Descobrindo o espectro autista

O post de hoje foi escrito por minha amiga Sandra. É um relato sobre como descobriu que seu filho Enzo estava no espectro autista. São palavras de coragem e generosidade, para que mais e mais pessoas tenham acesso a mais e mais informações.

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A primeira vez que vi a palavra espectro tinha 14 anos, estava lendo Hamlet, fazia teatro amador na época e me aventurei a conhecer Shakespeare. E lá estava o príncipe Hamlet atormentado pelo “espectro” do pai, rei da Dinamarca. Achei a palavra diferente, e por um bom tempo não a esqueci, mal sabia eu que ela surgiria em minha vida de novo, anos mais tarde, em um diagnóstico.

Enzo já estava com 20 meses quando os primeiros sinais começaram a chamar minha atenção. O garotinho até então muito interativo e sorridente, que me aguardava ansioso em casa me chamando de mamãe, começou a isolar-se. A frase que mais ouvia da Inês, que nos ajuda até hoje, era: “Nossa, o Enzo é tão bonzinho, nem parece que tem criança em casa!” Por isso, fica meu alerta: silêncio em casa com uma criança pequena não é algo comum.

Comecei a reparar que seu contato visual regrediu a zero, assim como sua fala. Enzo fazia tudo em silêncio, corria pela casa em silêncio. Seu refúgio preferido era um pé de limão; lá ele sentava, e, se eu deixasse, ele ficava por horas.

Interesse por outras crianças também não existia mais. O único contato, e mesmo assim quase o perdi uma época, era comigo. Enzo me olhava muito, sentia que ele ficava feliz eu estando por perto. Por uma feliz coincidência do destino, deixei meu trabalho para me dedicar ao pequeno. E foi ao parar de trabalhar que pude perceber tudo isso que relatei.

Sabia que havia algo errado com Enzo, sua regressão era visível para qualquer um. Comecei minha peregrinação em médicos, médicos, exames, exames, exames. Fisiologicamente nada errado. Cérebro perfeito, audição perfeita, pares de cromossomos perfeitos. O que havia de errado? Eu me perguntava o tempo todo, somente o comportamento. Comportamento?!!! E a palavra esquecida lá atrás surgiu como um neon em minha mente: Espectro, Enzo estava na sombra ou fantasma do espectro autista.

Eu e meu marido passamos pelo luto já lutando. Fiquei triste, chorei, mas no choro eu já iniciei terapias. Para psicólogos (me perdoem se não é essa a ordem) eu pulei etapas, porque primeiro você vive o luto, depois a negação, aceitação e aí sim você procura os tratamentos. Eu no luto já estava levando Enzo em terapias. Não sabia se aquilo seria bom para mim, não viver o luto primeiro, mas na altura do campeonato eu já não queria pensar em mim, Enzo já estava em primeiro lugar em nossas vidas.

A sensação que tinha é que alguém estava levando a alma de meu filho embora, ele estava caindo em um precipício, e eu o estava segurando pela mãozinha, ele precisava de muita ajuda.

Passado mais de um ano, com terapias iniciadas, Enzo alcançou progressos significativos. Ainda é não verbal, ainda morde a mãozinha em situações de estresse ou muita felicidade, é sua válvula de escape. Seu contato visual melhorou muito, sua interação com adultos é boa, com crianças ainda um obstáculo, mas estamos trabalhando em conjunto com a escola. Enzo é uma criança querida pelos colegas, diria que um sedutor, Enzo tem seu charme.

Tratamento precoce é fundamental para quem está no espectro autista. Hoje, com diagnóstico sendo fechado mais cedo, teremos uma futura geração de autistas muito diferente da geração passada. Esteja atento a sinais.  Estava devendo esse relato a milhares de pessoas que não conheço me pedindo para contar a história, porque desconfiam de um filho, sobrinho, primo ou alguém conhecido.

Obrigada por ler até aqui, tentei ser breve mas sou geminiana! ;)

guarda-chuva colorido. Espectro autista

Sobre ativismos de sofá e aniversários de 70 anos

o poder do curtir

Ação criada pela Quintal, para a organização Médicos sem Fronteiras

 

Nesta semana, tive a oportunidade de assistir à apresentação de uma pesquisa sobre o sofativismo, ou ativismo de sofá. Aquele que você exerce em um clique, no quentinho da sua casa ou na espera do dentista, pelo celular. Dando RT no Twitter ou curtindo no Facebook. O esforço é pequeno, mas os resultados podem surpreender.

O estudo de Júlia Rios foi sobre um caso até então inédito para mim: um blog que foi banido de um portal da internet, por força dos protestos via web. O blog chama-se Testosterona e o portal em questão é o da MTV.

Em 2012, houve grande repercussão de um vídeo desse blog, que aconselhava os rapazes a dar tijoladas nas moças, para que elas se submetessem a certas práticas sexuais. Com a pressão de blogueiras, petições no All Out e Avaaz, o autor da “piada” tirou o vídeo do ar. A indignação, contudo, fez com que o caso chegasse à Secretaria de Políticas para as Mulheres. A MTV, que hospedava esse e outros conteúdos, rescindiu o contrato.

Uma vitória do sofativismo, ainda que tenha se devido ao fato de a MTV não querer associar sua imagem com essa apologia à intolerância. A mesma intolerância, entretanto, não impediu que o portal R7 aceitasse o blog. Certamente, para a Record, as altas cifras, decorrentes do alto tráfego do site, aliviam a absoluta incompatibilidade dessas mensagens com as coisas da emissora.

Muita gente se identifica com posts que continuam a ser publicados, com a bênção de anunciantes como estes:

marcas

O Testosterona é produzido por “Eduardo”. Em seu perfil no Twitter, diz: “Não sou machista. Machismo é burrice, e burrice é coisa de mulher.”

O que eu acho mesmo é que Eduardo não sabe de algumas coisas. Por exemplo: até onde sei, entre quatro paredes podem acontecer coisas fantásticas. E não é uma questão de “consentimento”: as pessoas simplesmente estão com vontade de experimentar o prazer. É uma questão de cumplicidade. Se precisam de um tijolo, é sinal de que o autor e os pupilos do blog não têm competência para alcançá-la.

Existem outras coisas que talvez Eduardo nem imagine.

Esta semana, eu também tive a oportunidade de participar das comemorações pelos 70 anos do meu pai e sentir o privilégio de fazer parte de uma rede tecida pelo relacionamento. Da infância humilde no interior da Bahia, meu pai chegou a diretor de uma das maiores instituições do mundo. Inteligentíssimo, culto, dono de uma escrita estupenda. E também sustentáculo da união da família de oito irmãos, principalmente após a morte do meu avô.

Em sua festa, não faltaram os depoimentos emocionados de quem sempre admirou a postura que ele teve com todos. Aqui, chamo atenção para as mulheres com quem conviveu e convive, em especial minha avó, minha mãe, minhas tias, minhas irmãs.

A mãe, a quem ele ajudou a ninar as irmãs. A esposa, com quem compartilha incentivos e sonhos. Ele é o pai que me ensinou a fazer castelo de areia, a escolher legumes na feira (sim! Ele faz feira até hoje) e que sempre me faz andar de cabeça erguida.

Sua integridade e honestidade, seu respeito absoluto, fizeram da família um círculo de mulheres de fibra, atraindo pessoas fascinantes entre noras e cunhadas, capazes de encher de orgulho qualquer aniversariante. Aos 70 anos, meu pai estava no centro do tributo recíproco de quem está feliz por pertencer a um verdadeiro clã.

Como será sua festa de 70 anos, Eduardo? Estará sozinho? Ou com alguém que você nunca vai saber se é por você ou é por sua fama e seu dinheiro? Ou ainda uma pessoa que reza a sua cartilha e se submeta a tijoladas? Alguém que se anulou para estar a seu lado, mas com quem você não consiga dividir planos e segredos?

Ora, você é jovem, possivelmente não queira perder tempo pensando nisso. Posso estar exagerando, talvez você seja um personagem. Talvez nem pense dessa forma, ou considere que é apenas “humor”. De repente você é um cara legal, tenha esposa e filhas. Mas, aos 70 anos, Eduardo, o que você vai dizer a elas sobre o que fez da sua vida? Como vai explicar a elas as manchetes de jornal com a morte de moças, causadas por gente que levou a sério o que você falou?

Este post é um ativismo de sofá. Provavelmente nem vai fazer cosquinha no seu império, Eduardo. Contudo, traz o que eu acredito. O que eu aprendi com meu pai, Homem com H maiúsculo. E tenho certeza de que vou me orgulhar do que escrevi, quando eu completar 70 anos.

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Veja também:

Humor, doação de leite e o que isso diz sobre nós

Barba Azul e a violência contra a mulher

O Livro do Bebê

Óculos de ver coisa errada – 4 anos de blog

Em homenagem ao Dia das Mães e ao aniversário de 4 anos do Blog Mãe Perfeita.

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Falam sobre os “óculos cor-de-rosa”, que nos fazem ver tudo como se fosse perfeito. Existem também os óculos de ver coisa errada. Esses só focam os pontos negativos, aquilo que não funcionou, que não deu certo. Cor-de-rosa ou cinzenta, nenhuma lente está completa, mas acho que a segunda é mais perigosa. Principalmente com os filhos.

Quanto mais usamos os óculos de ver coisa errada, mais críticos e rabugentos ficamos. Perdemos a noção do todo para fixarmos só nos aspectos ruins. E vicia: é como se estivéssemos empreendendo um perpétuo controle de qualidade, achando defeito até onde não há. Com o passar do tempo, acabamos rotulando coisas, acontecimentos e pessoas, inclusive a nós mesmos. Isso cria a sensação de que sempre vai ser assim, que nunca vai mudar, que não tem jeito.

Vou dar um exemplo. Trabalhei muito tempo com revisão de texto. Meu olhar foi treinado para identificar, no meio de páginas e páginas, palavras e palavras, justamente aquelas que não estavam corretas. Não tenho como evitar fazer isso com o dever de casa das crianças (e com todo o resto). Mas tenho como evitar demonstrar isso para elas. Não é simples.

Dia desses minha filha veio com uma tarefa sobre metáforas. Várias palavras tinham erros de ortografia. Falei com ela sobre isso, para que ficasse mais atenta. Somente depois, vi a criatividade das respostas que ela deu. Fiquei tão surpresa que até perguntei se ela mesma havia inventado tudo, ou se fora uma construção coletiva em sala-de-aula. Ela disse, ressabiada: “Fui eu, por quê?”, imagino que já esperando outra correção. “Porque está o máximo. Você está de parabéns!”

Mas é como se o elogio se perdesse…

Não é raro a gente ter a sensação de que passa o dia chamando atenção de filho, repetindo e repetindo as mesmíssimas orientações. “Putz, parece até que gosta ser repreendido”, pensamos. Se deixarmos, podemos passar todo o tempo somente dirigindo palavras ríspidas a eles. “Putz, minha mãe passa o dia brigando comigo”, eles podem pensar de volta. Aí vale o exercício de elogiar, falar coisas doces (mesmo morrendo de raiva da última estripulia), para quebrar a corrente. Quando conseguimos, o efeito é sensacional.

Claro que, como pais, é importante termos em mente nossa missão de educar, orientar, mostrando o que pode ser melhorado. Entretanto, acusar o caminho errado não é a mesma coisa que apontar o caminho certo.

Há um trecho de um livro que adoro, “A paz de todo dia” (Ed. Brahma Kumaris, p100):

Liderança

Uma vez que os barcos começam a aprender a navegar eles seguem a rota por si mesmos. O verdadeiro líder é aquele que nunca interfere no processo de aprendizagem das outras pessoas. Ele sabe que cada um tem o seu próprio tempo. Porque confia, ele não corrige. Deixa pequenos erros passarem, se o resto que está sendo feito é válido. Ao destacar os acertos ele ajuda a construir a auto-estima nos outros. E o objetivo é alcançado sem labuta.

Nasci e cresci perfeccionista. Não é à toa que me dedico a questionar o perfeccionismo. É ele quem nos incita a usar os óculos de ver coisa errada. Então, por mais que coisas maravilhosas possam nos ocorrer a todo o tempo, só ficamos nos lamentando pelo detalhe que não funcionou do jeito que queríamos.

Os tapeceiros persas são famosos pelo capricho com que executam suas obras. Poucos sabem que eles têm uma postura interessante e humilde na hora de fazerem tapetes. Eles deixam um ponto fora de lugar de propósito, porque “somente Deus é perfeito”.

Essa é uma atitude bacana que tento adotar, de forma divertida. À noite, antes de dormir, volta e meia encontro uma peça de quebra-cabeça no chão, uma meia sobre o sofá, um copo com metade d’água, fora da pia. E me obrigo a não colocar nada no lugar – de propósito. Posso lidar com isso no dia seguinte… Com o tempo, vou ficando mais “relax”, e isso acaba se refletindo em todas as outras esferas: relevo um arquivo do trabalho que foi salvo por um colega na pasta errada, uma criatura que não deu seta no trânsito e por aí vai. Assim, vou administrando os pequenos caos da vida, constatando que ninguém vai morrer por causa disso.

Estou usando como símbolo desse processo meu guarda-chuva, um enorme e ótimo guarda-chuva que tenho há anos. São oito hastes. Há alguns meses, uma das peças que segura uma das hastes se soltou. Então ele ficou meio assimétrico, meio torto. Como é muito grande, continua cumprindo sua função muito bem. Eu não me molho por causa da peça faltante. São sete hastes perfeitas, e a que falta é o ponto fora do lugar do meu tapete persa. Podem dizer que sou desleixada, mas não vou trocar meu guarda-chuva. Ele é meu lembrete.

guarda-chuva azul xadrez

Está vendo a haste quebrada? Ali, à direita… Nem dá para perceber, né?

Meu lembrete de não usar os óculos de ver coisa errada. Nem os de lentes cor-de-rosa. Bom mesmo é usar os óculos do amor, que permitem enxergar o todo. Problemas que podem ser solucionados, acertos que devem ser comemorados.

Ah. A propósito, segue o dever de casa das metáforas, feito por uma criança de 8 anos que nunca se cansa de me surpreender:

Isca – onde enforcam a minhoca para ser comida

Janela – a TV real

Luz – o sol que brilha à noite

Minhoca – a furadeira de terra

Nuvem – o travesseiro que flutua

Ovo – a bola frágil

Pulo – quando a pessoa cai para cima

Sopapo – o carinho duro

Urgente – a letra U que quer ser gente

Vaga-lume – a lâmpada voadora

Zebra – xadrez incompleto

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Veja também:

Mãe envelope – 1 ano de blog

Confissões inconfessáveis – 2 anos de blog

O curso mais interessante do mundo – 3 anos de blog

 

A dor do mundo

Quando eu estava grávida, minha mãe recomendava que me protegesse, evitando ter contato com filmes, notícias ou mesmo comentários tristes ou violentos. Para ela, a gravidez era um momento sagrado, em que eu era “coautora”, junto com o Universo, na concepção de um novo ser.

Segui as orientações e foi bom. Tanto que, depois, continuei evitando esse tipo de conteúdo – que chamo “histórias que perturbam a alma”, mesmo não estando grávida. Evitei por vários motivos, entre eles a sensação de que toda a realidade era daquele jeito, e que não havia mais remédio; e, ao mesmo tempo, algo entre ficar acostumado ou endurecido quanto à situação. Impotência e banalização.

Nem sempre consegui. A todo tempo, sempre havia alguém para me contar todos os descalabros de que a humanidade é capaz de realizar. Me parece que, ao lado da denúncia, existe mesmo uma curiosidade ou atração pelo que é mórbido. Somadas à alimentação de vingança. A mídia e o Facebook não cansam de repercutir os casos – até que esgotem o potencial de chamar a atenção e sejam substituídos, na tragédia nossa de cada dia.

Quando me tornei mãe, pude entender quando diziam: “nunca mais você vai assistir ao telejornal do mesmo jeito”. É verdade. Principalmente quando os horrores envolvem crianças. É automática a correlação que faço com meus filhos. Imagino suas carinhas, me coloco imediatamente no lugar daqueles pais e mães que choram. Chamam isso de “compaixão”. Sentir a dor do outro.

Aos poucos, fui percebendo que, mesmo evitando o envenenamento cotidiano, eu podia experimentar a dor do mundo em momentos improváveis, como durante uma meditação. Foi num desses momentos, de angústia profunda, que me veio a resposta: não há como ficar alheio ao sofrimento do mundo. Contudo, ao entrar em sintonia com essa frequência, não permaneça nela. É preciso sair para poder ajudar quem nela está.

Isso foi importante para encarar uma situação nova, em que o acesso a “histórias que perturbam a alma” deixou de ser opção para ser imperativo do trabalho. Há pouco mais de um mês, faço parte da equipe do Plenarinho, da Câmara dos Deputados. Certo dia, vi a jovem estagiária pesquisando notícias hard. Ao sugerir que não se expusesse a tal envenenamento, ela respondeu: “Preciso endurecer o couro, sabe? Vou ser jornalista… Hoje, o Plenarinho visitou uma escola, e os professores pediram que fizéssemos um trabalho sobre abuso sexual de crianças. Tive que me conter para não chorar.”

Para fazer esse trabalho, também tive que mergulhar nos relatórios que sempre fiz questão de me abster de ler. Deputados e senadores, servidores das CPIs de exploração e abuso sexual, operadores do Disque 100, todos testemunham a necessidade de se reestruturar depois de conhecer os casos. Tive que ir ao sanitário para lavar o rosto e segurar o vômito. É muita atrocidade.

Meu ímpeto é fazer o que Barack Obama descreveu, quando (mais) um atirador matou crianças em uma escola: voltar para casa e abraçar meus filhos. Encontrar o tênue equilíbrio entre apavorá-los e conscientizá-los: “se alguém pedir que vocês não contem nada a ninguém, com certeza isso é uma coisa errada.”

Sobrevêm o avassalamento, a impotência e mesmo a indignação. Então, me lembro da intuição. Dessa vez, ela traz um adendo: talvez o trabalho de formiguinha do Plenarinho não dê conta desses casos. No entanto, se apenas uma criança tiver acesso às informações e consiga ter confiança para contar seu problema a alguém; se apenas uma criança crescer com a consciência de que não deve maltratar outras crianças, o trabalho de vocês já terá valido a pena.

Escrevo, por fim, outras coisas que têm me ajudado a “sair da frequência para poder ajudar a quem nela está”:

Lembro Norman Vincent Peale, que diz: o otimista não é quem desconsidera a dor do mundo, mas quem procura enxergar além dela, em busca de soluções.

Ao deparar com “histórias que perturbam a alma”, procuro ler “histórias que inspiram a alma”. Isso contribui para dissipar o sentimento de que “não tem mais remédio”. Tem muita gente boa fazendo o bem.

Desfrute:

http://asboasnovas.com/

http://sonoticiaboa.band.uol.com.br/

http://cacadoresdebonsexemplos.com.br/blog/

http://www.boanoticia.org.br/

Penso nas pessoas que estão vivenciando o ápice do sofrimento. É possível mentalizar e enviar um facho de luz para a vítima? E para os familiares que choram a ausência de alguém?

E para quem praticou a violência? É possível?

“Mas ainda é tempo de plantar, fazer dentro de si a flor do bem crescer para lhe entregar quando Ele aqui chegar.”

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Veja também:

Plenarinho contra a exploração sexual

Abuso sexual: não caia nessa

No blog:

Onde está meu bebê?

Olho de boi, olho d’água

Barba Azul e a violência contra a mulher

 

 

A boneca quebrada

boneca com as pernas quebradas

Deparei com uma boneca da minha filha, que havia quebrado. As pernas tinham se soltado, e não era uma questão de encaixe – as peças se partiram, mesmo. Disse a ela:

- Vamos jogar essa boneca no lixo. Não dá nem para fazer doação, porque ela não tem mais conserto.

A resposta:

- Mas eu brinco com ela. Ela é uma pessoa. Só não tem as pernas.

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Filha amada, espero que muito mais gente tenha o privilégio de aprender com você. Que todo mundo, ao encontrar alguém, possa compreender:

- Ela é uma pessoa. Só ____________ (é, pensa, age) diferente de mim.

Crianças são mesmo a prova de que o Universo não desistiu da humanidade.

(Filme “Cordas” – Prêmio Goya 2014, baseado em fatos reais).

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Veja também:

A doação de brinquedos ou síndrome de Toy Story

A brincadeira mais gostosa do mundo

O anjo de origami

Pequenas crônicas de carnaval

Quando eu era pequena, detestava carnaval. Muito. Di-cum-força, mesmo. Na época, era a única coisa que passava na televisão. Não tinha desenho, nem novela, nem sessão da tarde, nada. Era desfile de escola de samba o dia inteiro.

Eu me lembro de um tio que trabalhou na rádio de Jequié-BA. Ele me contou que, quando era Dia de Finados, a rádio era obrigada a tocar a Marcha Fúnebre de Chopin. Só, somente só, por todo o dia. Pois bem. No carnaval, era a mesma coisa. Era escola de samba o dia inteiro. Bom, pelo menos não era Marcha Fúnebre.

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Fui à minha primeira matinê com 9 anos. Na AABB de Brasília. Eu, meus pais e minha irmã de 4 anos. Nós precisávamos de uma fantasia, então minha mãe levou a gente nas Lojas Brasileiras do Conjunto Nacional. Se é para escancarar a idade, então vamos fazer bem-feito: saudosa Lobrás do CNB.

Compramos duas camisetas brancas da Hering, duas saias de havaiana também brancas, lantejoulas vermelhas e amarelas, e mais duas máscaras, vermelha e amarela (nossas cores favoritas). Fizemos franja na barra das camisas, colamos as lantejoulas. Produção caseira e artesanal. Ficaram uns tops engraçadinhos.

No grande dia, estávamos felizes com nossas fantasias. Mas foi só chegar à AABB, para ter início o vexame. Juntou um grupo de meninos atrás da gente, gritando: “olha a calcinha delas! Olha a calcinha delas!”

A gente era muito inocente, bem que podia ter posto uma calcinha de biquíni. Mas não. E, como a saia de havaiana era branca, óbvio que ficou transparente. Minha irmã não tava nem aí. Mas eu fiquei passada de vergonha, corri para sentar em nossa mesa e lá fiquei quase a festa inteira. Minha mãe, sempre a registradora oficial de momentos, tirou a foto. Coisa linda, um bico do tamanho do mundo.

Abre parênteses. Só não foi mais tétrico do que o dia em que eu fui para o ballet com uma bermuda branca. E a calcinha do dia da semana. Juntou um grupo similar de meninos (ora bolas, vão jogar bola, soltar pipa, em vez de seguir as garotas de roupas transparentes, pindaíba!) para ler. “Olha, tem uma coisa escrita. Ter-ça fei-ra. Terça-feira!!! Aaaaah, que fofo, uma para cada dia da semana!!!!” Fecha parênteses.

Voltando ao bailinho da AABB. Só havia uma coisa que poderia me tirar daquela mesa. E essa coisa aconteceu: tocar “O Balancê” com Gal Gosta. É, porque o Balancê era tudo de bom. Com calcinha aparecendo ou não, eu TINHA que dançar o Balancê, era uma questão de honra.

Fui para o meio do povo. Quando me dei conta, fui sugada por um trenzinho no salão. No início, me deu um pouco de pânico, tipo ser tragada por um furacão. Depois, achei aquilo o máximo e me senti a “grande”.

Não durou muito tempo. Um segurança tosco me puxou pelo braço, dizendo que aquilo não era pra criança.

Voltei à mesa, jurando que nunca mais iria participar de nada que chegasse perto de carnaval. No meio do Balancê. Muita injustiça. Minha mãe tirou outra foto.

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Minhas juras não duraram muito tempo. Minha avó resolveu levar a mim, meus três irmãos e minha prima para ver os Filhos de Gandhy em Salvador. Cinco crianças. Em pleno Campo Grande. Na pipoca. Os tempos eram outros. Mesmo.

Bloco Filhos de Gandhy em Salvador

Afoxé Filhos de Gandhy
Imagem: Irdeb

Aí eu vi um trio elétrico chamado “Traz a massa”. As pessoas saíam atrás dos trios com mortalhas. Não tinha essa conversa de abadá. Fiquei hipnotizada.

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No ano seguinte, vi o Chiclete com Banana pela primeira vez, na Avenida Sete. O hit era “Sementes”. O Chiclete era uma banda com repertório parecido com o da Cor do Som. Cada música linda. Apaixonei.

Cheguei em Brasília achando muito estranho que as pessoas ainda usassem fantasia. E que todos os anos tocassem as mesmas marchinhas, índio quer apito, alalaô, mamãe eu quero. Em Salvador, cada ano tinha uma safra nova de músicas. Mas nunca tocavam nas rádios das outras cidades, só na Bahia. As pessoas nunca tinham ouvido falar de nada daquilo. Chiclete? Cheiro de Amor? Dodô e Osmar? Quem?????

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Com 16 anos, depois de muitos pré-carnavais em janeiro e do carnaval propriamente dito em fevereiro, assisti (com meus irmãos) ao encontro de trios no Farol da Barra, na Terça Gorda. Muito antes de se cogitar o circuito Barra-Ondina. (Se é para entregar a idade, vamos fazer bem-feito). Era o Chiclete, Netinho com o trio Beijo, Ricardo Chaves com a banda Eva. E outros…

Muito difícil vivenciar outra coisa que se assemelhe àquela noite. Foi perfeito. Inesquecível. Qualquer outro carnaval pareceu sem-graça depois.

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Quando estava namorando meu marido, ainda tentei levá-lo a uma Lavagem do Bonfim. Ele achou muvucado demais. Ele nunca foi muito de carnaval, então acabei indo no embalo (ou melhor, não indo no embalo).

Mas achei que seria bacana que meus filhos conhecessem o carnaval. Não tenho coragem de levá-los para ver os Filhos de Gandhy, muito menos na pipoca. Então começamos por algo mais leve.

Ora, eu tinha que sublimar meus traumas de infância. Nada melhor que… a matinê da AABB!!!

Fantasiados de Super-Homem e Gatinha Bailarina (ou fosse lá o que fosse, comprei de última hora no armarinho), meus pimpolhos enfim teriam sua primeira experiência. Nada de adultos, nada de trenzinho. Muito índio quer apito e alalaô.

O problema é que também tinha muito spray de espuma. Eles (com 4 e 2 anos) ODIARAM aquilo. Ficaram com os olhos ardendo. Eu até segurava as mãozinhas deles, tentava fazer uma rodinha, alalaooooô, mas eles não se animaram nem um pouco. Os bicos estavam iguais aos meus.

Pois, na saída, o mais velho tomou um super-estabaco no chão por causa da bendita espuma. Fim de festa na floresta. E nem tocou o Balancê. Tragédia total.

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Claaaaro que eu me acomodei e nem me esforcei para dar a eles uma nova experiência. A escola se encarregou da tarefa, e eles curtiram de montão os bailinhos. Com os coleguinhas, olha que massa.

Este ano ficamos em Brasília. Vimos um pouquinho de Netflix, fomos patinar no Parque da Cidade, vimos a SENSACIONAL exposição da Yayoi Kusama no CCBB, e até fiz um “Shu” com bolinhas no teto (meu signo chinês). Amanhã é provável irmos ao cinema.

Exposição interativa Yayoi  Kusama

Exposição interativa Yayoi Kusama

Quem sabe um dia meus filhos poderão curtir um trio elétrico ao vivo e em cores. Quem sabe…

Sementes

(Chiclete com Banana)

Sementes de cores vivas que acendem novas recordações

E o vento solta faíscas bordando belas constelações

Que rondam o céu e o coração

Embalançando-se nas ondas de um baião

Licor de mel, doce canção

Animando o carrossel, no luar do meu sertão

Deixa que fogo semeie na escuridão

O amor

Somente se fores vivo verás as cores desses balões

que fingem-se de estrelas bailando livres com seus clarões

e se descer estende a mão

quem sabe o fogo te ilumina a escuridão

não vai doer, não diga não,

o fogo é pra derreter o gelo do coração

Deixa que o fogo semeie na escuridão

O amor.”

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Veja também:

Do travesseiro ao copinho de boneca: uma breve história da menstruação

Minha vida em 40 músicas

Quando eu era criança, achava que…

Cheiro de infância

A pior escolha que uma mãe pode fazer

projeto coração materno

Blogagem coletiva Projeto Coração Materno.

Iniciativa:

Projeto de Mãe é um blog sobre maternidade e outras histórias escrito por Ananda Etges.

Para Beatriz é um blog de maternidade por um viés feminista escrito por Isabela Kanupp.

http://parabeatriz.com/video-mulheres-falam-sobre-suas-escolhas-projeto-coracao-materno/

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Vi esta imagem no blog “Não sou exposição”, que faz reflexões sobre o quanto nossa sociedade está apoiada nas aparências:

Mulheres com 3 filhos

1ª foto: Qual é sua desculpa?
2ª foto: Minha “desculpa” é que eu estou bem assim.
Fonte: http://naosouexposicao.wordpress.com/2014/01/17/qual-e-a-desculpa/

Por mais que digam que não devemos ler os comentários, esta é, curiosamente, a parte que mais me interessa. Eu apoio e aplaudo a proposta do blog (que faz um trabalho primoroso de análise da opressão da aparência, não só neste post). Mas também compreendo quem se incomodou com a polarização de imagens. Quer ver?

Da primeira mãe, podem dizer:

“Nossa, para ter esse corpão, tem que ralar na academia. Não sobra tempo para os filhos, que devem ser terceirizados com a creche ou com a babá, vendo Galinha Pintadinha o dia inteiro. Se consegue acordar bem cedo para malhar, no mínimo ela usa o Nana Nenê com as crianças. Não devia ter filho, muito menos três! Ela está no reino da umbigolândia, só pensa em si, ou melhor, só pensa no físico. Perpetua a visão de que a mulher é um objeto para satisfazer o olhar masculino.”

Entretanto, eu também poderia pensar:

“Que bom, ela encontrou um tempo para cuidar de si mesma. Deve consumir alimentos saudáveis e oferecê-los às crianças. Está antenada com o corpo, deve ter tido parto normal e amamentado. Essa mãe deve ser disciplinada, organizada, uma mãe leoa. Os valores que passa para os filhos incluem ter orgulho de si mesmos e não esmorecer.”

Da segunda mãe, podem dizer:

“Ela se dedica tanto aos filhos que se acomodou, se anulou. Deve ter se descuidado na gravidez. É provável que tenha escolhido uma cesárea, porque o corpo demora mais para voltar à antiga forma. Se tivesse amamentado, também teria emagrecido. De repente, só come porcaria, deve encher a criançada de nuggets e refrigerante. Deve viver em função dessas crianças, que depois vão crescer, aí ela vai fazer o quê da vida?”

Mas eu também posso pensar:

“Que bom, ela não se preocupa com o que os outros pensam. Ela sabe o que é prioridade na vida dela. É uma pessoa de bem com a vida, carinhosa, alegre, uma mãe jardim. Investe no que está no interior, não é escrava da estética. Os valores que passa para os filhos incluem autoconfiança e alto astral.”

Esse é um exemplo riquíssimo do quanto a polaridade pode ser nociva. Fiz questão de abordar, nos “julgamentos”, grande parte dos fatores que detonam a guerra entre as mães.

O mais curioso é que as duas mulheres das fotos podem simplesmente não se encaixar em nenhuma dessas “percepções”. Mas, com certeza, elas têm muito, mas muito mais experiências, qualidades, sentimentos e histórias para contar.

Escolhas isoladas dizem muito pouco sobre uma pessoa.

Muitas escolhas são determinadas por circunstâncias que desconheço.

Eu não sei nada sobre essas duas mães. Se pudesse conversar com elas, eu iria descobrir muitas coisas em comum e muitas coisas diferentes. De qualquer maneira, eu sempre vou ter algo a aprender com elas. A comparação é inevitável, e eu até posso discordar de muitos aspectos, mas isso não é motivo para julgar ninguém.

Se eu fiz escolhas diferentes das suas, não quer dizer que você está errada. Nem eu. Nós duas podemos estar certas. Nós duas também podemos estar erradas. Para dizer a verdade, não importa nem uma coisa, nem outra. Ser mãe é uma coisa muitíssimo mais complexa do que erros e acertos: o que importa mesmo é a felicidade.

A pior escolha que uma mãe pode fazer é julgar outra mãe.

Porque isso não leva a nada.

E aqui chegamos ao ponto mais precioso da discussão: o que aconteceria se eu substituísse a foto das mulheres e colocasse dois homens? Dois pais?

Pouco provável que suscitasse qualquer debate inflamado. Porque esta é uma questão que extrapola as escolhas que as mães fazem. Esta é uma questão sobre o lugar da mulher na sociedade.

Não é à toa a presença da palavra “desculpa” nas imagens do início do post. E é por isso que, para qualquer escolha que uma mulher faça, sempre haverá um dedo apontado para ela. Mais triste ainda é ver que a maioria dos dedos é de outras mulheres.

A melhor escolha que alguém pode fazer é respeitar os outros.

E você, o que acha? Deixe seu comentário (lembra? Tenho especial interesse nos comentários ;) )

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