O filho é só da mãe? (Ou: a Galinha Pintadinha e o pinguim)

Site visitado: Abril / Educar para Crescer – A Galinha Pintadinha em: “Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida”

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho

Educar para crescer / Abril

Galinha Pintadinha abraça pintinho

Era uma vez uma galinha que amava muito o seu filhote.
Educar para crescer / Abril

A Editora Abril, por meio do site Educar para Crescer, preparou a cartilha “A Galinha Pintadinha em: Segredos para cuidar bem do seu filho nos primeiros 6 anos de vida.” O material traz uma história da Galinha Pintadinha e “dicas de especialistas” para o desenvolvimento da criança em família na primeira infância.

Galinha Pintadinha pensa no pintinho

Por isso, todos os dias a galinha dá muita atenção ao pintinho amarelinho.
Educar para crescer / Abril

As dicas são interessantes, abrangentes. O texto é bem estruturado, bem fundamentado. Mas um aspecto na cartilha me incomodou profundamente: o destinatário da mensagem. O material é dirigido às mães, sempre no imperativo:

  • Seja afetuosa desde a gestação;
  • Amamente;
  • Preste atenção em suas próprias reações;
  • Valorize o papel do pai;
  • Dê muitos beijos e abraços;
  • Ensine-o a enfrentar os problemas e as frustrações;
  • Dê o exemplo;
  • Cante e converse com ele;
  • Tente decifrar o que ele quer dizer;
  • Crie uma rotina;
  • Mantenha a vacinação em dia;
  • Procure um médico;
  • Drible a correria do dia a dia;
  • Crie momentos de interação entre toda a família;
  • Coloque seu filho na escola;
  • Continue cuidando.
Galinha Pintadinha com pintinho no colo

Ela organiza o dia dele para ser muito gostoso.
Educar para crescer / Abril

Ou seja: entende-se por “seu filho” que o filho é da mãe. Ela é a responsável por gerar, nutrir, educar, cuidar da saúde e da higiene, cozinhar, cantar, abraçar e ser o pilar da família.

Galinha Pintadinha cozinha para pintinho

Ela prepara um café da manhã beeem farto…
Educar para crescer / Abril

Três páginas me chamaram especialmente a atenção. A primeira diz que a mulher deve “driblar a correria” para “brincar de novo, de novo e de novo”. Claro. Se é ela a responsável por tudo, a correria é só dela. Pior: se é ela a responsável por tudo, a CULPA também é exclusiva dela.

Galinha Pintadinha e pintinho brincando de amarelinha

A mamãe encontra um tempo para brincar com ele. E brincar de novo, e de novo!
Educar para crescer / Abril

O segundo aspecto diz respeito ao Galo Carijó. O pai é coadjuvante na relação com o filho e, ainda assim, só se a mãe abrir ”espaço” e deixá-lo “seguro”. Ao pai cabe “dividir funções como trocar a fralda, dar o banho, brincar”. À mãe, pede-se: “deixe os dois um pouco [um pouco???] sozinhos, saia de cena e confie no cuidado dele.” Haaaaaã????

Galinha Pintadinha, Galo Carijó e pintinho fazem piquenique

Valorize o papel do pai.
Educar para crescer / Abril

A outra página que me chocou (com perdão do trocadilho) é a última: quando finalmente o filho vai para a escola, a mãe deve “voltar para casa”. É lá o seu lugar, né?

Galinha Pintadinha e pintinho na escola

…para se preparar para o grande momento: a ida à escola!
Educar para crescer / Abril

Galinha, está na hora de voltar para casa Já vou me adiantando aos perguntadores de plantão, então segue abaixo o FAQ –  Questões mais Frequentes:

Marusia, você acha que a Abril foi machista?

R: Claro que não. A Galinha Pintadinha não está sendo submetida a nenhum tratamento degradante. Cuidar de um filho não é simples, mas pode ser maravilhoso. E é por isso que deve ser compartilhado. Compartilhado MESMO: o pai canta, nina, cozinha, brinca, organiza também. É ótimo para o pai. Ótimo para a mãe, para a criança, para quem mais estiver nesse grande empreendimento que é acompanhar a infância de alguém.

Mas, Marusia, ainda há poucos homens que se interessam. No fim das contas, sempre sobra para a mãe. Para a Abril, não é melhor direcionar o texto para o público-alvo que se identifica mais?

R: De fato, mas não é reforçando estereótipos mofados que a situação vai mudar, pelo contrário. Simbolicamente, o papel da mulher na sociedade fica reduzido. Os homens também perdem, muitos se sentem alijados do relacionamento com seus filhos.

As mulheres gostam de ser endeusadas por serem mães. Não é verdade que elas cobram das outras que não se encaixam nesse perfil?

R: Existem mulheres que se identificam com esse papel e adoram, mas há muitas outras que sofrem sozinhas. Penso que tudo isso deve ser uma questão de escolha da mulher, e não de obrigação. Muitas vezes, o reforço simbólico na mídia, congelando papéis, cria uma gaiola invisível da qual é difícil escapar.

Marusia, você acha, então, que existe uma conspiração para engaiolar as mulheres em casa?

R: Também não. Nem acho que a Abril tenha se dado conta disso. Provavelmente, ela nem questionou; apenas continuou o discurso da manada, agiu no piloto automático. E, mesmo que a editora tenha agido de propósito, querendo manipular, é somente a metade do discurso. Discurso que só tem força se o destinatário “comprar” a ideia, crer que ela faz sentido. Nunca acreditei em Teoria da Conspiração, porque sempre existe a possibilidade de ruptura. Ela acontece quando a gente “desnaturaliza” as coisas que pareciam estabelecidas para sempre. É o que estou fazendo agora: por que cuidar do filho é tarefa exclusiva da mãe?

Qual é o problema de congelar o papel da mulher? Essas coisas não são da natureza do sexo feminino?

R: Congelamento é violência. É o mesmo mecanismo perverso que dá a alguns homens o respaldo para agredir suas mulheres, afinal, são eles que historicamente sempre mandaram, são os “donos” delas, porque a natureza deu a eles mais força física. Estamos diante de novas configurações familiares. É a chance que temos de permitir que a diversidade nos aperfeiçoe, natural e culturalmente.

A Galinha Pintadinha é uma boa metáfora, porque é ela quem cuida dos pintinhos. O galo não está nem aí para eles.

R: As metáforas da natureza são sempre de conveniência. Se a imitação favorece, é tida como modelo. Quando não favorece, é ignorada. Se formos imitar o louva-a-deus, as mulheres deverão comer a cabeça dos maridos após o sexo. Mamíferos como gatos e cachorros acasalam-se com membros da própria “família”. Mesmo as comunidades indígenas, por natureza, são capazes de sacrificar bebês gêmeos ou com deficiência. Ou, então, que sejamos como as abelhas e as formigas, em sociedades matriarcais. Ou como leoas, que são mães e também “trabalham fora”.

Entretanto, não vou ser ranzinza. Se quisermos, podemos nos espelhar na Galinha Pintadinha. Mas fique claro que também podemos nos espelhar nos pinguins: são os machos que chocam os ovos, sabia? E, quando os filhotinhos nascem, revezam com as fêmeas no seu cuidado.

Isso, sim, é educar para crescer.

Casal de pinguins com filhote

O pinguinzinho feliz. Desenhos: Marusia e filhotes

casal de pinguim com filhote

Era uma vez um filhote de pinguim que era muito amado pela mamãe, pelo papai, pelos tios, avós, amigos e por quem mais vier! Desenhos: Marusia e filhotes

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Veja também:

O reforço dos estereótipos:

Oportunidades de repensar os papéis:

PS: Agora que estou no Plenarinho, quero rever muita coisa. Por exemplo: por que o ícone de “deputados” é um homem de gravata? Por que o Zé Plenarinho é o líder da turma? E por aí vai…

Anjos

bebezinho anjo dormindo

Uma vez, perguntei a meus filhos sobre seus anjos da guarda. O mais velho me disse que seu anjo era adulto e tinha seis asas, como um pokémon.

anjo guerreiro com seis asas

Eu nunca tinha imaginado um anjo que tivesse mais de duas asas, então fui pesquisar no Google e descobri que ele existe, sim. Na verdade, é um serafim. Os serafins têm seis asas, são os anjos mais poderosos que existem e estão na primeira posição na hierarquia celeste, mais próximos de Deus. Surpreendente, não?

Já minha filha disse que sua “anja” tinha a mesma idade dela. Quando ela fez o desenho, o irmão perguntou: “Mas ela tem asa de borboleta? É anja ou é fada?”

desenho de criança com anja

Bem, se pararmos para pensar, as asas são os membros superiores dos animais, como aves ou até o morcego. Seguindo as regras da natureza, se os anjos têm asas, não teriam braços, portanto. Assim, o mais certo seria aproximá-los dos insetos, como a borboleta, que tem os membros separados das asas.

Capa do livro Menino de Asas, de Homero Homem

Asas no lugar de braços, como no livro de Homero Homem, que li quando tinha 13 anos

Divagações à parte, ainda prefiro a definição da minha filha: a anja é do jeito que é e pronto.

O anjo do caçula “é um ano mais velho” que ele. Sorridente e com asas bicolores, parece um super-herói.

anjo

Quando meus filhos estão assustados com alguma coisa, peço que eles se lembrem de seus anjos. É muito bom saber que nunca estamos sozinhos.

Anjos são universais. Independentemente do nome que se dê a eles – mentores, mestres, espíritos guardiões, intuição -, a referência a eles está presente, não importa a religião ou doutrina, ou mesmo o saber popular. É a experiência do sagrado em nós, e ainda que prefiramos outro nome para isso também, é o acesso à inteligência máxima, à consciência antiga do Universo.

anjo da guarda acompanhando criança

 

É reconfortante acreditar que existe um componente divino que é exclusivamente seu. Na verdade, é uma alegria um tiquinho egoísta ;), de ter uma força que está permanentemente a seu lado. Uma certeza de proteção, orientação, consolo e, ao mesmo tempo, de respeito ao seu livre-arbítrio. De compreensão do que você é, com todos os seus defeitos.

Amo os anjos.

E eles são fáceis de amar, mesmo, porque são pura expressão do amor sem condições.

anjo da guarda com cabelos compridos

O meu anjo cresceu junto comigo. Quando eu era pequena, ele tinha minha idade. Hoje, é um loirão de responsa, com asas poderosas, para que eu caiba dentro delas. Com ele, não tem moleza. Costumo dizer até que ele é meio brabo. Quando penso besteira, quase dá para ouvi-lo: “Ai ai ai, lá vai você de novo!”

anjo loiro com grandes asas

Para as crianças, a convivência com os anjos é natural. Aí, nós vamos crescendo e nos esquecendo de sua companhia.

Os anjos não necessariamente se apresentam com seus halos de luz e suas asas. Às vezes, não têm nem aparência. Podem ser apenas uma voz sábia, que parece vir de dentro. Outras vezes, nem mesmo isso: podem ser apenas uma sensação.

Noutros momentos, se estivermos em sintonia com eles, eles nos mandam recados de diferentes formas:

No verso de uma música que toca na rádio.

Na frase de um cartaz na rua.

No comentário de alguém que você nunca viu e nunca tornará a ver, mas que faz a diferença no seu dia – e por que não? -, na sua vida.

Acreditando nos anjos ou não, pensando neles ou não, o que importa de fato é saber que podemos ser anjos para os outros.

E você? Como é seu anjo? Você foi anjo para alguém hoje?

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Quem acompanha o blog já se deparou com posts que falam sobre anjos:

O anjo de origami

O anjo na areia

Onde está meu bebê?

Perda do bebê

A dor do mundo

 

“I believe in angels, something good in everything I see”. (Abba)

Eu acredito em anjos: algo bom em tudo o que vejo.

 

Descobrindo o espectro autista

O post de hoje foi escrito por minha amiga Sandra. É um relato sobre como descobriu que seu filho Enzo estava no espectro autista. São palavras de coragem e generosidade, para que mais e mais pessoas tenham acesso a mais e mais informações.

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A primeira vez que vi a palavra espectro tinha 14 anos, estava lendo Hamlet, fazia teatro amador na época e me aventurei a conhecer Shakespeare. E lá estava o príncipe Hamlet atormentado pelo “espectro” do pai, rei da Dinamarca. Achei a palavra diferente, e por um bom tempo não a esqueci, mal sabia eu que ela surgiria em minha vida de novo, anos mais tarde, em um diagnóstico.

Enzo já estava com 20 meses quando os primeiros sinais começaram a chamar minha atenção. O garotinho até então muito interativo e sorridente, que me aguardava ansioso em casa me chamando de mamãe, começou a isolar-se. A frase que mais ouvia da Inês, que nos ajuda até hoje, era: “Nossa, o Enzo é tão bonzinho, nem parece que tem criança em casa!” Por isso, fica meu alerta: silêncio em casa com uma criança pequena não é algo comum.

Comecei a reparar que seu contato visual regrediu a zero, assim como sua fala. Enzo fazia tudo em silêncio, corria pela casa em silêncio. Seu refúgio preferido era um pé de limão; lá ele sentava, e, se eu deixasse, ele ficava por horas.

Interesse por outras crianças também não existia mais. O único contato, e mesmo assim quase o perdi uma época, era comigo. Enzo me olhava muito, sentia que ele ficava feliz eu estando por perto. Por uma feliz coincidência do destino, deixei meu trabalho para me dedicar ao pequeno. E foi ao parar de trabalhar que pude perceber tudo isso que relatei.

Sabia que havia algo errado com Enzo, sua regressão era visível para qualquer um. Comecei minha peregrinação em médicos, médicos, exames, exames, exames. Fisiologicamente nada errado. Cérebro perfeito, audição perfeita, pares de cromossomos perfeitos. O que havia de errado? Eu me perguntava o tempo todo, somente o comportamento. Comportamento?!!! E a palavra esquecida lá atrás surgiu como um neon em minha mente: Espectro, Enzo estava na sombra ou fantasma do espectro autista.

Eu e meu marido passamos pelo luto já lutando. Fiquei triste, chorei, mas no choro eu já iniciei terapias. Para psicólogos (me perdoem se não é essa a ordem) eu pulei etapas, porque primeiro você vive o luto, depois a negação, aceitação e aí sim você procura os tratamentos. Eu no luto já estava levando Enzo em terapias. Não sabia se aquilo seria bom para mim, não viver o luto primeiro, mas na altura do campeonato eu já não queria pensar em mim, Enzo já estava em primeiro lugar em nossas vidas.

A sensação que tinha é que alguém estava levando a alma de meu filho embora, ele estava caindo em um precipício, e eu o estava segurando pela mãozinha, ele precisava de muita ajuda.

Passado mais de um ano, com terapias iniciadas, Enzo alcançou progressos significativos. Ainda é não verbal, ainda morde a mãozinha em situações de estresse ou muita felicidade, é sua válvula de escape. Seu contato visual melhorou muito, sua interação com adultos é boa, com crianças ainda um obstáculo, mas estamos trabalhando em conjunto com a escola. Enzo é uma criança querida pelos colegas, diria que um sedutor, Enzo tem seu charme.

Tratamento precoce é fundamental para quem está no espectro autista. Hoje, com diagnóstico sendo fechado mais cedo, teremos uma futura geração de autistas muito diferente da geração passada. Esteja atento a sinais.  Estava devendo esse relato a milhares de pessoas que não conheço me pedindo para contar a história, porque desconfiam de um filho, sobrinho, primo ou alguém conhecido.

Obrigada por ler até aqui, tentei ser breve mas sou geminiana! ;)

guarda-chuva colorido. Espectro autista

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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Veja também:

Mãe envelope – 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

 

A dor do mundo

Quando eu estava grávida, minha mãe recomendava que me protegesse, evitando ter contato com filmes, notícias ou mesmo comentários tristes ou violentos. Para ela, a gravidez era um momento sagrado, em que eu era “coautora”, junto com o Universo, na concepção de um novo ser.

Segui as orientações e foi bom. Tanto que, depois, continuei evitando esse tipo de conteúdo – que chamo “histórias que perturbam a alma”, mesmo não estando grávida. Evitei por vários motivos, entre eles a sensação de que toda a realidade era daquele jeito, e que não havia mais remédio; e, ao mesmo tempo, algo entre ficar acostumado ou endurecido quanto à situação. Impotência e banalização.

Nem sempre consegui. A todo tempo, sempre havia alguém para me contar todos os descalabros de que a humanidade é capaz de realizar. Me parece que, ao lado da denúncia, existe mesmo uma curiosidade ou atração pelo que é mórbido. Somadas à alimentação de vingança. A mídia e o Facebook não cansam de repercutir os casos – até que esgotem o potencial de chamar a atenção e sejam substituídos, na tragédia nossa de cada dia.

Quando me tornei mãe, pude entender quando diziam: “nunca mais você vai assistir ao telejornal do mesmo jeito”. É verdade. Principalmente quando os horrores envolvem crianças. É automática a correlação que faço com meus filhos. Imagino suas carinhas, me coloco imediatamente no lugar daqueles pais e mães que choram. Chamam isso de “compaixão”. Sentir a dor do outro.

Aos poucos, fui percebendo que, mesmo evitando o envenenamento cotidiano, eu podia experimentar a dor do mundo em momentos improváveis, como durante uma meditação. Foi num desses momentos, de angústia profunda, que me veio a resposta: não há como ficar alheio ao sofrimento do mundo. Contudo, ao entrar em sintonia com essa frequência, não permaneça nela. É preciso sair para poder ajudar quem nela está.

Isso foi importante para encarar uma situação nova, em que o acesso a “histórias que perturbam a alma” deixou de ser opção para ser imperativo do trabalho. Há pouco mais de um mês, faço parte da equipe do Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Certo dia, vi a jovem estagiária pesquisando notícias hard. Ao sugerir que não se expusesse a tal envenenamento, ela respondeu: “Preciso endurecer o couro, sabe? Vou ser jornalista… Hoje, o Plenarinho visitou uma escola, e os professores pediram que fizéssemos um trabalho sobre abuso sexual de crianças. Tive que me conter para não chorar.”

Para fazer esse trabalho, também tive que mergulhar nos relatórios que sempre fiz questão de me abster de ler. Deputados e senadores, servidores das CPIs de exploração e abuso sexual, operadores do Disque 100, todos testemunham a necessidade de se reestruturar depois de conhecer os casos. Tive que ir ao sanitário para lavar o rosto e segurar o vômito. É muita atrocidade.

Meu ímpeto é fazer o que Barack Obama descreveu, quando (mais) um atirador matou crianças em uma escola: voltar para casa e abraçar meus filhos. Encontrar o tênue equilíbrio entre apavorá-los e conscientizá-los: “se alguém pedir que vocês não contem nada a ninguém, com certeza isso é uma coisa errada.”

Sobrevêm o avassalamento, a impotência e mesmo a indignação. Então, me lembro da intuição. Dessa vez, ela traz um adendo: talvez o trabalho de formiguinha do Plenarinho não dê conta desses casos. No entanto, se apenas uma criança tiver acesso às informações e consiga ter confiança para contar seu problema a alguém; se apenas uma criança crescer com a consciência de que não deve maltratar outras crianças, o trabalho de vocês já terá valido a pena.

Escrevo, por fim, outras coisas que têm me ajudado a “sair da frequência para poder ajudar a quem nela está”:

Lembro Norman Vincent Peale, que diz: o otimista não é quem desconsidera a dor do mundo, mas quem procura enxergar além dela, em busca de soluções.

Ao deparar com “histórias que perturbam a alma”, procuro ler “histórias que inspiram a alma”. Isso contribui para dissipar o sentimento de que “não tem mais remédio”. Tem muita gente boa fazendo o bem.

Desfrute:

http://asboasnovas.com/

http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/

http://cacadoresdebonsexemplos.com.br/blog/

http://www.boanoticia.org.br/

Penso nas pessoas que estão vivenciando o ápice do sofrimento. É possível mentalizar e enviar um facho de luz para a vítima? E para os familiares que choram a ausência de alguém?

E para quem praticou a violência? É possível?

“Mas ainda é tempo de plantar, fazer dentro de si a flor do bem crescer para lhe entregar quando Ele aqui chegar.”

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Veja também:

Plenarinho contra a exploração sexual

Abuso sexual: não caia nessa

No blog:

Onde está meu bebê?

Olho de boi, olho d’água

Barba Azul e a violência contra a mulher

 

 

A boneca quebrada

boneca com as pernas quebradas

Deparei com uma boneca da minha filha, que havia quebrado. As pernas tinham se soltado, e não era uma questão de encaixe – as peças se partiram, mesmo. Disse a ela:

- Vamos jogar essa boneca no lixo. Não dá nem para fazer doação, porque ela não tem mais conserto.

A resposta:

- Mas eu brinco com ela. Ela é uma pessoa. Só não tem as pernas.

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Filha amada, espero que muito mais gente tenha o privilégio de aprender com você. Que todo mundo, ao encontrar alguém, possa compreender:

- Ela é uma pessoa. Só ____________ (é, pensa, age) diferente de mim.

Crianças são mesmo a prova de que o Universo não desistiu da humanidade.

(Filme “Cordas” – Prêmio Goya 2014, baseado em fatos reais).

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Veja também:

A doação de brinquedos ou síndrome de Toy Story

A brincadeira mais gostosa do mundo

O anjo de origami