como no caso da Feiticeira Samantha, ou talentos profissionais, como o da hábil comunicadora Fran Sauro, que desiste de apresentar um programa de TV para cuidar da casa.

Não existe revolta. Todas estão resignadas em seu papel, cientes disso e de sua importância para a família.

Todas as personagens estão em boa forma física, ainda que não se explicite de que maneira elas chegam a esse resultado. Fran Sauro também, dentro do que se espera de um ser de sua espécie.

Os maridos são infantilizados e atrapalhados (também com exceção de Lineu). Trabalham como funcionários em empresas. Estão insatisfeitos com o trabalho, mas são conformados (exceto Gomez Addams: “um advogado que acumulou uma riqueza invejável e que agora vive tranquilamente acariciando seu polvo e explodindo trens de brinquedos em sua mansão.” – TVSinopse).

Sugestionáveis, ingênuos e teimosos, os pais das famílias de seriados e animações sempre se metem em confusão. Assim, as mulheres se posicionam como mães de toda a família, incluindo os maridos.

Seja na Idade da Pedra, na Idade Média ou no futuro, os padrões se repetem, se mantêm. Shrek, por mais anárquico que se pretenda, apresenta Fiona como uma mãe zelosa ao molde das demais. Ou seja, o roteiro de Shrek subverte tudo – a princesa é uma ogra, o herói é um ogro, a fada madrinha é má -, exceto o que se entende como amor materno.

As geleiras recuaram e os mamutes estão extintos, mas essa relíquia do pleistoceno ainda passeia em nossa sala de visita: Mamãe cria os filhos. (MAHONEY – 1995, apud MAUSHART- 2006, p233)

São todas famílias nucleares – pai, mãe, filhos -, com intervenções de parentes em alguns casos. O protótipo do que se difunde como uma típica família dos anos 1950.

Nas produções, é curiosa a presença de outras mães, as mães das mães: as sogras. São vozes femininas de chamado à consciência. Elas parecem discordar da escolha das filhas e de tudo a que as elas se submetem, e estão sempre dispostas a aborrecer os genros. São incômodas, não concordam com nada, mas também não ajudam nos afazeres (às vezes até pelo fato de contestá-los). Trata-se de um reforço contínuo ao estereotipado conflito entre sogras e genros.

Outras figuras podem cumprir o papel da sogra: a dinossaura Mônica (Família Dinossauro), a modista Edna (Os incríveis), as irmãs de Marge Simpson (Os Simpsons). Em Shrek, quem cria problemas é o sogro, mas por temor de que sua identidade verdadeira seja revelada (trata-se de um sapo transformado em humano).

Interdiscurso: O amor materno

Nunca foram necessárias tantas qualidades para que uma mulher se sinta uma boa mãe, como nas últimas gerações. Um misto de administradora, executora, conciliadora, sempre com um sorriso no rosto e uma deliciosa refeição à mesa, tudo sem descuidar da beleza. Mas a mais preciosa e indispensável de todas as características é o amor incondicional.

A grande paráfrase na formação imaginária da mãe em seriados e animações é o que se concebe como amor materno. Se alguns comportamentos ou formas de resolver as coisas são intrínsecas a cada família (umas são mais engraçadas, outras mais rígidas, umas mais conservadoras, outras menos ortodoxas), o que permanece regular é a capacidade inesgotável de suportar tudo a fim de manter a unidade da família.

Aminatta Forna aponta o mito da maternidade como o mito da “Mãe Perfeita”: aquela que se devota integralmente não só aos filhos, mas também a seu papel de mãe, com compreensão, amor, entrega total e imensos sacrifícios. (FORNA, 1999, p11)

Forna também encontra a imagem que melhor representa o amor materno: Nossa Senhora. Mas, segundo ela, é fácil ser plácida e serena com um bebê como o menino Jesus. Ser plácida e serena com filhos como Bambam Rubble (que hoje seria considerado hiperativo), Bart Simpson e Baby Sauro é muito mais heroico – e digno de admiração.

Para Elizabeth Badinter, esse conceito de amor materno (ou mesmo a noção de “instinto maternal”) é algo que foi construído – e o mais instigante: não pelas mães. O que ela chama de mito do amor materno tem sua raiz na necessidade de mudança de foco em relação à infância: as crianças, antes tidas como seres imperfeitos e incompletos que necessitavam de correção, passam a encarnar a esperança do futuro. A partir desse momento, os especialistas se dedicam de forma insistente a provar que sobre a mãe recai a responsabilidade primordial (e exclusiva) de formar os novos indivíduos.

Enclausurada em seu papel de mãe, a mulher não mais poderá evitá-lo sob pena de condenação moral.

[...] Ao mesmo tempo em que se exaltavam a grandeza e a nobreza dessas tarefas, condenavam-se todas as que não sabiam ou não podiam realizá-las à perfeição.

[...] Tomara-se o cuidado de definir a ‘natureza feminina’ de tal modo que ela implicasse todas as características da boa mãe. Assim fazem Rousseau e Freud [...]: sublinham o senso da dedicação e do sacrifício que caracteriza, segundo eles, a mulher ‘normal’. Fechadas nesse esquema por vocês tão autorizadas, como podiam as mulheres escapar ao que se convencionara chamar de sua ‘natureza’? (BADINTER, 1985, p238)

Sobre os dons físicos das mulheres foram assentando-se incumbências subjetivas: a de ser uma espécie de lastro, de fio terra, e de quem coloca a pedra fundamental em cada novo sujeito humano. (CORSO & CORSO, 2011, p214)

Com o passar do tempo, o conceito fabricado de amor materno passou a ser ampla e irrefutavelmente aceito, naturalizado como se sempre tivesse existido. A paráfrase se firma de forma orgânica, quase óbvia e por isso imperceptível, caracterizando a ideologia presente nos discursos relacionados à maternidade.

A ideologia será então percebida como um processo de produção de um imaginário, isto é, produção de uma interpretação particular que apareceria, no entanto, como a interpretação necessária e que atribui sentidos fixos às palavras, em um contexto histórico dado. A ideologia não é um conteúdo ‘x’, mas o mecanismo de produzi-lo. (ORLANDI, 1996, p65)

Orlandi chama a atenção para o lugar-comum de se atribuir à ideologia um movimento de esconder conteúdos por trás de falsas fachadas:

O processo ideológico não se liga à falta, mas ao excesso. A ideologia representa a saturação, o efeito de completude que, por sua vez, produz o efeito de “evidência”, sustentando-se sobre o já dito, os sentidos institucionalizados, admitidos por todos como ‘naturais’.[...] Assim, na ideologia não há ocultação de sentidos (conteúdos), mas apagamento do processo de sua constituição. (ibidem, p66)

As mães de seriados e animações, assim, personificam formações imaginárias compartilhadas. Também ocupam o lugar de fala da “mãe”, e dele emana sua autoridade. E é a partir dessas formações imaginárias que se dão os mecanismos de funcionamento do discurso.

Não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como tal, isto é, como estão inscritos na sociedade, e que poderiam ser sociologicamente descritos, que funcionam no discurso, mas suas imagens que resultam de suas projeções. (ORLANDI, 2001, p40)

Ainda que as personagens mães vivenciem situações surreais, em produções ficcionais de puro entretenimento, mantêm em seu cerne algo que é muito caro à sociedade. E fazem muito eco às aspirações mais íntimas de cada ser humano. Assim, o amor materno é sedimentado e sacramentado demais para ser objeto de brincadeira. O amor materno é a verdade mais incontestável de todas. A mãe é uma imagem consoladora. Corso e Corso (2011) reiteram que negar isso é insuportável para a psique e para a sociedade como um todo.

Põe-se em cheque uma série de cânones e papéis, como na desvalorização masculina e paterna, mas a mãe perfeita permanece intocada. Os homens não se identificam nos pais de desenhos e seriados; projetam em seus próprios pais, a quem dirigem suas críticas. Já as mulheres veem nas mães dos seriados e animações modelos do que se entende por “boa mãe”.

Formação discursiva: Maternidade

Do amor materno se derivam ainda outros sustentáculos para a formação imaginária da mãe presente em seriados e animações do cinema e da TV – sua adoção e permanência.

Em primeiro lugar, o fato de que transformações profundas ocorreram na vida de muitas mulheres das últimas gerações, que as impede de olharem para as próprias mães como modelos. (ASHORTH & NOBILE, 2008).

Susan Maushart (2006) enfatiza ainda a presunção e arrogância que torna maior o abismo entre as mães de hoje e a de mulheres que as antecederam na maternidade. Para ela, um conhecimento inestimável foi perdido com a quebra desse elo, inédita na história da humanidade. Tudo sob a alegação de que as mães da geração atual podem fazer diferente.

As mulheres não se espelham mais nas próprias mães. A grande contradição é que, enquanto os ideais de perfeição no “fazer” mudam com o tempo, os ideais de perfeição na postura da “mãe perfeita” se mantêm.

Pensávamos que conosco seria diferente [...]. A questão não é o choque do novo, e sim o choque do velho. Surpreendemo-nos levando uma vida de família mais ou menos como nos lembrávamos dela, e cada vez menos como a teorizamos. Acabamos descobrindo, para grande espanto nosso, que, quanto mais nossas ideias sobre família mudaram, tanto mais nosso comportamento no seio dessa família continuou o mesmo. (MAUSHART, 2006, p271)

Somado à constatação de que as crianças também mudaram muito – a mulher também não vê nos filhos a criança que foi –, tudo isso resulta em um perene sentimento de inadequação, de estar perdido, em busca por um lugar.

Corso & Corso (2011, p13), em sua experiência de psicanalistas, relatam o “sofrimento daqueles que julgam estar na família errada, uma ideia de que sua família não é como deveria ser ou não se comporta adequadamente como uma ‘verdadeira família’.” Os autores se perguntam: e qual é a família certa para os dias de hoje?

Sem bússola, e diante do excesso de escolhas, de expectativas e de responsabilidades, as mães encontram na mídia modelos dourados, que se acredita serem eternos desde sempre, pela função apaziguadora da paráfrase no discurso.

A ficção não é apenas uma forma de diversão, é também o veículo através do qual se estabelece um cânone imaginário utilizado para elaborar algum aspecto da nossa subjetividade ou realidade social. As personagens e suas histórias apresentam situações típicas sobre determinada questão para que isso possa ser compartilhado, elaborado, assim como utilizado como parâmetro para nossa vida. Nossas histórias favoritas acabam sendo fontes de inspiração e identificação, refinam ou embrutecem nossa sensibilidade, nos ampliam ou cerceiam os horizontes, sendo, portanto, decisivas para o que nos tornamos. (ibidem)

E, de certa forma, na mídia também se vislumbra uma redenção: por mais que as mães das animações e seriados se dediquem, os filhos se metem em encrencas do mesmo jeito. Suporta-se qualquer coisa, tolera-se qualquer trapalhada, admitem-se até as falhas. Perdoa-se qualquer coisa, menos que falte amor. Por outro lado, a característica de “sofrer, se anular, se sacrificar” é enaltecida – as coisas sempre ficam piores sem a presença da mãe.

 Ensaiando uma polissemia: Mulher elástica

Helena, a identidade secreta da super-heroína Mulher Elástica, é a mãe da família de Os Incríveis. Ela merece uma análise à parte porque, no decorrer do filme, vai revelando facetas que a princípio podem distanciá-la das demais mães apresentadas anteriormente.

A Mulher Elástica é feminista no início da história. Em uma entrevista jornalística, ela discursa: “Sossego, qual é? Tô no auge da forma, em briga de cachorro grande. Garotas, na boa: deixar o mundo ser salvo pelos homens? Claro que não. É claro que não.”

Ela se casa com Beto Pera, o Sr. Incrível, mas algo põe a perder suas carreiras de super-heróis. O Sr. Incrível não se conforma em se esconder por trás de um medíocre vendedor de seguros. Mas a ex-Mulher Elástica parece conformar-se com a nova vida. Isso é um paradoxo, que vai contra o que ela diz na entrevista do começo do filme, no auge da juventude, e também para ele, que na mesma entrevista diz planejar constituir família.

Helena se resigna com seu papel de mãe zelosa. E luta para defender essa nova situação como uma escolha própria sua.

- Pessoal, estes são os meus novos vizinhos, Beto e Helena Pera. Helena, Beto, esta é Beth Anderson. Ela é corretora de commodities da Bolsa de Mercadorias.

HELENA- Ah, uma corretora de commodities. Parece interessante.

BETH- É realmente um desafio, mas tenho que ser honesta contigo, eu adoro. E o que você faz, Helena?

- Eu sou dona de casa. Bom, a gente tem só uma filha, ela dá bastante trabalho, né. Ela toma muito nosso tempo, né, bebezinho da mamãe? Ser mãe realmente é uma entrega total. Você tem que…

- Ah, que bom. Dá licença, querida! (Em outro grupo de mulheres): Ah, ah, ah, desperdiçar os meus melhores anos com um monte de pestinhas agarrados à barra da minha saia? Não, obrigada! Tá doida? Alooooô, eu quero fazer alguma coisa da minha vida.

- Não, ‘pera aí um pouco. Que absurdo! Você acha que criar uma família é fácil??

- Olha, é legal, se você não é capaz de fazer coisas mais significativas…

- Você faz ideia de como o mundo seria melhor se mais pessoas fossem dedicadas a serem apenas bons pais? O que é mais importante que isso? Que tipo de trabalho é? Trabalhar salvando vidas? Isso é mais importante?

- Bom, é…

- E que tal arriscar a minha vida? Que tal enfrentar das forças do mal todo dia para que pessoas como você possam dormir com segurança? Consideraria esse tipo de trabalho “significativo”?

- É, olha, eu acho que sim, claro.

- Pois é, foi esse tipo de trabalho que eu abandonei para assumir meu novo dever que é a criação da minha família. E ninguém vai me dizer que isso é menos importante.

Esta cena, apesar de não fazer parte da montagem final e ser pouco conhecida (presente apenas nos bônus do DVD), diz muito sobre Helena. Essa personalidade está impregnada em seus gestos, nas entrelinhas, na consciência da importância do seu papel – mas também encerra um rancor, um desconforto. O diretor do filme diz que se inspirou em uma situação semelhante ocorrida com sua própria mulher, que foi convencida a ficar em casa para cuidar dos filhos. Trata-se de um referencial individual, mas em consonância com algo universal e compartilhado pelo grupo.

Em casa, as coisas são superdimensionadas por ela (e menosprezadas pelo marido, Beto). Seus superpoderes, que outrora salvavam o mundo, agora são utilizados para lidar com os desafios em família, a própria metáfora da mãe-malabarista, a quem se exige todo o tempo que se adapte, que se molde.

Sim, Helena está tentando se adaptar à vida de dona de casa e mãe, e está muito empenhada em manter as aparências, mas deixa transparecer aqui e ali o seu descontentamento. De todas as mães das séries e animações, é a mais impaciente e estressada.

Com o desaparecimento de Beto, que ela suspeita ser algo relacionado a traição conjugal, Helena deixa os filhos ao cuidado da primogênita para recuperar o casamento. Nesse raciocínio, o casamento é mais precioso para os filhos; o fim da união do casal é um perigo muito maior que o abandono. E, ao mesmo tempo, sob os conselhos de Edna, ela descobre que também precisa recuperar a heroína que um dia foi, para que se mantenha admirável aos olhos do marido – e aos próprios olhos.

É como se a mulher tivesse dupla personalidade, uma face pública e uma privada que dialogam mal e tentam ignorar-se mutuamente, como os super-heróis e suas identidades secretas. Um super-herói na vida cotidiana aparece como alguém medíocre, rodado de pessoas que ignoram suas aventuras e poderes. Do mesmo modo, uma mulher em casa, independentemente dos grandes feitos realizados por ela na rua, sente, aos próprios olhos, não valer o suficiente por estar em uma dívida amorosa impagável com seu papel de mãe e esposa. (CORSO & CORSO, 2011, p90)

A Mulher Elástica, então, volta à “ativa”. Mas somente porque os filhos vão junto com ela, quando demonstram poder se virar sozinhos. Ela percebe que sua superproteção tolhia os filhos, tornava-os infelizes. O desfecho traz a ideia de que a família é invencível quando está unida.

Os Incríveis trazem à tona uma série de conflitos pinçados da realidade e procedem à sua resolução. Helena é a única mãe das animações e seriados que volta para a sua profissão, ainda que sob circunstâncias próprias de quem tem uma família inteira com poderes especiais, que podem dispensar a dedicação absoluta da mãe.

Os Incríveis, por sua vez, é o único produto que não faz parte de uma série. A série não pode se dar ao luxo de prescindir dos dilemas que lhe garantem a continuidade, porque tem por natureza e compromisso nunca se fechar. Nada indica que haverá continuação de Os Incríveis (apesar de não haver também nada que a impeça). Essa animação, assim, pode funcionar como uma desembocadura, algo que tem identidade e autonomia, completude em si.

Contudo, ainda que existam algumas diferenças entre Helena e as outras personagens de mães, o fio condutor é o mesmo: todas são mulheres que têm na família seu bem maior.

Prática discursiva: o ser mãe

Sempre paira a tentação de se atribuir à “indústria cultural” (ou qualquer outra nomenclatura mais moderninha) a massificação de valores a fim de se obter boa-vontade por parte do público. Em outras palavras, a “teoria da conspiração”, que estaria “por trás” da fixação desses modelos da mãe perfeita, de paciência infindável, que se anula em prol da família.

Entretanto, o papel da mídia aqui é outro. As razões do sucesso desses produtos, ainda que sejam fonte de inspiração, repousam mais na necessidade de compartilhamento de experiências. Desenhos e seriados populares são produtos de entretenimento que colhem, sedimentam, reforçam, retroalimentam modelos que não são impostos, são acolhidos pelas mães de forma natural.

O modelo de mãe é uma criação que suplanta o repertório individual do roteirista. Trata-se de uma criação conjunta, sobre a qual não se tem controle. Não se pretende, aqui, investigar as animações e seriados como comunicações focadas na produção midiática. É preferível falar de cocriação, de algo que faz sentido ao ser produzido, visto e interpretado por muitos, e simultaneamente.

O social para a AD não é correlato, ele é constitutivo. Isto é, não há uma correlação entre a estrutura da língua e a da sociedade, pois o que há é uma construção conjunta do social e do linguístico. (ORLANDI, 2001)

Não se dispõe, inicialmente, das informações, dos escritores ou dos cidadãos; a seguir, das instituições mediadoras e, por fim, dos enunciados em circulação, mas tudo emerge ao mesmo tempo. (MAINGUENEAU, 1997, p55)

Então, cai por terra o limite que separa a “ficção” da “realidade”, evidenciando que tais formações imaginárias fazem parte da mesma prática discursiva. Maingueneau (ibidem) enfatiza que a enunciação não é uma mera e ilusória duplicação de uma realidade anterior e exterior, uma “máscara” ou dissimulação de planos, mas uma das formas do real investido pelo discurso.

As mães “reais”, dessa forma, também “encenam” quando se posicionam no lugar de fala da “mãe”. E as mães “ficcionais” também são sujeitos reais no discurso. O discurso que é, desde sempre, constituído como experiência social (FAYE, 1981, apud MAINGUENEAU, 1997, pp33-34).

Para uma parcela de mães, a responsabilidade exclusiva pela criação dos filhos é um “poder” do qual não querem abrir mão e pelo qual abrem mão de todo o resto – razão da indignação de Helena no diálogo citado anteriormente. Para elas, um poder que só é legítimo pela via do sofrimento e da renúncia. Qualquer outra coisa que fuja a esse princípio é considerado egoísmo e só leva a um destino: o da eterna culpa.

Como mulheres, e principalmente como mães, ainda não deixamos de ter medo de que, se é bom, deve ser egoísmo – e que cuidarmos de nós mesmas significa inevitavelmente faltar com nosso primeiro e mais legítimo dever: cuidar de todos os outros. (MAUSHART, 2006, p257)

Assim, em muitos casos são as próprias mães que se agarram às formações imaginárias. “Conspiração”, para elas, seria o que é praticado por quem tenta chamar a atenção para os padrões, quem tenta “libertá-las”: são as “máfias” das feministas, dos médicos, dos fabricantes de leite, dos homens, do sistema, do capitalismo, enfim.

Quando a realidade insiste em se impor ao idealizado, surge o mal-estar; mas, ainda assim, elas preferem continuar ostentando sua “máscara da maternidade”, como diz Susan Maushart.

“Quem quer a pressão de ser super em tempo integral?” pergunta o Sr. Incrível. Do que se depreende da presente análise, muitas mulheres querem.

Talvez por absoluta falta de opção do que pôr no lugar.

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Referências bibliográficas

ASHORTH, Trisha & NOBILE, Amy. Eu era uma ótima mãe até ter filhos. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985

CORSO, Diana Lichtenstein & CORSO, Mário. A psicanálise da Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia. Porto Alegre: Penso, 2011

FORNA, Aminatta. Mãe de todos os mitos: como a sociedade modela e reprime as mães. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. 3. ed. Campinas, SP: Pontes, Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1997.

MAUSHART, Susan. A máscara da maternidade: por que fingimos que ser mãe não muda nada? São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.

____________________. Análise de discurso – princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2000.

Seriados e animações

“Família Dinossauro” – Seriado de TV com bonecos – Produzido pela Disney em parceria com a Jim Henson Productions e a Michael Jacobs Productions – Entre 1991 e 1994.

“Os Flintstones” – Desenho animado produzido por Hanna-Barbera – Década de 1960.

“Shrek” – Série de filmes de animação produzida pelo Estúdio Dreamworks. 2001, 2004, 2007 e 2010.

“A Família Addams” – Seriado de TV exibido entre 1964 e 1966, baseado em personagens criados por Charles Addams para a New Yorker, em 1930. Em 1973, o desenho animado com os Addams foi produzido pela Hanna-Barbera. Foram ainda lançados três filmes, em 1991, 1993 e 1998, pela Paramount.

“A Feiticeira” – Seriado de TV produzido por Danny Arnold’s Entertainment, Inc. and An Ashmont Production, em associação com a Sony Pictures Television. Primeira exibição entre 1964 e 1972

“Os Simpsons” – Desenho animado produzido por Matt Groening para a FOX. Desde dezembro de 1989 (ainda no ar)

“A Grande Família” – Seriado de televisão produzido pela TV Globo. Desde março de 2001 (ainda no ar)

“Os Incríveis” – Animação produzida pela Disney-Pixar. Novembro de 2004

“Os Jetsons” – Desenho animado produzido por Hanna-Barbera. Série original: 1962 e 1963. Segunda versão: entre 1984 e 1987.

  

Sites visitados*

Batalha do Ibope. Disponível em:

< https://batalhadoibopee.wordpress.com/2010/04/14/dona-nene-da-a-grande-familia-e-eleita-a-mae-mais-querida-da-tv/&gt;

Colunistas Yahoo. Disponível em: <http://colunistas.yahoo.net/posts/1875.html&gt;

Diarinho – Diário de Pernambuco. Disponível em:

<http://www.diariodepernambuco.com.br/2010/05/12/diarinho5_0.asp&gt;

Edukbr. Disponível em:

<www.edukbr.com.br/oficina/docs/texto_pesquisa03.doc+As+M%C3%A3es+em+Desenhos+Animados+e+S%C3%A9ries+de+TV&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>

InfanTV. Disponível em: <www.infantv.com.br>

Portal R7. Disponível em: <http://noticias.r7.com/especiais/maes/fotos/relembre-as-maes-dos-desenhos-animados-20100509-16.html&gt;

TVSinopse. Disponível em: <http://www.tvsinopse.kinghost.net/f/familia.htm&gt;

UOL JC Kids. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/JC/sites/kids/fiquepor_supermae.htm&gt;

Wikia. Disponível em: <http://pt.simpsons.wikia.com&gt;

Wikipedia. Disponível em:<http://pt.wikipedia.org&gt;

* entre julho e agosto de 2010


[1]  Trabalho apresentado ao GP Ficção Seriada – DT Comunicação Audiovisual,  XI Encontro dos Grupos de Pesquisa em Comunicação, evento componente do XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. (Artigo em pdf, nos anais do Intercom)

[2] Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília. Analista da Câmara dos Deputados. Autora do livro “Duas Faces da Publicidade – campanhas sociais e mercadológicas”.

2 Comentários

2 thoughts on “De Wilma Flintstone à Mulher Elástica

  1. Marúsia querida, li todo o seu artigo. Parabéns! Tudo inteligentemente costurado. Texto científico assim tão claro é difícil de encontrar por aí. Espero ver seus artigos e posts num livro. Beijo.

    • Amélia,
      Sendo você mãe, escritora e amiga, seu feedback se reveste de extrema importância para mim e me enche de orgulho e alegria! Obrigada!
      Marusia

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